A CENTRAL

Nas últimas legislativas, militantes e independentes próximos de vários partidos dinamizaram blogues de apoio. Fiquemos pelos que foram criados para o efeito, extinguindo-se a seguir às eleições: SIMplex, pró-PS, Jamais, pró PSD, e Rua Direita, pró-CDS/PP. Um propósito legítimo, transparente, que não escandalizou ninguém. Colaborei com muito gosto no primeiro. Os textos estão aí, não mudo uma vírgula do que escrevi.
Isto dito, vamos ao que interessa. Hoje, Eduardo Dâmaso (director-adjunto do jornal, que dedica o editorial ao tema), Tânia Laranjo e Manuela Teixeira assinam no Correio da Manhã duas páginas de insinuações sobre uma hipotética Central do governo, alimentada por assessores de vários ministérios e, nessa medida, «paga com dinheiros públicos». Ou seja, o CM acusa o PS e o governo de fazerem política, actividades, julgava eu, para as quais estão mandatados. De caminho, transcreve o conteúdo de um e-mail privado, trocado entre dois colaboradores do SIMplex. Ao arrepio do que parece, o alvo da catilinária é mais um actual deputado do PS do que um controvertido blogger que tanto inquieta os seus pares de direita.
Como chegamos ao vale tudo, nada disto admira. O inquietante é que o ónus da prova esteja a ser exigido aos acusados e não (como num Estado de direito) aos acusadores.
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O André Couto: «[...] A notícia que vem marcando o dia de hoje é um serviço deplorável. Longe de querer limitar os seus autores acho que estes, no mínimo, deveriam ter encontrado fundamento antes de censurarem condutas tidas ao abrigo de direitos que também assistem a quem não possui carteira profissional de jornalista. O artigo 38.º da Constituição da República Portuguesa, da liberdade de imprensa e meios de comunicação social, é precedido por um não menos importante, o 37.º, com a epígrafe liberdade de expressão e de informação. É giro ver os paladinos do 38.º a quererem limitar o uso do 37.º [...]»
O José Reis Santos: «Portugal já foi um país de gente de bem. [...] Portugal também já foi um país com uma imprensa de respeito. [...] Esta reflexão deriva da análise a uma suposta “notícia” [...] que corre hoje no Correio da Manhã. Viram a notícia? Acusam o SIMplex de ser auxiliado por assessores ligados ao governo. Como? Então acusaram o SIMplex, um blog político de apoio a um projecto político de fazer… política? Onde está a notícia? No facto de os seus colaboradores terem acesso a informação? Não seria estranho que tal não acontecesse? Alguém se lembrou de perguntar ao Pacheco Pereira se, quando escreve, não tem informação para o fazer? Ou aos colectivos Jamais, Arrastão, Rua Direita, 5 Dias ou 31 da Armada (a lista pode continuar facilmente…)? Qual é então a notícia? Nenhuma. Tudo se resume à divulgação ilegal de mails internos da mailing list do SIMplex por parte de um execrável sujeito que tudo vende para conseguir alguma atenção e duas linhas de papel impresso. [...]»
O Luís Novaes Tito: «A primeira característica da ética é a lealdade. [...] Ninguém gosta de traidores. A sua natureza de aleivosos torna-os no escarro da ética.»
O Miguel Abrantes: «[...] Não quero alongar-me sobre uma notícia cujo teor ainda não li. Lá para o fim do dia, quando puder comprar o jornal, verei se vale a pena voltar ao assunto. Mas uma coisa é certa: o país dos Dâmasos [...] não é o meu país.»
O Pedro Adão e Silva: «[...] Pelo meio, fico também com uma certeza: a blogosfera pode revelar-se particularmente útil — representa um meio eficaz para os perturbados mentais fazerem terapia ocupacional e expressarem as suas frustrações. Mesmo se, pelo caminho, violarem correspondência.»
O Porfírio Silva: «[...] o CM diz que o material lhe foi mostrado por um dos membros do SIMplex. Quem será? Talvez algum candidato a notável que pensava que realmente nos iam pagar por escrevermos para o SIMplex, tendo ficado zangado quando os cheques nunca chegaram. Quem diz os cheques diz uma colunazinha num jornal de Lisboa ou qualquer outra tribuna onde mostrar a sua notável inteligência… Enfim, o tipo de fonte com que o CM deve saber lidar… Sempre houve gente a pretender ser sabedora de como lidar com as mudanças de ciclo político na perspectiva da gestão da carreira. Sempre houve “jornalistas” sabedores de como comer parolos ao pequeno-almoço. Com muito molho, claro.»
O Rogério da Costa Pereira: «[...] Voltando à vaca fria, é igualmente de espantar a forma como se gera uma notícia. Há pois uma mistura de pinguim — por certo um gajo sem qualquer resquício de “ética pessoal”, ao contrário do professor atrás citado — que revela as entranhas de um blogue. Mostra os mails que se trocaram, as estratégias que se montaram. A razão só a figurinha com boca de megafone a poderá dar. Esperava uma gratificação e não lha deram? Queria ser ministro, secretário de estado? Queria ser assessor, tu queres ver? Não andou lá por crença mas à espera de recompensa? [...]»
A Sofia Loureiro dos Santos: «[...] Impõe-se um esclarecimento da minha parte. Fui convidada a participar no SIMplex, o que muito me honrou e de que não estou minimamente arrependida. Sou médica hospitalar, tenho um blogue pessoal desde 2005 onde escrevo sobre vários assuntos, nomeadamente de saúde, em que uso a minha experiência profissional para reflectir sobre a política de saúde, uso a minha experiência pessoal para escrever sobre outros assuntos, uso o que penso, o que os outros pensam, o que outros escrevem e escreveram para fundamentar as minhas opiniões. Ninguém me pagou nem prometeu nada pela participação no SIMplex. [...] Sou uma pessoa livre e é livremente que me exprimo. Repugnam-me estes métodos absolutamente inqualificáveis de insinuações mentirosas e calúnias sobre tudo e todos que apoiam o PS e o seu governo. Não é assim que me intimidam. Se é esta a forma que usam para escrever artigos de jornalismo de investigação sobre a conspiração governativa para controlar a comunicação social, então cada vez acredito mais que a conspiração existe, mas para forçar a demissão do primeiro-ministro por meios ilícitos, subvertendo a democracia. [...]»
O Tiago Barbosa Ribeiro: «A notícia de hoje no Correio da Manhã é mais uma etapa no grau de boçalidade a que chegaram alguns meios de comunicação social, devidamente caucionados por alguns bloggers. [...]»
O Tomás Vasques «[...] Podia dizer que me lembrei da frase os Pides morrem na rua a propósito de uma peça no Correio da Manhã, de hoje, que envolve o SIMplex, blogue em que colaborei. Mas não foi só por isso.»
O Vasco M. Barreto: «[...] Um whistleblower é alguém que revela uma prática errada dentro de um determinado grupo a que geralmente pertence ou pertenceu; ele “faz soar o alarme” ou — em tradução literal — “sopra no apito”. Distinguimos três tipos [...] O terceiro é o whistleblower frustrado: ele resolve tramar o seu antigo grupo por julgar que não lhe deram o devido valor, bastando-lhe como recompensa a satisfação da sua má-fé. Este terceiro grupo divide-se entre aqueles que ostensivamente soam o alarme e os que fazem tudo pela calada. Curiosamente, para estes há um vocábulo em português: “bufos”. [...] Aliás, visto que os blogs vivem sobretudo nos dias úteis, não será isto uma prova de que quase todos os bloggers se aproveitam dos recursos do Estado (ou de empresas privadas) para fins pessoais, mesmo quando não têm interesses partidários? Estarão a abusar do erário público? [...] Mas não andamos todos a rir com uma desculpa baseada em tal esquizofrenia funcional? You can't have it both ways. Qual era mesmo a notícia?»
Isto dito, vamos ao que interessa. Hoje, Eduardo Dâmaso (director-adjunto do jornal, que dedica o editorial ao tema), Tânia Laranjo e Manuela Teixeira assinam no Correio da Manhã duas páginas de insinuações sobre uma hipotética Central do governo, alimentada por assessores de vários ministérios e, nessa medida, «paga com dinheiros públicos». Ou seja, o CM acusa o PS e o governo de fazerem política, actividades, julgava eu, para as quais estão mandatados. De caminho, transcreve o conteúdo de um e-mail privado, trocado entre dois colaboradores do SIMplex. Ao arrepio do que parece, o alvo da catilinária é mais um actual deputado do PS do que um controvertido blogger que tanto inquieta os seus pares de direita.
Como chegamos ao vale tudo, nada disto admira. O inquietante é que o ónus da prova esteja a ser exigido aos acusados e não (como num Estado de direito) aos acusadores.
LER TAMBÉM
O André Couto: «[...] A notícia que vem marcando o dia de hoje é um serviço deplorável. Longe de querer limitar os seus autores acho que estes, no mínimo, deveriam ter encontrado fundamento antes de censurarem condutas tidas ao abrigo de direitos que também assistem a quem não possui carteira profissional de jornalista. O artigo 38.º da Constituição da República Portuguesa, da liberdade de imprensa e meios de comunicação social, é precedido por um não menos importante, o 37.º, com a epígrafe liberdade de expressão e de informação. É giro ver os paladinos do 38.º a quererem limitar o uso do 37.º [...]»
O José Reis Santos: «Portugal já foi um país de gente de bem. [...] Portugal também já foi um país com uma imprensa de respeito. [...] Esta reflexão deriva da análise a uma suposta “notícia” [...] que corre hoje no Correio da Manhã. Viram a notícia? Acusam o SIMplex de ser auxiliado por assessores ligados ao governo. Como? Então acusaram o SIMplex, um blog político de apoio a um projecto político de fazer… política? Onde está a notícia? No facto de os seus colaboradores terem acesso a informação? Não seria estranho que tal não acontecesse? Alguém se lembrou de perguntar ao Pacheco Pereira se, quando escreve, não tem informação para o fazer? Ou aos colectivos Jamais, Arrastão, Rua Direita, 5 Dias ou 31 da Armada (a lista pode continuar facilmente…)? Qual é então a notícia? Nenhuma. Tudo se resume à divulgação ilegal de mails internos da mailing list do SIMplex por parte de um execrável sujeito que tudo vende para conseguir alguma atenção e duas linhas de papel impresso. [...]»
O Luís Novaes Tito: «A primeira característica da ética é a lealdade. [...] Ninguém gosta de traidores. A sua natureza de aleivosos torna-os no escarro da ética.»
O Miguel Abrantes: «[...] Não quero alongar-me sobre uma notícia cujo teor ainda não li. Lá para o fim do dia, quando puder comprar o jornal, verei se vale a pena voltar ao assunto. Mas uma coisa é certa: o país dos Dâmasos [...] não é o meu país.»
O Pedro Adão e Silva: «[...] Pelo meio, fico também com uma certeza: a blogosfera pode revelar-se particularmente útil — representa um meio eficaz para os perturbados mentais fazerem terapia ocupacional e expressarem as suas frustrações. Mesmo se, pelo caminho, violarem correspondência.»
O Porfírio Silva: «[...] o CM diz que o material lhe foi mostrado por um dos membros do SIMplex. Quem será? Talvez algum candidato a notável que pensava que realmente nos iam pagar por escrevermos para o SIMplex, tendo ficado zangado quando os cheques nunca chegaram. Quem diz os cheques diz uma colunazinha num jornal de Lisboa ou qualquer outra tribuna onde mostrar a sua notável inteligência… Enfim, o tipo de fonte com que o CM deve saber lidar… Sempre houve gente a pretender ser sabedora de como lidar com as mudanças de ciclo político na perspectiva da gestão da carreira. Sempre houve “jornalistas” sabedores de como comer parolos ao pequeno-almoço. Com muito molho, claro.»
O Rogério da Costa Pereira: «[...] Voltando à vaca fria, é igualmente de espantar a forma como se gera uma notícia. Há pois uma mistura de pinguim — por certo um gajo sem qualquer resquício de “ética pessoal”, ao contrário do professor atrás citado — que revela as entranhas de um blogue. Mostra os mails que se trocaram, as estratégias que se montaram. A razão só a figurinha com boca de megafone a poderá dar. Esperava uma gratificação e não lha deram? Queria ser ministro, secretário de estado? Queria ser assessor, tu queres ver? Não andou lá por crença mas à espera de recompensa? [...]»
A Sofia Loureiro dos Santos: «[...] Impõe-se um esclarecimento da minha parte. Fui convidada a participar no SIMplex, o que muito me honrou e de que não estou minimamente arrependida. Sou médica hospitalar, tenho um blogue pessoal desde 2005 onde escrevo sobre vários assuntos, nomeadamente de saúde, em que uso a minha experiência profissional para reflectir sobre a política de saúde, uso a minha experiência pessoal para escrever sobre outros assuntos, uso o que penso, o que os outros pensam, o que outros escrevem e escreveram para fundamentar as minhas opiniões. Ninguém me pagou nem prometeu nada pela participação no SIMplex. [...] Sou uma pessoa livre e é livremente que me exprimo. Repugnam-me estes métodos absolutamente inqualificáveis de insinuações mentirosas e calúnias sobre tudo e todos que apoiam o PS e o seu governo. Não é assim que me intimidam. Se é esta a forma que usam para escrever artigos de jornalismo de investigação sobre a conspiração governativa para controlar a comunicação social, então cada vez acredito mais que a conspiração existe, mas para forçar a demissão do primeiro-ministro por meios ilícitos, subvertendo a democracia. [...]»
O Tiago Barbosa Ribeiro: «A notícia de hoje no Correio da Manhã é mais uma etapa no grau de boçalidade a que chegaram alguns meios de comunicação social, devidamente caucionados por alguns bloggers. [...]»
O Tomás Vasques «[...] Podia dizer que me lembrei da frase os Pides morrem na rua a propósito de uma peça no Correio da Manhã, de hoje, que envolve o SIMplex, blogue em que colaborei. Mas não foi só por isso.»
O Vasco M. Barreto: «[...] Um whistleblower é alguém que revela uma prática errada dentro de um determinado grupo a que geralmente pertence ou pertenceu; ele “faz soar o alarme” ou — em tradução literal — “sopra no apito”. Distinguimos três tipos [...] O terceiro é o whistleblower frustrado: ele resolve tramar o seu antigo grupo por julgar que não lhe deram o devido valor, bastando-lhe como recompensa a satisfação da sua má-fé. Este terceiro grupo divide-se entre aqueles que ostensivamente soam o alarme e os que fazem tudo pela calada. Curiosamente, para estes há um vocábulo em português: “bufos”. [...] Aliás, visto que os blogs vivem sobretudo nos dias úteis, não será isto uma prova de que quase todos os bloggers se aproveitam dos recursos do Estado (ou de empresas privadas) para fins pessoais, mesmo quando não têm interesses partidários? Estarão a abusar do erário público? [...] Mas não andamos todos a rir com uma desculpa baseada em tal esquizofrenia funcional? You can't have it both ways. Qual era mesmo a notícia?»
Etiquetas: Central de Propaganda, Media, Nonsense, Política nacional

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