Sábado, Fevereiro 27, 2010

ANNA M. KLOBUCKA


Ontem no Público:


A emergência da autoria feminina na poesia portuguesa é o tema da tese de doutoramento que Anna M. Klobucka apresentou à Universidade de Harvard em 1993. Revisto e ampliado, o ensaio chegou agora às livrarias com o sugestivo título O Formato Mulher. Professora de português da Universidade de Massaschusetts Dartmouth, a autora, de origem polaca, parte de 1972 (ano de publicação de Novas Cartas Portuguesas, de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa) para desenvolver a sua análise da produção literária portuguesa “protagonizada” por mulheres. Esse ano entre todos mítico, momento de «viragem simbólica e ideológica, cujas repercussões a longo prazo ainda estão muito longe de se esgotar», é o ponto de partida do exigente tour d’horizon às obras de Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner Andresen, Maria Teresa Horta, Luiza Neto Jorge, Adília Lopes e Ana Luísa Amaral. Seis «exemplos de dramatização [...] da autoria feminina» que não excluem outras possibilidades — Irene Lisboa, Natália Correia, etc. —, e cujo traço distintivo é o da «sexualidade marcada pela diferença e a textualidade marcada pelo sexo». O modelo interpretativo segue a ginocrítica — termo cunhado por Elaine Showalter para designar «a mulher enquanto produtora de significado textual» —, sem perder de vista os pressupostos clássicos da crítica literária e cultural feminista.

No essencial, Anna M. Klobucka analisa as várias modelizações da identidade sexual, a polarização de géneros, a estruturação do “eu” feminino, bem como as «manifestações sexualmente marcadas dos processos de relacionamento intertextual e o seu papel na integração do discurso poético». Sem cedência ao jargão académico, a autora sinaliza com precisão os momentos de ruptura dos discursos em pauta.

Se pensarmos que O Formato Mulher teve como primeiro alvo leitores estrangeiros, a escolha de Florbela arrasta consigo uma mais-valia pedagógica que se mantém operante junto do público português. Com efeito, se há obra da nossa literatura atolada em equívocos, essa obra é a de Florbela, logo seguida da de António Botto (o qual, apesar de tudo, goza de maior fortuna crítica). Anna M. Klobucka explica bem o processo de mitificação de Florbela e, em particular, os efeitos perversos da sua conivência com o «processo de destilação gradual» que a obra sofreu. Afinal, a decantada feminilidade foi (e continua sendo) um pau de dois bicos. Dito de outro modo, «mulher antes de mais nada», por oposição a Sophia, Fiama e Luiza Neto Jorge, «poetas antes de mais nada». Nessa medida, a recepção crítica tende à desvalorização, quando não à omissão. Conclusão pertinente: «uma Florbela (ou linhagem florbeliana) queer não deve ser construída independentemente da construção contínua de uma Florbela (ou linhagem florbeliana) feminista». Digamos que Anna M. Klobucka dá início ao processo de revisão histórico-literária que Joaquim Manuel Magalhães reivindicou para Florbela.

Não por acaso, a sequência e terminologia do índice é clara: «A Poetisa: Florbela Espanca» / «A Poeta: Sophia de Mello Breyner Andresen» / «Poeta, Feminino Plural», sobre Maria Teresa Horta e Luiza Neto Jorge / «E vários os caminhos», sobre Adília Lopes e Ana Luísa Amaral», glosando um título da segunda.

A leitura de Sophia esclarece a contradição entre investimento hermenêutico e descaso identitário. Algo parecido com a inócua «sopa andrógina» que subsume o discurso crítico em torno de algumas poetas.

Nos anos 1960, Luiza Neto Jorge e Maria Teresa Horta mudam o panorama. A primeira fez «rebentar uma insurreição violenta de linguagem [tornando] a matéria humana numa eroticamente incendiada terra de ninguém». A segunda fez do corpo feminino «o território semiótico que melhor acomoda o impulso poético de anarquização da linguagem». Maria Teresa Horta tem ainda o mérito de sustentar a obra numa relação intertextual com «o legado da dominação masculina». Não admira que Maria de Lourdes Belchior tenha então chamado a atenção para a emergência das mulheres enquanto “autoras”.

Na realidade, todas desautorizam a abadessa de Heidenheim, que assumia a «falta de discernimento [própria do seu] frágil sexo feminino». Embora em 2005 Ana Luísa Amaral ainda considerasse a sua poesia como «não feminista», facto é que a obra a contradiz com ênfase.

Em paralelo, Adília Lopes tem elaborado (com consequências) o «projecto da construção da personagem de mulher autora de poesia, isto é, da poetisa», sem que tal atitude traduza conformismo passadista. Anna M. Klobucka faz notar, com propriedade, ser esse um dos «gestos anacrónicos que orientam» a produção literária de Adília.

Muito mais haveria a dizer deste longo e estimulante ensaio, que com tanta desenvoltura recentra o lugar dos poetas-fêmea na literatura portuguesa.


Formatação fêmea, in Ípsilon, 26-2-2010, p. 45. Quatro estrelas.

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