Sexta-feira, Julho 31, 2009

CENAS DA ERA W


Lembram-se de Judith Miller, a jornalista do NYT que esteve presa mais de um ano por se recusar a identificar a fonte que lhe permitiu afirmar que Valerie Plame (ao alto), mulher do embaixador Joseph Wilson, era agente da CIA?

A Verdade e só a verdade (2008), de Rod Lurie, trata deste episódio, ainda que o faça com nomes trocados e frioleiras escusadas: Valerie Plame continua viva e o “Karl Rove” do filme é grotesco.

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ISTO NÃO DEVIA TER ACONTECIDO


Pode uma editora publicar texto ou imagem sem autorização do autor? Não pode. Enfim, talvez na Somália. Mas foi o que aconteceu, e o crime de usurpação de propriedade intelectual é capaz de ser público (passo a batata quente aos juristas). Primeiro foi uma editora obscura, num livro sobre o regicídio. Ontem, a Visão dedicou um artigo ao livro onde o retrato de Aquilino Ribeiro foi inserido sem autoria creditada. Não devia ser possível. Em que é que o Pedro Vieira tem menos direitos que a Paula Rego? [Corrigido.]


[Ao alto, Aquilino Ribeiro por Pedro Vieira.]

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LEGISLATIVAS. 3ª PREVISÃO


Eleições legislativas. Estudo da Eurosondagem para o Expresso, SIC e Rádio Renascença


PS — 33,0%
PSD — 31,1%
BE — 10,0%
CDU [PCP+PEV] — 9,4%
CDS-PP — 8,5%
Outros — 8,0%


Avaliação positiva de Sócrates — 38,6%
Avaliação positiva de MFL — 29,1%

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TOM PERROTTA


Hoje no Público:


André Chêdas, que já havia traduzido Pecados Íntimos, de Tom Perrotta (n. 1961), reincide com Abstinência. Perrotta é o tipo de autor que faz a ponte entre leitores exigentes e estúdios de cinema que põem o negócio à frente de tudo. Conhecemos personagens suas por intermédio de Kate Winslet, Matthew Broderick, Reese Witherspoon e outros.

Abstinência trata de um tema que está na ordem do dia: educação sexual no ensino básico. Aqui não há alunas com gravadores escondidos, como na Escola Sá Couto, mas o teinador de futebol Tim Mason, um antigo toxicodependente que trocou as drogas duras pela religião, transformando-se numa espécie de guerreiro de Deus, tem um comportamento simétrico ao das mães que deram origem ao escândalo de Espinho.

Como sempre, a escrita de Perrotta é seca, fluente, sem rodriguinhos de qualquer espécie, especialmente sedutora para leitores que, ao longo do livro, identificam com facilidade inúmeras referências culturais (e comportamentais) dos nossos dias. Dito de outro modo, Perrotta é um escritor realista sem complexos, o que não acontece com a maioria dos autores da sua geração. A seu respeito é frequente fazerem-se comparações com Raymond Carver. Eu acho que Balzac chega, porque se Balzac tivesse vivido em Stonewood Heights teria decerto escrito A Comédia Humana com a mesma garra, numa época (a nossa) em que a burguesia well-off ocupa o centro do palco, dispensando-o de explicar as razões da sua ascensão.

Como em Pecados Íntimos, este novo romance trata dos mais antigos recalcamentos: sexo e religião. Os subúrbios das grandes cidades americanas podem ser muito assépticos, mas a mentalidade-padrão (quase sempre um falso arremedo de espírito comunitário) dos membros do “meio” tende a potenciar conflitos de violência subliminar.

Se uma igreja cristã evangélica se opõe a determinadas práticas, como, por exemplo, ensinar educação sexual a menores, a luta é sem tréguas. Neste caso, o Tabernáculo Evangelho Puro, uma instituição cristã fundamentalista, opõe-se ao plano de ensino de Ruth Ramsey, professora da disciplina de Saúde e Vida Familiar do liceu de Stonewood Heights. As manchetes mais benignas dos pasquins locais identificam-na como «Dama do Sexo Oral». O pecado de Ruth é estar preocupada em alertar (e precaver) os alunos para doenças sexualmente transmissíveis. Mas nem todos pensam assim. A uma aluna que considera nojento o sexo oral, responde: «Se feitos nas devidas proporções, tanto o cunnilingus como os fellatio devem ser bem mais agradáveis e higiénicos do que beijar uma sanita. Espero que tenha respondido à tua pergunta.» Para o Tabernáculo Evangelho Puro isto é pura heresia. Sodoma à porta de casa.

O fantasma da pedofilia também preocupa a comunidade. A Associação de Futebol Juvenil de Stonewood Heights tem um manual com regras estritas sobre proximidade física «desapropriada ou intrusiva», como ajudar uma criança a mudar de roupa ou dar palmadas nas nádegas (uma velha tradição americana indissociável do beisebol) e, sobretudo, nunca dar azo a jogos ou brincadeiras «sexualmente aliciantes com uma criança». As festas de pré-adolescentes (aniversários, etc.) são rigorosamente vigiadas por seguranças de agências especializadas. E nos bailes de finalistas passou a ser vulgar a utilização de alcoolímetros. É este mundo “irreal” que Perrotta descreve com secura não isenta de subtileza crítica.

Stonewood Heights é o paraíso do imobiliário de sucesso, das pessoas “normais” que um dia descobrem a quantidade de esqueletos que têm no armário, mas fazem de conta, porque se não fizessem de conta não tiravam proveito das sessões de póquer ou dos serões de cinema em casa (tecnologia de ponta!), sempre mais interessantes que a rotina dos estudos bíblicos e da exigência de, em público, excluir das suas vidas o álcool, o fumo e o sexo não-procriador. Abstinência é o retrato melancólico (sem deixar de ser cruel) dos estigmas de certas classes-médias.


O guerreiro de Deus, in Ípsilon, 31-7-2009, pp. 34-35. Quatro estrelas e meia.

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Quinta-feira, Julho 30, 2009

Memória de um ataque à língua


Em conversas recentes com escritores de língua portuguesa e de língua galega, tive ocasião de verificar que a maior parte desses autores desconhecia o afastamento da lírica galego­‑portuguesa dos programas do ensino secundário em Portugal. O crime de lesa­‑língua foi já cometido há alguns anos, sob o pretexto demagógico de que aquela matéria era árdua, difícil, não correspondia aos interesses dos alunos e não os aproximava de um uso mais correcto da língua. O pressuposto era, como já se imagina, o de que ninguém quer hoje nada com a literatura, ela é geralmente considerada uma grande chatice, e quanto mais antiga, em sentido estritamente cronológico, pior. Sobrevivem, nos programas de Português do secundário (é dessa disciplina que falo, não da outra, específica apenas, e em regime opcional, dos cursos de Línguas e Literaturas, que é a de Literatura Portuguesa), os autores (por enquanto) considerados demasiado intocáveis, como Camões, Vieira, Garrett, Eça, Cesário e Pessoa, a par de um inusitado Luís de Sttau Monteiro e do premiado Saramago. A adornar tudo isto, estão, como também já foi amplamente referido, as notícias, os artigos científicos, os requerimentos, as cartas, os currículos e os regulamentos de concursos. A dimensão utilitária sobrepôs­‑se ao uso estético da língua, afastando os alunos da possibilidade de conhecerem, durante o seu percurso escolar, um corpus alargado de textos que haveria de servir para que compreendessem, não apenas o processo de construção que originou a língua de que nos servimos na actualidade, mas também, de uma forma mais expressiva, as múltiplas possibilidades que a sua prática é capaz de oferecer hoje em dia. Do aprofundamento destas competências (como é habitual ouvir­‑se agora) ficaram afastados os alunos que não têm, no seu ambiente familiar, quem lhes fale desses textos ou quem os incite a descobri­‑los; o mesmo será dizer, afinal, que as desigualdades sociais se tornarão, a esse nível, ainda mais notórias, quando seria de esperar que a escola pública fosse, pelo menos, capaz de as esbater.

Por essas razões, e não só, mais lamento que seja hoje quase completamente impossível encontrar nas estantes das livrarias um volume que a Angelus Novus lançou em 1998, no âmbito daquele projecto de boa memória (infelizmente interrompido), lançado pelo ministério da Cultura de Manuel Maria Carrilho, que era a colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, patrocinada pelo então designado Instituto Português do Livro e das Bibliotecas. Lírico Galego­‑Portuguesa: Antologia é uma edição da responsabilidade de Américo António Lindeza Diogo, que assina um extenso e rigoroso texto introdutório, onde a erudição e o sentido de humor se conjugam a cada momento. Nesse ensaio quase exaustivo, acompanhado de uma bibliografia selectiva (mas, na verdade, bastante ampla), Lindeza Diogo discorre sobre tradição, influência, tipologias textuais e critérios utilizados, para, em seguida, apresentar um vasto florilégio dessa lírica que, na sua totalidade, é composta por mais de mil e seiscentos textos. Bastante proveito haveria de ter feito esta imprescindível edição aos autores dos actuais programas de Português do ensino secundário se eles tivessem sido capazes de a ler sem o seu desassombrado ódio à literatura.

SIM, ESTÁ NO PROGRAMA


Muita gente não acreditava que o PS seria capaz de incluir o casamento entre pessoas do mesmo sexo no seu programa eleitoral. Que era tudo salamaleques para o lobby gay — essa entidade misteriosa —, mas, quando chegasse a hora da verdade, um inoportuno lapso faria desaparecer o tema. Enganaram-se. O programa de governo do Partido Socialista inclui uma Lei da Igualdade, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, bem como o combate à discriminação com base na orientação sexual e na identidade de género. São passos decisivos.

Ficaram de fora a adopção — uma hipocrisia legal, porque há dezenas de gays de ambos os sexos que adoptaram crianças na qualidade de pessoas solteiras; a proibição atinge apenas os “casais homossexuais”, que devem ser uns devassos, para viverem assim acasalados... —; a não-discriminação na reprodução medicamente assistida e os direitos das pessoas transexuais.

Em todo o caso, quem votar PS não vota enganado.


[A imagem ao alto, obtida em 1946, mostra à direita um sorridente Ronald Reagan, durante um muito comentado jantar gay em Hollywood.]

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POLÉMICA DE VIÉS


Aqui fica o texto publicado ontem às 20:42PM no SIMplex:


Acusa-me José Gomes André de ser um guerreiro medieval intolerante [sic] que se mete indevidamente em conversas de especialistas. E que não pode responder porque não tenho caixa de comentários. Já lhe disse que pode mandar um texto para o Da Literatura. Declinou educadamente.

O meu crime: ter transcrito resumidamente o texto de Carlos Santos, dizendo que o mesmo desmonta as teses de JGA. Eu gosto do verbo desmontar. Ele não. Paciência.


Adenda. José Gomes André responde aqui.

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A DMI


O drama que afecta seis doentes no Hospital de Santa Maria, cegando-os, está a caminho de tornar-se um caso de polícia. É natural que as televisões façam render o thriller. Mas faz-me muita confusão que nenhum media de referência tenha vindo explicar o que é a DMI, vulgo degeneração macular, doença que provoca a degenerescência progressiva da mácula a partir da meia-idade, tornando-se causa de cegueira funcional. A imagem ao alto, conhecida como Amsler Grid, mostra um dos sintomas da doença: tomando como exemplo uma fachada de vidro num prédio com vários andares, a DMI dá a ver um murro na superfície lisa. Por efeito da metamorfosia, a distorção de imagens é frequente, mesmo em estradas em linha recta. Estou “familiarizado” com a DMI por ter um caso na família.

Em Lisboa, a Associação de Retinopatia de Portugal é uma instituição exemplar. E nos hospitais civis não faltam profissionais competentes, que usam o Avastin há anos, com sucesso. Quem não precisa de fazer contas vai directamente ao Centro Cirúrgico de Coimbra, dirigido pelo prof. António Travassos, presidente da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia. No CCC também se usa o Avastin.

Há seis anos, quando soube das consequências da DMI, as injecções de Lucentis eram o tratamento recomendado. Cerca de 1500 euros por injecção. Tratamento completo: dez injecções. Progressivamente, o Avastin — também usado em oncologia — foi tomando o lugar do Lucentis. Não admira. Uma dose de Avastin custa 40 euros. Entretanto, uma holding subsumiu os dois laboratórios, que têm agora o mesmo patrão.

Aos interessados, recomendo este artigo de Marilyn Haddrill.

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Quarta-feira, Julho 29, 2009

MARMALADE

CONTRA NÚMEROS...


Sobre o estudo que Ricardo Reis publicou ontem no i, Carlos Santos comenta e desmonta o essencial de um texto de José Gomes André publicado aqui. Uma verdadeira close reading. Pode e deve ser lido aqui e aqui. Ricardo Reis é professor de Economia na Universidade de Columbia, em Nova Iorque; Carlos Santos é professor de Economia e Gestão na Universidade Católica Portuguesa, no Porto. Deixo alguns highlights na esperança de que leiam o texto de Carlos Santos na íntegra:



[1] Ricardo Reis calculou «a taxa anual média de crescimento do peso dos gastos correntes do Estado no PIB, para cada um dos governos após 1986, agregando os anos em que Cavaco Silva foi PM, os anos em que Guterres foi PM, e os anos Barroso/Lopes. [...] Ricardo Reis analisou «a evolução de um rácio (gastos correntes/PIB). Nesse sentido, o ritmo de crescimento do PIB está lá.»

[2] A conclusão foi que «o governo Barroso/Lopes foi o que fez crescer mais o peso dos gastos correntes no PIB, seguido dos governos de Cavaco Silva e só depois dos de António Guterres.»

Cai por terra a lenda do Guterres dissipador.

[3] Ainda mais surpreendente: «O governo de José Sócrates apresenta a menor taxa de crescimento média anual dos gastos no PIB (apenas 0,11% contra os 0,65% de Barroso/Lopes).

[4] Sendo, na aparência, o partido «mais fiscalmente conservador, o PSD, é na prática o que mais tem alimentado a máquina do Estado (usualmente designado por Monstro, ou Leviathan, na Economia Pública). O que mostra bem o desajustamento entre o discurso de contenção de gastos do PSD, na oposição, e a sua prática governativa.»

Para política de verdade é deveras esclarecedor.

[5] Vai o PSD defender a «solução germânica»? O Parlamento [alemão] aprovou uma inconcebível regra de contenção orçamental (peso do défice no PIB máximo de 0,35%) no pico da crise! Isto só pode ser conseguido se, numa altura em que a Alemanha é um dos países europeus mais afectados pela crise, os impostos forem aumentados brutalmente. Estima-se que seja necessária uma subida do IVA para 25%!»

[6] Aos adeptos da tese do Monstro, «não há nada como exemplificar para mostrar como é coerente e tem uma explicação: é que o governo de José Sócrates fez crescer o Monstro mesmo muito menos que os de Cavaco Silva em maioria absoluta. Para José Sócrates, tomemos 3,5 anos de referência a um crescimento anual médio de 0,11%. Para os 8 anos de maioria absoluta PSD consideremos 0,3% de crescimento anual médio dos gastos. A média para os 11,5 anos de maioria absoluta seria aproximadamente 0,24%.»

[7] «Em síntese, é perfeitamente possível que em maioria absoluta o rácio da despesa no PIB cresça a uma taxa anual média mais baixa, e que o PS seja o partido mais fiscalmente responsável. O segredo é que o Governo de José Sócrates foi mesmo bastante responsável no controlo da máquina do Estado, o que não sucedeu no cavaquismo!»

[8] Enquanto foi primeiro-ministro, Santana Lopes provocou «um crescimento [do rácio] 160% superior ao de Durão Barroso! A conclusão é clara. Santana Lopes foi um péssimo PM, mas não inocentemos Barroso desta forma.»

[9] Apesar do despesismo de Santana Lopes enquanto PM, «Manuela Ferreira Leite, ministra das Finanças de Barroso, fez crescer o rácio 0,45% ao ano, o que é muito mais que Guterres, e muitíssimo mais que José Sócrates.»

[10] «Em síntese [...] José Gomes André elimina não só a aúrea de Manuela Ferreira Leite, como consegue arrastar para a lama a única solução governativa que o PSD pudesse ter para oferecer ao país, ao destruir a credibilidade de um dos mais reputados economistas do PP.»

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A CULTURA


Aqui fica o texto publicado ontem às 22:38PM no SIMplex:



Quem tenha lido o que escrevi nos últimos cinco anos, sabe que a ideia de um ministério da Cultura me parece coisa dirigista, pese embora a competência e o cosmopolitismo de alguns titulares: Francisco Lucas Pires, Pedro Roseta, Manuel Maria Carrilho e José António Pinto Ribeiro. (Vasco Pulido Valente foi SEC, o que não o impediu de criar a nova Torre do Tombo.) O Reino Unido e os Estados Unidos, para ficar por dois exemplos, nunca precisaram de ministérios da Cultura.

Mas é evidente que alguém tem de tomar conta do património. E apoiar os museus, a gestão das bibliotecas (dotando-as de fundos capazes), os leitorados no estrangeiro, as artes plásticas e performativas, a música, o teatro, o cinema e por aí fora. E para isso chegam três institutos, dotados de verbas compatíveis com o seu fim.

Um para o Património. Outro para as Bibliotecas. E um terceiro, dito da Cultura, para aquilo a que a direita tonta, quase sempre sem saber do que fala, gosta de chamar de subsídio-dependência.

Muita gente não reparava, mas o Instituto Camões, de quem depende a representação da cultura portuguesa no estrangeiro, foi até há muito pouco tempo tutelado pelo MNE. Um ministro sem verbas (o que representa 0,4% do OGE?) tem menos poder que o presidente de um instituto autónomo.

Com certeza que era preferível ter uma indústria de cinema (como já temos de novelas), teatros independentes dos humores do governo, artistas com bolsas que lhes permitissem criar sem obstáculos, etc. No fundo, o que fez a Gulbenkian no antigamente, quando não havia ministério da Cultura, o que não impediu dezenas de artistas de fazer a sua formação em Paris e Londres, porque a Fundação zelava pela cultura. Como não temos, o apoio do Estado é imprescindível. Mas não é por haver ministério da Cultura que o mundo pula e avança.

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Terça-feira, Julho 28, 2009

EM QUE FICAMOS?


Joana Amaral Dias faz hoje o pleno dos editoriais da imprensa de referência. Porém, ao contrário do que escreve o Diário de Notícias, o seu (dela) silêncio não é ensurdecedor. Ou só o é a partir do empolamento da controvérsia. Porque, no último sábado, o Público reproduziu afirmações suas (dela), obtidas na véspera de viva voz. Portanto, Joana Amaral Dias disse mesmo que tinha sido convidada para deputada. A parte da presidência do IDT é que parece ser um exclusivo Louçã.

Nunca fui convidado para deputado, mas, a partir da minha experiência de outros convites (seminários de literatura, conferências, festivais de poesia no estrangeiro, etc.), nenhum convite se faz sem prévia sondagem. E uma sondagem não é um convite. É uma avaliação da disponibilidade, para um cargo (ou evento) em data determinada. Admitindo que Joana Amaral Dias tenha sido sondada, e tenha recusado, por razões que só a ela dizem respeito, das duas uma: ou ficava calada, como manda o bom-senso e a boa educação, ou chamava os nomes aos bois.

Ainda recentemente, Vasco Pulido Valente contou um episódio relacionado com a sua hipotética participação na celebração do centenário da República (em 2010). Jaime Gama achou por bem convidar o historiador. Mas, em vez de pegar no telefone e fazer o convite directamente, mandou recado por terceiro. Pulido Valente, naturalmente, ignorou-o. Mas não andou a jogar ao gato e ao rato.


[Foto de Dionisio Leitão, 2006.]

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ACTO FALHADO


Aqui fica o texto publicado hoje às 00:52AM no SIMplex:


Não quero ser desmancha-prazeres, mas considero inadmissível (sob vários pontos de vista) que a anunciada e falhada transmissão em directo da BlogConf com José Sócrates continue, quatro horas depois de terminada, por explicar. O flop técnico vai morrer solteiro? O vídeo mantém-se indisponível (00:50h), e o pouco que se sabe é o que se lê em blogues da direita. Excepção honrosa, e notória, o Carlos Santos.


[Foto de Paulo Querido.]

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ASSOBIAR PARA O LADO


Aqui fica o texto publicado ontem às 14:44PM no SIMplex:


Na política, como na vida, assobiar para o lado paga-se caro. Quando foi da greve dos camionistas, Manuela Ferreira Leite, recém-eleita líder do PSD em nome da credibilização do partido, preferiu ir a Londres ver o neto, borrifando-se para o que se passava nas estradas do país. Agora não foi à Madeira para as celebrações do Chão da Lagoa, onde teria oportunidade de (se estivesse interessada em) demarcar-se dos excessos de Alberto João Jardim. Num caso como noutro optou pela fuga aos problemas. Se isto é assim na oposição, como seria no governo?


[Imagem roubada à Ana Vidigal.]

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Segunda-feira, Julho 27, 2009

CITAÇÃO, 178


Vasco Lobo Xavier, Caixinha de surpresas:


«[...] Tudo isso se podia esperar de Joana Amaral Dias. O que me pasmou nela, aquilo que eu não estava à espera, é que permitisse à RTP filmá-la em casa, no recato burguês todo florido (coisa que imaginava proibida pelo BE), em poses estudadas, a descer pausadamente a escadinha de livro marcado na mão, ou depois a lê-lo, por entre uns penduricalhos a fingir pingentes de cristal, oferecendo ainda ao câmara um grande plano de massagem de perna: isso eu não estava à espera de Joana Amaral Dias.»

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BLOGCONF COM SÓCRATES


Realiza-se hoje, a partir das 17:30h, na LX FACTORY — o cluster de Alcântara onde fica a livraria Ler Devagar, a Cantina, ateliês de diversos artistas, lojas de design, etc — uma denominada BlogConf, com o secretário-geral do Partido Socialista, José Sócrates. A sessão será moderada por Paulo Querido, com transmissão em directo via Sapo. Está limitada a vinte bloggers de várias tendências políticas, previamente inscritos. Se algum faltar, há treze suplentes na calha. Em vista de alguns nomes confirmados, como Carlos Leone, Carlos Santos, João Gonçalves, João Jesus Caetano, José Reis Santos, Luís Novaes Tito e Tomás Vasques, a coisa promete.

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MUSEU DA VIAGEM?


Aqui fica o texto publicado ontem às 11:50AM no SIMplex:



José António Pinto Ribeiro, o ministro da Cultura, é um homem culto, civilizado e afável. Mas nem ele nem ninguém faz milagres com 0,4% do OGE. Deu ontem [sábado] ao Público uma entrevista de fundo, que toma como pretexto um hipotético Museu da Viagem, a instalar no edifício que serviu de Pavilhão de Portugal na Expo 98. (Entretanto, o presidente da Parque Expo confirmou ter entregue ao governo um anteprojecto do referido museu.) O edifício de Siza Vieira distingue-se pela famosa pala suspensa, mas, excluindo-a, o que sobra faz lembrar as escolas primárias que o Estado Novo construiu nas antigas colónias africanas. Uma espécie de Bauhaus em pobrezinho. Contudo, nos últimos dez anos, tem sido referido para mil e uma utilizações: de sede do conselho de ministros (um delírio!) a Museu Fernando Pessoa, as hipóteses foram múltiplas. Nada vingou. Suponho que as obras de adaptação ao que quer que fosse dissuadiram toda a gente.

Chegou agora a vez do Museu da Viagem, o qual, para dar conteúdo às palavras de Pinto Ribeiro, talvez devesse chamar-se Museu dos Descobrimentos. Porque foram os descobrimentos que nos ligaram ao mundo. Os Gamas e os Cabrais não andavam propriamente a viajar...

Eu não tenho nada contra museus, pelo contrário. Gostava muito que o Museu Nacional de Arte Antiga tivesse a projecção que merece (e, naturalmente, fosse ampliado); o Museu Calouste Gulbenkian continua, pelas melhores razões, um clássico; o CAM dispõe do melhor conjunto de arte portuguesa moderna e contemporânea; considero o CCB o espaço ideal para o Museu Colecção Berardo; apoio sem reticências a construção do novo Museu dos Coches, um projecto que começou no tempo de Manuel Maria Carrilho, foi apoiado por Santana Lopes enquanto presidente da CML, e teve luz verde orçamental do governo Barroso (era a dra. Manuela ministra das Finanças), não sendo, portanto, como agora é de uso dizer-se, uma decisão recente e arbitrária de Manuel Pinho; o museu da Fundação Oriente é magnífico, por oposição ao equívoco que representa o Museu do Chiado (arte contemporânea, aquele acervo?); e, para não me alargar, tenho pena que o Museu do Design e da Moda esteja para já reduzido a uma parcela ínfima do seu espólio.

Mas há coisas que me encanitam. O anunciado Museu da Língua (ainda por cima num espaço desastroso) e agora este da Viagem. O problema não são os museus. É a sua multiplicação, que custa dinheiro, fazendo com que Lisboa não disponha de um único que possa medir-se com os seus congéneres de Madrid, Veneza, Roma, Paris, Londres e Nova Iorque. O episódio caricato da pretendida e falhada extensão do Hermitage de São Petersburgo foi um bom exemplo da leviandade com que por vezes certos ministros gerem os dinheiros públicos.

Para os distraídos: estou só a falar de Lisboa.


[A seguir, com o mesmo título, Leonel Moura publicou aqui a sua perspectiva do assunto.]

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Domingo, Julho 26, 2009

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Pode um surfista escrever um livro sobre as suas ondas a partir de Wordsworth, Sophia, Conrad, Auden, Camões e Homero? Pode. Foi aliás o que fez Pedro Adão e Silva (n. 1974), professor de ciência política no ISCTE, que acaba de dar à estampa O Sal na Terra. O livro colige artigos de diversa origem, entre ela a revista SurfPortugal e o blogue Ondas. A fluência da escrita nunca é perturbada pelas inúmeras e oportunas notas de rodapé, que tanto dizem respeito a T. S. Eliot e Fernando Pessoa como a bandas de rock e sufistas australianos para mim absolutamente desconhecidos. Um verdadeiro melting pot que vai de Marx a Ruy Castro. E não, não são artiguinhos colados. É uma colecção de textos coerentes, com boas reproduções fotográficas, que merecia uma capa, como direi?, menos light. Parabéns, Pedro.


Miguel Vale de Almeida: «[...] Mas muitas pessoas, e às vezes jornalistas, parecem ter congelado no tempo: há quem pense que transitei directamente do BE para o PS. Duplamente falso, não só por ter saído do BE há 3 anos, como por entrar nas listas do PS como independente. Entra aqui o “argumento” do “tacho”. Valerá a pena responder dizendo que, no meu caso pessoal, poder vir a ser deputado não constitui tacho nenhum? Duvido. Ou que não tenho qualquer intenção de um dia assumir cargos executivos, mas sim vontade de participar no Parlamento e contribuir um pouquinho que seja para a sua abertura à “sociedade civil”? Duvido que isto seja ouvido. Ou que acho que o grupo parlamentar do PS, na sua pluralidade e contradições (com sensibilidades ideológicas diferentes, comportamentos éticos diferentes, retóricas diferentes) é um espaço vasto onde julgo poder intervir e influenciar e não um pacote monolítico? Duvido também. Ou que um deputado, e sobretudo um independente, é um indivíduo e que age (pode agir; e deve agir) como tal e representando a cidadania e não somente um partido? Uma vez mais duvido. [...]»

Osvaldo Manuel Silvestre: «[...] Posto isto, o que é verdadeiramente lamentável nesta peça é o seu episódio III, digno de uma República (kultural) das Bananas. Não discuto o mérito de Ricardo Pais como encenador (mas suponho que o que está em causa é o seu lado “Citizen Kane”); mas também não discuto o direito das pessoas acima referidas a satirizá-lo, com ou sem razão (numa sociedade aberta, não é possível, nem legítimo, decidir dessa razão antes da sátira, que é aliás um direito cívico, ter lugar). O que me parece eminentemente discutível é o espectáculo, dado pelo director e presidente do Conselho de Administração de duas instituições centrais das nossas artes do espectáculo, de subserviência (“respeitinho”), temor e inclinações censórias, confessadas de resto sem pejo. O que essas duas entidades conseguiram com a sua lamentável intervenção foi perverter o teor, inteligente, da declaração de Ricardo Pais sobre o espectáculo em causa. Por outras palavras, fizeram dele uma “não-insignificância”. / Se era isto o que o Ministro da Cultura queria dizer quando afirmou, também ao Público, que o caso mostra que não evoluímos muito desde o «Manifesto anti-Dantas», os meus parabéns pela judiciosa opinião. Quanto aos intervenientes na triste Cena III, a única coisa a dizer é: Shame on you!»

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ELE SABE, ELA NÃO


Aqui fica o texto publicado ontem às 12:25PM no SIMplex:


Anda a dra. Manuela tão preocupada “com a real dimensão” das contas públicas do país, dando a entender que o governo as esconde, e, afinal, o Presidente da República, que em matéria de economia e finanças não é leigo, deu uma entrevista ao jornal austríaco Kurier, afirmando, peremptório: «Portugal encontra-se numa situação semelhante à de todos os outros países da UE, mas de certeza que não comprometemos a zona euro».

Cavaco Silva aproveitou a entrevista para sublinhar que «[Portugal e a Áustria] consideraram fundamental que o Tratado de Lisboa possa entrar em vigor o mais rapidamente possível».

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Sábado, Julho 25, 2009

EDIÇÃO VS DISTRIBUIÇÃO


Não podemos continuar com o divórcio entre edição e distribuição. Não podemos continuar a procurar livros em livrarias e a ouvir como resposta do empregado — livreiro é outra coisa —, em regra blasé, ou simplesmente ignorante, «dessa editora não temos nada». Já ouvi dizer isto da Assírio & Alvim, que há meia dúzia de anos andava ao colo de toda a imprensa cultural e agora sumiu dos escaparates. O mesmo se passa com as edições da Imprensa Nacional, do Instituto de Ciências Sociais, da & etc e, de um modo geral, de todos aqueles que não apostam no bestseller. Um caso paradigmático é o da Angelus Novus, que tem um catálogo irrepreensível, mas é difícil de encontrar fora dos dois ou três sítios do costume: os tais que têm livreiros. E não me venham com a treta de que sou parte interessada por ter publicado dois livros na Angelus Novus (em 2000 e 2003), um deles até já reeditado na QuidNovi.

Vem isto a propósito de uma nova colecção da Angelus Novus, a Colecção Jacto, cujo primeiro título saiu no fim de Junho, e ainda não vi em livraria — Para que servem os Direitos Humanos?, do brasileiro Pádua Fernandes (n. 1971), doutor em Direito, que em Portugal havia publicado já O Palco e o Mundo (& etc, 2002). Esta nova colecção de ensaios caracteriza-se pelo pequeno formato [16,5x12cm] e por textos breves: este tem 70 páginas. Numa altura em que tanto se fala de direitos humanos, as reflexões de Pádua Fernandes são uma excelente introdução ao tema, em linguagem acessível a não especialistas, em particular no que toca ao seu estabelecimento no direito internacional. Se a livraria da esquina não tiver, encomende directamente através do site Angelus Novus.

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Resistência


Nem todos os navegantes se deixam embalar pelo canto da sereia de plástico.

Sexta-feira, Julho 24, 2009

O CHEQUE-EM-BRANCO


Aqui fica o texto publicado às 12:55PM no SIMplex:



Por altura das legislativas de 2002, o Diário de Notícias perguntou a várias personalidades o que achavam do facto de nenhum partido se apresentar a eleições com uma proposta de governo: fulano nas Finanças, beltrano na Justiça, sicrano na Educação, etc. Não me recordo dos termos da minha resposta, e não tenho agora tempo para ir procurar. Mas fui inequívoco na discordância do cheque-em-branco. Por exemplo, parece-me decisivo, no momento de votar, saber quem vai mandar nas polícias! Algum partido diz quem propõe para ministro da Administração Interna? E assim sucessivamente, com a Segurança Social, Economia, Saúde, Obras Públicas, Negócios Estrangeiros, Ambiente, Cultura, etc.

O Partido Socialista teria toda a vantagem em dar esse passo em frente. O primeiro comício da campanha eleitoral seria o momento ideal. É preciso mudar a «cultura» política da «negociação» pós-eleitoral.

Quanto ao PSD, líder da oposição, então nem se fala! Como é que um partido se propõe governar sem previamente divulgar a composição de um governo-sombra (como se faz nos países civilizados), que diga o que pretende fazer em caso de vitória, e que fará diferente, porque A+B+C são indiscutíveis? As vaidades ficam beliscadas em caso de insucesso? Pois ficam. Mas um político não é um gestor de compromissos.

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A qualidade de um leitor


O Leitor Sem Qualidades, de João Ventura, é um blogue que merece os maiores encómios. Se outras razões não existissem, a inclusão do Diário de Witold Gombrowicz (a minha edição é a francesa, da Gallimard) neste «projecto para uma roda de leitura perigosa» seria mais do que suficiente.

JUNOT DÍAZ


Hoje no Público:



Começar pelo princípio: quem é Junot Díaz? É um dominicano nascido em Santo Domingo, no último dia de 1968, que emigrou para os Estados Unidos antes de completar sete anos. Entretanto, naturalizou-se americano e escreve em inglês. É professor no MIT e na Universidade de Syracuse, editor de ficção da Boston Review e autor de três livros: Los Boys (1996), escrito em castelhano, Drown (1997), que inaugura a fase de língua inglesa, e A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao, apenas publicado em 2007, mas, na realidade, o primeiro de todos. Díaz diz que levou onze anos a escrever o livro. Lendo-o, percebe-se porquê. Com ele ganhou em 2008 o Prémio Pulitzer de Ficção. Seria fastidioso enumerar a totalidade dos prémios que recebeu. Não é de admirar, porque é realmente muito bom.

Uma história de imigrantes e das consequências do fukú (maldição) que não poupa ninguém, nem o poderoso clã Kennedy. Por exemplo: o avião de John-John despenhou-se a caminho de Martha’s Vineyard porque a cozinheira era dominicana e estava a cozinhar chicharrón de pollo, o seu (dele) prato favorito. Mas «o fukú é sempre o primeiro a comer, e come sozinho

Não se julgue, porém, que Díaz aposta no realismo mágico. Muito pelo contrário. A sua escrita é a de quem reflecte com acrimónia sobre a ditadura de Trujillo, da qual escapou a tempo (era uma criança). Alguém com os pés bem assentes na terra. De tal modo que, acerca da invasão da República Dominicana, perpetrada pela administração Lyndon B. Johnson em Maio de 1965, comenta: «Santo Domingo foi o Iraque antes de o Iraque ter sido o Iraque.» Um episódio entre vários.

Narrado na primeira pessoa, A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao conta a história de um dominicano expatriado, perseguido pelo fukú. Os percalços da diáspora são descritos com indisfarçável cinismo, como se Díaz, hoje cidadão americano e académico respeitado, tivesse contas a ajustar, não com Rafael Leónidas Trujillo Molina, o ditador que governou a ferro e fogo a República Dominicana durante mais de 30 anos (até ser assassinado em 1961), mas, por estranho que pareça, com o país de acolhimento.

Porque o “sonho americano” foi uma fraude para Oscar Wao, um rapaz que sente dificuldade, numa sociedade altamente competitiva como a americana, em provar a excelência de valores tradicionais (para um dominicano), como, entre outros, os associados ao machismo. Nada batia certo na sua vida: «Tinha vontade de culpar os livros, a ficção científica, mas não era capaz — gostava demasiado de ambos. Apesar de fazer juras que iria alterar os seus modos de cromo, continuava a comer, continuava a não fazer exercício, continuava a usar palavras caras, e, após alguns semestres sem quaisquer amigos a não ser a irmã, aderiu à organização dos fanáticos dos computadores residentes na Universidade...». Os rituais vincadamente masculinos das fraternidades académicas foram outro empecilho.

Na realidade, o que Díaz faz é a narrativa do Trujillismo, dos seus campos de morte e de exilados célebres como o escritor Juan Bosch, que foi (em 1937) o exilado «anti-Trujillista número Um», chegando em 1963, eleito por sufrágio universal, a primeiro presidente constitucional da República Dominicana, cargo que ocupou durante escassos sete meses: foi deposto por um golpe de Estado patrocinado pela CIA.

A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao divide-se em três partes. Na última, autor e narrador confundem-se. Díaz fala de Oscar Wao na terceira pessoa. Oscar morreu pelo caminho. Passados dez anos, Díaz confessa que atravessou «mais cagadas do que aquelas que vocês seriam capazes de imaginar [...] até que, finalmente, acordei ao lado de alguém por quem não daria um cêntimo, o meu lábio superior coberto de coca, de ranho, de coca, e de sangue, e coca, e disse, OK, Wao, OK. Venceste.»

O romance inclui inúmeras notas de rodapé com que o autor sinaliza o pano de fundo político e sociológico da intriga, notas na sua maioria pertinentes, mas algumas fúteis, como as referentes a Porfírio Rubirosa e às irmãs Mirabal. O tradutor Victor Cabral (que também traduziu o poema de Derek Walcott que abre o volume) manteve, por acordo com Díaz, uma vasta panóplia de expressões em diferentes idiomas, para não «comprometer a fluidez do discurso». O mesmo princípio foi seguido na utilização do calão vernáculo.


Os azares de Wao, in Ípsilon, 24-7-2009, p. 28. Cinco estrelas.

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DEPUTADO DO PS POR LISBOA


Se esta notícia for confirmada logo à noite na aprovação final das listas a deputados, o PS terá dado um passo decisivo na representação parlamentar das minorias. Ver o antropólogo Miguel Vale de Almeida, professor do ISCTE e activista LGBT, em 7.º lugar na lista do círculo de Lisboa, é um sinal inequívoco de mudança.


[A foto é de Carlos Manuel Martins / Público.]

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CITAÇÃO, 177


Luis M. Jorge, vintage:


«Além da mulher de Verdade, da política de Verdade, dos colóquios e comícios de Verdade, dos bailaricos saloios, jogos florais, serões Tupperware e tertúlias de canasta de Verdade, o PSD bem podia esforçar-se para alinhavar um programa de verdade a tempo das próximas eleições. Uma página bastava. A alergia ao Sócrates não dá para tudo, e os ex-ministros de Cavaco Silva pincelam com matizes suaves o grosseiro embuste dos contentores de Alcântara.»

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ÁGAPE


A foto (magnífica!) tem copyright. É da Ana Vidigal, e foi primeiro publicada aqui. Clique na imagem para tentar adivinhar onde foi o ágape...

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Quinta-feira, Julho 23, 2009

PORQUÊ ABSOLUTA


Aqui fica o texto publicado às 12:30PM no SIMplex:


Uma das questões que mais divide a opinião pública relaciona-se com a necessidade de maiorias absolutas. Nos países em que a oposição (em particular a que aspira a ser governo) não dá tiros no pé, os acordos parlamentares pós-eleitorais permitem governar em minoria. Isso pode e deve ser feito à esquerda e à direita. Em Portugal, infelizmente, a experiência demonstra o contrário. Nos últimos quatro anos e meio, o PSD teve, para dizer o mínimo, um comportamento errático. Escolho ao acaso três momentos-chave: [1] a deriva populista que levou à demissão de Correia de Campos; [2] o laissez-faire na greve dos camionistas, já sob direcção da dra. Manuela; [3] a cumplicidade objectiva com a Fenprof no caso da avaliação dos professores, matéria hoje reduzida a uma burocracia sem sentido. Julga o PSD, se por hipótese remota chegar ao governo, que pode governar, como pretende a Fenprof, sem avaliar a competência científica dos docentes?

Se o resultado de 27 de Setembro for uma maioria relativa do PS, é possível que o PCP e o BE viabilizem o programa de governo, deixando Sócrates governar mais uns tempos, com toda a instabilidade daí decorrente. Mas se a maioria relativa for do PSD, supõe a actual direcção do PSD que o conjunto da esquerda (maioritário) permitirá a passagem de um governo seu? Lembram-se de Alfredo Nobre da Costa, primeiro-ministro do III Governo Constitucional (1978, na imagem), imposto por Eanes, que o Parlamento fez cair ao fim de pouco mais de 80 dias?

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DAR OS NOMES ÀS COISAS


Carta de Rui Vieira Nery, sobre o CLAC, hoje publicada no Diário de Notícias. Sublinhados meus:



«A coluna de opinião assinada pelo Sr. Alberto Gonçalves no DN de domingo, 19/07/2009, relativa ao manifesto de apoio à candidatura de António Costa subscrito por um conjunto de cidadãos lisboetas que exercem o seu direito natural de opção política pública, reveste-se de um tom de grosseria tão rasteiro e de uma ignorância tão gritante da vida cultural portuguesa, que não posso deixar de lhe pedir, Senhor Director, a publicação do seguinte esclarecimento.

Nunca tinha dado pela existência do Sr. Gonçalves, num desconhecimento que, estou certo, será recíproco, dado que imagino que o Sr. Gonçalves, que manifestamente não tem qualquer familiaridade mínima com o campo da cultura — e muito menos com a área obscura da Musicologia, em que procuro ganhar a vida honestamente — também não tenha nenhuma razão para ter ouvido falar de mim ou do meu trabalho. Não me ofende quem quer, e as tentativas de ofensa do Sr. Gonçalves são-me por isso indiferentes a título pessoal.

Mas mesmo uma coluna de opinião — sobretudo num jornal com a estatura e a dignidade do
Diário de Notíciastem de ter um suporte de informação minimamente sério. É essa seriedade elementar que falta ao texto do Sr. Gonçalves que, em primeiro lugar, não se baseia no manifesto original mas sim numa breve notícia de jornal que não é, evidentemente, da responsabilidade dos subscritores do mesmo, e ainda por cima insulta e calunia, a pretexto de uma mera diferença de postura política, que em si mesma só seria saudável, um conjunto de figuras que deveriam estar acima deste tipo de baixa política e ser respeitadas como pessoas de bem que, no seu conjunto, fizeram muito pelo seu País e sempre foram como tal reconhecidas.

Não me prendo em mais considerações gerais, que seriam inúteis face à evidência dos factos. Dos apoios ao manifesto, não falando já da figura de Eduardo Lourenço, que o Sr. Gonçalves tem a gentileza de excluir da vala comum, constam um Prémio Nobel (José Saramago, que haveria que respeitar para lá de todas as divergências ideológicas) e dois Prémios Pessoa (José Mattoso, sem dúvida o maior historiador português vivo, e Irene Pimentel). A Arquitectura está representada por um dos grandes nomes de referência desta disciplina, Nuno Teotónio Pereira, e as Artes Plásticas pela maior figura actual da Pintura portuguesa, Júlio Pomar, e por nomes indiscutíveis como Ana Vidigal, Eduardo Nery, Joana Vasconcelos, João Abel Manta ou Leonel Moura.

Na Poesia subscrevem o manifesto Ana Hatherly, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz, Liberto Cruz, Maria do Rosário Pedreira, Maria Teresa Horta, Nuno Júdice e Pedro Tamen, ou seja, alguns dos mais representativos poetas portugueses das últimas quatro décadas — e também Eduardo Pitta, de quem recomendo ao Sr. Gonçalves, para passar a conhecer melhor os seus alvos, a recente e notável edição crítica da obra poética de António Botto. Da Ficção estão representados Isabel da Nóbrega, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Lídia Jorge, Teresa Rita Lopes. E do campo do ensaísmo e dos estudos universitários sobre Artes, Literatura, História e Ciências Sociais ali estão autores de referência como Alfredo Campos Matos, Eugénio Lisboa, Helena Cidade Moura, Isabel Allegro Magalhães, José Luís Saldanha Sanches, José Rebelo, Maria Alzira Seixo, Maria Helena Mira Mateus, Maria João Brilhante, Maria Lúcia Lepecki, Mário Murteira, Mário Ruivo, Miriam Halpern Pereira, Raquel Henriques da Silva, Rosa Maria Perez, Sílvia Chicó ou Vítor Matias Ferreira e Vítor Serrão.

Das Artes do Espectáculo pode o Sr. Gonçalves encontrar um grande número das figuras de primeiro plano do Teatro português: Beatriz Batarda, Catarina Avelar, Cristina Reis, João Lourenço, Lia Gama, Maria do Céu Guerra ou Rui Mendes. E da Música estão, entre outros, os nomes do compositor Alexandre Delgado, do Maestro António Victorino d'Almeida e do alaudista Manuel Morais, para lá de artistas do maior relevo da nossa música popular urbana — inclusive do fado, que o texto do Sr. Gonçalves trata com uma sobranceria caricata, como Carlos do Carmo ou Camané.
Tudo isto são factos e não opiniões. Não há entre estas senhoras e estes senhores da Cultura portuguesa que acabo de citar (perdoem-se-me as omissões de tanta mais gente respeitável da lista de subscritores) um único que seja funcionário da Câmara de Lisboa ou dela dependa ou tenha dependido para o exercício da sua profissão. Todos eles se limitam a manifestar publicamente o seu apoio a um dos candidatos à presidência do município e a convidar os demais eleitores a acompanhá-los nessa opção. O Sr. Gonçalves terá outra, que é clara nas entrelinhas, mas quero crer que conheço o suficiente do Dr. Pedro Santana Lopes, que é uma pessoa bem-educada, para garantir que ele seria o primeiro a não subscrever o estilo chocarreiro e insultuoso desta coluna. É que é possível fazer política na Comunicação Social, da Extrema-Esquerda à Extrema-Direita, sem sacrificar os valores mínimos da deontologia jornalística e da simples civilidade.

Plenamente confiante no sentido de isenção do
Diário de Notícias e do seu Director, subscrevo-me, com os melhores cumprimentos.»



Adenda. Para quem não saiba, o musicólogo Rui Vieira Nery (n. 1957), licenciado em História (1980) e doutorado em Musicologia (1990), dirige o Programa Gulbenkian Educação para a Cultura. Foi secretário de Estado da Cultura (1995-97) e director-adjunto do Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian entre 1997 e 2008. A imagem ao alto mostra-o entre António Costa e Zaluar Basílio.

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CONCORRÊNCIA


O SIMplex já tem concorrência à direita. É o Jamais. Estão lá cinco amigos meus. É a vida.

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Quarta-feira, Julho 22, 2009

A IMPORTÂNCIA DE SER BENTO


Aqui fica o texto publicado às 02:00AM no SIMplex:



Para o lugar de Dias Loureiro no Conselho de Estado, o Presidente da República convidou Vítor Bento, presidente da Sociedade Interbancária de Serviços, vulgo SIBS, ou seja, o Multibanco. Vítor Bento pertence ao quadro do Banco de Portugal, embora esteja na situação de licença sem vencimento desde 8 de Junho de 2000, data em que ingressou na SIBS. O facto estar na situação de licença sem vencimento, há nove anos consecutivos, não tem impedido progressões automáticas — por mérito — no quadro do BdP. Como Vítor Bento não se chama Armando Vara, o pessoal tolera. Até porque consta da cláusula 91.ª do Acordo Colectivo de Trabalho. OK. Se e quando Vítor Bento voltar ao BdP, terá direito a um vencimento-base de 11 mil euros, mais 47% desse valor a título de abono de isenção de horário, mais os benefits da praxe. Na SIBS ganha com certeza mais.

Não estando em causa a competência profissional do novo conselheiro de Estado, nada disto teria grande importância se o Presidente da República não tivesse dado, com esta escolha pessoal, um sinal contraditório com as suas — dele, Presidente da República — reiteradas preocupações sociais, enfatizadas numa célebre declaração sobre a espiral dos vencimentos dos gestores públicos e privados.

Não admira que o PSD tenha adiado para Setembro — provavelmente para o dia 26 — a apresentação do seu programa eleitoral. Quem é que perde tempo a ler dezenas ou centenas de lugares-comuns? Os sinais são claros. E estão aí.

Para quem não saiba, Vítor Bento propôs recentemente, como solução para a crise económica, a redução — repito: a redução — dos salários dos trabalhadores por conta de outrem.

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Para lá do silêncio


Assumida desde o título como processo estruturante do seu mais recente livro, a metonímia não é, na obra de João Luís Barreto Guimarães, uma novidade. De certo modo, o café que atraía o sujeito poético de Lugares Comuns (Mariposa Azual, 2000) condensava já o mundo inteiro, tal como em Luz Última (Cotovia, 2006) se podia ler: «O nome que tu transportas é o nome / onde és tudo» (p. 23). Em A Parte pelo Todo, volume acabado de publicar pela Quasi, o título foi herdado do quarto poema da primeira secção, que é um poema em branco. Não se entenda este gesto como uma ruptura vanguardista; ele é antes a concretização de uma hipótese que o experimentalismo abriu, mas que surge agora com a serenidade própria dos processos que já foram assimilados. O silêncio da página 14 é a estupefacção perante a evidência da morte, é a constatação de que, como escreveu Jorge de Sena, é «uma injustiça a morte». Assim, todos os poemas da primeira parte, que têm na página em branco o seu vórtice, se organizam à volta desse estado de perplexidade que o autor nomeou a partir de um verso de Emily Dickinson. Nesta obra, o luto compreende chill, depois stupor e, finalmente, the letting go (não traduzo por respeito pela opção do poeta e porque a vibração destas palavras em inglês se torna naturalmente diferente da de qualquer uma das escolhas que poderiam ser assumidas na língua portuguesa). Ora, com um elemento nuclear, a que se poderá atribuir mesmo uma força gravitacional, situado quase no início da primeira de três partes, João Luís Barreto Guimarães organizou a sua obra segundo um princípio de descentramento que parece devedor da estrutura barroca. Falo aqui de barroco no sentido tipológico, aliás reiterado nas antíteses que sustentam, por exemplo, um poema como «Torpor», com os seixos colhidos na praia pelo sujeito poético e por uma figura feminina a distinguirem­‑se nitidamente, com os «dela (vermelhos sépia brancos / ocre) de cores claras» a tecerem um acentuado contraste com os dele, «cinzentos (mais / pequenos) / nunca claros»: «tenho os seus como tijolos para começar castelos / os meus (quase que) nem pedra / ossos / pó de cremação» (p. 23).

Esta poesia incita o leitor a percorrer um caminho de relativo apaziguamento, quase de aceitação. A carrinha funerária nomeada na página 36 torna­‑se também numa metonímia do que incumbe superar, e ultrapassá­‑la fisicamente (no espaço) significa criar distância em relação à própria morte (no tempo), o que tem de ser feito «pelos vivos». Não se pense, porém, que esta aparente superação representa um esquecimento ou a anulação da dor; ela é antes outra forma de compor uma ligação com a figura ausente, de preservar um lugar distante do ruído mundano onde a relação se possa prolongar. Por isso, é precisamente «Poema» o título da composição que fecha o livro, dado que, em registo atravessado por uma subtil melancolia, se afirma aí, de um modo discreto, que a poesia pode muito bem ser o lugar onde o diálogo com um ser amado não cessa com a morte: «Toca no sexto direito. Estou / sempre por aqui. Ou senão / não venhas hoje. / Faz como te apetecer» (p. 43).

Terça-feira, Julho 21, 2009

BOAS MORADAS


A bloga volta a animar. Não foi só o SIMplex. Apareceu o Senhor Palomar, descobri A Escada de Penrose do Rui Herbon, o incontornável Luis M. Jorge regressou da Sereníssima (algum dia teria de ser), e o Francisco retomou as lides no sítio do costume. Tudo gente civilizada, que tem como denominador comum pensar bem, embora diferente.

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OS PORQUÊS


Ontem publiquei no SIMplex este texto que republico agora aqui:


Estar à beira de completar 60 anos dá-nos a vantagem de saber como foi o antigamente e como é o agora. E, sobretudo, de poder comparar o entretanto, que foi muitas coisas ao mesmo tempo. No meu caso particular, que nasci e vivi em Moçambique até aos 26 anos (o que significa ter passado pela experiência de quatro meses do imediato pós-independência), o antigamente era uma Metrópole distante, com partido único — a União Nacional —, eleições de fachada, polícia política, prisões arbitrárias, guerra colonial, emigração forçada e censura férrea, realidades que chegavam muito diluídas à costa oriental de África, excepto na parte respeitante ao conflito independentista. Fazendo fronteira com seis países de língua inglesa, Moçambique podia servir de cenário a romances de Evelyn Waugh, por oposição à melancolia de Portugal, mesmo na fase marcelista. Era assim desde os anos 1940, o que dá a medida da diferença e, sobretudo, da injustiça na distribuição da riqueza.

A que vem o intróito? À necessidade de, uma vez por todas, fazer acertar o passo de Portugal com a Europa e o vasto mundo desenvolvido. O 25 de Abril abriu muitas portas mas deixou as cabeças na mesma. Mal pagas, as profissões de prestígio (magistrados, professores, médicos) com real poder reivindicativo, trataram de couraçar-se para a velhice. Em 35 anos de democracia, as desigualdades alastraram por força dos benefits que cada corporação se auto-outorgou. O impasse actual traduz trinta anos de pura irresponsabilidade.

Quando as coisas começaram a mudar, em Fevereiro de 2005, caiu o Carmo e a Trindade. O discurso da claustrofobia fez escola. Pensadores conspícuos falam em totalitarismo. Gente que nunca foi incomodada fala de fascismo como se falasse de rebuçados. E até uma cozinheira famosa, protegida dos Tomazes, com idade suficiente para não confundir alhos com bugalhos, invoca hitlerzinhos com a leviandade própria de quem julga chegada a hora da desforra.

O Partido Socialista tem uma tradição de liberdade que ninguém contesta. De tal modo que, em 1975 e 1976, a direita meteu-se toda debaixo do chapéu-de-chuva do PS soarista. Foi também o PS quem, por via de um acordo com o FMI, salvou o país da bancarrota. Porém, as suas lideranças nem sempre se distinguiram pela eficácia. Porque se Mario Soares continua a ser uma referência incontornável, a gestão de Constâncio foi pura perda de tempo, e a de Guterres, que governou pouco mais de seis anos, caracterizou-se por um somatório de indecisões letais. Dos outros não reza a história: Ferro Rodrigues, infelizmente, não teve tempo; Jorge Sampaio foi um bom autarca e pouco mais. Não admira que o voluntarismo de Sócrates incomode tanta gente, tanta gente ao mesmo tempo e com tanto vigor.

Não há portanto que hesitar. Num país sem soluções conhecidas (onde está o governo-sombra do PSD?) e com apelos de regresso ao PREC — basta ler os cartazes do BE —, o Partido Socialista tem soluções, que podem não ser perfeitas, mas visam o bem-público e o interesse colectivo.

Se dúvidas houvesse, o ensurdecedor silêncio da actual direcção do PSD face à pretendida “revisão constitucional” de Alberto João Jardim seria um sinal inequívoco de que, daqui a dois meses, a escolha terá de ser feita em nome da liberdade, do progresso e do modernismo, contra o obscurantismo dos que rasgam hoje para colar amanhã.

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CITAÇÃO, 176


Tomás Vasques, Os polícias do pensamento. No SIMplex, claro!


«[...] o Simplex surgiu ontem. Nele se juntaram pessoas que vivem e pensam de modo diferente, mas unidas à volta de uma ideia, como se escreve no Manifesto: «que o Partido Socialista ganhe as eleições de 27 de Setembro próximo, de preferência com maioria absoluta. Só ele pode contribuir decisivamente para que Portugal se mantenha na vanguarda política do século XXI.» Esta iniciativa, normal em democracia, despertou engulhos, sobretudo da parte daqueles que, depois das eleições europeias, engravidaram. O que é normal. Uns referiram-se ao aparecimento deste blog de apoio ao Partido Socialista com fair play democrático, o que é de louvar; outros, menos propensos à elegância democrática, sentindo-se «ameaçados» pelo debate de ideias, descarregaram a bílis, e zurziram ao jeito de quem lhes falta razão: «idiotas úteis» — escreveram uns, com raiva; bando de «rapazes e raparigas» — escreveram outros, encrespados. Ao lê-los, diverti-me: reagiram como se o chão lhes fugisse debaixo dos pés ou o céu lhes tivesse caído em cima da cabeça. Quase abortaram. Por tão pouco. Apenas o manifesto de uns quantos, onde estão homens e mulheres que travaram muitas lutas ao longo da vida, que decidiram apoiar o Partido Socialista nas próximas eleições legislativas. É a democracia, estúpido! — Diria o outro.»

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Segunda-feira, Julho 20, 2009

Miscelânea


Na montra da Óptica Boavista, no Porto, em frente à Casa da Música, há óculos, naturalmente, mas não só. Como adereço para enquadrar os diferentes modelos de lentes escuras emparelhadas, alguém escolheu folhas rasgadas — cuidadosamente rasgadas, diga­‑se —, provavelmente de um livro apenas (dadas as similitudes do tamanho e do tipo de papel), que apresentam excertos de textos em prosa e em verso, a maior parte dos quais em francês. Há um poema de Jacques Prévert, a letra de uma canção de Juliette Gréco (acima fotografada por Georges Dudognon), a apresentação da obra proustiana («Savez­‑vous qui est Marcel Proust?», pergunta­‑nos o título de um texto, ancorando o autor da Recherche num sábio presente intemporal), uma lista de frases escritas nas paredes durante o Maio de 68, entre outros exemplos mais ou menos significativos da uso da língua francesa. Ora, o mais curioso é que o português também é chamado à colação, mas através de dois representantes no mínimo inesperados; entre as páginas preenchidas com vocábulos tão familiares aos habitantes do país de Montaigne (mas não só, não só), constam dois escritos atribuídos às entidades autorais reconhecíveis como Avelino Ferreira Torres e Dr. Marques Mendes. Eis o que se pode considerar um exemplo invulgar de miscelânea.

EM BOA COMPANHIA


A partir de hoje estou também aqui. E muito bem acompanhado!

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Quinta-feira, Julho 16, 2009

Viagem e narrativa


Foi a partir de palavras­‑chave como viagem e narrativa que se construiu o número 20 da Obscena. Nas palavras de Tiago Bartolomeu Costa, no editorial, a revista referente aos meses de Julho e Agosto é a «mais livre» desde a sua criação, há dois anos e meio, e é também um número que manifesta o «desejo de prolongar o tempo de uma narrativa, de a deixar fluir e a de voltar a viver». Por isso, o índice organiza­‑se como uma rede, um conjunto de ligações que, na verdade, até podem ser traçadas de outro modo. A abrir, duas grandes entrevistas: à actriz Edith Clever, por João Carneiro, a propósito da apresentação, no Festival de Almada, da encenação que Luc Bondy preparou de As Criadas (Les Bonnes, 1947), de Jean Genet; e à ensaísta Judith Butler, pelo director da revista, onde se reflecte sobre a dimensão performativa da linguagem e o seu poder em contexto de guerra. A propósito da 26.ª edição do Festival de Almada, com quem a Obscena estabeleceu, de novo, uma parceria, publica­‑se uma análise do recente teatro chileno, traça­‑se um perfil do encenador Mathias Langhoff, apresenta­‑se a nova peça de André Murraças e traduz­‑se poesia de André Césaire (o que não acontecia em Portugal desde 1970). Há ainda um ensaio fotográfico sobre o coreógrafo japonês Kazuo Ohno, uma análise ao cinema da paraguaia Paz Encina e da brasileira Sandra Kogut, uma viagem pelos pavilhões da Bienal de Veneza e a crítica do novo espectáculo de Vera Mantero, estreado em Essen, na Alemanha, no passado dia 19 de Junho. É ainda possível ler as colaborações habituais de André Dourado e António Pinto Ribeiro.

Os locais de venda da revista podem ser encontrados no sítio da Obscena, que foi remodelado e se apresenta agora com novas potencialidades, a pedir visitas regulares.

Quarta-feira, Julho 15, 2009

PROVA DO DELITO


Instantâneo do encontro, hoje, às 13h, no salão nobre da Câmara Municipal de Lisboa, de uma delegação do CLAC, com António Costa (clique na imagem). À minha direita vêem-se Vítor Matias Ferreira e Maria Armandina Maia. A foto é de Margarida Martins.

E agora, se me dão licença, vou a banhos. Até ao próximo dia 21.

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AO LADO DO PS


Nas autárquicas de 11 de Outubro, a arquitecta Helena Roseta vai concorrer à Câmara de Lisboa integrada na lista do Partido Socialista, logo a seguir a António Costa. Esta espécie de coligação informal prevê que o Movimento Cidadãos por Lisboa também tenha direito ao número dois da Assembleia Municipal. Apesar de ficar em segundo lugar na lista, Helena Roseta não poderá vir a ser vice-presidente. Em caso de vitória do PS, esse lugar continuará ocupado pelo arquitecto Manuel Salgado.

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TRÊS IMAGENS




As imagens mostram alguns dos presentes na fundação do CLAC no Martinho da Arcada. De cima para baixo e da esquerda para a direita, Rui Vieira Nery, autor do Manifesto de apoio a António Costa, que pode ser subscrito aqui; Maria Armandina Maia, dinamizadora do movimento; eu próprio, Gastão Cruz, Margarida Martins, Suzana Borges, André Gago, Manuel Pedroso Marques, Eduardo Lourenço, Lídia Jorge e Raul Solnado. Lamento não poder publicar as 70 fotos do evento, cedidas pela Margarida-Abraço.

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Terça-feira, Julho 14, 2009

CLAC



Conforme noticiado aqui, participei esta tarde na primeira sessão de trabalho do CLAC / Cidadãos Lisboetas Apoiam António Costa, na qual estiveram presentes diversas personalidades de várias tendências e sensibilidades. O CLAC nasceu para dar resposta a quem não se conforma com a desunião da esquerda nas próximas eleições para a Câmara de Lisboa. O Manifesto fundador, da autoria de Rui Vieira Nery, pode ser lido aqui. Entre os presentes (lamento não me lembrar do nome de todos), estavam, além de Nery, o ensaísta Eduardo Lourenço, a romancista Lídia Jorge, o poeta Gastão Cruz, os actores Raul Solnado, Suzana Borges, André Gago, Lídia Franco e Ângela Pinto, o historiador José Manuel Zaluar Basílio, Vítor Matias Ferreira, a Xana, activistas como Júlia Coutinho (Renovação Comunista) e Margarida Martins (Abraço) e, como não podia deixar de ser, Maria Armandina Maia, lenda viva do Instituto Camões de outros tempos, dinamizadora incansável do movimento. O Manifesto tem 120 subscritores-fundadores, mas está aberto à adesão de todos os interessados. Entre os signatários estão escritores, músicos, artistas, editores, professores, sindicalistas da CGTP, actores, jornalistas, etc, tais como, entre outros, Ana Hatherly, Carlos Câmara Leme, Eugénio Lisboa, Fernando J. B. Martinho, Fernando Lopes, Helena Cidade Moura, Hélder Costa, Iva Delgado, João Gil, João Lourenço, José Antunes Ribeiro, Júlio Pomar, Leonor Xavier, Lia Gama, Luís Represas, Márcia Breia, Maria do Céu Guerra, Maria Emília Correia, Maria João Seixas, Maria Lúcia Lepecki, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Mário Murteira, Miguel Lobo Antunes, Nuno Júdice, Pedro Caldeira Cabral, Possidónio Cachapa, Ulisses Garrido, Vasco Lourenço e Vergílio Castelo.

Ler aqui a lista dos primeiros 120 subscritores.

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EXPROPRIADA, DIZ ELA


Anteontem, uma mulher, identificando-se como baronesa, esbofeteou em público Manuel Moreira, presidente da Câmara do Marco de Canavezes (PSD), a quem acusa de ter sido expropriada. Olha se as marquesas e as pró-marquesas do eixo Lapa-Estoril-Cascais aderem todas ao wrestling...


[Na imagem, a baronesa Eugene de Rothschild e três dos seus cães, em 1928.]

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Segunda-feira, Julho 13, 2009

AS NOVAS OPORTUNIDADES


Acerca do programa das Novas Oportunidades, João Miranda escreveu este post. De acordo na parte respeitante à (relativa) futilidade da auto-estima. Mas JM está mal informado. Há mesmo quem «não tenha conseguido o certificado das Novas Oportunidades» sem que isso fosse consequência de desistência prévia.

Isto dito, é vulgar ouvir pessoas de direita falar das Novas Oportunidades nestes termos: «Agora preenche-se um formulário e já está. Estudar para quê?» O facto é que não está. Tantos disparates destes ouvi, que procurei e consegui ter acesso ao dossiê de uma trabalhadora do privado, com mais de 50 anos de idade, e 10 anos de escolaridade, que se habilitou à certificação do 12.º ano. O que me chegou às mãos foi um dossiê com 208 páginas A4, complexo o bastante para quem não domine um módico de conhecimentos muito variados, que duvido fosse satisfatoriamente elaborado por grande parte dos recém-licenciados. (Conheço teses de mestrado bem mais pobrezinhas.) Uma excepção? Talvez. Nas Novas Oportunidades, como em tudo, haverá certificadores e certificadores. Esta senhora que dou como exemplo, com 34 anos de actividade profissional, resolveu a coisa em 4 meses. Mas muitos colegas seus (dela) tiveram de ter formação profissional pelo meio, só no fim obtendo o certificado. E, num grupo de 15, três não conseguiram.

Claro que é (muito) importante saber em que medida a certificação fez diminuir o desemprego ou promove a progressão nas carreiras ou no estatuto profissional dos candidatos. Essa parte continua por esclarecer.

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