CENAS DA ERA W

A Verdade e só a verdade (2008), de Rod Lurie, trata deste episódio, ainda que o faça com nomes trocados e frioleiras escusadas: Valerie Plame continua viva e o “Karl Rove” do filme é grotesco.
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Em conversas recentes com escritores de língua portuguesa e de língua galega, tive ocasião de verificar que a maior parte desses autores desconhecia o afastamento da lírica galego‑portuguesa dos programas do ensino secundário em Portugal. O crime de lesa‑língua foi já cometido há alguns anos, sob o pretexto demagógico de que aquela matéria era árdua, difícil, não correspondia aos interesses dos alunos e não os aproximava de um uso mais correcto da língua. O pressuposto era, como já se imagina, o de que ninguém quer hoje nada com a literatura, ela é geralmente considerada uma grande chatice, e quanto mais antiga, em sentido estritamente cronológico, pior. Sobrevivem, nos programas de Português do secundário (é dessa disciplina que falo, não da outra, específica apenas, e em regime opcional, dos cursos de Línguas e Literaturas, que é a de Literatura Portuguesa), os autores (por enquanto) considerados demasiado intocáveis, como Camões, Vieira, Garrett, Eça, Cesário e Pessoa, a par de um inusitado Luís de Sttau Monteiro e do premiado Saramago. A adornar tudo isto, estão, como também já foi amplamente referido, as notícias, os artigos científicos, os requerimentos, as cartas, os currículos e os regulamentos de concursos. A dimensão utilitária sobrepôs‑se ao uso estético da língua, afastando os alunos da possibilidade de conhecerem, durante o seu percurso escolar, um corpus alargado de textos que haveria de servir para que compreendessem, não apenas o processo de construção que originou a língua de que nos servimos na actualidade, mas também, de uma forma mais expressiva, as múltiplas possibilidades que a sua prática é capaz de oferecer hoje em dia. Do aprofundamento destas competências (como é habitual ouvir‑se agora) ficaram afastados os alunos que não têm, no seu ambiente familiar, quem lhes fale desses textos ou quem os incite a descobri‑los; o mesmo será dizer, afinal, que as desigualdades sociais se tornarão, a esse nível, ainda mais notórias, quando seria de esperar que a escola pública fosse, pelo menos, capaz de as esbater.
Por essas razões, e não só, mais lamento que seja hoje quase completamente impossível encontrar nas estantes das livrarias um volume que a Angelus Novus lançou em 1998, no âmbito daquele projecto de boa memória (infelizmente interrompido), lançado pelo ministério da Cultura de Manuel Maria Carrilho, que era a colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, patrocinada pelo então designado Instituto Português do Livro e das Bibliotecas. Lírico Galego‑Portuguesa: Antologia é uma edição da responsabilidade de Américo António Lindeza Diogo, que assina um extenso e rigoroso texto introdutório, onde a erudição e o sentido de humor se conjugam a cada momento. Nesse ensaio quase exaustivo, acompanhado de uma bibliografia selectiva (mas, na verdade, bastante ampla), Lindeza Diogo discorre sobre tradição, influência, tipologias textuais e critérios utilizados, para, em seguida, apresentar um vasto florilégio dessa lírica que, na sua totalidade, é composta por mais de mil e seiscentos textos. Bastante proveito haveria de ter feito esta imprescindível edição aos autores dos actuais programas de Português do ensino secundário se eles tivessem sido capazes de a ler sem o seu desassombrado ódio à literatura.

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O Leitor Sem Qualidades, de João Ventura, é um blogue que merece os maiores encómios. Se outras razões não existissem, a inclusão do Diário de Witold Gombrowicz (a minha edição é a francesa, da Gallimard) neste «projecto para uma roda de leitura perigosa» seria mais do que suficiente.

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Assumida desde o título como processo estruturante do seu mais recente livro, a metonímia não é, na obra de João Luís Barreto Guimarães, uma novidade. De certo modo, o café que atraía o sujeito poético de Lugares Comuns (Mariposa Azual, 2000) condensava já o mundo inteiro, tal como em Luz Última (Cotovia, 2006) se podia ler: «O nome que tu transportas é o nome / onde és tudo» (p. 23). Em A Parte pelo Todo, volume acabado de publicar pela Quasi, o título foi herdado do quarto poema da primeira secção, que é um poema em branco. Não se entenda este gesto como uma ruptura vanguardista; ele é antes a concretização de uma hipótese que o experimentalismo abriu, mas que surge agora com a serenidade própria dos processos que já foram assimilados. O silêncio da página 14 é a estupefacção perante a evidência da morte, é a constatação de que, como escreveu Jorge de Sena, é «uma injustiça a morte». Assim, todos os poemas da primeira parte, que têm na página em branco o seu vórtice, se organizam à volta desse estado de perplexidade que o autor nomeou a partir de um verso de Emily Dickinson. Nesta obra, o luto compreende chill, depois stupor e, finalmente, the letting go (não traduzo por respeito pela opção do poeta e porque a vibração destas palavras em inglês se torna naturalmente diferente da de qualquer uma das escolhas que poderiam ser assumidas na língua portuguesa). Ora, com um elemento nuclear, a que se poderá atribuir mesmo uma força gravitacional, situado quase no início da primeira de três partes, João Luís Barreto Guimarães organizou a sua obra segundo um princípio de descentramento que parece devedor da estrutura barroca. Falo aqui de barroco no sentido tipológico, aliás reiterado nas antíteses que sustentam, por exemplo, um poema como «Torpor», com os seixos colhidos na praia pelo sujeito poético e por uma figura feminina a distinguirem‑se nitidamente, com os «dela (vermelhos sépia brancos / ocre) de cores claras» a tecerem um acentuado contraste com os dele, «cinzentos (mais / pequenos) / nunca claros»: «tenho os seus como tijolos para começar castelos / os meus (quase que) nem pedra / ossos / pó de cremação» (p. 23).
Esta poesia incita o leitor a percorrer um caminho de relativo apaziguamento, quase de aceitação. A carrinha funerária nomeada na página 36 torna‑se também numa metonímia do que incumbe superar, e ultrapassá‑la fisicamente (no espaço) significa criar distância em relação à própria morte (no tempo), o que tem de ser feito «pelos vivos». Não se pense, porém, que esta aparente superação representa um esquecimento ou a anulação da dor; ela é antes outra forma de compor uma ligação com a figura ausente, de preservar um lugar distante do ruído mundano onde a relação se possa prolongar. Por isso, é precisamente «Poema» o título da composição que fecha o livro, dado que, em registo atravessado por uma subtil melancolia, se afirma aí, de um modo discreto, que a poesia pode muito bem ser o lugar onde o diálogo com um ser amado não cessa com a morte: «Toca no sexto direito. Estou / sempre por aqui. Ou senão / não venhas hoje. / Faz como te apetecer» (p. 43).

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Na montra da Óptica Boavista, no Porto, em frente à Casa da Música, há óculos, naturalmente, mas não só. Como adereço para enquadrar os diferentes modelos de lentes escuras emparelhadas, alguém escolheu folhas rasgadas — cuidadosamente rasgadas, diga‑se —, provavelmente de um livro apenas (dadas as similitudes do tamanho e do tipo de papel), que apresentam excertos de textos em prosa e em verso, a maior parte dos quais em francês. Há um poema de Jacques Prévert, a letra de uma canção de Juliette Gréco (acima fotografada por Georges Dudognon), a apresentação da obra proustiana («Savez‑vous qui est Marcel Proust?», pergunta‑nos o título de um texto, ancorando o autor da Recherche num sábio presente intemporal), uma lista de frases escritas nas paredes durante o Maio de 68, entre outros exemplos mais ou menos significativos da uso da língua francesa. Ora, o mais curioso é que o português também é chamado à colação, mas através de dois representantes no mínimo inesperados; entre as páginas preenchidas com vocábulos tão familiares aos habitantes do país de Montaigne (mas não só, não só), constam dois escritos atribuídos às entidades autorais reconhecíveis como Avelino Ferreira Torres e Dr. Marques Mendes. Eis o que se pode considerar um exemplo invulgar de miscelânea.

Foi a partir de palavras‑chave como viagem e narrativa que se construiu o número 20 da Obscena. Nas palavras de Tiago Bartolomeu Costa, no editorial, a revista referente aos meses de Julho e Agosto é a «mais livre» desde a sua criação, há dois anos e meio, e é também um número que manifesta o «desejo de prolongar o tempo de uma narrativa, de a deixar fluir e a de voltar a viver». Por isso, o índice organiza‑se como uma rede, um conjunto de ligações que, na verdade, até podem ser traçadas de outro modo. A abrir, duas grandes entrevistas: à actriz Edith Clever, por João Carneiro, a propósito da apresentação, no Festival de Almada, da encenação que Luc Bondy preparou de As Criadas (Les Bonnes, 1947), de Jean Genet; e à ensaísta Judith Butler, pelo director da revista, onde se reflecte sobre a dimensão performativa da linguagem e o seu poder em contexto de guerra. A propósito da 26.ª edição do Festival de Almada, com quem a Obscena estabeleceu, de novo, uma parceria, publica‑se uma análise do recente teatro chileno, traça‑se um perfil do encenador Mathias Langhoff, apresenta‑se a nova peça de André Murraças e traduz‑se poesia de André Césaire (o que não acontecia em Portugal desde 1970). Há ainda um ensaio fotográfico sobre o coreógrafo japonês Kazuo Ohno, uma análise ao cinema da paraguaia Paz Encina e da brasileira Sandra Kogut, uma viagem pelos pavilhões da Bienal de Veneza e a crítica do novo espectáculo de Vera Mantero, estreado em Essen, na Alemanha, no passado dia 19 de Junho. É ainda possível ler as colaborações habituais de André Dourado e António Pinto Ribeiro.
Os locais de venda da revista podem ser encontrados no sítio da Obscena, que foi remodelado e se apresenta agora com novas potencialidades, a pedir visitas regulares.

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