DINO BUZZATI

Hoje no Público:
A editora Cavalo de Ferro prossegue a divulgação do italiano Dino Buzzati (1906-1972), autor de uma obra muito vasta, que inclui poesia, romance, conto — género em que atinge maior conseguimento —, teatro, ensaio de arte, crónica e libretos de ópera. Em Portugal ainda vamos na ficção, estando publicados cinco títulos, entre eles os emblemáticos O Deserto dos Tártaros (1940) e A Derrocada da Baliverna (1957).
A ideia de uma máquina consciente, isto é, de um corpo artificial servindo de hospedeiro a uma mente humana, parece saída de Isaac Asimov, que acumulava literatura com a docência de bioquímica. Porém, num homem com a formação humanística de Buzzati, surpreende. E, no entanto, é esse o tema de O Grande Retrato, romance de 1960 que começou por ser publicado (sob pseudónimo) em fascículos semanais, na revista Oggi, em 1959.
Tem-se dito que O Grande Retrato sinaliza a chegada de Buzzati ao universo feminino. Dando de barato a misoginia do autor, tenho dificuldade em subscrever a tese. O facto de Un Amore (1963) ser posterior à proclamada inflexão, não autoriza tamanha ênfase. Mesmo porque uma história com epicentro numa investigação científica, reportando directamente a Silvio Ceccato (o filósofo e linguísta italiano que projectou um protótipo de inteligência artificial), tem o ponto de vista correlato. Suponho que os críticos se impressionaram com a descrição de Olga Strobele, que «rondava os vinte e oito anos, era esbelta, ruiva, pele branca pontilhada de sardas, olhos talhados em amêndoa, lábios salientes numa expressão ao mesmo tempo de oferta e de desdém, rosto atrevido, alegre e provocante, cintura delgada, pernas fortes e teimosas.» Com efeito, um retrato e tanto!
A máquina que pensa pode, no limite, devolver à vida a mulher do enigmático professor Endriade, essa espécie de replicante do Dr. Jekyll (cf. Stevenson) que Buzzati constrói, por intereposta Laura, em homenagem da mulher amada. Daí à focalização de género...
O receio de que um autómato possa esquivar-se às ordens do criador, pensando pela sua própria ‘cabeça’, inscreve-se com naturalidade no pensamento existencialista que marca a obra de Buzzati. Neste particular, o aspecto mais curioso é que O Grande Retrato antecipa em oito anos o Arthur C. Clarke de 2001: A Space Odyssey (1968). Isso sim, merece ser assinalado. Buzzati escreveu em 1959 sobre uma realidade a haver: «Em Abril de 1972, o professor Ermanno Ismani...». Afinal, nem todo o futuro começou do outro lado do Atlântico.
Contudo, aquilo que podia ser a originalidade discursiva dilui-se na retórica filosofante de quem pretende ilustrar a corrupção da alma: «Nessa altura irradiará da máquina uma potência espiritual que o mundo nunca conheceu, um fluxo irresistível e benéfico. A máquina lerá os nossos pensamentos, criará obras-primas, revelará os mistérios mais escondidos.» O quotidiano da «zona militar 36» (estamos no centro de uma operação militar de carácter secreto) pauta-se pela inverossimilhança. A lentidão narrativa e as convenções da linguagem obliteram qualquer hipótese de imprevisto. Mesmo quando supomos que as regras do thriller vão levar a melhor, uma sobrecarga de mise en scène faz desabar a arquitectura da cena. Sirva de exemplo o momento em que Endriade chama por Laura, há muito morta: «Alguém, ou algo, lhe responde. É uma espécie de estertor, que sai às golfadas de ignotos canais por toda a parte. Ondula, sobe, torna-se grito, resvala, dissolve-se em gemido, cala-se, regressa linear, explode, gorgoleja, tossica, esganiça...», etc. Não havia necessidade.
Laura e a máquina, in Ípsilon, 30-7-2010, p. 36. Duas estrelas e meia.
A editora Cavalo de Ferro prossegue a divulgação do italiano Dino Buzzati (1906-1972), autor de uma obra muito vasta, que inclui poesia, romance, conto — género em que atinge maior conseguimento —, teatro, ensaio de arte, crónica e libretos de ópera. Em Portugal ainda vamos na ficção, estando publicados cinco títulos, entre eles os emblemáticos O Deserto dos Tártaros (1940) e A Derrocada da Baliverna (1957).
A ideia de uma máquina consciente, isto é, de um corpo artificial servindo de hospedeiro a uma mente humana, parece saída de Isaac Asimov, que acumulava literatura com a docência de bioquímica. Porém, num homem com a formação humanística de Buzzati, surpreende. E, no entanto, é esse o tema de O Grande Retrato, romance de 1960 que começou por ser publicado (sob pseudónimo) em fascículos semanais, na revista Oggi, em 1959.
Tem-se dito que O Grande Retrato sinaliza a chegada de Buzzati ao universo feminino. Dando de barato a misoginia do autor, tenho dificuldade em subscrever a tese. O facto de Un Amore (1963) ser posterior à proclamada inflexão, não autoriza tamanha ênfase. Mesmo porque uma história com epicentro numa investigação científica, reportando directamente a Silvio Ceccato (o filósofo e linguísta italiano que projectou um protótipo de inteligência artificial), tem o ponto de vista correlato. Suponho que os críticos se impressionaram com a descrição de Olga Strobele, que «rondava os vinte e oito anos, era esbelta, ruiva, pele branca pontilhada de sardas, olhos talhados em amêndoa, lábios salientes numa expressão ao mesmo tempo de oferta e de desdém, rosto atrevido, alegre e provocante, cintura delgada, pernas fortes e teimosas.» Com efeito, um retrato e tanto!
A máquina que pensa pode, no limite, devolver à vida a mulher do enigmático professor Endriade, essa espécie de replicante do Dr. Jekyll (cf. Stevenson) que Buzzati constrói, por intereposta Laura, em homenagem da mulher amada. Daí à focalização de género...
O receio de que um autómato possa esquivar-se às ordens do criador, pensando pela sua própria ‘cabeça’, inscreve-se com naturalidade no pensamento existencialista que marca a obra de Buzzati. Neste particular, o aspecto mais curioso é que O Grande Retrato antecipa em oito anos o Arthur C. Clarke de 2001: A Space Odyssey (1968). Isso sim, merece ser assinalado. Buzzati escreveu em 1959 sobre uma realidade a haver: «Em Abril de 1972, o professor Ermanno Ismani...». Afinal, nem todo o futuro começou do outro lado do Atlântico.
Contudo, aquilo que podia ser a originalidade discursiva dilui-se na retórica filosofante de quem pretende ilustrar a corrupção da alma: «Nessa altura irradiará da máquina uma potência espiritual que o mundo nunca conheceu, um fluxo irresistível e benéfico. A máquina lerá os nossos pensamentos, criará obras-primas, revelará os mistérios mais escondidos.» O quotidiano da «zona militar 36» (estamos no centro de uma operação militar de carácter secreto) pauta-se pela inverossimilhança. A lentidão narrativa e as convenções da linguagem obliteram qualquer hipótese de imprevisto. Mesmo quando supomos que as regras do thriller vão levar a melhor, uma sobrecarga de mise en scène faz desabar a arquitectura da cena. Sirva de exemplo o momento em que Endriade chama por Laura, há muito morta: «Alguém, ou algo, lhe responde. É uma espécie de estertor, que sai às golfadas de ignotos canais por toda a parte. Ondula, sobe, torna-se grito, resvala, dissolve-se em gemido, cala-se, regressa linear, explode, gorgoleja, tossica, esganiça...», etc. Não havia necessidade.
Laura e a máquina, in Ípsilon, 30-7-2010, p. 36. Duas estrelas e meia.
Etiquetas: Crítica literária

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