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O ensaio literário de grande qualidade marca as novas colecções da Deriva. No âmbito de uma parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, da Faculdade de Letras do Porto, terão início as colecções Pulsar e Cassiopeia. Na primeira, publicar‑se‑ão livros de pequeno formato e de baixo custo, especialmente destinados a um público maioritariamente estudantil, mas que não deixarão de suscitar interesse nos outros leitores. Para tal, basta notar que os três primeiros autores desta colecção são Jean‑Pierre Sarrazac (com A Invenção da Teatralidade seguido de Brecht em Processo e O Jogo dos Possíveis), Pascal Quignard (com Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos) e Antoine Compagnon (com Literatura: Por Que Fazer?). Quanto à Cassiopeia, que se destinará a acolher estudos literários, abrirá com um inédito de Pedro Eiras, intitulado Tentações: Ensaio sobre Sade e Raul Brandão. Para mais informações, pode consultar‑se o blogue da editora.

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Talvez se possa falar desta revista como de uma publicação de âmbito antropológico, mas o mais exacto será dizer que ela se abre à multiplicidade de relações que o corpo entretece com o mundo. No seu número 13, datado de Junho deste ano, há vários textos a merecerem destaque. Entre eles, conta‑se o ensaio de Luís Quintais sobre Crash, de J. G. Ballard, que pretende saber de «que forma é que a literatura cooptou um dos dados mais fundamentais da experiência moderna: a presença incontornável (e o lado inexorável dos processos que essa experiência reclama) de uma paisagem radicalmente transformada pelo concurso da ciência, ou melhor, da tecno‑ciência» (p. 17). Ainda hoje me lembro de ter assistido ao filme que Cronemberg fez a partir do romance de Ballard e de, à saída do cinema, ter tentado defender a obra do realizador perante quem a vira comigo. As ideias de contaminação e de impureza pareciam‑me essenciais para compreender aquele objecto quase provocatório, ao mesmo tempo que se mostravam como os pontos decisivos para que eu defendesse o filme e o considerasse tão relevante. Por outras palavras diz Quintais o mesmo quando faz notar que a cidade de Ballard se apresenta como um «laboratório onde acidente e simulação se afiguram os dois vértices experimentais de uma complexa encruzilhada de hipóteses em torno de uma natureza humana infiguravelmente plástica e, em última instância, opaca» (p. 22).
Para essa direcção também se encaminha a entrevista que Christine Buci‑Glucksmann concedeu a Jorge Leandro Rosa, onde se pode ler que «será na articulação entre as culturas e nas culturas, nesse processo que chamei a 'mundialidade', que não se resume à mundialização, que poderá existir criação, e criação nos mundos virtuais» (p. 68). O raciocínio da autora de La Raison Baroque (1984) aponta para uma noção de instabilidade associada à cultura, o que lhe permitirá definir a estética, não como «a ciência do belo, nem do sublime», pois «já não constitui um inquérito capaz de atingir valores concebidos em si mesmos, tal como quiseram Kant e, no fundo, Hegel», mas antes como «um espaço crítico que pensa visibilidades», ou seja, que se autoclassifica como «polissensorial» (pp. 72-73). Em abono da sua tese, Christine Buci‑Glucksmann invoca o exemplo pertinente de artistas como Cindy Sherman e Orlan, para reconhecer, com palavras que decerto poderiam ter sido subscritas por Ballard ou por Cronemberg, que talvez seja a carne a última resistência ao trabalho estético sobre a forma corpórea», a «resistência de algo destinado ao efémero e, portanto, à morte» (p. 70).
Nas outras páginas da revista coordenada por João Urbano, há textos sobre o disparate, a nano‑art, biopolítica e robótica, a arquitectura, a distinção entre realidade e ficção ou entre o humano e o não‑humano, além de duas ficções, de Aécio de Amaral e do próprio João Urbano (com um narrador que, por momentos, faz lembrar os vagabundos beckettianos, ainda que, na página 139, insista desastradamente em utilizar o vocábulo «viajem» como nome). No seu conjunto, esta é uma proposta estimulante, cuja leitura pode ainda ser complementada com uma visita ao sítio da Nada, onde se encontram inéditos e informações que não existem na versão em papel.

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Não será por acaso que a personagem central do filme se chama Lena (Magdalena), nem que sejam madalenas os bolos que ela oferece à amiga no filme dentro do filme. Abraços Desfeitos (Abrazos Rotos, 2009), de Pedro Almodóvar, é uma obra em que se multiplicam referências, não apenas proustianas, que, na sua totalidade, parecem apontar para uma percepção aguda da passagem do tempo, seja pela construção mais ou menos discreta de uma espécie de cânone pessoal do cinema (como na cena em que Diego, interpretado por Tamar Novas, procura um DVD e vai enumerando os títulos dos filmes que encontra), seja pela nostalgia inerente à construção de cenas que nos lembram outros filmes (por vezes, obras do próprio realizador, como o célebre Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios, de 1988). Assim sendo, as peripécias narrativas, apesar de alguma espectacularidade, vêem a sua importância relativizada, ou melhor, configuram‑se claramente como um suporte do trabalho sobre o tempo que o filme propõe. A melhor prova disso é o carácter previsível de muitas delas (a relação biológica entre Diego e Mateo Blanco, interpretado por Lluis Homar, por exemplo), o que introduz na obra uma auto‑ironia capaz de a preservar do ridículo para onde teria sido muito fácil deslizar. Terminar o filme, ainda que às cegas, como afirma a personagem do realizador, é a afirmação da mesma vontade de concluir a obra que importa ao narrador da Recherche, uma vontade que pode até implicar um combate contra a morte, sem tréguas, em que parece contar menos a vitória final do que a possibilidade de levar o trabalho até ao fim. E não será o rosto de Penélope Cruz, neste filme, uma encarnação quase perfeita da Albertine que morreu quando recuperou a liberdade?

Depois dos volumes de contos O Deceptista (2003) e Viagem ao Interior (2004), Fernando Cabral Martins regressa à ficção em livro com o romance A Flor Fatal, editado este mês pela Assírio & Alvim. Para antecipar a nova obra, que deve o título a uma epígrafe pessoana (recorde‑se que FCM é também um conhecido especialista do modernismo português), o autor criou um blogue, cujas entradas são notáveis reflexões sobre a arte literária. Além disso, é ainda possível ler aqui as primeiras páginas do romance.

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Ao entrar, há dias, numa conhecida loja de mobiliário e artigos de decoração situada num dos maiores centros comerciais do país, deparei‑me com duas ou três estantes enormes, daquelas que ocupam uma parede de alto a baixo, cheias de livros. Falo de livros verdadeiros e não daquelas lombadas ocas, habitualmente carregadas de dourados, que eram apontadas como a expressão caricatural do burguês ignorante e endinheirado; bem pelo contrário, aqui até havia algumas obras interessantes, como tive ocasião de reparar, dado que me detive por instantes a descobrir os títulos que, de forma inesperada, me haviam acolhido. Tratar‑se‑á, portanto, de uma nova (velha) moda de decoração de interiores, que reduz o livro à dimensão de adorno indispensável. Não sei se será também um sinal de um certo anacronismo deste objecto que nos habituámos a associar à literatura, ainda que esta possa muito bem escapar‑se dele e ir refugiar‑se nos ecrãs dos computadores ou nos livros electrónicos, por exemplo. Seja como for, ocorreu‑me que, muito provavelmente, teria sido possível a alguém roubar um daqueles livros e retirar‑se da loja sem ser detectado por qualquer alarme, pois nenhum sistema de detecção de roubo deve ter sido instalado nos livros. Ainda que seja de admitir que eles estejam ali para venda, acompanhando a estante que decoram, creio que os funcionários da loja só detectariam a falta de um deles se o título em questão fosse tão volumoso que a sua ausência originasse um buraco indisfarçável numa fileira de lombadas.

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Hoje, quinta‑feira, a partir das 21:00h, serei o convidado de António Levy Ferreira no programa Livros com RUM, da Rádio Universitária do Minho. A conversa, que terá como pretexto a recente publicação pela Deriva do meu romance O Mundo Sólido, poderá ser acompanhada na emissão online ou sintonizando o rádio em 97.5 FM. O programa repete aos domingos, a partir das 20:00h, e é mais tarde disponibilizado em podcast no sítio da RUM.

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Comprei o número 171 da regressada Colóquio/Letras, relativo a Maio/Agosto de 2009, numa livraria dita de referência. A vendedora perguntou‑me se aquilo era uma revista e se era sempre o Eduardo Lourenço quem a dirigia. Compreende‑se, pois claro: a rapariga era muito nova, ainda devia usar fraldas quando a Colóquio deixou de ser publicada.

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