Quarta-feira, Setembro 30, 2009

TODOS POR LISBOA


No âmbito da candidatura de António Costa à Câmara de Lisboa, realiza-se hoje o concerto Todos por Lisboa (21:30h), no Coliseu dos Recreios. Entre as dezenas de artistas participantes, encontram-se performers, músicos e actores como André Cabaço, André Gago, António Jorge Gonçalves, António Rosado, Bernardo Sassetti, Camané, Carlos do Carmo, Ciganos D’Ouro, Cristina Branco, Diogo Dória, Faith Gospel Choir, Gabriela Canavilhas, Graça Lobo, Inês de Medeiros, João Gil, João Grosso, José Cid, José Wallenstein, Kalú (dos Xutos), Kimi Djabate, Laura Soveral, Lúcia Sigalho, Luis Represas, Mafalda Arnauth, Manuel Paulo, Margarida Vila-Nova, Maria do Céu Guerra, Mário Laginha, Nancy Vieira, Natasha Marjanovic, Nélson Cascais, Nígga Poison, Pedro Jóia, Sérgio Godinho, Vitor de Sousa e Zé Pedro (dos Xutos). Júlio Isidro e Margarida Pinto Correia apresentam. Armandina Maia e Rui Vieira Nery foram a alma da iniciativa.

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BELÉMGATE. BLOG REVIEW


Para poupar trabalho às assessorias de Belém, um apanhado da opinião publicada em alguns blogues:



Adolfo Mesquita Nunes: «[...] Cavaco Silva foi apanhado com a boca na botija a tentar resolver o assunto através da pequena intriga jornalística. [...] A declaração de Cavaco Silva teve, por isso, um efeito contrário ao pretendido. Alargou a vitória de José Sócrates [...]

Ana Matos Pires: Assim para início de conversa sugiro

Ana Vidigal: Time Bomb

António Figueira: «Como suponho que a maioria dos portugueses, achei a alocução do PR uma trapalhada. É espantosa a erosão que sofreu o prestígio do PR [...]»

António P.: «O Presidente Cavaco Silva para dizer o que disse podia ter ido comer uns Pastéis de Belém, que ficam ao lado do Palácio de Belém, e transmitido aos outros clientes os seus estados de alma. [...]»

Carlos Abreu Amorim: Efeitos políticos da comunicação do Presidente da República

Carlos Santos: «Em todo o caso, se a opinião blogosférica vale de alguma coisa, parece-me que o consenso na condenação da mensagem que o PR fez ontem é de tal maneira elevado que alguma semelhança há-de ter com o que se passou na Sociedade Civil.»

Daniel Oliveira: «O discurso do Presidente foi recebido com humor, indignação ou estupfacção por todos os comentadores. Pior: para defender Cavaco Silva ficou Nuno Rogeiro.»

Eduardo Graça: «Cavaco Silva acabou de fazer um exercício suicida. [...] Ao que vinha, na qualidade de Presidente, tudo ficou por esclarecer. Nunca tal se tinha visto! Com seus defeitos e virtudes nunca qualquer outro Presidente da República alguma vez desceu tão baixo. A partir de hoje, se ainda restassem dúvidas, Cavaco Silva deixou de ser o Presidente de todos os portugueses para se tornar no líder da oposição ao PS.»

Guilherme Pereira: No comments

João Galamba: «Afinal, as questões de segurança são problemas da própria presidência e nada têm a ver com o governo ou com o PS. [...] o caso das escutas passou a ser apenas o caso das vulnerabilidades do sistema informático da presidência. Não há escutas, há apenas a possibilidade de haver escutas porque o sistema informático da presidência é fraquito. Parece-me evidente que a presidência está a precisar de um choque tecnológico. Mãos à obra, senhor Presidente.»

João Távora: «Foi um espectáculo confrangedor ontem à noite assistir às declarações do Chefe de Estado: afinal as suas tão aguardadas palavras pouco mais revelaram do que um homem acossado pela intriga que grassa entre os órgãos de soberania e de estados d’alma pouco dignos do mais alto magistrado da nação. Depois, já enterrado no sofá, foi assistir atónito à intervenção do ministro Pedro Silva Pereira, em autêntica pose de estadista, ripostar com invulgar dureza e numa arrogância quase elegante a pública birra de Cavaco Silva.»

Jorge Carreira Maia: «Cavaco Silva não pode falar. Pode fingir que fala. Mas sempre que deixar transparecer o que lhe vai na alma, os portugueses têm o súbito vislumbre de que podem estar a meter-se num grande sarilho.»

Jorge Costa: «O Presidente da República é o garante da estabilidade institucional. Ontem, fez o exacto contrário do que dele se espera.»

José Ferreira Marques: «A patética declaração do Presidente da República [...] é a mais iniludível prova de que o episódio das escutas foi uma conspiração urdida com o propósito de prejudicar o Governo da República e o Partido Socialista. Ao justificar o injustificável com eventuais vulnerabilidades do seu sistema informático, Cavaco Silva apenas confirma que a sua conduta no processo das escutas está longe de ser irrepreensível. Esta noite, o povo sentiu o abraço do polvo.»

José Pacheco Pereira: «Na verdade, como eu próprio sempre disse, nunca o PR falou em “escutas”, mas sim em “questões de segurança” [...] Isto representa substancialmente o que eu próprio disse quando se soube do afastamento do assessor de imprensa.»

Lourenço Ataíde Cordeiro: «Se há aí alguém interessado em promover a restauração da monarquia, este é o momento, rapazes, este é o momento.»

Luis M. Jorge: O que o Presidente devia ter dito [À especial atenção da Casa Civil do PR.]

Luís Novaes Tito: «[...] Numa ou noutra circunstância “a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas” parecem estar ameaçadas por quem tem por missão zelar por elas.»

Miguel Abrantes: «Cavaco em muito sérias dificuldades... faz harakiri em prime time

Paulo Gorjão: «Cavaco Silva até pode recandidatar-se, mas uma parte importante do seu capital político — a sua imagem de referência ética — evaporou-se de forma irremediável.»

Paulo Morais: «No vértice superior do regime paira uma entidade dispendiosa e inútil. Se o topo do sistema político é uma inutilidade, não é de admirar que proliferem no estado estruturas que, também elas, de nada servem.»

Pedro Adão e Silva: Acabar o mandato com dignidade / Veja o vídeo do Gato Fedorento sobre o speech de Cavaco.

Pedro Vieira: Sai um cinto de castidade para Belém, s.f.f.

Porfírio Silva: «O Presidente da República acaba de dirigir-se ao país para fazer em directo um exercício de hipocrisia e irresponsabilidade no “caso das escutas a Belém” [...] Nunca vi um Presidente constitucional desta jovem democracia descer tão baixo.»

Rodrigo Moita de Deus: «O que é realmente sério e grave na comunicação de ontem? Para além do conteúdo. Para além da forma. Para além do resto, guardo a imagem de um presidente “forçado”. Expressão que o próprio utilizou. Forçado a falar sobre a questão da segurança, forçado a demitir Fernando lima, forçado a isto e forçado aquilo. Um Presidente não é forçado. Nem se deixa forçar. Um Presidente força. E quem não vê isto não entende a natureza do cargo.»

Rogério da Costa Pereira: «O senhor presidente ouviu diversas entidades e ficou a saber que existem vulnerabilidades. O que é que esta porra quer dizer?»

Sérgio de Almeida Correia: «[...] O Presidente da República não tem a mínima noção do papel que exerce, confunde o interesse nacional com os interesses do PSD e da sua entourage presidencial, e à força de querer ser isento acabou por se comportar como um elefante numa loja de porcelanas [...]»

Sofia Loureiro dos Santos: «Cavaco Silva não está à altura de exercer o seu cargo.»

Tomás Vasques: «Os assessores de Belém tinham o dever de tirar os caroços das cerejas ao Presidente antes da declaração presidencial.»

Valupi: «Cavaco Silva é uma ameaça para a segurança nacional [...] O problema acaba de sair das mãos dos partidos. Isto agora é connosco, com cada um.»

Vital Moreira: «Decididamente, o desatino tomou conta o Palácio de Belém. A comunicação de Cavaco Silva há-de ficar nos anais do nonsense político entre nós. [...] Algo não está bem com o Presidente da República.»


[Imagem de João Cóias.]

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AS ESCUTAS, 6


André Macedo, Será um golpe de Estado?, hoje no i. Excerto e sublinhado meu:


«[...] Quarenta e dois dias depois de lançar a bomba, o Presidente insiste nos ziguezagues à beira do precipício. Nem sim, nem não: nim. Ficámos a saber que Cavaco não autoriza ninguém a falar por ele, nem sequer o assessor de imprensa Fernando Lima, pago precisamente para essa finalidade. [...] As dúvidas — perguntas retóricas? — são a arma assassina do Presidente. Dizem sem dizer, afirmam perguntando, acusam insinuando. O Presidente sabe o que está a fazer ao país ou, como diria Fernando Lima, será que alguém quer promover um golpe de Estado?»

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AS ESCUTAS, 5


José Manuel Fernandes, Um grave conflito que ainda não saiu do adro, editorial do Público, hoje. Excertos e sublinhado meu:


«[...] O Presidente não desautorizou ontem os membros da Casa Civil que falaram ao PÚBLICO: disse que só ele fala em seu nome — ele os chefes da Casa Civil e da Casa Militar; e acrescentou que não constituía “crime” formular interrogações sobre as “declarações políticas de outrem”, nisso incluindo mesmo “as interrogações atribuídas a um membro da minha Casa Civil” [...]

Mesmo sem assumir os termos exactos em que as interrogações chegaram à imprensa [...] o Presidente nunca as desautorizou — e isso deixou por explicar ontem. [...]

Ontem também ficou claro que o Presidente da República não geriu bem este caso [...]

[...] o Presidente assumiu ontem que, pelo menos desde a publicação do e-mail, também ele teve dúvidas sobre a segurança da sua própria correspondência. Dúvidas que o levaram a chamar especialistas que o informaram que existem vulnerabilidades no sistema de comunicações pela Internet de Belém. O que é grave e deve ser esclarecido depressa — pela Presidência e pelos serviços de segurança portugueses.

Fica assim tudo esclarecido? Longe disso.
[...]

[...] não fundamentou de forma consistente as suas suspeitas — nem clarificou bem que suspeitas tinha, ou tem — e, tendo sido forte no ataque aos que acusou de o tentarem condicionar e envolver na campanha, a única iniciativa tomada, sobre segurança informática, fica muito aquém do clima que, porque o desejou ou porque não o evitou, deixou criar. [...]»

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AS ESCUTAS, 4


Ferreira Fernandes, Escutá-lo não vale a pena, hoje no Diário de Notícias. Excerto e sublinhado meu:


«Foi uma declaração que evoca desertos por atacado, porque um só não chegaria. [...] Cavaco Silva manipula quando não refere as peças fundamentais e iniciadoras deste assunto: as duas manchetes do Público, a 18 e 19 de Agosto, que lançaram as suspeitas da Presidência sobre o Governo. A lacuna não é ingénua, porque essas manchetes demonstram quem teve a iniciativa do escândalo. E o que dizer sobre o “fiquei a saber” — ontem acontecido a Cavaco, nas palavras do próprio — que os computadores de Belém são vulneráveis? O mais piedoso que há para dizer é que ele quis mesmo empurrar-nos para as suas suspeitas — manipular-nos, pois. Porque a outra hipótese, ele desconhecer, até ontem, que todos os computadores (de Belém à Casa Branca) são vulneráveis, essa hipótese é insultuosa para o Presidente de Portugal.»

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AS ESCUTAS, 3


João Marcelino, Falar sem dizer nada, editorial do Diário de Notícias, hoje. Excertos, sublinhado meu:


«[...] É lamentável que o mais alto magistrado da Nação possa atrever-se a tentar jogar com a possível ignorância das pessoas, quanto ao processo ou quanto aos saberes, para fazer valer as suas necessidades políticas. Ou seja, quando se esperava, por declarações recentes, que o PR estivesse preocupado com questões importantes de Estado, ligadas a eventuais escutas ou, pelo menos, de coordenação do SIRP e do trabalho do secretário-geral de Segurança Interna, Cavaco Silva mostrou precisar de um antivírus no seu computador. Se o problema era esse, o informático deveria ter sido chamado há mais tempo, e não só ontem, sem dúvida, para lhe resolver “as vulnerabilidades” na máquina [...] Não há memória de um discurso tão pobre de um Presidente da República Portuguesa. [...] Cavaco Silva fragilizou-se ainda mais. Bem pode dizer que “Portugal está primeiro” e tentar justificar-se que não consegue iludir o essencial: esta polémica resulta apenas de o PR não ser capaz de desfazer sem tibiezas nem artifícios um problema montado por um dos seus assessores que depois mudou de lugar, mas não foi deixado cair. Isso está à vista de toda a gente. [...] José Sócrates ficou com uma enorme vantagem de capital pessoal e político para gerir no imediato sem o contraponto que um Presidente de todos os portugueses poderia, e deveria, estabelecer. Cavaco Silva vai perceber isso nos dois anos que lhe restam de mandato. E, entretanto, também vai ter de pensar se tem condições para se recandidatar.»

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Pré­‑publicação de João Ubaldo Ribeiro


No próximo dia 10 de Outubro, chegará em simultâneo às livrarias portuguesas e brasileiras o novo romance de João Ubaldo Ribeiro, intitulado O Albatroz Azul. Por cá, a obra será lançada pelas Edições Nelson de Matos (que têm vindo a reeditar os outros livros do escritor brasileiro galardoado em 2008 com o Prémio Camões). É com o maior prazer que procedo hoje à sua pré­‑publicação, antecipando aqui o início do primeiro capítulo:


«Sentado na quina da rampa do Largo da Quitanda, as mãos espalmadas nos joelhos, as abas do chapéu lhe rebuçando o rosto pregueado, Tertuliano Jaburu ouviu o primeiro canto de galo e mirou o céu sem alterar a expressão. Ignora­‑se o que, nessa calmaria antes do nascer do sol, pensam os grandes velhos como ele e ninguém lhe perguntaria nada, porque, mesmo que ele se dispusesse a responder, não entenderiam plenamente as respostas e dúvidas mais fundas sobreviriam de imediato, pois é sempre assim, quando se tenta conhecer o que o tempo ainda não autoriza. Ao olhar para o alto, talvez esteja confirmando artigos da sabedoria que seus longos anos lhe ministraram, da qual fazem parte segredos impossíveis de serem contados, porquanto não se prestam a isso, mas devem entrar sem palavras na mente e no corpo e apenas o viver lhes dá acesso. Os que têm estudo explicam a claridade e a treva, dão aulas sobre os astros e o firmamento, mas nada compreendem do Universo e da existência, pois bem distinto do explicar é o compreender e quase sempre os dois caminham separados. Que Tertuliano goza de familiaridade com os seres, visíveis e invisíveis, que povoam cada estação do dia e da noite, não sente mais medo do tempo e seu único real desejo é desejar sempre o que Deus deseja para ele, isso se sabe e se respeita, pois é da lei. E seu pensamento é percebido firme como os rochedos e corrediço como as águas.

Velho como está, então lhe é possível lembrar tudo do instantinho em que nasceu. Foi menos que um relâmpago, foi uma faísca voadora que sumiu sem chegar a cintilar, uma fresta entreaberta e fechada simultaneamente, com nenhuma duração. Mas ele já viveu o bastante para estar seguro de que, naquela passagem, soube tudo — passado, presente e futuro, os três embolados, sem antes nem depois. Todavia, esse conhecimento se esfumaça e se extravia no infinito, as vistas do nascido se desregulam e só o que ele sente é a primeira dor das muitas que virão, a dor fria do primeiro ingresso de ar no peito. Levantando­‑se para passar na Fonte da Bica, como todos os dias, Tertuliano imaginou que tudo o que iria ocorrer naquele começo de dia já era sabido e ressabido em algum lugar, de alguma forma. Até mesmo que naquele dia ia lhe nascer um neto homem devia estar assentado e não por qualquer adivinhação, das mais comuns às mais abalizadas.

Pelo relevo do ventre, pelas feições da prenha, pelas manchas em sua tez, pela índole dos antojos e enojos e pelos mais variegados sinais que a Natureza concerta e expõe sem preocupação com a simplicidade, é possível vaticinar se quem chegará é macho ou fêmea, mas se trata de oceano naufragoso, em que incontáveis se aventuram e poucos chegam a bom ancoradouro. Até porque não somente em sinais consiste ele, mas em largo cabedal de saberes zelosamente atabafados ao longo das eras, cujo rol quiçá jamais se finde. Certos homens, machos modelares sob todos os aspectos, do juízo e postura à aparelhagem frontal, produzem quase que exclusivamente gala feminil. O homem assim constituído enxerta esposas, amásias, primas, cunhadas, comadres, vizinhas, colegas, conhecidas, companheiras de viagem e parentas de todos os graus aceitáveis, bem como as que mais consiga, na obediência ao império tirânico da ordenação da vida em todo o reino animal — e só o que vem é uma maria atrás da outra, principiando na glória e encerrando nas dores, pelo meio de incontáveis aparecidas, conceições, rosários e amparos. Causa para tal haverá, como para tudo salvo Deus, mas fora do entendimento comum. Já outros homens, bem menos servidos de estampa varonil, uns até falando fino e se adamando lá e cá, geram unicamente machos. E existem ainda os que atingem o bom meio­‑termo, pois correta é a filharada que contenha tanto machos como fêmeas, mesmo em desproporção, outros tipos acarretando grande burrice e geral atraso na ideia. Por essas e outras razões de vasta intricação, tudo foi sempre incerto e duvidoso, no que tange à mencionada prognose.»

Terça-feira, Setembro 29, 2009

AS ESCUTAS, 2


Highlights da declaração do Presidente da República, hoje às 20:00h:


«[...] não existe em nenhuma declaração ou escrito do Presidente qualquer referência a escutas ou a algo com significado semelhante.»

«Incluindo mesmo as interrogações atribuídas a um membro da minha Casa Civil, de que não tive conhecimento prévio e que tenho algumas dúvidas quanto aos termos exactos em que possam ter sido produzidas.»

«E, pessoalmente, confesso que não consigo ver bem onde está o crime de um cidadão, mesmo que seja membro do staff da casa civil do Presidente, ter sentimentos de desconfiança ou de outra natureza em relação a atitudes de outras pessoas.»

«[...] ninguém está autorizado a falar em nome do Presidente da República, a não ser os seus chefes da Casa Civil e da Casa Militar. E embora me tenha sido garantido que tal não aconteceu, eu não podia deixar que a dúvida permanecesse. Foi por isso, e só por isso, que procedi a alterações na minha Casa Civil.»

«Foi para esclarecer esta questão que hoje ouvi várias entidades com responsabilidades na área da segurança. Fiquei a saber que existem vulnerabilidades e pedi que se estudasse a forma de as reduzir.»

Perdeu-se? Pergunte o caminho ao dr. Marques Guedes, que acaba de falar em nome do PSD.


A declaração do Presidente da República pode ser lida na íntegra aqui.

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DERROTA DO PSD. OS PORQUÊS


Amigos de direita “estupefactos” com a derrota do PSD sob a direcção de Manuela Ferreira Leite. Não percebo.

Foi a actual direcção que, eleita por um terço do partido, ignorou os outros dois terços.

Foi a actual direcção que apoiou por omissão o bloqueio dos camionistas.

Foi a actual direcção que andou com Mário Nogueira ao colo.

Foi a actual direcção que se mostrou incapaz de apresentar na Assembleia da República um projecto alternativo de avaliação de professores.

Foi a actual direcção que disse tudo e o seu contrário sobre o Serviço Nacional de Saúde.

Foi a actual direcção que inverteu o ónus dos casos BPN & BPP: bandidos vs governador do Banco de Portugal.

Foi a actual direcção que se opôs ao investimento público.

Foi a actual direcção que deu o dito por não dito no caso do TGV.

Foi a actual direcção que deu o dito por não dito no caso do Estatuto dos Açores.

Foi a actual direcção que, “aprovando” o Código do Trabalho, se absteve de o votar.

Foi a actual direcção que propôs a privatização gradual da Segurança Social.

Foi a actual direcção que instrumentalizou o desemprego.

Foi a actual direcção que se manifestou contra a actualização do salário mínimo.

Foi a actual direcção que aplaudiu o episódio de insubordinação [a cena dos bonés] dos polícias.

Foi a actual direcção que fez orelhas moucas às ameaças concretas de alguns militares.

Foi a actual direcção que teve um comportamento bipolar no tocante à reforma da Administração Pública: sim às segundas, quartas e sextas; não às terças, quintas e sábados; nim aos domingos e feriados.

Foi a actual direcção que se opôs firmemente ao apoio do Estado na procriação medicamente assistida.

Foi a actual direcção que se opôs firmemente às alterações da Lei do Divórcio.

Foi a actual direcção que se opôs firmemente às alterações da Lei das Uniões de Facto.

Foi a actual direcção que se opôs firmemente à Lei da Paridade.

Foi a actual direcção que prometeu revogar a Lei da Interrupção Voluntária da Gravidez.

Foi a actual direcção que se opôs à Lei do Pluralismo e da Não Concentração dos Meios de Comunicação Social.

Foi a actual direcção que mandou às urtigas o acordo de justiça firmado entre o PS e o PSD.

Foi a actual direcção que transformou a eleição do Provedor de Justiça num espectáculo degradante.

Foi a actual direcção que usou e abusou da Política de Verdade, pedindo aos portugueses que votassem em António Preto e Helena Lopes da Costa.

Foi a actual direcção que fez tábua rasa das reflexões do seu próprio Gabinete de Estudos e do Instituto Sá-Carneiro.

Foi a actual direcção que chegou a eleições sem um projecto para o país.

Foi a actual direcção que inventou o conceito de “asfixia democrática”, de acordo com o qual o país viveria em regime de liberdade vigiada, por contraponto com a democracia da Madeira.

Foi a actual direcção que promoveu sistemáticos assassínios de carácter do primeiro-ministro.

Foi a actual direcção que afirmou não ter confiança na “segurança” da correspondência privada.

Foi a actual direcção que insistiu na tese das escutas a Belém.

Etc., etc. Porquê a surpresa? A direita, se soubesse o que quer, tinha votado em massa no CDS-PP.

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CITAÇÃO, 215


Miguel Abrantes, Adivinha do dia.


«Cavaco vai falar hoje ao país. Qual será o tema da comunicação? Veja se domina a cavacologia, escolhendo uma das seguintes hipóteses:


• Anuncia o nome do candidato que irá apoiar na corrida à liderança do PSD?
• Exibe em directo o microfone através do qual o Conselho de Ministros, enquanto simulava estar preocupado com a governação, escutava os seus passos em Belém?
• Denuncia o
Público como o artífice da inventona de Belém, assegurando já ter pedido uma audiência ao Eng. Belmiro para pôr tudo em pratos limpos?
• Informa os portugueses da nova assessoria confiada a Fernando Lima?
• Dá conta de que a divulgação da visita de Bento XVI a Fátima foi um mero
“erro técnico” e não teve nada a ver com as eleições legislativas?
• Divulga as análises custo-benefício, entretanto encomendadas, das infra-estruturas de que o país carece?
• Avisa que as leis
“fracturantes” só passarão por cima do seu cadáver?
• Renuncia ao cargo de Presidente da República, deixando subentendido que o país não o merece?
»


[Foto DN.]

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CARROS FORA DOS PASSEIOS


Realiza-se amanhã, no Cinema São Jorge, uma sessão do movimento Quero andar a pé! Posso?, que procurará responsabilizar os candidatos à Câmara de Lisboa para o problema do estacionamento em cima dos passeios e outros «aspectos que afectam a mobilidade dos peões na cidade de Lisboa».

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Segunda-feira, Setembro 28, 2009

BEST OF ELEITORAL


Fernanda Câncio: «das duas uma: ou os portugueses não se importam que o pr seja escutado/vigiado ou não acreditam que esteja a ser escutado/vigiado. a segunda hipótese é capaz de ser mais provável. chama-se a isso um problema de credibilidade, certo?»

Francisco José Viegas: «O PSD começou a descer mal a campanha eleitoral começou. O que significa que a vida é como é, e que para ganhar eleições é preciso ir disputar votos. Dito assim, soa mal; mas não há volta a dar-lhe. [...] Pacheco Pereira está invisível até agora. Não se percebe porquê.»

Henrique Raposo: «Resta saber uma coisa: esta vitória de Portas resulta de um crescimento imparável do CDS? Ou resulta da fraqueza do PSD? O CDS está consolidar eleitorado que nunca votará PSD, ou está a receber eleitorado que recusa votar em MFL? Com um líder forte no PSD, o CDS continuará a ter 10%? O CDS tem a palavra. É continuar a trabalhar, como dizia o outro.»

Pedro Mexia: «Agora, o legado cavaquista está cada vez mais manchado. A catrefa de ex-governantes ligados a crimes financeiros, a encenação grotesca de um Watergatezinho luso e a derrota da ex-ministra mais parecida com Cavaco parecem o princípio do fim do cavaquismo. Assim seja.»

Rodrigo Moita de Deus: «Depois do discurso de ontem temo que esta direcção do PSD seja como Michael Jackson: Vai ser enterrada três semanas depois de ter morrido.»

Tomás Vasques: «A primeira e principal consequência política destas eleições é a indigitação de um novo primeiro-ministro e a formação de um novo governo. As eleições legislativas [...] têm esse objectivo. Ora, José Sócrates e o PS vão formar governo porque ganharam as eleições.»

Valupi: «Os portugueses estavam cheios de medo. Cheios de medo da Manela.»


[Imagem de João Coisas, 2009.]

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UNIR LISBOA


Daqui a pouco (18:00h), na Gare Marítima de Alcântara, António Costa apresenta a Comissão de Honra da candidatura UNIR LISBOA.

Lembrar que o PS obteve 34,79% no concelho de Lisboa, nas legislativas de ontem, deixando o PSD a seis pontos de distância no mesmo concelho.

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NOTEBOOK


A rua nunca ganhou eleições. Se as ganhasse, o vencedor de 1975 teria sido Cunhal. Foi Soares. Contra o lugar-comum, a História repete-se

Com 36,6% e 96 deputados eleitos, o PS foi o vencedor das legislativas. Mesmo que os 4 lugares por apurar (os da emigração, que só serão conhecidos a 7 de Outubro) lhe escapem.

Com 29,1% e 78 deputados, o PSD perdeu as eleições. Em 2005, Santana Lopes obteve 75.

Com 10,5% e 21 deputados, o CDS-PP ultrapassou o BE e a CDU [PCP+PEV].

Apesar da violência das campanhas ad hominem dos últimos quatro anos e meio, Sócrates ganhou mais uma vez.

Mal preparada e pior aconselhada, Manuela Ferreira Leite foi a grande derrotada.

Clareza com clareza se paga: Paulo Portas tem todas as condições para liderar a direita. A direita é a direita a direita a direita. Não é o saco de gatos da Política de Verdade.

A vitória pírrica de Louçã, que ajudou o BE duplicar o número de mandatos (de 8 para 16), não serve para nada.

54,4% dos portugueses que votaram [PS+BE+CDU] aprovam o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Corrigido.

E agora, Aníbal?

Pacheco Pereira continua em parte incerta.

O Jugular elegeu dois deputados: João Galamba e Miguel Vale de Almeida. Passei grande parte da noite com ambos, os parabéns foram dados no momento certo.

O SIMplex elegeu um: João Paulo Pedrosa. Felicito-o agora.

Ponto de vista da esquerda. Porfírio Silva: «Se a batalha tivesse sido pífia, esta vitória seria curta. Como a batalha, na realidade, foi tremenda, esta vitória é muito significativa.»

Ponto de vista da direita. Pedro Picoito: «[...] não se pode ter por mote as palavras “Política de Verdade” — e depois pedir aos portugueses que votem em António Preto e Helena Lopes da Costa. Não se pode, pura e simplesmente. Ponto final.»


[Foto de Victor Sancho.]

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Domingo, Setembro 27, 2009

CITAÇÃO, 214


Luis Januário vintage. Imagem e texto:


«[...] De facto a esquerda é utópica. A esquerda é qualquer coisa em que é impossível acreditar. Assim como um amor que durasse para sempre. A direita é natural. A esquerda é sobrenatural. A direita é uma coisa conhecida: o curso de direito, uma bebedeira ao fim-de-semana, uma bofetada do marido, um quadro do Cargaleiro, uma homilia de domingo, o Expresso, a crónica do Marcelo, os lucros do Belmiro e a nossa inevitável pobreza, as festas da Hola, os filmes da Lusomundo, a literatura internacional e a comida do Eleven, a hipertensão e a obesidade. A esquerda é a nacionalização do petróleo, um curso de enfermagem veterinária, um bellini ao fim da tarde em Corso Como, o esplendor das línguas , a pele secreta que as mulheres do Ocidente revelaram no final do século, a música de Arvo Part e Marilin Crispell e Christina Plhuar, os romances de Bolaño, Sebal — a esquerda tem tendência a ter um êxito póstumo —, VilaMatas, Coetzee, o design de Laszlo Moholy-nagy, o testamento de vida , os legumes no wok, o vinhateiro que resiste no Mondovino. [...]»

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Sábado, Setembro 26, 2009

CONTRA A BOVINIDADE


No dia em que a lei obriga políticos & media a entrarem em estado de bovinidade, as 1031 páginas da edição portuguesa de 2666 são um óptimo escape ao nonsense. O lançamento da obra-prima póstuma de Roberto Bolaño (1953-2003) foi ontem. O livro já está nas livrarias, em tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra.

Dividido em cinco partes e concebido para publicação em igual número de volumes, com vista a garantir o futuro económico dos filhos, 2666 acabou por ser publicado num único tomo, por decisão conjunta de Ignacio Echevarría e dos herdeiros. O New York Times Book Review fala de «câmara de ressonância da angústia humana». E se o NYTBR diz, quem somos nós para duvidar?

Ar condicionado a toda a força e L'Orfeo de Monteverdi no iPod.

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Sexta-feira, Setembro 25, 2009

UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA


Também aqui:


Na recta final da campanha permito-me ser pleonástico. Domingo é preciso votar no Partido Socialista. Não vou falar das razões de natureza económica ou fiscal. Este blogue [o SIMplex] reúne contributos mais do que suficientes para esgotar o tema. E quem diz economia e fiscalidade diz saúde, educação, justiça, ambiente, energias renováveis, política externa, cultura, investigação e ensino superior.

Vou antes lembrar o óbvio: as questões civilizacionais. Aquilo a que a opinião de direita, com trejeitos maliciosos, chama questões fracturantes. Coisas simples de que depende a dignidade e o progresso das sociedades. Estou a pensar na possibilidade dos casais inférteis poderem recorrer à procriação medicamente assistida; em leis que acautelem os direitos de quem vive em união de facto; no casamento entre pessoas do mesmo sexo; na possibilidade de divórcios não litigiosos; na integração social dos imigrantes; nas leis da paridade, etc. Nenhum país moderno pode viver ao arrepio das mudanças civilizacionais.

Há cem anos, o divórcio era um anátema. Hoje é um lugar-comum. Há 35 anos, uma mulher não atravessava a fronteira sem o consentimento do marido. Há 35 anos, a polícia prendia homossexuais acusando-os de vagabundagem. Há 35 anos, o casamento religioso era indissolúvel. Felizmente, tudo isso ficou para trás.

Em 35 anos de democracia, muita coisa mudou. Mas, se pudesse, a direita punha um travão no que ainda falta mudar. Votar no Partido Socialista é apostar numa sociedade mais justa.


[A foto é de Victor Sancho. Foi obtida hoje, na Cervejaria Trindade, em Lisboa.]

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SIMPLEX NA TRINDADE


No último dia de cada campanha, o Partido Socialista junta na Cervejaria Trindade as suas figuras mais representativas, alguns militantes e dezenas de independentes. Desta vez, o SIMplex foi ao almoço. A imagem mostra o momento em que o secretário-geral do PS se juntou ao grupo. Da esquerda para a direita vêem-se Rui Herbon, João Pinto e Castro, Ana Vidigal, Sofia Loureiro dos Santos, Bruno Reis, Porfírio Silva, João Galamba, Paulo Ferreira, Tiago Julião e, na fila da frente, André Couto, myself, Mariana Vieira da Silva, José Sócrates, Palmira F. Silva, Irene Pimentel, Tomás Vasques, José Reis Santos, Gonçalo Pires e João Constâncio. Não ficaram no retrato, mas estiveram no almoço, Ana Matos Pires, Carlos Leone, Eduardo Graça, Guilherme W. d'Oliveira Martins, Maria João Pires (autora do retrato), Miguel Vale de Almeida e Victor Sancho. Clique na imagem para ver melhor.

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Contra a maioria absoluta, por maioria de razão


Tal como a razão, também a maioria, quando absoluta, desenvolve uma feroz incapacidade de autocrítica que a isola progressivamente do mundo. A convicção de que se está certo, separada do regular questionamento sobre aquilo que se decide, é um dos conhecidos caminhos do desastre; se, a esse suposto desígnio, se juntar a possibilidade total (a maioria absoluta) de decidir e executar, estaremos a afastar­‑nos desse comportamento tão salutar da democracia que consiste na discussão pública, na apresentação de argumentos e de contra­‑argumentos (sustentada, entenda­‑se, pela convicção de que esse debate vale a pena e não é meramente o preenchimento de um requisito burocrático, como aconteceu sobejas vezes na última legislatura). Por isso, nas eleições legislativas do próximo domingo, eu votarei contra a maioria absoluta. Não receio o mito da suposta «ingovernabilidade»; pelo contrário, acredito que o regresso das discussões a sério à Assembleia da República representa uma recuperação da importância e da dignidade que têm andado arredadas do parlamento. O cidadão terá de colocar aí de novo a sua atenção, consciente de que nada está adquirido ou perdido à partida, mas que tudo se decide efectivamente através de uma ampla discussão democrática. É também o regresso possível da política, quer dizer, de uma assunção mais plena da cidadania. De gente que se considera destinada a guiar o país já este rectângulo à beira­‑mar deveria estar farto. No domingo se verá se assim é.

ERNESTO SABATO


Hoje no Público:


Doutor em física, Ernesto Sabato (n. 1911) fez pesquisas no campo das radiações atómicas antes de, aos 30 anos, ter abandonado a ciência e o Partido Comunista argentino para dedicar-se por inteiro à literatura. Estreou-se com um ensaio sobre La invención de Morel (1940), de Adolfo Bioy Casares. Foi o início de uma vasta obra ensaística de que o título mais recente é España en los diarios de mi vejez, obra de 2004. Mas o Sabato que escreveu Nunca más (1985), sobre as vítimas da ditadura militar de Videla (1976-81), não se confunde com o Sabato ficcionista, que usou sempre de grande parcimónia. Três obras, apenas três. A primeira foi O Túnel, em 1948, e bastou para o impor como um dos grandes autores do século XX. Uma nova tradução chegou agora às livrarias.

Numa altura em que o existencialismo dominava a cena literária e, em particular, os autores de formação marxista como Sabato (não esquecer que O Ser e o Nada, de Sartre, saiu em 1943), não surpreende que o narrador tire todas as consequências do assassinato de María Iribarne. A primeira frase é eloquente: «Sou Juan Pablo Castel, o pintor que matou María Iribarne.» Afinal de contas, o universo não é um sistema fechado, nem coerente. Faz todo o sentido que seja sob o pano de fundo do Peronismo, numa Buenos Aires em brasa, que o tema da incomunicabilidade encontre o cenário ideal. Albert Camus, que traduziu o livro para francês, Graham Greene e Thomas Mann, não regatearam elogios.

Sem deixar de ser um romance, O Túnel é um ensaio sobre o ciúme. Num autor como Sabato, as ideias não perturbam a polifonia da intriga. Juan Pablo desconfia de María: «Compreenderás agora porque te interroguei muitas vezes sobre a verdade das tuas sensações. Recordo-me sempre do pai de Desdémona advertindo Otelo de que uma mulher que enganara o pai podia enganar outro homem.» Tudo começou no Salão da Primavera de 1946 (no hemisfério sul, a Primavera é em Setembo), quando Juan Pablo expõe o quadro que desencadeará a suas obsessões. O interesse de María por determinado detalhe da obra, detalhe a que ninguém prestou atenção excepto aquela rapariga que ele não sabe quem é, leva-o a um atropelo de congeminações. Vão passar meses até que a encontre. A solidão é uma cicatriz insuportável, mas Juan Pablo depressa descobre que a presença de María não serve de lenitivo. A dúvida persegue-o: foi, ou não foi traído por ela?

A marca de um grande autor pode ser avaliada pela sua capacidade de tornar intemporal o que escreve. Quantas obras dos anos 1940, 50 e mesmo 60 nos obrigam a um esforço de leitura que radica na circunstância de serem “datadas”. Para não ir mais longe, a ficção de Sartre, como a de tantos contemporâneos seus (Alain Robbe-Grillet, Philippe Sollers, etc.), resiste mal à passagem dos anos. Ao contrário, Sabato sai incólume do ar do tempo. A fluência do discurso nunca é prejudicada pelos atritos de consciência. E mesmo nas obras subsequentes escapou às armadilhas do nouveau roman.

O Túnel obedece à estrutura cronológica de um thriller. A narrativa isenta-se de ambiguidade: «Que o mundo é horrível, é uma verdade que não precisa de demonstração. Basta relatar um facto. Num campo de concentração um ex-pianista queixou-se de fome. Obrigaram-no a comer uma ratazana. Viva. / Não é, contudo, sobre isso que quero falar agora; ao assunto da ratazana só voltarei mais adiante, se vier a propósito.» Não é fortuito que Juan Pablo, o narrador, seja pintor. Além de homem de ciência e escritor, Sabato é também pintor com obra reconhecida, a quem o Centro Georges-Pompidou (Paris) dedicou uma grande retrospectiva em 1989.

O pormenor do quadro que interessou María e mais ninguém, a famosa «cena da janela», é o móbil do crime e, nessa medida, da obra. Na prisão, Juan Pablo reflecte: «Pelo menos posso pintar, embora suspeite que os médicos se riem nas minhas costas...» Em escassas 135 páginas, Sabato deixou à posteridade um romance que se lê hoje com o mesmo prazer de há 60 anos.



A dúvida, in Ípsilon, 25-9-2009, pp. 40-41. Quatro estrelas e meia.

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CITAÇÃO, 213


Vasco Pulido Valente, O Misterioso Caso de Belém, hoje no Público. Highlights, sublinhado meu:


«O impecável e severo dr. Cavaco, com o propósito de não interferir na eleição do próximo domingo, deixou cair um romance policial no meio da campanha [...] As consequências disto para o dr. Cavaco são imprevisíveis. Em primeiro lugar, neste momento o PSD com certeza que não lhe agradece o esforço. Em segundo lugar, o comportamento errático de um Presidente da República (como Eanes lhe explicará) não se desculpa com facilidade. Do Presidente da República o grosso do país quer um “sim” ou um “não”. E Cavaco, às vezes pareceu achar que sim, que o andavam a vigiar [...] e às vezes pareceu achar que não, que não o andavam, de facto, a vigiar, e demitiu Lima, o fidelíssimo Lima, presumivelmente como autor único e provado de “O Misterioso Caso de Belém”. Claro que só se vai saber a verdade na última página. Entretanto, ficaram vários cadáveres pelo caminho.»

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LEGISLATIVAS, 16


Eleições legislativas. Estudo do CESOP da Universidade Católica (clique na imagem), para o Diário de Notícias, a RTP, a Antena Um e o Jornal de Notícias:


PS — 38%
PSD — 30%
BE — 11%
CDS-PP — 8%
CDU [PCP+PEV] — 7%

Outros+Brancos+Nulos — 6%

Impressionante, a convergência dos últimos quatro estudos, dando uma vantagem de 8 pontos ao PS.

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Quinta-feira, Setembro 24, 2009

LEGISLATIVAS, 15


Eleições legislativas. Estudo da Intercampus, pelo método de voto em urna, para a TVI, o Rádio Clube Português e o Público:


PS — 38,0%
PSD — 29,9%
BE — 9,4%
CDU [PCP+PEV] — 8,4%
CDS-PP — 7,7%

Outros+Brancos+Nulos — 6,6%

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LEGISLATIVAS, 14


Eleições legislativas. Estudo da Aximage, para o Jornal de Negócios e o Correio da Manhã:


PS — 38,8%
PSD — 29,1%
BE — 10,0%
CDS-PP — 8,6%
CDU [PCP+PEV] — 8,4%

Outros+Brancos+Nulos — 5,1%

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OPERAÇÃO DN


Publicado também no SIMplex.


Quando Manuela Moura Guedes foi afastada do Jornal Nacional, Pacheco Pereira protestou. Fez bem. O afastamento da apresentadora era um sinal claro de “asfixia democrática”, disse.

A semana passada, o Diário de Notícias divulgou os contornos de uma cabala política, com epicentro na Casa Civil do Presidente da República, visando desacreditar o governo. O assessor responsável (o silêncio do PR cauciona o raciocínio) foi demitido. Pacheco Pereira desafiou o Chefe de Estado a explicar-se antes das eleições. Fez bem. Afinal de contas, o silêncio autoriza as piores suposições. E contaminou a campanha eleitoral.

Não contente, Pacheco Pereira descobriu uma Operação Diário de Notícias. O DN é acusado de enfraquecer o Presidente da República e de violar todas as regras do jornalismo: «para obter um efeito político deliberado [o DN] cometeu vários crimes».

Não é extraordinário? E eu a pensar que Pacheco Pereira era um defensor acérrimo do tipo de jornalismo que justamente celebrizou Bob Woodward e Carl Bernstein. Enganei-me. Do lado de cá do Atlântico o escrutínio independente é crime. É pena.

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SIMPLEX VS JAMAIS


A convite do Núcleo de Estudantes Socialistas da Faculdade de Direito de Lisboa e dos Estudantes Social-Democratas da mesma Faculdade, realiza-se hoje, a partir das 15:00h, no Anfiteatro 6 da Faculdade de Direito de Lisboa, um debate entre bloggers do SIMplex e do Jamais.

Pelo SIMplex vão estar presentes Guilherme Waldemar d’Oliveira Martins, Miguel Vale de Almeida e Palmira F. Silva. Pelo Jamais, Paulo Marcelo, Rodrigo Adão da Fonseca e um terceiro elemento cuja identidade não foi possível confirmar até ao momento. O moderador do debate será um jornalista do Diário Económico.


Adenda às 14:55h. André Abrantes Amaral é o 3.º homem do Jamais.

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O espólio de Almeida Faria


A revista Ler da Primavera de 1990 apresentava uma curiosa entrevista de Almeida Faria, concedida por escrito a Jorge Pires, em que o autor de Cavaleiro Andante (1983) referia a existência, em sua casa, de gavetões cheios de inéditos por tratar. Segundo ele, amontoar­‑se­‑iam aí fragmentos de diários e capítulos inteiros de projectos romanescos abandonados. Quando tivesse mais tempo disponível, afirmava Almeida Faria, talvez se dedicasse a pôr esses papéis em ordem. Agora que o escritor deu início à entrega do seu espólio à Biblioteca Nacional, com a cedência dos manuscritos de Rumor Branco (1962) e de A Paixão (1965), é possível que também considere chegado o momento de rever o que permanece guardado na sua «arca». Seria bom que assim fosse e que daí resultasse a publicação de algum novo livro de um dos mais notáveis ficcionistas contemporâneos de língua portuguesa, infelizmente há demasiado tempo em silêncio.

LEGISLATIVAS, 13


Eleições legislativas. Estudo da Marktest, para a TSF e o Diário Económico:


PS — 40,0%
PSD — 31,6%
BE — 9,0%
CDS-PP — 8,2%
CDU [PCP+PEV] — 7,2%

Veja aqui o quadro-síntese dos últimos seis estudos.


[Imagem de João Coisas, 2009.]

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ESCOLA EM TRANSE


Publicado ontem às 20:57PM no SIMplex:


A direita, em particular o PSD, diabolizou o computador Magalhães. Engodo, trafulhice, contrafacção, negócio escuro, propaganda, tudo serviu de pauta. As crianças assim, as crianças assado. Comentadores conspícuos escreveram artigos e deram entrevistas de que um dia vão ter vergonha. A mim, por ter escrito que a iniciativa de distribuir computadores pelas escolas teria efeitos equivalentes ao de uma campanha de alfabetização maciça que tivesse sido feita em 1900 (não foi, o que explica o nosso atraso endémico), chamaram-me os nomes do costume.

Eis senão... que hoje se soube que os computadores previstos para distribuir no presente ano lectivo vão chegar com algumas semanas de atraso, isto é, na vigência do próximo governo (as eleições são daqui a quatro dias). E não é que caiu o Carmo e a Trindade?

Pode lá ser, grita o PSD, gritam os professores da Fenprof, gritam os sindicalistas social-democratas, gritam todos à vez. A engenhoca, que ainda há 24 horas não servia para nada, mobiliza a oposição de direita: as crianças estão em transe, os pais viram as expectativas goradas, o melhor mesmo é suster o ano lectivo! Dirigentes do PSD falam de «desculpas de mau pagador» para justificar o inadmissível atraso.

Ainda me lembro das manchetes aleivosas, corroboradas na televisão por gente respeitável... «Magalhães à venda na Feira da Ladra» / «Os miúdos estragam aquilo e depois vão vender à Feira da Ladra». Bora portanto ao Campo de Santa Clara!

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Quarta-feira, Setembro 23, 2009

AS COISAS COMO ELAS SÃO


A generalidade dos media anda há dias a martelar uma decisão do Conselho Superior da Magistratura. Porquê? Porque essa decisão afecta o juiz Rui Teixeira. Manipulando factos, há quem fale de “carreira congelada”. E todos apontam o dedo a três membros do CSM nomeados pelo Partido Socialista: Alexandra Leitão, Carlos Ferreira de Almeida e Rui Patrício.

Sucede que a proposta de suspensão da avaliação do juiz Rui Teixeira partiu de Laborinho Lúcio, nomeado pelo Presidente da República para o CSM.

Laborinho Lúcio fez a proposta antes das férias judiciais. A recomendação foi aprovada com nove votos a favor, dois contra e uma abstenção. Foi o antigo ministro da Justiça de dois governos de Cavaco Silva quem propôs ainda “avocar ao Plenário” o processo de inspecção ordinária do juiz Rui Teixeira.

Afinal, está pendente um processo contra o juiz Rui Teixeira: o pedido de indemnização ao Estado feito por Paulo Pedroso, por prisão ilegal. Enquanto esse processo não transitar em julgado, é natural que o CSM suspenda a avaliação do referido juiz. De outro modo, seria fazer tábua rasa da Lei n.º 31/2008, de 17 de Julho, que regula o Regime da Responsabilidade Civil Extracontratual do Estado e Demais Entidades Públicas. Ou queriam que a Lei fosse só para inglês ver?

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UN PRESUNTO ESCÁNDALO


Visto de Espanha, pelo El Pais, o Belémgate é — e passo a citar — «Un presunto escándalo de espionaje, que inicialmente tenía mala pinta para el jefe de Gobierno, se ha convertido en su tabla de salvación a causa de un grave traspié de uno de los principales asesores del presidente de la República, Aníbal Cavaco Silva. El único damnificado, de momento, se llama Fernando Lima, colaborador del jefe del Estado desde hace 24 años y su actual jefe de prensa, que fue destituido de manera fulminante el lunes. [...] El caso compromete al propio Cavaco, deja malparada a la candidata Ferreira Leite — ambos del Partido Social Demócrata (PSD), en la oposición de centroderecha —, y abre numerosos interrogantes sobre la relación entre poder y prensa.» O artigo, com uma notável capacidade de síntese, é de Francesc Relea.

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Terça-feira, Setembro 22, 2009

QUE MEDO! TANTO MEDO!

OSSO DURO DE ROER


Para memória futura, convém ler isto:


«O World Investment Report 2009, publicado pela UNCTAD, refere que Portugal terá recebido, em 2008, cerca de 3,5 mil milhões de USD em investimento estrangeiro, mais 17 % do que o valor de 2007. No mesmo ano, o investimento realizado por empresas portuguesas no exterior totalizou 2,1 mil milhões de USD, menos 61% do que o registado em 2007. [...]»

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CITAÇÃO, 212


José Manuel Fernandes, O caso das suspeitas de Belém não acabou ontem, hoje no Público. Excerto, sublinhado meu:


«[...] A segunda questão a discutir, e a mais importante, é o comportamento da Presidência da República. Na verdade, ao permitir que esta questão assumisse a dimensão que assumiu, Cavaco Silva, que já iria estar no olho da tempestade depois das eleições, colocou-se no olho de outra tempestade antes delas. Por isso, das duas, uma: ou a seguir a 27 de Setembro fundamenta as suas suspeitas, e age em conformidade, ou se se limitar a iniciativas pífias terá enfraquecido a sua autoridade como chefe de Estado, porventura de forma irremediável. [...]»

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CITAÇÃO, 211


João Marcelino, O significado de uma decisão, hoje no Diário de Notícias. Último parágrafo:


«Uma pergunta ainda em aberto e que tem de ser respondida: Cavaco Silva demitiu Fernando Lima porque este actuou à sua revelia ou apenas porque o colaborador foi inábil e o colocou numa posição de fragilidade política?»

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CITAÇÃO, 210


Ferreira Fernandes, Bode espiatório (de espiões), hoje no Diário de Notícias. Excerto, sublinhados meus:


«[...] Ao que parece, a canalhice do procedimento é, hoje, evidente para todos. Ainda bem. Não estou a gabar-me de presciência, estou a justificar porque dediquei tanto do último mês a combater a vil campanha sobre suspeitas, medos e asfixias — encomendada por Belém, como se confirmou ontem, e tolamente acolitada por Manuela Ferreira Leite, induzida em erro pelo silêncio de Cavaco. Quando foi necessário correr atrás do prejuízo, Cavaco defendeu a eleição que lhe interessa (as presidenciais, daqui a dois anos), prejudicando a colega de partido nas eleições daqui a sete dias. [...]»

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CITAÇÃO, 209


Mário Crespo, Crime Público, ontem no Jornal de Notícias. Excertos, sublinhados meus:


«[...] Como os jornalistas são por vezes um bocado vagos e de compreensão lenta, a Casa Civil da Presidência da República achou por bem ser específica na encomenda dando um briefing claro a pessoa de confiança no jornal. “Vais falar com fulano e pergunta-lhe por sicrano, vais aqui, vais ali, fazes isto e aquilo e trazes a demasia de volta”. O homem ainda tentou cumprir com a incumbência, mas a coisa não tinha pés nem cabeça e parece que lhe disseram isso repetidamente.

Por isso, logo, por causa disso, houve mais um ano e meio de fartar espionagem enquanto no Pátio dos Bichos continuavam todos a ouvir vozes.

Cavaco Silva deve ter tido uma birra monumental com a sua Casa Civil e mandou perguntar ao amigo do jornal:
“Sócrates está quase a ser reeleito e essa notícia não sai”? Como o que tem de ser tem muita força, a história lá saiu. Mal-amanhada, mas era o que se podia arranjar. Lá se meteu a Madeira no meio porque, como ninguém gosta do Jardim, gera-se logo um capital de boa vontade. Depois, como tinha pouca substância, puseram na mesma página duas colunas ao lado a dizer que, há uns anos, o procurador-geral da República tinha dito que também estava a ser escutado, e a encomenda ficou mais composta. Que interessa que tudo isto seja bizarramente inverosímil? Nos média, o que parece, é. Cavaco Silva julga que está a ser escutado, portanto, está a ser escutado, tanto mais que o seu recente depoimento presidencial é que “não é ingénuo”. Com tudo isto, fica-me uma certeza. O trabalho de reportagem do Diário de Notícias é das mais notáveis e consequentes peças jornalísticas na história da Imprensa em Portugal. O e-mail com registos claros da encomenda feita por Fernando Lima não é “correspondência privada” que se deixe passar pudicamente ao lado. É uma infâmia pública de gravidade nacional que exige denúncia.

Invocar aqui delações, divulgação de fontes ou violação de correspondência é desonesto. Ao ver o presidente e a Casa Civil metidos nisto fica-me também uma inquietante dúvida. Aníbal Cavaco Silva, referência do PSD, ainda tem condições para continuar a ser o presidente de Portugal depois de causar uma trapalhada desta magnitude a dias das eleições?
»

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DOIS, EM VEZ DE UM


Publicado hoje às 00:40AM no SIMplex:


No Jornal da Meia Noite da SIC-Notícias, o único que vi, passam imagens de uma conversa de Maria João Avillez com Mário Crespo, repescada do Jornal das Nove. Maria João Avillez é peremptória: no alegado caso das escutas, Fernando Lima não foi a única fonte do Público. Outro membro da Casa Civil do Presidente da República teria feito a sua parte. Crespo pergunta: «Tem a certeza?» A biógrafa de Cavaco Silva faz voto de confiança nas suas próprias fontes.

Isto serviu para quê? Para tentar ilibar Cavaco? Ou para dar da Casa Civil do PR a imagem de uma caterva de alcoviteiros?

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Segunda-feira, Setembro 21, 2009

TENHAM MEDO


Publicado hoje à 15:20PM no SIMplex:


Não conseguindo passar uma ideia do que pretende para o futuro do país, o PSD agita o fantasma de uma hipotética coligação do Partido Socialista com o BE. O próprio Louçã dá uma mãozinha ao PSD quando fala de Alegre como de coutada sua. Afinal de contas, por alturas da Primavera, o BE convenceu-se, e quis convencer a opinião pública, de que tinha Alegre do seu lado. A ideia saiu reforçada com o jejum de Alegre nas Europeias. E mais ainda quando Alegre, por opção sua, ficou fora das listas de deputados. Agora, Alegre trocou-lhes as voltas. Estando em jogo a escolha entre direita e esquerda, Alegre apela ao voto no partido que ajudou a fundar. Não tem ilusões: votos de protesto como os do BE apenas contribuem para dar de bandeja o poder à direita. Alegre não brinca em serviço. Nem confunde eleições com saraus de Aula Magna. Portanto, não tergiversou.

Mário Soares e Ana Gomes vêem com bons olhos eventuais acordos parlamentares entre o PS e o BE? E daí? Quantos barões do PSD não advogaram já, sem meias palavras, o regresso ao Bloco Central? Significa isso que Manuela Ferreira Leite quer o Bloco Central? Não. Do mesmo modo que uma coisa são as opiniões de Soares e Ana Gomes, naturais em quem se habituou a pensar pela sua cabeça, outra bem diferente os desígnios de Sócrates.

O propósito é claro. Assustar os indecisos com a possibilidade de um PREC pós-moderno. Bem pode Paulo Rangel fazer hula hoop, que os portugueses não são parvos.


[Imagem de João Coisas, 2009.]

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LIMA DEMITIDO


O Presidente da República demitiu hoje Fernando Lima, assessor para a comunicação social da sua Casa Civil. Se o tivesse feito na passada sexta-feira teria evitado os constrangimentos daí decorrentes.

Fernando Lima, recorde-se, foi o Garganta Funda de Luciano Alvarez no episódio das supostas escutas em Belém. Antes disso, tinha sido assessor de Cavaco Silva, primeiro-ministro, nos X, XI e XII governos constitucionais (1985-95), e de Martins da Cruz, ministro dos Negócios Estrangeiros, no XV governo constitucional, chefiado por Barroso. Foi ainda director do Diário de Notícias entre 2003 e 2004. Não deixa de ser curioso o facto de ter sido o DN a revelar a identidade da fonte de Belém.

O seu lugar foi ocupado por José Carlos Vieira.

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ELITISMOS


A propósito deste micro-artigo, um leitor indigna-se: «Não é a primeira vez que V. faz a defesa descarada da cultura elitista...» E pergunta com maus modos o que é isso de Glyndebourne. Podia ter ido ao Google. Adiante.

A cultura é sempre elistista, prezado leitor. E olhe que não estou a distinguir entre o grupo coral de Alcáçovas e o Daniel Barenboim. Com o tempo, certos nomes tornam-se familiares. Quem nunca ouviu falar de Picasso, Verdi ou Charlie Chaplin? Outros, porém, mantêm-se num limbo reservado a iniciados. Entre variadíssimas hipóteses, lembro Oskar Kokoschka, Glenn Gould e Matthew Barney. Conhece? Ainda bem. Certas obras é preciso fazê-las chegar às pessoas. Em regra, quem tem capacidade de o fazer são os Estados. Mesmo nos países de tradição mecenática há restrições e equívocos difíceis de ultrapassar.

Não foi por acaso que citei o compositor Emmanuel Nunes (na foto), a coreógrafa Olga Roriz e o pintor Ângelo [de Sousa]. Nem de propósito, Nunes estreia amanhã na Casa da Música a peça de teatro musical La Douce, composta a partir do conto homónimo de Dostoievski. Convenhamos que o Porto não é a Abrançalha, com todo o respeito pela população desta aldeia do concelho de Abrantes. Mas o fantasma de Das märchen — ópera de Nunes inspirada no conto homónimo de Goethe — persiste (na estreia, metade da sala abandonou São Carlos antes do intervalo). Entrevistado hoje pelo Jornal de Notícias, Nunes comenta:

«A porta está aberta. Quem quiser sair, sai, é normal. Se eu fosse compor por causa da porta, isto é, pensando nas pessoas que saem, seria triste. Não mudei de opinião por causa da minha ópera, antes pelo contrário. Mas nunca pensei que Das märchen tivesse um tal poder de revelação da lamentável situação em que se encontra a cultura portuguesa e, em particular, no seio dos profissionais da música

Como vê, prezado leitor, não fui eu que inventei o elitismo (nem a roda).

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Domingo, Setembro 20, 2009

ESCUTAS?


Ao ligar a televisão, dei com Maria Flor Pedroso a perguntar a Marcelo Rebelo de Sousa o que achava do Belémgate. Ela não usou a expressão. Eu é que lhe chamo assim. Marcelo disse que era uma tontice derivada de uma sucessão de equívocos. Um cínico dirá que Marcelo acusou o jornal [o Público] de inventar a história toda. Porém, como Marcelo terminou o statement afirmando que era provável que algum assessor de Belém levasse um puxão de orelhas, essa possibilidade deve ser descartada. Marcelo não se esqueceu de sublinhar que o episódio tem 17 meses, «e se o Presidente da República acreditasse que tinha espiões do governo à perna... decerto teria falado com o primeiro-ministro nessa altura» (citação livre). Pelo meio, ficou claro o desmentido de que o intelligence militar teria feito buscas em Belém, como foi noticiado. Tudo visto, Marcelo desvalorizou o acontecido. Foi pena Maria Flor Pedroso não lhe ter perguntado o que achava do editorial de João Marcelino, no Diário de Notícias de ontem, bem como dos artigos de opinião de Ferreira Fernandes, no mesmo jornal, e de Emídio Rangel no Correio da Manhã. É que não me lembro de ler, na imprensa portuguesa, artigos com aquele grau de clareza contra a conduta do Chefe de Estado.

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DÚVIDA DOMINICAL


Publicado hoje às 13:25PM no SIMplex:


As cartas de Valmont a madame de Merteuil, uma vez na posse da marquesa (cf. Les Liaisons Dangereuses, Choderlos de Laclos, 1782), eram propriedade dele ou dela?

Hoje não se escrevem cartas assim. Escrevem-se e-mails. Se eu escrevo a alguém e esse alguém publica o meu e-mail, de natureza privada, no seu (dele) blogue, como já aconteceu, está a fazer uso de propriedade sua. Um uso errado, mas isso é outra conversa.

Os mesmos que aplaudiram a publicação de um e-mail meu num blogue, estão agora agoniados com a divulgação pública do e-mail de um jornalista para um colega, não obstante o conteúdo do e-mail desse jornalista envolver questões de Estado. Ou seja, questões que dizem respeito à Res publica. Enfim, vou ler outra vez o Laclos.

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LER OS OUTROS


Lauro António: «Manuela Ferreira Leite tem sido acusada por alguns de dizer não importa o quê e de não ser muito coerente. Nada de mais errado. [...] Há já sintomas alarmantes: Manuela Ferreira Leite julga que vai ser a escolhida e assegura, desde logo, apontando para Sócrates: “Daqui a dez anos o senhor já não estará cá…” Enfim, Sócrates pode ter cometido alguns erros, mas uma medida tão drástica não me parece de saudar. Assim como não julgo de bom tom acusar o Primeiro-ministro de ser como aqueles “que matam o pai e a mãe para se puderem dizer órfãos”. O ataque à família de Sócrates tem sido constante e sistemático, mas, que Diabo!, fiquem-se pelos tios e primos. [...] Esperemos que não nos caia ao colo como Primeira-ministra.»

Leonel Moura: «Duas coisas vão ficando muito claras nesta campanha. / A primeira é que o PSD de Manuela Ferreira Leite se tornou num partido ideologicamente à direita do CDS. [...] A segunda é que, a cada dia que passa, mais o Bloco de Esquerda revela aquilo que na realidade sempre foi e é. Uma clique de excitados agitadores políticos, mas muito conservadores no que respeita à vidinha.»

Ouriquense: «A ideia de esperar por uma tradução de Bolaño para o começar a ler é da ordem do ridículo. Ou então é coisa de intelectual lisboeta, o que equivale a dizer a mesma coisa. Espreitei o 2666, claro. É livro para gente que gosta de livros, pareceu-me, e não necessariamente um grande livro, pois o grande livro impõe-se sem a muleta que são os temas caros dos literatos virtuosos, essa espécie que justifica a persistência do romance com mais de 400 páginas. Eu não espero por uma tradução de Bolaño no original. Bolaño é que vai ter de esperar que termine o Melville e o Cervantes. Digo-o sem querer desrespeitar o senhor, que burilou um plano para a subsistência dos seus filhos tão comovente como admirável (prontamente desrespeitado, aliás). Mas digo-o para desprezar a elite da capital, que merecia ser reeducada nas zonas raianas. Traduzir Bolaño, que patetice. Qualquer dia começam a traduzir o Machado de Assis.»

Paulo Gorjão: «Manuela Ferreira Leite “não aceit[a] que haja um director de um jornal reconhecido e prestigiado no nosso país que possa estar sob escuta”. Refere-se, como é óbvio, a José Manuel Fernandes. Só que há um problema. Ninguém, a não ser a própria Ferreira Leite, tanto quanto sei, levantou a suspeita de JMF estar sob escuta. O próprio, aliás, na SICN, afastou essa possibilidade. Em suma, o desacerto continua. [...]»

Pedro Adão e Silva: «Na sequência da publicação do email de Luciano Alvarez para Tolentino da Nóbrega pelo DN, muitos jornalistas têm-se indignado com a violação da correspondência privada entre dois jornalistas e a não protecção de uma fonte de outro jornal. A indignação faz todo o sentido, mas não deixa de ser curioso que seja a mesma classe profissional que quotidianamente viola a privacidade de um sem número de pessoas que agora se indigna. Não será apenas porque desta vez o “violado” foi um jornalista?»

Pedro Correia: «Aníbal Cavaco Silva vive o seu pior momento desde que chegou ao Palácio de Belém. O rocambolesco episódio das suspeitas sobre escutas, com o envolvimento directo do seu principal assessor como suposto intermediário oculto na génese de uma notícia de jornal, revela uma Presidência da República com falta de sentido de Estado — o que, lamentavelmente, contraria o essencial do percurso político de Cavaco e o contrato de transparência que firmou com os portugueses. / Se o supremo magistrado do País suspeita que está a ser alvo de escutas telefónicas por parte dos serviços de informações, tutelados pelo primeiro-ministro — uma suspeita gravíssima —, tem o estrito dever de informar os compatriotas desse facto em vez de permitir insinuações sobre o assunto nas colunas dos jornais. [...] Depois das eleições? Só depois de 12 Outubro? Como é possível tratar este tema com tamanha ligeireza se — parece já confirmado — as preocupações de Cavaco remontam pelo menos a Maio de 2008? Porque tem esperado o Chefe do Estado para chamar o procurador-geral da República e mandatá-lo expressamente para esclarecer tudo até ao mais ínfimo pormenor? / As perplexidades amontoam-se. E não auguram nada de bom para o ciclo político que vai seguir-se.»

Porfírio Silva: «No dia da inauguração da Casa das Histórias, em Cascais, fico satisfeito por nem sempre deixarmos morrer os artistas para os honrarmos. E fico contente por passar a ter mais facilidade em satisfazer o meu gosto pela obra de Paula Rego. / É que ela vê a maldade do mundo com os olhos de uma criança que dificilmente enganamos. E pinta isso, com dureza bela. Mesmo quando indigesta. / Esse olhar de perspicácia sabedora faz muita falta no mundo de hoje.»



[A imagem ao alto foi retirada daqui.]

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