sexta-feira, Agosto 27, 2010

EMILY DICKINSON


Hoje no Público:


Autora de uma dissertação de doutoramento sobre a obra de Emily Dickinson (1830-1886), não admira que Ana Luísa Amaral tenha resolvido dar à estampa uma selecção da poeta, traduzindo cem poemas do vasto corpus: mil setecentas e setenta e cinco composições segundo Thomas H. Johnson (1955), ou mil setecentas e oitenta e nove de acordo com R. W. Franklin (1981). Obtendo bom resultado, Ana Luísa Amaral apoia-se nas duas, as quais diferem em vários aspectos: numeração, versões, etc. O índice de primeiros versos indexa a fonte respectiva.

Em Portugal, Dickinson tem tido tradutores empenhados: Jorge de Sena (80 poemas, 1978); Maria Gabriela Llansol sob o pseudónimo de Ana Fontes (39 poemas e 47 cartas, 1995); Cecília Rego Pinheiro (26 poemas, 1997) e Nuno Júdice (65 poemas e 9 cartas, 2000). Antes deles todos, já Mário Cesariny, num ensaio de 1954, dissera que a sua poesia era «todo o clímax da poesia europeia [...] contada a partir do simbolismo.» Agora, dez anos passados sobre a tradução que Nuno Júdice fez a partir da selecção de Nuno Vieira de Almeida, chegam estes Cem Poemas que Ana Luísa Amaral traduziu e posfaciou.

Emily Dickinson é uma poeta central à poesia de língua inglesa. Harold Bloom não fez por menos: «Dickinson manifesta mais originalidade cognitiva do que qualquer outro poeta ocidental desde Dante.» Ana Luísa Amaral reforça essa ideia de singularidade recordando a frase de Emerson que serve de dístico à declaração de independência intelectual da América: «Escutámos por demasiado tempo as musas da Europa.» (Em 1922 Mário de Andrade repetiria o gesto, enaltecendo as sonoridades da língua “brasileira”... em detrimento da portuguesa.) Quando Emerson profere a sua palestra, Dickinson ainda não tem 7 anos. Mas vão ser os seus poemas, e os de Whitman, a fundar o cânone americano.

Lendo um dos poemas mais antigos, Seguros nos seus Quartos de Alabastro, vemos como a assinalável condensação discursiva de Dickinson faz a síntese perfeita do timbre místico com a cadência modernista: «[...] Imponentes vão os Anos — no Crescente — que os cobre — / Mundos abrem os Arcos — / E perfilam-se — os Céus — / Os Diademas — tombam — e os Doges — renunciam — Como pontos sem som — sobre um Disco de Neve —» Não por acaso escolheu (e impôs) a pontuação por travessões.

É curioso o facto de Dickinson romper com o paradigma do seu meio. Natural de Amherst, no Massachusetts, oriunda de uma família conservadora (o pai, calvinista ortodoxo, era um advogado e político influente), frequentou o Mount Holyoke Female Seminar durante um ano. Mount Holyoke era uma escola conhecida pelos métodos progressistas de onde rapidamente voltou para casa. Avessa ao espírito religioso da terra («e eu aqui estou, sozinha em rebeldia»), torna-se adepta do transcendentalismo de Emerson, que teve oportunidade de conhecer em Amherst. Tal como a correspondência trocada com Thomas Wentworth Higginson (um crítico menor), a leitura dos Browning, Keats, Ruskin, Shakespeare, Thomas Browne e outros, dizem muito da mulher em construção. Alguém que já nesse tempo era sensível às questões do abolicionismo e do feminismo.

Quando morreu, vítima de problemas renais, Dickinson (então com 55 anos) era desconhecida fora de Amherst. Em vida publicou pouquíssimo: hermeneutas e biógrafos dividem-se entre um mínimo de seis e um máximo de onze poemas, muitos deles em versões que não coincidem com a fixação definitiva do texto. Lavinia, a irmã, ficou atordoada com os mil poemas que encontrou no quarto de Emily; e ainda não sabia que havia mais seiscentos na posse de Susan Gilbert. É então que entram em cena Higginson e Mabel Todd, editores de um florilégio de cento e quinze poemas: Poems by Emily Dickinson (1890). A edição omite versos de vários poemas, acrescenta-lhes títulos, substitui palavras, altera a pontuação, trunca opções métricas e rítmicas, suprime os travessões e as maiúsculas e “regulariza” a sintaxe. Tudo em favor do “gosto dominante” e do que era expectável de uma mulher. Só em 1955, com o apoio da Universidade de Harvard, Thomas H. Johnson começou a publicar os três volumes da edição crítica: The Poems of Emily Dickinson (em 1960 saiu uma edição condensada em volume único). A partir daí, o lugar de Dickinson tornou-se indisputável.

Um dos aspectos mais interessantes da poesia de Dickinson prende-se com o conceito de autoria: «uma pessoa suposta». O episódio da carta (não assinada) que enviou a Higginson em Abril de 1862, acompanhada com um cartão onde escreveu o nome, antecipa de forma veemente o Mallarmé de 1867, o T. S. Eliot de 1922 ou o Pessoa de 1931.

Seria ocioso inventariar os méritos do trabalho de Ana Luísa Amaral, nele incluídos, além da magnífica tradução, o posfácio e o cuidado editorial: cronologia, recepção de Dickinson em Portugal, bibliografia, índices. As bolandas que o espólio sofreu até ser doado em 1950 à Universidade de Harvard, são minuciosamente descritos e fundamentados no posfácio.

Uma antologia exemplar.


Sugar o mundo à janela, in Ípsilon, 27-8-2010, p. 36. Cinco estrelas.

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