Sábado, Outubro 31, 2009

LEHRER NO ÍNDEX


Um leitor chamou-me a atenção para esta notícia. Custa a acreditar? Pois custa. Resumidamente: um professor americano foi suspenso porque aconselhou aos alunos a leitura de um artigo do neurocientista Jonah Lehrer (ao alto), The Gay Animal. The effeminate sheep and other problems with Darwinian sexual selection (2006). Pode lê-lo aqui. O mundo está perigoso.

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ACABOU A OLÁ!


Acabou a Olá!, a revista da alta-sociedade fundada em 1986 por Marcelo Rebelo de Sousa, Victor da Cunha Rego, José Miguel Júdice, Daniel Proença de Carvalho, Carlos Barbosa e Francisco Sarsfield Cabral. Na Olá! não entrava dinheiro novo, políticos, artistas, decoradores, modelos, cabeleireiros, apresentadores de televisão, futebolistas, actores de novela, nem sequer jet-setters. O único plebeu admitido era André Jordan, o homem que fez a Quinta do Lago. Durante 23 anos, a Olá! foi o reduto dos Lavradio, Palmela, Champalimaud, Melo, Espírito Santo, Pinto Basto e poucos mais. O espírito do tempo ditou o seu fim. Como diz Maria João Vieira, citada pelo Diário de Notícias, «a classe média que ganhou poder económico nas últimas décadas não está interessada em saber quem ganhou o concurso de atrelagem em Santo Estêvão ou se a marquesa de Pombal teve mais um neto.» Portanto, acabou.

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DALILA, AGAIN


Pouco antes de partir para férias em Nova Iorque, Dalila Rodrigues foi ontem notificada do seu afastamento da direcção da Casa das Histórias (Museu Paula Rego), inaugurada em Cascais no passado 18 de Setembro. No entanto, se Dalila quiser, pode assegurar a transição até ao fim do ano. A isso, a Fundação Paula Rego não se opõe. Aparentemente, a decisão de a afastar partiu da Câmara de Cascais. Como o museu é privado, e a Câmara do PSD, o argumento da asfixia não cola. A ver vamos o que diz a direita iluminada.

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Sexta-feira, Outubro 30, 2009

E OS SALTOS, NÃO?


Em artigo de opinião no Público, o deputado Jorge Bacelar Gouveia, do PSD, opositor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, advoga a necessidade de um referendo sobre o tema, porquanto, diz ele, «esta é uma das típicas decisões que numa democracia plena como a portuguesa só podem ser tomadas pelos portugueses em referendo nacional.» Sucede que o assunto foi sufragado nas últimas eleições legislativas. O casamento entre pessoas do mesmo sexo consta do programa de dois partidos políticos: o PS, que ganhou as eleições, e o BE.

Mais: julgando sensibilizar o eleitorado de direita e centro-direita para “a iniquidade” do casamento gay, PSD, CDS-PP, PPM, MPT, etc., não se cansaram de alertar o bom povo para o que aí vinha se a esquerda ganhasse. Ou seja, ao contrário do que afirma o prof Bacelar Gouveia, o assunto foi discutido, e muito, durante a campanha eleitoral. O bom povo marimbou-se para a beatice. E o PS ganhou.

Na Assembleia da República haverá deputados, em todos os partidos, contra e a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não vale a pena arrancar as vestes. Basta deixar funcionar a democracia. Por este andar, qualquer dia estamos a referendar o tamanho dos saltos altos...

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IMPRENSA ESCRITA


Entre Janeiro e Agosto deste ano, as vendas dos títulos generalistas foi como segue:


DIÁRIOS

Correio da Manhã — 117.914/dia
Jornal de Notícias — 94.234
Público — 38.593
Diário de Notícias — 36.182
24 horas — 29.574
Diário Económico — 14.900
i — 12.005
Jornal de Negócios — 9.564

SEMANÁRIOS

Expresso — 111.861/semana
Sol — 42.850
Weekend Económico — 10.408

REVISTAS

Maria — 207.644/semana
Visão — 102.796
Sábado — 73.689
Focus — 9.849


Um país que não lê é um país atrasado. Se compararmos Portugal (cerca de 11 milhões de habitantes) com países europeus de dimensão equivalente, como a Bélgica, a Dinamarca, que tem metade da população portuguesa, ou mesmo a Suécia, verificamos quão residual é a expressão da imprensa escrita nos media nacionais. Isto tem consequências.

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As novas colecções da Deriva


O ensaio literário de grande qualidade marca as novas colecções da Deriva. No âmbito de uma parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, da Faculdade de Letras do Porto, terão início as colecções Pulsar e Cassiopeia. Na primeira, publicar­‑se­‑ão livros de pequeno formato e de baixo custo, especialmente destinados a um público maioritariamente estudantil, mas que não deixarão de suscitar interesse nos outros leitores. Para tal, basta notar que os três primeiros autores desta colecção são Jean­‑Pierre Sarrazac (com A Invenção da Teatralidade seguido de Brecht em Processo e O Jogo dos Possíveis), Pascal Quignard (com Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos) e Antoine Compagnon (com Literatura: Por Que Fazer?). Quanto à Cassiopeia, que se destinará a acolher estudos literários, abrirá com um inédito de Pedro Eiras, intitulado Tentações: Ensaio sobre Sade e Raul Brandão. Para mais informações, pode consultar­‑se o blogue da editora.

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

FACE OCULTA?


Estava escrito nas estrelas: Armando Vara, vice-presidente do Millennium BCP, entrou no rol dos happy few do Ministério Público. A ver vamos, daqui a um ano ou dois, se lhe acontece o mesmo que a Luís Nobre Guedes, e a tantos outros, que ficaram em banho-maria até serem ilibados. Entretanto, a opinião pública regista. Como é de uso, a opinião pública dá o desconto da praxe. Adiante.

Alegados factos: a PJ de Aveiro desencadeou ontem a operação Face Oculta, relacionada com corrupção, tráfico de influências e branqueamento de capitais. Foram realizadas buscas em Aveiro, Ovar, Lisboa, Oeiras, Sines, Santa Maria da Feira, Alcochete, Faro, Ponte de Sôr e Viseu. O empresário Manuel Godinho, sucateiro, proprietário das empresas O2 e da SCI, ambas de Ovar, fornecedoras da REFER e das siderurgias espanholas, foi preso. Os restantes treze arguidos continuam em liberdade. Vara é um deles. Acusam-no de ter pedido 10 mil euros de comissão. Paulo Penedos, advogado, membro da Comissão Nacional do PS, filho de José Penedos, presidente da REN, também. Acusam-no de ter recebido 270 mil euros de comissões. A operação da PJ é liderada por Teófilo Santiago, um dos responsáveis pelo processo Apito Dourado. A ver vamos, desta vez.

Por falar em banho-maria. O caso BPN está longe de encerrado. O buraco alastra. Vai já em três mil milhões de euros. Passada a fase carnavalesca (a comissão Melo), sossegado o establishment com a prisão de Oliveira e Costa, bode expiatório da tramóia, ninguém mais se preocupou. A coisa fia mais fina. O polvo não tem epicentro em Ovar.

Tudo isto é fado?


[A foto é do Diário de Notícias.]

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NO BLUES


Um mês depois das eleições, vinte simplexes e uma honourable reuniram-se num jantar que se prolongou noite fora. Luís Novaes Tito foi o chefe de protocolo do serão que juntou Ana Matos Pires, Ana Vidigal, André Couto, Bruno Reis, Carlos Manuel Castro, Eduardo Graça, eu próprio, Hugo Mendes, Irene Pimentel, João Constâncio, João Galamba (na foto à minha direita), José Reis Santos, Novaes Tito himself, Mariana Vieira da Silva, Palmira Silva, Paulo Ferreira, Rui Herbon, Tiago Julião, Tomás Vasques, Vera Santana e Victor Sancho. As pêras marinadas em Remy Martin e pistachio estavam deliciosas!

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Quarta-feira, Outubro 28, 2009

OS 320


Até 1999, os cargos dirigentes da Administração Pública eram providos por escolha. Foi assim com Salazar e Caetano. Foi assim nos sucessivos governos durante os primeiros 25 anos da democracia. Até que Guterres inventou, e fez aprovar na Assembleia da República, a Lei n.º 49/99, de 22 de Junho. A partir daí, directores-gerais e subdirectores-gerais continuaram a ser nomeados por escolha da tutela, mas os directores de serviço e os chefes de divisão passaram a ter de sujeitar-se a concurso. Não vale a pena insistir na hipocrisia do método: os concursos eram feitos à medida de quem tinha de ser nomeado. O governo de Barroso introduziu alterações (Lei n.º 2/2004, de 15 de Janeiro), mantendo o essencial. Até que o XVII Governo Constitucional, o primeiro de Sócrates, fez aprovar a Lei n.º 51/2005, de 30 de Agosto, estabelecendo novas regras. O PSD, o CDS e o PCP votaram contra, mas o diploma foi aprovado pelo PS e pelo Bloco de Esquerda. De acordo com as regras em vigor, as comissões de serviço do pessoal dirigente cessam automaticamente assim que muda o governo.

Significa isto que, neste momento, há 320 lugares de topo para redistribuir. O governo pode, se quiser, mudar esses dirigentes (sem direito a indemnização) num prazo de 45 dias. O mais certo é que mude uns quantos e confirme a maioria. Trata-se de lugares de confiança política. Não vale a pena rasgar as vestes contra o óbvio. Aliás, em lugar de acusar o governo de dirigismo, a direita tem agora condições para alterar a lei. A menos que não convenha... Nunca se sabe se daqui a 4 ou 8 anos ganham as eleições.

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Contaminações


Talvez se possa falar desta revista como de uma publicação de âmbito antropológico, mas o mais exacto será dizer que ela se abre à multiplicidade de relações que o corpo entretece com o mundo. No seu número 13, datado de Junho deste ano, há vários textos a merecerem destaque. Entre eles, conta­‑se o ensaio de Luís Quintais sobre Crash, de J. G. Ballard, que pretende saber de «que forma é que a literatura cooptou um dos dados mais fundamentais da experiência moderna: a presença incontornável (e o lado inexorável dos processos que essa experiência reclama) de uma paisagem radicalmente transformada pelo concurso da ciência, ou melhor, da tecno­‑ciência» (p. 17). Ainda hoje me lembro de ter assistido ao filme que Cronemberg fez a partir do romance de Ballard e de, à saída do cinema, ter tentado defender a obra do realizador perante quem a vira comigo. As ideias de contaminação e de impureza pareciam­‑me essenciais para compreender aquele objecto quase provocatório, ao mesmo tempo que se mostravam como os pontos decisivos para que eu defendesse o filme e o considerasse tão relevante. Por outras palavras diz Quintais o mesmo quando faz notar que a cidade de Ballard se apresenta como um «laboratório onde acidente e simulação se afiguram os dois vértices experimentais de uma complexa encruzilhada de hipóteses em torno de uma natureza humana infiguravelmente plástica e, em última instância, opaca» (p. 22).

Para essa direcção também se encaminha a entrevista que Christine Buci­‑Glucksmann concedeu a Jorge Leandro Rosa, onde se pode ler que «será na articulação entre as culturas e nas culturas, nesse processo que chamei a 'mundialidade', que não se resume à mundialização, que poderá existir criação, e criação nos mundos virtuais» (p. 68). O raciocínio da autora de La Raison Baroque (1984) aponta para uma noção de instabilidade associada à cultura, o que lhe permitirá definir a estética, não como «a ciência do belo, nem do sublime», pois «já não constitui um inquérito capaz de atingir valores concebidos em si mesmos, tal como quiseram Kant e, no fundo, Hegel», mas antes como «um espaço crítico que pensa visibilidades», ou seja, que se autoclassifica como «polissensorial» (pp. 72-73). Em abono da sua tese, Christine Buci­‑Glucksmann invoca o exemplo pertinente de artistas como Cindy Sherman e Orlan, para reconhecer, com palavras que decerto poderiam ter sido subscritas por Ballard ou por Cronemberg, que talvez seja a carne a última resistência ao trabalho estético sobre a forma corpórea», a «resistência de algo destinado ao efémero e, portanto, à morte» (p. 70).

Nas outras páginas da revista coordenada por João Urbano, há textos sobre o disparate, a nano­‑art, biopolítica e robótica, a arquitectura, a distinção entre realidade e ficção ou entre o humano e o não­‑humano, além de duas ficções, de Aécio de Amaral e do próprio João Urbano (com um narrador que, por momentos, faz lembrar os vagabundos beckettianos, ainda que, na página 139, insista desastradamente em utilizar o vocábulo «viajem» como nome). No seu conjunto, esta é uma proposta estimulante, cuja leitura pode ainda ser complementada com uma visita ao sítio da Nada, onde se encontram inéditos e informações que não existem na versão em papel.

Terça-feira, Outubro 27, 2009

UMA STASI EM CADA ESQUINA


Irene Pimentel lembra aqui uma parte do que foi a máquina infernal da Stasi, a polícia política da antiga RDA, também conhecida por Alemanha de Leste. Sublinha a historiadora:


«Vinte anos após a queda do muro de Berlim, os arquivos da polícia política da ex-República Democrática Alemã [...] continuam a revelar segredos. Entre 1950 e 1989, essa polícia empregou um total de 274.000 pessoas. Quando foi extinta, tinha 91.015 funcionários, além de 173.081 “colaboradores não-oficiais” (inoffizielle Mitarbeiter), dos quais 1.553 informadores identificados actuavam na República Federal Alemã (RFA). Dada a destruição dos arquivos da Stasi em Berlim, é difícil saber ao certo quantos informadores tinha essa polícia, embora se pense que possam ter chegado ao meio milhão (1950-1989). Ou seja, informadores incluídos, a Stasi terá tido um espião por cada 66 cidadãos da RDA. Após a queda do muro, os homens da Stasi dedicaram-se a destruir documentação nas trituradoras de papel ou a rasgar à mão os documentos mais comprometedores, queimando-os de seguida. No entanto, em 15 de Janeiro de 1990, as instalações dessa polícia foram tomadas de assalto por centenas de cidadãos, que conseguiram recuperar mais de 16.000 sacos com pedaços de papel rasgados, correspondendo a cerca de 45 milhões de páginas. Depois da reunificação, houve um intenso debate sobre o que se deveria fazer com esses arquivos, acabando por ser o destino destes decidido no início dos anos 90. [...]»


Passou-se isto no seio de uma sociedade culta, depois dos horrores da II Grande Guerra. Surpreendente? Infelizmente, não. Basta ler ou ouvir certos comentadores, seguir alguns blogues ou avaliar o subtexto de tanta conversa de salão, para perceber como a ocasião faz o ladrão. É triste, mas é verdade.

[A imagem, de 1992, mostra um armazém com pilhas de sacos de documentos apreendidos na Stasi.]

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JÁ FUI FELIZ AQUI


Esta imagem da ilha de Moçambique, obtida por satélite, foi roubada ao ma-schamba. Clique para ampliar. O traço do canto inferior esquerdo é a ponte que liga a ilha ao continente. Vivi aqui durante 32 meses, entre Março de 1971 e Novembro de 1973, com quatro escapadas a casa (em Lourenço Marques). Apesar da guerra, fui feliz. Omito detalhes para não ferir espíritos sensíveis. Luís Filipe Rocha, quem diria!, era Procurador da República. Em 1972, Rui Knopfli, Mécia e Jorge de Sena passaram por lá. O Rui voltou em 73. Escrevi lá o primeiro livro. Em Janeiro de 1975, dois meses depois de publicado, fui à ilha com o Jorge. Foi a primeira visita dele e a última minha. É capaz de ser do tempo, mas hoje acordei assim.

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Segunda-feira, Outubro 26, 2009

LAPA OUT


Pedro Lapa exerce o cargo de director do Museu do Chiado desde 1998. Pertencia ao quadro, concorreu à direcção, ficou em primeiro lugar, tomou posse. Salvo casos localizados, a sua gestão não sofreu contestação nos últimos onze anos. Lapa comissariou a representação portuguesa na 49.ª Bienal de Veneza, em 2000, e organizou retrospectivas importantes: Man Ray, Columbano Bordalo Pinheiro, Franz Ackermann, Jimmie Durham, Tobias Rehberger, Julião Sarmento e outros. Também foi ele o responsável por levar ao Museu Puchkin de Moscovo a obra de Amadeo de Souza-Cardoso. Agora, um novo concurso colocou a arquitecta Helena Barranha em primeiro lugar. Vai portanto substituir Pedro Lapa. A isto, os costumes chamam transparência.

O Meio discorda. E pôs a circular um manifesto “contra o afastamento de Pedro Lapa”, assinado por, entre outros, Helena Almeida, Lurdes Castro, Julião Sarmento, Nikias Skapinakis, Ângela Ferreira, Cristina Guerra, José Mário Brandão, Pedro Oliveira, Delfim Sardo, Miguel Wandschneider, Miguel von Haffe Perez e Manuel Castro Caldas. Artistas, galeristas, curadores, todos contra a saída de Lapa.

Em que ficamos? Se as nomeações são políticas, Aqui D’El Rei! Se obedecem às regras dos concursos públicos, idem. Gabriela Canavilhas vai ter muito com que se entreter.

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Domingo, Outubro 25, 2009

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Escrevi várias vezes sobre M. S. Lourenço, poeta e filósofo. Infelizmente, parece ter sido necessário que morresse para que a obra poética fosse reeditada. O Caminho dos Pisões aí está, numa “edição” de João Dionísio para a Assírio & Alvim. (Em parte alguma o leitor percebe em que consistiu essa “edição”.) Nas 687 páginas do volume cabem os dez livros que Lourenço publicou entre 1960 e 2002. Como não podia deixar de ser, Pássaro Paradípsico (1979) vem acompanhado dos desenhos que Cesariny fez para o livro. Catedrático jubilado da Faculdade de Letras de Lisboa, Manuel dos Santos Lourenço passou longas temporadas fora de Portugal — foi professor em universidades inglesas, americanas e austríacas —, o que talvez explique o descaso com que a sua poesia foi recebida no Meio. Assim O Caminho dos Pisões contribua para fixar a indiscutível importância da obra. Lamentar, em todo o caso, que uma edição desta magnitude não venha acompanhada de uma introdução ou posfácio que situem a poesia do autor no contexto do tempo. Ah! Também se esqueceram de dizer que o autor viveu entre 1936 e 2009.


Ana Matos Pires: «Não gosto do homem, não gosto da escrita do homem, mas essa coisa de se usar o “não ter estudos” e assim para o desancar parece-me poucochinho, que quereis!?»

Filipe Nunes Vicente: «Santos Silva ministro. Continuo a apreciar imenso o político e é um prazer vê-lo em debates: duro, bem preparado, retoricamente impecável. / Isto independentemente de concordar com ele ou não, obviamente.»

Luís Januário: «Eu até ontem lia um jornal chato. Agora leio o i. [...] O mundo do i é levezinho, curto, como uma brincadeira de crianças em que morremos e nos levantamos em seguida, ninguém se magoa e a Laurinda Alves faz pendant

Luis M. Jorge: «Diga-se de passagem que a qualidade da escrita é coisa pouco importante. Se o texto necessitar de metáforas fulgentes, devemos proporcioná-las ao leitor. Mas Defoe redigiu clássicos com uma prosa canalha e atamancada. Flaubert andou à caça de palavras repetidas para nos fazer bocejar a meio dos Trois Contes. E no limite do ataviado, que encontramos nós? Não Proust, nem James, mas o ilegível Finnegans Wake

Tomás Vasques: «Parece que o “senhor Nuno Cabral de Montalegre” comprou o Correio da Manhã, o qual, a partir de agora, só escreve sobre “folclore transmontano”. É o que me ocorre ao ler uma notícia sobre Manuela Moura Guedes, a heroína da luta contra a “repressão” e a “asfixia” democrática — uma espécie de Santa da Ladeira da comunicação social para alguns “asfixiados”. O Correio da Manhã quer “destruir a imagem” da nossa “libertadora”: Manuela Moura Guedes encontra-se de baixa médica, segunda palavras da própria, e estava às duas e meia da madrugada no BBC, como cabeça de cartaz no lançamento de um produto energético, a conselho da sua médica. E aí exerceu o seu direito à “asfixia democrática”, tentando impedir um fotógrafo de a fotografar e ameaçando com tribunais e outras sanções o exercício de liberdade de imprensa. Estou-me borrifando para o que Manuela Moura Guedes faz ou deixa de fazer na sua vida privada, mas aos “heróis” exige-se decoro e comportamentos coerentes. Não me atirem areia para os olhos.»

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Sábado, Outubro 24, 2009

VISTO DE ESPANHA


Estava a jantar no Atrio (a convite de amigos) de Toño Perez quando um telefonema de Lisboa me pôs ao corrente da constituição do novo governo. Na manhã de quinta-feira, assim que se soube que Ana Paula Vitorino, secretária de Estado dos Transportes do governo cessante, não participaria nos trabalhos da Agenda Feminista, juntamente com Joana Amaral Dias, Montserrat Boix, Manuela Tavares, Amelia Valcárcel, Pedro Pinto Matoso, Adriana Bebiano, Pilar Lucio, São José Almeida, Alicia Miyares, Maria Helena Santos, etc., a especulação disparou. Ocupado com uma leitura no Palacio de la Isla, no âmbito da Aula José María Valverde, só perto das 23h locais tive conhecimento dos nomes certos. Durante todo o dia, no Palacio da Diputación de Cáceres como no lounge do hotel, a rotação de pastas fora alucinante. Afinal, Sócrates mantinha os ministros óbvios, confirmava Isabel Alçada na Educação (um terço do jantar foi ocupado a falar de Maria de Lourdes Rodrigues) e desorientava o Meio com o convite a Gabriela Canavilhas. Tudo está bem quando começa bem?

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A REDE CHINESA


Buscas em escritórios e residências levaram a PJ a apreender software ilegal e milhares de documentos confidenciais que estavam na posse dos responsáveis da Trusted Technologies, empresa de Lisboa acusada de, através do GhostNet, piratear as redes de vários ministérios, em particular os da Justiça e dos Negócios Estrangeiros. Os responsáveis da Trusted Technologies foram constituídos arguidos.

Nunca se sabe se os famosos problemas do Citius, o programa informático do ministério da Justiça (obrigatório nos processos cíveis) que tanta celeuma tem causado junto dos agentes judiciários, unindo procuradores e juízes contra a tutela, não ficam agora aliviados com a aparente intersecção da rede “chinesa”. A ver vamos.

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Sexta-feira, Outubro 23, 2009

JOSÉ SARAMAGO


Hoje no Público:


Existe um “caso” Saramago? Existe. Oriundo do proletariado, José Saramago (n. 1922) conseguiu impor a obra à revelia da tutela universitária. Antes de chegar à literatura exerceu diversas profissões, entre elas as de serralheiro mecânico e jornalista. O primeiro livro foi o romance Terra do Pecado (1947), a que se seguiram Os Poemas Possíveis (1966), uma nova colectânea de poemas, volumes de crónicas e contos, Manual de Pintura e Caligrafia — o segundo romance, que em 1977 pôs a crítica de sobreaviso —, uma peça de teatro e, em 1980, a obra que o consagrou: Levantado do Chão. Não era ainda o unanimismo crítico e de público, que veio só com Memorial de Convento (1982), mas foi a partir dali que Saramago passou a contar. O resto é história: conhece Pilar Del Rio, separa-se de Isabel da Nóbrega, sucedem-se livros, traduções, prémios, teses e doutoramentos honoris causa; torna-se best-seller em vários países; Harold Bloom considera O Evangelho segundo Jesus Cristo (1992) equivalente ao melhor de Joyce, Proust e Kafka; estabelece residência na ilha espanhola de Lanzarote; recebe o Prémio Nobel da Literatura em 1998; uma Fundação com o seu nome ocupa a Casa dos Bicos em Lisboa, etc. Caim é o 19.º romance.

A problematização histórica tem sido o Leitmotiv da obra: conquista de Lisboa, tribunais da Inquisição, reinado de D. João V, construção do Convento de Mafra, Fernando Pessoa e a geração do Orpheu, repressão do Estado Novo, guerra civil espanhola, etc., temas aos quais dedicou algumas das suas melhores páginas.

Agora o patamar mudou. Considerando Deus como autor moral do assassinato de Abel, Saramago responsabiliza-O pelo crime de Caim. (Utilizo maiúsculas por convenção literária; no livro está tudo em minúsculas.) À laia de síntese, a frase promete. Infelizmente, Saramago dá um passo maior que a perna. Num país sem tradição teológica, com a literatura alheada da questão religiosa — Camilo e Eça ficaram pela anedota, Guerra Junqueiro foi um panfletário —, não admira que Caim claudique: «Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certificação canónica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela... etc.» Como desatar o nó da narrativa? Foi a declinação barroca que fez a fama de Saramago. A declinação barroca e o recurso a parábolas e alegorias. Nesse particular, não o podemos acusar de defraudar expectativas.

Saramago opõe a laicidade à cesura entre sagrado e profano. Nada contra. O óbice releva de inadequação discursiva: «As duas irmãs ficaram grávidas, mas caim, grande especialista em erecções e ejaculações como gostosamente o confirmaria lilith, sua primeira e até agora única amante [...] a coisa simplesmente não se lhe levanta, e se não se lhe levanta a coisa, então não poderá dar-se a penetração...» Não estamos em 1885, quando A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro, provocou tumultos de rua. Hoje, as peculiares idiossincrasias de Saramago não incomodam ninguém. Sobretudo porque o efeito “máquina do tempo” (Caim protagoniza episódios em épocas diferentes) anula o efeito de provocação.

Formatada para um público transnacional, a sua visão do mundo reflecte-se em obsessivas circunvoluções semânticas, pontuadas, aqui e ali, por termos e expressões estranhas ao contexto: «gatinhando entre a cozinha e o salão», «arame farpado», «porta-aviões», «colegas», «pessoal de limpeza» e outros. Das muitas vezes em que Deus — um indivíduo «rancoroso» que não hesita em deixar matar inocentes — é suposto dizer ‘faça-se’ ou, se preferirem, ‘assim seja’, Saramago escreve «fiat».

Lido Caim, ficamos com a sensação de que Saramago pretende confundir futuros exegetas da obra, a exemplo do Apóstolo Paulo (citado na contracapa) na carta dirigida aos Hebreus. Agora como então, o discurso baralha a genologia. Romance ou sermão?


Sermão aos incrédulos, in Ípsilon, 23-10-2009, pp. 38-39. Duas estrelas.

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Quinta-feira, Outubro 22, 2009

O tempo desfeito


Não será por acaso que a personagem central do filme se chama Lena (Magdalena), nem que sejam madalenas os bolos que ela oferece à amiga no filme dentro do filme. Abraços Desfeitos (Abrazos Rotos, 2009), de Pedro Almodóvar, é uma obra em que se multiplicam referências, não apenas proustianas, que, na sua totalidade, parecem apontar para uma percepção aguda da passagem do tempo, seja pela construção mais ou menos discreta de uma espécie de cânone pessoal do cinema (como na cena em que Diego, interpretado por Tamar Novas, procura um DVD e vai enumerando os títulos dos filmes que encontra), seja pela nostalgia inerente à construção de cenas que nos lembram outros filmes (por vezes, obras do próprio realizador, como o célebre Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios, de 1988). Assim sendo, as peripécias narrativas, apesar de alguma espectacularidade, vêem a sua importância relativizada, ou melhor, configuram­‑se claramente como um suporte do trabalho sobre o tempo que o filme propõe. A melhor prova disso é o carácter previsível de muitas delas (a relação biológica entre Diego e Mateo Blanco, interpretado por Lluis Homar, por exemplo), o que introduz na obra uma auto­‑ironia capaz de a preservar do ridículo para onde teria sido muito fácil deslizar. Terminar o filme, ainda que às cegas, como afirma a personagem do realizador, é a afirmação da mesma vontade de concluir a obra que importa ao narrador da Recherche, uma vontade que pode até implicar um combate contra a morte, sem tréguas, em que parece contar menos a vitória final do que a possibilidade de levar o trabalho até ao fim. E não será o rosto de Penélope Cruz, neste filme, uma encarnação quase perfeita da Albertine que morreu quando recuperou a liberdade?

Terça-feira, Outubro 20, 2009

Novo romance de Fernando Cabral Martins


Depois dos volumes de contos O Deceptista (2003) e Viagem ao Interior (2004), Fernando Cabral Martins regressa à ficção em livro com o romance A Flor Fatal, editado este mês pela Assírio & Alvim. Para antecipar a nova obra, que deve o título a uma epígrafe pessoana (recorde­‑se que FCM é também um conhecido especialista do modernismo português), o autor criou um blogue, cujas entradas são notáveis reflexões sobre a arte literária. Além disso, é ainda possível ler aqui as primeiras páginas do romance.

INTERMEZZO ESPANHOL


A partir de hoje vou estar em Cáceres, como participante do Ágora / La Voz en Espiral / El Debate Peninsular. Comigo vão estar, do lado português, António Carlos Cortez, Carlos da Veiga Ferreira, Fernando Pinto do Amaral, Helga Moreira, João de Melo e Manuel da Silva-Terra; e, do lado espanhol, Alfonso Alegre Heitzmann, Antonio Sáez Delgado, Emilio Torné, José Luis Puerto, Luis Sáez Delgado, Manuel Borrás, Miguel Ángel Lama, Miguel Casado e Perfecto E. Cuadrado. O Ágora vai discutir problemas de edição, revistas de poesia e poéticas contemporâneas. Na noite do dia 21, os poetas presentes lêem os seus poemas. Nos dias 22 e 23, à margem do Ágora, farei duas leituras da minha poesia (uma para estudantes, outra aberta ao público), no âmbito da Aula José María Valverde, a convite da Associação de Escritores. Dia 24 estou de volta.

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HERTA MÜLLER


Ler aqui a minha crónica Agenda & star system. Em 1987, quando fugiu da Roménia, Herta Müller era assim. O Nobel vinha longe.

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Segunda-feira, Outubro 19, 2009

A MATANÇA DO ARSENAL


A Noite Sangrenta, também conhecida por Matança do Arsenal, foi há 88 anos. Não sei o que ensinam nas escolas superiores de comunicação social, mas o aniversário seria um bom pretexto para explicar aos alunos o papel da imprensa — em particular do jornal Imprensa da Manhã, de Lisboa, que se vangloriou da “ajuda” — na preparação do 19 de Outubro de 1921. Nesse dia, foram os seus repórteres quem guiou os assassinos até António Granjo, chefe do governo (na imagem, ao centro), Botelho de Vasconcelos, Carlos da Maia, Freitas da Silva e Machado dos Santos, abatido na Almirante Reis. Os cinco eram opositores declarados dos radicais e, com excepção de Machado dos Santos, foram executados no Arsenal. Pais Gomes, o ministro da Marinha, escapou por acaso.

Motivo dos crimes? Vingar o assassinato de Sidónio Pais, morto a tiro na Estação do Rossio, em 14 de Dezembro de 1918. Oficial de artilharia, lente de matemática na Universidade de Coimbra, ministro de Portugal em Berlim, ministro do Fomento e ministro das Finanças nos governos de João Chagas e Augusto de Vasconcelos, presidente da Junta Revolucionária que em Dezembro de 1917 tomou o poder, Sidónio exercia o cargo como Presidente-Rei, à revelia da Constituição de 1911. A sua morte é apontada como causa próxima dos crimes do Arsenal.

Quem não tiver acesso à imprensa da época pode recorrer ao terceiro volume de memórias de Raul Brandão, Vale de Josafat, 1933.

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Domingo, Outubro 18, 2009

LER OS OUTROS


O/A Jugular fez ontem um ano. Quem não se lembra do 17 de Outubro de 2008? Entretanto o grupo alargou, com a entrada da Ana Vidigal no passado 25 de Setembro. O acto fundacional pode ser recordado aqui. A data foi assinalada com um torneio de pólo, em Santo Estêvão, no concelho de Benavente, a que se seguiu um jantar com vista para o rio, em Lisboa. O comendador Rafael Marques passou a correr por Santo Estêvão, mas faltou ao jantar (o Concílio Negacionista, promovido pela Ala Maneleira-R na Abrançalha de Baixo, tornou as agendas incompatíveis). Os festejos foram divertidíssimos. Para obviar acusações de snobbery, omito os nomes dos presentes. Ao jantar, depois de servida a Crab Bisque, a mesa entrou em vídeo-conferência com um deputado-jugular que à mesma hora jantava chez Jacques Cagna (14, rue des Grandes Augustins, St Germain, Paris), com Pedro Marques Lopes, que às zero horas seria elevado à categoria de Oficiante da Loja P7 (cf. Die Traumnovelle, de Arthur Schnitzler; se não tiver o livro, o DVD de Eyes Wide Shut, de Kubrick, serve), e com Daniel Cohn-Bendit, que desmentiu alegados encontros com Helena Matos. O plasma foi desligado quando chegaram os chouriços do Fundão. Para acompanhar o Raspberry Millefeuilles, o merlot (Má Partilha 2002) deu lugar ao sauternes (Château d’Yquem 2001). Ao café, Irene Pimentel foi iniciada como jugular. A desmobilização começou perto das 4 da manhã.


Uma nova e muitíssimo recomendável morada: A Regra do Jogo. Os autores são a Ana Paula Fitas, o Bruno Reis, o Carlos Santos, a Cláudia Köver, o Eduardo Graça, o Guilherme W. d’Oliveira Martins, o Hugo Mendes, o João Constâncio, o Luís Novaes Tito, o Paulo Ferreira e o Porfírio Silva. Margem esquerda, portanto.

O Jansenista: «Nos poucos momentos livres desta época frenética tenho tentado avançar nos Detectives Selvagens, de Bolaño. / Admito ser surpreendido mais lá para a frente, ou quando chegar ao magnum opus, o 2666. / Mas por enquanto a desilusão tem sido quase total. / É verdade que o tom se afasta claramente daquele estilo realista / mágico / miserabilista / mariachi / tapioca que tinha feito a glória da “latino literature”, uma coisa tão fiel à própria realidade latino-americana como o foram, outrora, os meneios de Carmen Miranda em relação à realidade “brasileña”. / Mas não sei se houve verdadeiro progresso. / No meio de muita alusão literária — ao nível do mais pedante name-dropping, refira-se — o romance cai no cliché mais previsível e ridículo. Uma alusão nebulosa à realidade, divagante, perenemente desfocada e errática, contrastando singularmente com uma precisão hiper-realista na descrição minuciosa, clínica, lúcida, obsessiva, do acto sexual, entre panegíricos à humilhação feminina e à promiscuidade do “macho pós-moderno” — eis no que se transforma um pretenso romance. / Farto de tableaux de chasse do baixo-ventre ando eu. / Vou avançar mais uns dias, mas se isto não melhorar abandono este rol grotesco de proezas de coelhinhos com cio. Talvez empreenda ler, no mesmo género, o Diário de Bridget Jones — ao menos dizem-me que cultiva, no assunto, alguma ironia e humor.»

Paulo Gorjão: «Se me chamasse Paulo Mota Pinto, depois do que se passou ontem, não demorava um minuto a apresentar a minha demissão do cargo de vice-presidente do PSD. Infelizmente, por inúmeras razões, algo me diz que não será essa a sua opção. Um dia, quem sabe, pode ser que Mota Pinto conte os pormenores do processo que o levou a proferir as declarações de ontem.»

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Sábado, Outubro 17, 2009

Livros ornamentais


Ao entrar, há dias, numa conhecida loja de mobiliário e artigos de decoração situada num dos maiores centros comerciais do país, deparei­‑me com duas ou três estantes enormes, daquelas que ocupam uma parede de alto a baixo, cheias de livros. Falo de livros verdadeiros e não daquelas lombadas ocas, habitualmente carregadas de dourados, que eram apontadas como a expressão caricatural do burguês ignorante e endinheirado; bem pelo contrário, aqui até havia algumas obras interessantes, como tive ocasião de reparar, dado que me detive por instantes a descobrir os títulos que, de forma inesperada, me haviam acolhido. Tratar­‑se­‑á, portanto, de uma nova (velha) moda de decoração de interiores, que reduz o livro à dimensão de adorno indispensável. Não sei se será também um sinal de um certo anacronismo deste objecto que nos habituámos a associar à literatura, ainda que esta possa muito bem escapar­‑se dele e ir refugiar­‑se nos ecrãs dos computadores ou nos livros electrónicos, por exemplo. Seja como for, ocorreu­‑me que, muito provavelmente, teria sido possível a alguém roubar um daqueles livros e retirar­‑se da loja sem ser detectado por qualquer alarme, pois nenhum sistema de detecção de roubo deve ter sido instalado nos livros. Ainda que seja de admitir que eles estejam ali para venda, acompanhando a estante que decoram, creio que os funcionários da loja só detectariam a falta de um deles se o título em questão fosse tão volumoso que a sua ausência originasse um buraco indisfarçável numa fileira de lombadas.

O DETONADOR


Por que será que o PSD ainda consegue surpreender-nos? O episódio da renúncia de João de Deus Pinheiro, 30 minutos depois de tomar posse como deputado, não pode ser mascarado com desculpas de cansaço. Quem anda cansado não aceita ser cabeça-de-lista. Para homens como Deus Pinheiro, o Parlamento seria sempre um rito de passagem a caminho do governo que abortou de forma espontânea no passado 27 de Setembro. E quem diz Deus Pinheiro diz Pacheco Pereira, Paulo Mota Pinto e outros pesos pesados da intelligentzia do partido.

Como se não bastasse, outro nome sonante das elites credíveis, José Pedro Aguiar-Branco, avançou sem dar cavaco para a liderança da bancada parlamentar. O resultado foi o que se viu: um sururu dos antigos. Gente conspícua, fazendo tábua rasa das regras da democracia, pôs a circular a tese do golpe palaciano. Ao fim do dia, Manuela Ferreira Leite, contra a opinião de outros vices, viu-se obrigada a declarar o seu apoio, «a título pessoal», ao ministro da Justiça do governo de Santana Lopes. Naturalmente, o voluntarismo de Aguiar-Branco fornece um óptimo pretexto de renúncia aos dois ou três barões que tinham ambição mais alta que São Bento.

E ajuda a precipitar a sucessão. No momento em que homens extremamente cautelosos como Rui Machete e António Capucho apostam publicamente numa solução rápida — ou seja: substituir Manuela Ferreira Leite antes da discussão do Orçamento Geral do Estado —, o gesto de Aguiar-Branco tem a carga de um detonador.

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Sexta-feira, Outubro 16, 2009

JOHN KEEGAN


Hoje no Público:


O historiador britânico John Keegan (n. 1934) tem três livros traduzidos no nosso país. Um deles, Uma História da Guerra (1993), saiu agora em formato de bolso. Keegan, professor durante vários anos na Real Academia Militar de Sandhurst, na Universidade de Princeton e no mítico Vassar College (Poughkeepsie, Nova Iorque), abandonou o ensino para se dedicar a assuntos de Defesa.

Sem recurso a qualquer tipo de proselitismo ou especulação, este livro — A History of Warfare no original — faz da guerra um tema aliciante. Para facilitar a leitura aos não especialistas, Keegan dividiu-o em cinco capítulos. Melhor dito, num longo preâmbulo que situa a guerra na história da humanidade e, de seguida, em quatro períodos autónomos: Pedra, Carne, Ferro e Fogo. O método estabelece o fio condutor da narrativa, permitindo ao leitor comum avaliar o contexto e as idiossincrasias de cada momento histórico.

Não admira que comece por Clausewitz. Toda a gente ouve citar Clausewitz, [general da Prússia, 1780-1831] mas nem toda a gente sabe exactamente quem foi o autor de conceitos como os de «duplo patriotismo», “guerra real / guerra verdadeira”, e outros. Afinal, basta recuar a 1941, quando os oficiais ultranacionalistas japoneses desobedeceram ao imperador, para perceber o sentido das palavras do autor de Vom Kriege (1832). Keegan reflecte com ironia que não é por acaso que os marxistas, Lenine em particular, tinham Clausewitz em alta conta: «Num certo sentido, a solução de Clausewitz para o seu dilema militar aproxima-se muito da solução encontrada, alguns anos depois, por Marx para o seu dilema político. Ambos foram educados no ambiente cultural do idealismo alemão...»

Na prosa escorreita e informada de Keegan, um assunto árido como o da origem dos regimentos torna-se matéria de interesse geral. A institucionalização e ulterior profissionalização dos exércitos “arbitrários”, que foram a norma europeia até meados do século XV, encontra a sua expressão máxima nos actuais corpos de elite das forças armadas das grandes potências. Bem vistas as coisas, as compagnies d’ordonnance de Carlos VII de França foram as precursoras das Forças Delta americanas, das SAS britânicas, etc. Talvez seja por isso que Vom Kriege continue tão actual.

Um dos aspectos mais desconcertantes da obra diz respeito aos apelos à “guerra santa”, ideia que o lugar-comum associa ao Islão. No entanto, em Agosto de 1914, foram os reitores das universidades bávaras quem, em nome do furor teutonicus, apelou à guerra santa como forma de obviar à destruição da cultura alemã pelos «bárbaros do Leste». O resultado foi o tristemente célebre «massacre dos inocentes»: um total de 36 mil estudantes foram dizimados em três semanas, «número quase equivalente ao total de baixas norte-americanas ao longo de sete anos de guerra no Vietname.» A vala comum onde jazem encontra-se encimada com as insígnias das universidades alemãs. Um dos sobreviventes da “guerra santa” de 1914 chamava-se Adolf Hitler.

A descoberta e uso da fissão nuclear — a que Churchill se referia como sendo a «ressurreição da raiva» —, bem como a doutrina de dissuasão mútua a que deu azo, remetem de novo para Clausewitz e para a guerra como extensão da política.

Publicada em 1993, esta obra de Keegan cobre todos os conflitos de relevo até ao fim da primeira Guerra do Golfo (1991). São coisas diferentes, os rituais da Idade da Pedra e a bomba de Hiroxima, as legiões romanas e os regimentos prussianos, a arte da cavalaria e o poder da pólvora, o cavalo e o foguete V-2, a guerra da secessão americana e a guerra do Vietname. De tudo isso, a erudição de Keegan faz um patchwork notável.

Graficamente irrepreensível, esta edição de bolso de Uma História da Guerra inclui dezenas de ilustrações, mapas, notas, bibliografia e índice remissivo. Um livro perfeito.


Da Guerra, in Ípsilon, 16-10-2009, p. 41. Cinco Estrelas.

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Quinta-feira, Outubro 15, 2009

TO BE, OR NOT


João de Deus Pinheiro, cabeça-de-lista por Braga por imposição de Manuela Ferreira Leite, renunciou ao mandato de deputado 30 minutos depois de tomar posse. Para o seu lugar avança o seguinte da lista. Quando as renúncias (ou as substituções superiores a 30 dias) obrigarem a votação intercalar, como acontece por exemplo no Reino Unido, a mama acaba. Até lá é um fartar vilanagem.

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PRÉMIO DO PEN CLUBE


Um júri presidido por Maria João Reynaud, tendo como vogais Isabel Pires de Lima e Artur Anselmo, atribuiu por unanimidade o Prémio de Ficção do PEN Clube a Myra de Maria Velho da Costa. Parabéns, Maria de Fátima!

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A TRANQUIBÉRNIA


A mesma direita que durante três anos diabolizou a ERC, confunde-a agora com o nirvana. Porquê? Porque a Entidade Reguladora para a Comunicação Social reprovou «o facto de a administração da TVI ter interferido na esfera de competências da direcção de informação, [ao extinguir, no passado 3 de Setembro, o Jornal Nacional de Sexta de Manuela Moura Guedes] o que se afigura contrário à lei e lesivo da autonomia editorial e dos direitos dos jornalistas.» A deliberação terá como consequência um processo para apuramento de responsabilidade contra-ordenacional.

Se e quando o processo apurar essa responsabilidade, a Media Capital pagará a coima devida, nunca superior a 15 mil euros. Bernardo Bairrão, administrador-delegado da Media Capital, disse logo em Setembro que o Jornal Nacional de Sexta era contrário ao padrão de exigência da TVI. Por ele, tinha acabado há mais tempo.

Foi esta a segunda vez que a ERC se debruçou sobre o Jornal de Sexta. Em Maio, analisou dez queixas apresentadas contra Manuela Moura Guedes, tendo então deliberado contra a TVI, por manifesto «desrespeito de normas ético-legais aplicáveis à actividade jornalística.»

A decisão de anteontem não significa que a ERC tenha descoberto a roda. Legalmente, quem decide conteúdos são as direcções editoriais, não são as administrações. É escusado dar pinotes. Nem a ERC tem poder para obviar à ilegalidade patronal (esse tipo de conflito compete aos tribunais dirimir), nem a Media Capital está interessada em repor a tranquibérnia.

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Livros na Rádio Universitária do Minho


Hoje, quinta­‑feira, a partir das 21:00h, serei o convidado de António Levy Ferreira no programa Livros com RUM, da Rádio Universitária do Minho. A conversa, que terá como pretexto a recente publicação pela Deriva do meu romance O Mundo Sólido, poderá ser acompanhada na emissão online ou sintonizando o rádio em 97.5 FM. O programa repete aos domingos, a partir das 20:00h, e é mais tarde disponibilizado em podcast no sítio da RUM.

Quarta-feira, Outubro 14, 2009

MICHELLE & O CAPO





Como as imagens mostram, o protocolo já não é o que era. Michelle Obama dá beijinhos a Brown e a Medvedev, mas estende a mão a Berlusconi, apesar da insistência do capo. Aconteceu na última cimeira do G20.

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NÃO OBSTANTE


Generosidade sua, Tiago. Já não tenho idade para «tocar com os dedos dos pés no alto da cabeça». Era bom, era, mas era quando tinha a sua idade (nem V. calcula do que eu era capaz). Falando agora de coisas sérias, a ver se a gente se entende. Eu não digo, em lado nenhum, que os protestos de rua, o alto índice do desemprego, o “caso” Freeport, o “incómodo” da ASAE, a polémica à volta do novo aeroporto de Lisboa, a contestação dos professores, as campanhas negras da TVI, os processos a jornalistas, o Belémgate, a crise económica internacional e o endividamento dos portugueses não sejam reais. O que eu digo, aqui, é que apesar desses incidentes o PSD não foi capaz de ganhar as eleições. Mais: o PSD credível, apoiado, não por um, mas por dois “Karl Rove” de peso — José Pacheco Pereira e Paulo Mota Pinto —, o que significa um patamar de pensamento vários furos acima da clique acaciana (Eduardo Azevedo Soares, José Luís Arnaut, José Pedro Aguiar-Branco, Luís Marques Guedes, etc.), se mostrou incapaz de revelar uma ideia ao país. E os eleitores reagiram em conformidade, em dois actos eleitorais com quinze dias de intervalo. Tão simples como isto. Conclusão: imagine o que seria sem os empecilhos que o governo de José Sócrates teve de tornear.

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Terça-feira, Outubro 13, 2009

PRÉMIO LEYA


Com o original do romance O Olho de Hertzog, o historiador João Paulo Borges Coelho (n. 1955) venceu hoje a segunda edição do Prémio LeYa, no valor de cem mil euros. Natural do Porto, Borges Coelho foi viver para Moçambique ainda criança, sendo hoje cidadão e escritor moçambicano. Doutorado em História por Bradford (UK), é professor de história contemporânea na Universidade Eduardo Mondlane, de Maputo, e professor convidado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa no mestrado em História de África. À margem da actividade académica, publicou dois álbuns de banda desenhada e os seguintes romances e colectâneas de contos: As Duas Sombras do Rio (2003), As Visitas do Dr. Valdez (2004, Prémio José Craveirinha), Índicos Indícios I. Setentrião (2005), Índicos Indícios II. Meridião (2005), Crónica da Rua 513.2 (2006), Campo de Trânsito (2007) e Hinyambaan (2008). A guerra colonial e a guerra civil são o Leitmotiv da obra ficcional. O Olho de Hertzog centra-se nos «combates das tropas alemãs contra as tropas portuguesas e inglesas na I Guerra Mundial, na fronteira entre o ex-Tanganica e Moçambique, o confronto entre africânderes e ingleses, a emigração moçambicana para a África do Sul, a reacção dos mineiros brancos, as primeiras greves dos trabalhadores negros e a emergência do nacionalismo moçambicano, nomeadamente através da imprensa e dos editoriais do jornalista João Albasini.» (cf. acta do júri) Se não conhece o autor, procure os livros, todos editados pela Caminho. Vai ver que não se arrepende. Muito pelo contrário! Parabéns, João Paulo.

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MUDAR DE KARL ROVE


Desde que foi eleito secretário-geral do Partido Socialista, em 24 de Setembro de 2004, José Sócrates tem sido acusado de tudo. Isso não o impediu de ganhar as legislativas de 2005 com maioria absoluta e as de 2009 com maioria relativa. Sublinhar que a vitória de há quinze dias foi obtida contra uma coligação negativa de sete corporações: sindicatos, magistrados, jornalistas, professores, médicos, farmacêuticos e militares. Anteontem, o PS ganhou as autárquicas, obtendo mais votos, mais mandatos e mais presidências de câmara do que nas autárquicas de 2005. Contra os 22,95% do PSD, o PS obteve 37,66%.

Lembrar aos distraídos que 28 câmaras do PSD foram conquistadas pelo PS: Leiria, Figueira da Foz, Trofa, Ourém, Castelo de Paiva, Barcelos, Terras de Bouro, Vieira do Minho, Alfândega da Fé, Miranda do Douro, Oliveira do Hospital, Penacova, Tavira, Vila do Bispo, Manteigas, Mêda, Mesão Frio, Castro Daire, Mangualde, Moimenta da Beira, Tabuaço, Vila Nova de Paiva, Valença, Povoação, St.ª Cruz da Graciosa, Velas, Vila Franca do Campo e Lajes do Pico (as últimas quatro nos Açores). E outras seis conquistadas ao PCP: Beja, Viana do Alentejo, Vila Viçosa, Marinha Grande, Monforte e Aljustrel.

Imaginem o que seria sem a rua em brasa, desemprego, Freeport, férias dos juízes, ASAE, novo aeroporto de Lisboa, avaliação de professores, affaire Independente, IVG, Cova da Beira, Estatuto dos Açores, leis fracturantes, TVI, projectos de maisons, pré-dissidência de Manuel Alegre, reforma da Segurança Social, Código do Trabalho contra a esquerda, processos a jornalistas, Belémgate, crise económica internacional, endividamento da população, Quimondas, fronda anti-TGV, axfixia democrática, etc. Ou muito me engano, ou o PSD vai ter de substituir os seus Karl Rove.

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BEST OF AUTÁRQUICO


Bernardo Pires de Lima: «A noite televisiva de ontem parecia um filme de terror. [...] em Lisboa, Santana “morreu” pela milésima vez em trinta anos de política. / Além disto há a registar um morto, algumas escaramuças e um conjunto de comentadores televisivos que, coitados, se entreteram a encher chouriços sobre o Alandroal, Sabugal, Carregal do Sal e restantes terras acabadas em al. No final, ganharam todos, em especial Pacheco Pereira.»

Daniel Oliveira: «[...] O BE foi incapaz de mostrar, pelo compromisso em participar no governo da cidade e pela sua prática nos últimos dois anos em Lisboa, qualquer vontade de tornar realmente útil o voto que nele fosse depositado. / O Bloco subalternizou Lisboa à estratégia nacional, onde qualquer proximidade com o PS seria vista como uma traição, e pagou em Lisboa o preço dessa subalternização. [...]»

Eduardo Graça: «[...] A tragédia da candidatura de Santana Lopes a Lisboa (e, não esqueçamos, também de Portas e Bagão Félix…), é emblemática da tragédia do PSD. [...]»

Luís Novaes Tito: «[...] A votação em Lisboa revela um sério aviso às forças de contra-poder. Ou tratam de defender os interesses dos seus eleitores assumindo as responsabilidades da governação e aplicando as teorias que defendem, ou perdem a sua confiança. Santana Lopes até fez o raciocínio correcto na noite das eleições mas, como não podia deixar de ser e na mesma onda romanceada de Manuela, Aníbal e José, preferiu perder-se em fantasias de espionagem e de conspiração e deixou escapar o “acordo secreto” para dramatizar a deslocação dos votos assertivos. [...]»

Miguel Abrantes: «Marcelo elogia Santana, Pacheco também. Parece que está em curso uma recomposição da boa e da má moeda.»

Paulo Gorjão: «O grande derrotado de ontem foi o Bloco de Esquerda. [...] O PS é o partido mais votado e, na minha opinião, o vencedor. [...]»

Rogério da Costa Pereira: «O que a nível autárquico aconteceu ontem ao PP e ao BE é, muito justamente, a spitting image do que aqueles partidos são — como em: a imagem que o povo deles tem — a nível nacional. O primeiro mostrou que o papel que lhe reserva o país é o de lhe permitir o poder (apenas) quando coligado com os PSD. O BE — que lhe falta o Zé — mostrou que não passa de um partido de protesto — não passará nunca. Se esta realidade, que é só uma, se esbate ligeiramente a nível nacional, a nível local revela-se em todo o seu esplendor. [...]»

Rui Bebiano: «Sem rodeios: o principal vencido destas eleições autárquicas foi o Bloco de Esquerda. Mas a derrota só terá admirado quem viva demasiado fechado sobre o seu próprio universo de convicções. [...]»

Valupi: «Louçã discorreu acerca dos resultados autárquicos do Bloco e não falou de Maria de Lurdes Rodrigues. É inacreditável.»

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Segunda-feira, Outubro 12, 2009

INDIGITADO


No dia em que os resultados oficiais das legislativas do passado 27 de Setembro foram publicados em Diário da República, o Presidente da República convidou José Sócrates a formar novo governo.

Vejamos os resultados dos dois maiores partidos:

PS / 2.077.238 votos / 36,56% / 97 deputados
PSD / 1.653.665 / 29,11% / 81 deputados

É interessante verificar que a direcção credível de Manuela Ferreira Leite obteve, há quinze dias, apenas mais 240 votos do que Santana Lopes em Fevereiro de 2005, altura em que o Menino Guerreiro obteve 1.653.425 votos.

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PODER LOCAL


O Partido Socialista venceu as autárquicas. Teve mais votos e mais mandatos do que em 2005 (e mesmo mais votos do que no passado 27 de Setembro), passando de 110 para 131 presidências de câmara. Conservou Lisboa, onde obteve maioria absoluta. Foi a 1.ª vez, desde 1976, que em Lisboa o PS ganhou sozinho contra a coligação da direita.

PS / Números nacionais: 37,66% / 2.083.280 votos / 918 mandatos / 131 câmaras.

O PSD continua a presidir à Associação Nacional de Municípios, pois detém 138 presidências de câmara, a maioria das quais obtidas em coligação com o CDS-PP. Relativamente a 2005, o PSD perdeu 19 câmaras. Conservou o Porto, onde obteve maioria absoluta.

PSD / Números nacionais: 22,95% / 1.269.251 votos / 641 mandatos / 138 câmaras.

O PCP conserva 28 das 32 câmaras obtidas em 2005.

O CDS-PP conserva Ponte de Lima, vila com cerca de três mil habitantes (sede de um município com 44 mil). No resto do país o CDS-PP foi decisivo para o resultado do PSD.

O Bloco de Esquerda conserva Salvaterra de Magos, vila com cerca de cinco mil habitantes (sede de um município com 20 mil). No resto do país o BE não existe. Não conseguiu eleger nenhum vereador em Lisboa e no Porto.

Candidatos independentes obtiveram a presidência de 7 câmaras.

Isaltino Morais (ind) obteve uma estrondosa vitória em Oeiras. Fátima Felgueiras (ind) foi derrotada em Felgueiras.

O melhor comentário da noite eleitoral foi de Marques Mendes: «Antes de escolher a nova direcção, o PSD terá de fazer uma reflexão profunda... À medida que o país se torna mais urbano, o PSD torna-se mais rural, descaracteriza-se, perde influência nos meios empresariais, nos meios académicos e junto da juventude. Porquê?» (citação livre).


[Na imagem, roubada ao Porfírio Silva, vemos Jorge Sampaio numa secção de voto de Lisboa. Clique para ver melhor.]

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LISBOA GANHOU


Com 123.372 votos (44,01%) e 9 mandatos, António Costa ganhou a Câmara de Lisboa com maioria absoluta, vencendo em 39 das 53 freguesias da cidade.

Com 108.457 votos (38,69%) e 7 mandatos, Santana Lopes foi derrotado.

Com 22.623 votos (8,07%) e 1 mandato, a coligação do PCP com os Verdes viu penalizada a desunião da esquerda.

Como era de esperar, o Bloco de Esquerda (4,56%) não conseguiu eleger Luís Fazenda.

Ontem, o Partido Socialista aumentou o número de votantes no concelho de Lisboa (como, aliás, no conjunto do país). Agora vou dormir.

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Conta­‑me como foi


Comprei o número 171 da regressada Colóquio/Letras, relativo a Maio/Agosto de 2009, numa livraria dita de referência. A vendedora perguntou­‑me se aquilo era uma revista e se era sempre o Eduardo Lourenço quem a dirigia. Compreende­‑se, pois claro: a rapariga era muito nova, ainda devia usar fraldas quando a Colóquio deixou de ser publicada.

Domingo, Outubro 11, 2009

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Em Portugal, entre os grandes do século XX, o argentino Jorge Luis Borges [1899-1986] talvez seja o mais consensual. Não há cão nem gato que não tenha lido e comentado (faço parte do grupo). É assim há quase 40 anos. Teve bons tradutores — Ruy Belo, António Alçada Baptista, Fernando Pinto do Amaral (a poesia toda), José Bento, Helder Moura Pereira, José Colaço Barreiros, Wanda Ramos e outros —, fortuna crítica e o fervor de leitores omnívoros. Tudo merecido. A imprensa cultural fez o resto. Nos anos 1980, não citar Borges era considerado crime público. Depois de dezenas de edições avulsas em todo o tipo de editoras, a Teorema e o Círculo de Leitores editaram, em 1998 e em quatro volumes, as Obras Completas. Biografias e para-biografias também as há traduzidas. Agora chegou o Jorge Luis Borges de Jason Wilson (Critical Lives, 2005). Wilson é professor de literatura latino-americana do University College de Londres, autor de, entre outras obras, Buenos Aires: a Cultural and Literary Companion (1999). Partindo do pressuposto de que Borges «não tem um eu fixo», Wilson conclui que o autor de O Aleph dramatiza «uma versão irónica de si mesmo» em tudo o que escreveu. (Para quem não saiba, o protagonista de O Aleph, Carlos Argentino Daneri, é uma caricatura de Neruda, apresentado como imitador de Whitman e poeta néscio.) Dividido em seis partes, o livro de Wilson percorre a vida de Borges: origens, amizades, amores, cegueira, livros e viagens. Não se trata de uma biografia canónica, é um ensaio biográfico de grande fôlego (174 pp), que se lê com indiscutível prazer. Na mesma colecção, a Fio da Palavra publicou obras dedicadas a Picasso e Walter Benjamin, estando anunciadas outras sobre Foucault, Wittgenstein, Frank Lloyd Wright e Eric Satie.



Bernardo Pires de Lima: «Como era de esperar após os resultados do referendo irlandês, David Cameron está aos poucos a deixar cair a exigência de referendar o Tratado de Lisboa caso chegue a Downing Street. Ficar isolado entre os 27 é tudo o que ele não precisa. Assim como a União também não enjeitará uma Grã-Bretanha forte e no centro das suas políticas. Sobretudo de segurança. Well done, Dave

Fernanda Câncio: «[...] A cidade não é uma abstracção: somos nós. É o que fazemos dela. [...] Das eleições de dia 11 só pode sair um presidente da câmara repetente, e isso é bom. Podemos decidir com base no que sabemos de cada um como autarca: já experimentámos o produto. Mas por mais importante que seja o resultado — e é — há uma grande parte do trabalho que é nosso. Democracia também é isso: fazermos o que nos compete, sermos cidadãos. Vem daí a palavra cidade.»

Paulo Gorjão: «[...] Aqueles que foram mais papistas do que o papa ficaram sem tapete debaixo dos pés. Afinal, a oposição sempre será responsável — e eu acrescentaria prudente — como não poderia deixar de ser. Os papistas, em vez de andarem entretidos a detectar supostas quintas colunas, mais valia que parassem cinco minutos para pensar pelas suas próprias cabeças. Realmente, o bom senso é um bem escasso.»

Valupi: «[...] O caso Charrua ficará como exemplo maior da desonestidade intelectual da oposição e dos demagogos. Continua a ser explorado por todos aqueles em quem não podemos confiar as chaves da Cidade. Curiosamente, só numa sociedade onde não há qualquer perseguição política, e a liberdade de expressão é desfrutada na sua plenitude, é que um conflito banal se poderia tornar bandeira corporativa e matéria de calúnia. É porque não há mais nada para pôr no prato, lá está. Contudo, a verdade continua a mesma, com ou sem Sócrates na equação: para discutirmos as opções de Margarida Moreira, e do director de serviço que denunciou o professor, não é preciso ofender a inteligência própria, quanto mais a alheia. Ou será que os bravos defensores do Charrua garantem, sendo poder, umas máquinas já mais 2084 que anulem o livre-arbítrio das margaridas moreiras desta e doutras administrações públicas? Porque do caso, ironia das ironias, o que fica é uma única evidência: em 4 anos e meio de perseguição feroz aos coitadinhos dos professores, os velhacos socráticos apenas conseguiram apanhar um — e foi preciso esse mártir da resistência ter usado o espaço laboral para ameaçar os pilares do regime no renovo do estatuto da senhora mãe do Primeiro-Ministro. / Não comprem um tractor, não.»

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Sexta-feira, Outubro 09, 2009

LISBOA A VOTOS. ÚLTIMOS ESTUDOS


CESOP [Universidade Católica] / Diário de Notícias, RTP, Antena Um, Jornal de Notícias:

Costa / PS — 45,0%
Santana / PSD+CDS-PP+PPM+MPT — 33,0%
Ruben / CDU — 9,0%
Fazenda / BE — 8,0%

Outros+Brancos+Nulos — 5%


Marktest / Semanário Económico:

Costa / PS — 45,0%
Santana / PSD+CDS-PP+PPM+MPT — 37,9%
Ruben / CDU — 7,3%
Fazenda / BE — 5,4%

Outros+Brancos+Nulos — 4,4%


Aximage / Correio da Manhã:

Costa / PS — 43,5%
Santana / PSD+CDS-PP+PPM+MPT — 37,6%
Ruben / CDU — 6,3%
Fazenda / BE — 5,9%

Outros+Brancos+Nulos — 4,7%


Eurosondagem / Expresso, SIC, Rádio Renascença:

Costa / PS — 41,9%
Santana / PSD+CDS-PP+PPM+MPT — 36,9%
Ruben / CDU — 8,4%
Fazenda / BE — 8,0%

Outros+Brancos+Nulos — 4,8%

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NOBEL DA PAZ


Estava escrito nas estrelas.

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ANTÓNIO LOBO ANTUNES


Hoje no Público:


As biografias são um trabalho ingrato. Exigem tempo, paciência e distância crítica. Em Portugal há outro óbice: o puritanismo. Não admira pois que o jornalista João Céu e Silva chame «retratos biográficos» às quatro grandes entrevistas que fez com Álvaro Cunhal (2005), Miguel Torga (2007), José Saramago e António Lobo Antunes. As duas últimas foram publicadas em 2009, a primeira em Março, a segunda em Setembro. O título da série mantém-se: Uma longa viagem com.... A de António Lobo Antunes (n. 1942) chega quando se completam 30 anos de publicação de Memória de Elefante (1979). É nela que vamos centrar-nos.

Logo a abrir, João Céu e Silva dá conta de dificuldades de comunicação: «Se às vezes, bastantes, me telefonava a convocar, outras vezes, ordenava a alguém da editora para o fazer. Assim, recebi meia dúzia de recados da Dom Quixote a dizer que a sessão da próxima sexta-feira não se poderia realizar a troco de uma qualquer explicação descabida...» (o uso dos verbos convocar e ordenar parece-me sintomático). Somos igualmente advertidos das inevitáveis repetições: Lobo Antunes volta incessantemente aos mesmos temas. As entrevistas realizaram-se em Lisboa, Nova Iorque, Boston e Washington, entre 24 de Setembro de 2007 e 11 de Maio de 2009.

Como de regra em Portugal, não há contraditório. Lobo Antunes lava o fígado a solo. Sobre Saramago, o grande rival, começará por dizer que se conheceram em 1983, «estávamos os dois no início». Sucede que Saramago publicou, até 1982, catorze livros: romances, contos, poemas, crónicas, etc. Lobo Antunes tem uma peculiar concepção de começo. O biógrafo não contraditou.

Por vezes, é Lobo Antunes quem faz as perguntas. Tem curiosidade em saber se José Pacheco Pereira é «um homem decente». Sobre o que ele escreve tem opinião formada: «Escreve mal, mas tem ideias e não é nada parvo. Eu li o livro dele sobre o Álvaro Cunhal e é bom, é interessante.» Sobre os mais novos também faz perguntas. Fica espantado no dia em que sabe que Gonçalo M. Tavares e José Luís Peixoto vão ser colunistas da Visão. Comenta: «Eu nunca os vi. Conhece o que eles fazem?» Mais tarde saberemos que Tavares lhe ofereceu livros no Parque Eduardo VII e que Peixoto foi assistir a uma conferência sua em Nova Iorque. Pedro Mexia é tratado como «um senhor que eu não conheço». O visado já desmentiu. A 30 de Outubro de 2007, Miguel Sousa Tavares merece-lhe o seguinte comentário: «É meu cunhado e agora também quer ser escritor.» Quando João Céu e Silva faz notar que José Rodrigues dos Santos foi o autor que mais vendeu no Natal de 2008, Lobo Antunes interpela-o: «Mas está a falar de escritores ou de livros? Há pessoas que escrevem e há escritores. Não sei do que está a falar.» E assim sucessivamente. Ninguém como ele. Se duvida, pergunte a Steiner ou Harold Bloom. A recomendação é dele. Gregory Rabassa, o tradutor americano, fala de Proust e Joyce para classificar Que farei quando tudo arde? (2001). Não admira que, quando a Dom Quixote foi comprada pelo Grupo Leya, Lobo Antunes tenha exigido tratamento diferente dos outros autores da casa.

O que é que se salva? A polícia melhorou: «Sabem falar, sabem escrever — tinham lido livros meus —, enquanto antigamente eram uns selvagens.» Mário Cláudio parece-lhe «um escritor despretencioso», embora não conheça bem a obra dele. Poucos são poupados ao azedume: José Cardoso Pires, Ernesto Melo Antunes, Tereza Coelho, Christian Bourgois e o cubano Reinaldo Arenas: «O Arenas era um homem muito bonito, com uma cara de camponês. [...] Chegava a mamar cem gajos por dia em Cuba, era o regimento inteiro.» Arenas telefonou-lhe no dia em que se matou.

O melhor do livro é o intervalo dedicado à operação ao cancro, bem como algumas reflexões sobre a guerra colonial. O resto é quase só gossip literário: entre as pp. 294-296, Lobo Antunes faz um exaustivo tour d’horizon ao século XX português: Raul Brandão «não sabia estruturar um livro», Ricardo Reis é «pindérico», José Régio uma «pepineira», Fernando Namora uma «merda», etc. A questão das traduções de autores portugueses no estrangeiro é bem observada: editoras marginais, invisibilidade total. Mesmo assim, toda a gente (Cláudio e outros) lhe pede que leve livros lá para fora. Para quê? Para «depois poder pôr ali à entrada do livro que foi traduzido em não sei que língua...» Nanja ele. Ele faz parte dos «cinco ou seis caramelos» que estão sentados à mesa dos grandes grupos editoriais. Para que conste.

A fechar, Lobo Antunes revela que José Sócrates pensou fazer lobbying a seu favor junto da Academia Sueca. Mas ele faltou ao jantar em que tudo seria combinado.

Esta “longa viagem” é um monólogo de 494 páginas. O volume inclui dezenas de fotografias.


O esplendor de Si, in Ípsilon, 9-10-2009, p. 42. Duas estrelas.

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Quinta-feira, Outubro 08, 2009

NOBEL DA LITERATURA


Este ano o Prémio foi um dia mais cedo. A vencedora foi a escritora alemã de origem romena Herta Müller (n. 1953). Müller nasceu em Nitchidorf, na Roménia, tendo começado a publicar em 1982. Em 1987 foi viver para a Alemanha, onde se consagrou como escritora: vinte e dois títulos, sendo o mais recente Atemschaukel (2009). Em Portugal estão publicados O homem é um grande faisão sobre a terra (1993, Cotovia) e A terra das ameixas verdes (1999, Difel). Além de romancista, Müller é poetisa e ensaísta. A sua obra está associada ao conceito de Weltliteratur.

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Clique na imagem. Um dos livros da nova colecção foi comentado aqui.

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