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No próximo dia 10 de Outubro, chegará em simultâneo às livrarias portuguesas e brasileiras o novo romance de João Ubaldo Ribeiro, intitulado O Albatroz Azul. Por cá, a obra será lançada pelas Edições Nelson de Matos (que têm vindo a reeditar os outros livros do escritor brasileiro galardoado em 2008 com o Prémio Camões). É com o maior prazer que procedo hoje à sua pré‑publicação, antecipando aqui o início do primeiro capítulo:
«Sentado na quina da rampa do Largo da Quitanda, as mãos espalmadas nos joelhos, as abas do chapéu lhe rebuçando o rosto pregueado, Tertuliano Jaburu ouviu o primeiro canto de galo e mirou o céu sem alterar a expressão. Ignora‑se o que, nessa calmaria antes do nascer do sol, pensam os grandes velhos como ele e ninguém lhe perguntaria nada, porque, mesmo que ele se dispusesse a responder, não entenderiam plenamente as respostas e dúvidas mais fundas sobreviriam de imediato, pois é sempre assim, quando se tenta conhecer o que o tempo ainda não autoriza. Ao olhar para o alto, talvez esteja confirmando artigos da sabedoria que seus longos anos lhe ministraram, da qual fazem parte segredos impossíveis de serem contados, porquanto não se prestam a isso, mas devem entrar sem palavras na mente e no corpo e apenas o viver lhes dá acesso. Os que têm estudo explicam a claridade e a treva, dão aulas sobre os astros e o firmamento, mas nada compreendem do Universo e da existência, pois bem distinto do explicar é o compreender e quase sempre os dois caminham separados. Que Tertuliano goza de familiaridade com os seres, visíveis e invisíveis, que povoam cada estação do dia e da noite, não sente mais medo do tempo e seu único real desejo é desejar sempre o que Deus deseja para ele, isso se sabe e se respeita, pois é da lei. E seu pensamento é percebido firme como os rochedos e corrediço como as águas.
Velho como está, então lhe é possível lembrar tudo do instantinho em que nasceu. Foi menos que um relâmpago, foi uma faísca voadora que sumiu sem chegar a cintilar, uma fresta entreaberta e fechada simultaneamente, com nenhuma duração. Mas ele já viveu o bastante para estar seguro de que, naquela passagem, soube tudo — passado, presente e futuro, os três embolados, sem antes nem depois. Todavia, esse conhecimento se esfumaça e se extravia no infinito, as vistas do nascido se desregulam e só o que ele sente é a primeira dor das muitas que virão, a dor fria do primeiro ingresso de ar no peito. Levantando‑se para passar na Fonte da Bica, como todos os dias, Tertuliano imaginou que tudo o que iria ocorrer naquele começo de dia já era sabido e ressabido em algum lugar, de alguma forma. Até mesmo que naquele dia ia lhe nascer um neto homem devia estar assentado e não por qualquer adivinhação, das mais comuns às mais abalizadas.
Pelo relevo do ventre, pelas feições da prenha, pelas manchas em sua tez, pela índole dos antojos e enojos e pelos mais variegados sinais que a Natureza concerta e expõe sem preocupação com a simplicidade, é possível vaticinar se quem chegará é macho ou fêmea, mas se trata de oceano naufragoso, em que incontáveis se aventuram e poucos chegam a bom ancoradouro. Até porque não somente em sinais consiste ele, mas em largo cabedal de saberes zelosamente atabafados ao longo das eras, cujo rol quiçá jamais se finde. Certos homens, machos modelares sob todos os aspectos, do juízo e postura à aparelhagem frontal, produzem quase que exclusivamente gala feminil. O homem assim constituído enxerta esposas, amásias, primas, cunhadas, comadres, vizinhas, colegas, conhecidas, companheiras de viagem e parentas de todos os graus aceitáveis, bem como as que mais consiga, na obediência ao império tirânico da ordenação da vida em todo o reino animal — e só o que vem é uma maria atrás da outra, principiando na glória e encerrando nas dores, pelo meio de incontáveis aparecidas, conceições, rosários e amparos. Causa para tal haverá, como para tudo salvo Deus, mas fora do entendimento comum. Já outros homens, bem menos servidos de estampa varonil, uns até falando fino e se adamando lá e cá, geram unicamente machos. E existem ainda os que atingem o bom meio‑termo, pois correta é a filharada que contenha tanto machos como fêmeas, mesmo em desproporção, outros tipos acarretando grande burrice e geral atraso na ideia. Por essas e outras razões de vasta intricação, tudo foi sempre incerto e duvidoso, no que tange à mencionada prognose.»

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Tal como a razão, também a maioria, quando absoluta, desenvolve uma feroz incapacidade de autocrítica que a isola progressivamente do mundo. A convicção de que se está certo, separada do regular questionamento sobre aquilo que se decide, é um dos conhecidos caminhos do desastre; se, a esse suposto desígnio, se juntar a possibilidade total (a maioria absoluta) de decidir e executar, estaremos a afastar‑nos desse comportamento tão salutar da democracia que consiste na discussão pública, na apresentação de argumentos e de contra‑argumentos (sustentada, entenda‑se, pela convicção de que esse debate vale a pena e não é meramente o preenchimento de um requisito burocrático, como aconteceu sobejas vezes na última legislatura). Por isso, nas eleições legislativas do próximo domingo, eu votarei contra a maioria absoluta. Não receio o mito da suposta «ingovernabilidade»; pelo contrário, acredito que o regresso das discussões a sério à Assembleia da República representa uma recuperação da importância e da dignidade que têm andado arredadas do parlamento. O cidadão terá de colocar aí de novo a sua atenção, consciente de que nada está adquirido ou perdido à partida, mas que tudo se decide efectivamente através de uma ampla discussão democrática. É também o regresso possível da política, quer dizer, de uma assunção mais plena da cidadania. De gente que se considera destinada a guiar o país já este rectângulo à beira‑mar deveria estar farto. No domingo se verá se assim é.

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A revista Ler da Primavera de 1990 apresentava uma curiosa entrevista de Almeida Faria, concedida por escrito a Jorge Pires, em que o autor de Cavaleiro Andante (1983) referia a existência, em sua casa, de gavetões cheios de inéditos por tratar. Segundo ele, amontoar‑se‑iam aí fragmentos de diários e capítulos inteiros de projectos romanescos abandonados. Quando tivesse mais tempo disponível, afirmava Almeida Faria, talvez se dedicasse a pôr esses papéis em ordem. Agora que o escritor deu início à entrega do seu espólio à Biblioteca Nacional, com a cedência dos manuscritos de Rumor Branco (1962) e de A Paixão (1965), é possível que também considere chegado o momento de rever o que permanece guardado na sua «arca». Seria bom que assim fosse e que daí resultasse a publicação de algum novo livro de um dos mais notáveis ficcionistas contemporâneos de língua portuguesa, infelizmente há demasiado tempo em silêncio.

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