Terça-feira, Junho 30, 2009

PINA BAUSCH 1940-2009


A um mês de completar 69 anos, morreu hoje, de cancro, a bailarina e coreógrafa alemã Pina Bausch. Nada voltará a ser como dantes.

[A foto é de Julie Lemberger, 1997.]

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CITAÇÃO, 173


Ferreira Fernandes, Pacheco Pereira e os anúncios, hoje no Diário de Notícias:



«Pacheco Pereira tem um novo programa, sobre opinião — Ponto Contra Ponto, na SIC Notícias. Um programa de “opinião, opinião, opinião.” A minha opinião: nenhuma opinião vale mais, em Portugal, que a de PP. Alguém que lembra a importância da hesitação no discurso televisivo de Vitorino Nemésio (a quem PP dedicou o seu programa) deve ser escutado. É uma luta necessária, a de PP, contra o “demasiado espectáculo e a pouca razão” na Comunicação Social portuguesa. Mais uma razão para o criticar. No primeiro Ponto Contra Ponto, PP abriu as páginas de procura de emprego do Correio da Manhã, de 26/06/2009, para concluir sobre os maus tempos em que vivemos. Fui ver esse CM: havia 52 anúncios de procura de emprego. Há 15 anos, o CM de 27/06/94 (não escolhi o de 26 porque foi domingo) tinha 104 procuras de emprego. Julgo que seria pouco razoável — PP até diria mais: situacionista! — alguém dizer, à luz dos anúncios do CM, que ao fim de nove anos de Governos de Cavaco (1985-1994) havia o dobro de desemprego que temos hoje... Conclusão: em televisão, abanar as páginas de anúncios de um jornal é demasiado espectáculo. Nemésio hesitaria, pensava e não o faria.»

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CACHIMBADAS


No Cachimbo, Fernando Martins, que é professor (estou a citar o perfil do Blogger), acusa-me de estar «cada vez mais aflito» com a possibilidade de mudança de governo. Como não sou candidato a coisa nenhuma, nem exerço cargos de nomeação, nem a minha “carreira” depende de partidos, não vejo como nem porquê. No mesmo sítio, Carlos Botelho vai mais longe: «Começa mesmo a assomar à superfície um rancor que já não se disfarça. Desespero, provavelmente.» Desespero? Rancor? Enfim, afirmações sem sentido. Dizer a ambos que o jogo democrático aceita as idiossincrasias do outro. E que não há crenças (eu não tenho nenhuma) melhores ou piores. A mim parece-me estranho o silêncio do PSD face a questões que MFL quer virar do avesso. Só isso. Confundir o que escrevo com agitprop não tem lógica nenhuma. [Em tempo: nada contra cachimbos; o meu pai toda a vida foi o que fumou, até nos intervalos da esgrima.]

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Segunda-feira, Junho 29, 2009

O QUE PODERÁ MUDAR?


Embalada pela vitória nas eleições europeias, a direita portuguesa acredita que o PSD vai ganhar as próximas legislativas. E, em conformidade, Manuela Ferreira Leite poderá vir a ser primeira-ministra, com Paulo Rangel a ministro de Estado e da Presidência. (Bruxelas é uma cidade tão chata!) A parte curiosa das expectativas reside no facto de ninguém saber ao certo o que o PSD fará para fundar o admirável mundo novo que promete. “Rasgar” tem sido um verbo muito utilizado. Vão “rasgar” este mundo e o outro, como Sá-Carneiro fez logo em Janeiro de 1980 com a legislação dos cem dias de Pintasilgo. Para já, o que se sabe é que MFL tenciona manter o Código do Trabalho de Vieira da Silva, que lhes (e nos) garante uma almofada para um mínimo de quinze anos. E congelar os vencimentos dos funcionários públicos. E alterar os parâmetros das taxas moderadoras da Saúde, que vão passar a ser indexadas aos rendimentos dos utentes. (Exemplo hipotético: rendimento colectável anual bruto inferior a três mil euros, taxa grátis em todos os serviços hospitalares; rendimento colectável anual bruto entre 12 e 24 mil euros, 25 euros por cada ida às urgências; a partir de 24 mil euros, preço real, o que dá 90 euros, ou mais, por cada ida ao “atendimento permanente”.) Tirando isso, nada se sabe do imbróglio da Educação, da Economia, da Justiça, das Obras Públicas (salvo que haverá adjudicação do TGV para Madrid ainda este ano), da Habitação, da reforma da Administração Pública, de uma nova política de Finanças, do Ambiente, da Cultura, enfim, nada do que, do ponto de vista deles, devia mudar. O maior partido da oposição devia ter ideias claras e rostos visíveis a defender políticas alternativas às actuais. Estão guardadas para depois das férias? Pelos vistos, os crentes vão votar numa entidade mítica. Eu, se fosse aos eleitores do PSD, começava a exigir, e a insistir, no esclarecimento do básico. Mas o básico não interessa a ninguém, porque o pessoal está apenas interessado na mudança de dinastia, borrifando-se para que o tecto lhes caia na tola.

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Domingo, Junho 28, 2009

FUMO BRANCO


O governo marcou as eleições autárquicas para 11 de Outubro próximo, e o Presidente da República as legislativas para 27 de Setembro. Duas decisões acertadas. Por mim preferia as legislativas a 20 de Setembro, mas a 27 também está bem.

As autárquicas é que nunca percebi por que razão têm de ser as 308 em simultâneo. Cada município devia fazê-las no dia da cidade. Lisboa e Cascais (os feriados coincidem) a 13 de Junho, o Porto a 24 de Junho, e assim sucessivamente. E de cada vez que um autarca tivesse o mandato cassado, ou ficasse impedido em definitivo por qualquer outra razão, haveria eleições, num prazo curto (30 dias), nesse município, para substituir o cessante e não o seguinte da lista.

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Sábado, Junho 27, 2009

O MERCADO A FUNCIONAR?


Os nossos liberais, que passam a vida a bramar com a intervenção excessiva do Estado na economia, acusaram o governo de estar a manipular o negócio da PT com os espanhóis da Prisa, accionistas maioritários da Media Capital, para eventural compra de 30% da empresa que detém a TVI. Porquê? Porque o Estado tem uma golden share na PT, o que lhe permitiria fazer avançar ou recuar o negócio. Zeinal Bava e Henrique Granadeiro recuaram depois de Sócrates ter dito, no Parlamento, que o governo usaria a golden share, impedindo a compra, para que não restasse «a mínima suspeita de que a operação se destinava a qualquer alteração da linha editorial da TVI».

Agora que o negócio está a ser conduzido entre a Cofina — proprietária, entre outros títulos, do Correio da Manhã e da revista Sábado — e a Prisa, ninguém tuge nem muge. Isto do mercado a funcionar é muito bonito quando é para o lado deles. Sobretudo até ao dia em que se descobre que o BPN era uma espécie de Loja P2; ou que cinco antigos administradores do Millennium BCP foram acusados pelo Ministério Público de serem responsáveis, entre 1999 e 2006, por perdas de seiscentos milhões de euros, o que não impediu o banco de Jardim Gonçalves de ter pago, no mesmo período, 291 milhões de euros (duzentos e noventa e um milhões) em prémios. Alguém da actual direcção do PSD se indignou?

Nisto tudo, duas coisas extraordinárias:

Primeira. A inusitada intervenção do Presidente da República, censurando a eventual compra de 30% da Media Capital pela PT. O mesmo Presidente da República que há poucos dias vetou o projecto de decreto n.º 265/X, com o argumento de que «a restrição de acesso, prevista no artigo 13.º, ao desenvolvimento de actividades pelo Estado e demais entidades públicas no domínio da comunicação social pode constituir um limite ao sector público, não se sabendo se, em determinadas circunstâncias, não poderá ‘pôr em causa a prossecução de interesses públicos de relevo, incluindo o próprio pluralismo e a independência dos meios de comunicação social’ [...]». Em que ficamos?

Segunda. A desfaçatez com que Manuela Ferreira Leite disse ontem às televisões que o primeiro-ministro tinha mandado a PT recuar «única e exclusivamente para defender a sua imagem.» Alberto João Jardim não faria melhor.

Pelo meio houve o sketch Moniz/Benfica, que já se percebeu que foi uma mera manobra de diversão.

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Sexta-feira, Junho 26, 2009

JAN MORRIS



Hoje no Público:


É provável que o leitor comum sinta perplexidade face ao nome e à obra de Jan Morris, que nasceu (em 1926) James Humphrey Morris, estudou História em Oxford, frequentou a Academia Militar de Sandhurst, combateu na Segunda Guerra Mundial como oficial dos Lanceiros da Rainha, tornou-se um escritor famoso e, em 1972, mudou de sexo, continuando a viver com a mulher que lhe deu cinco filhos (um deles é o poeta e músico Twm Morys). Nesse ano, atenta a nova identidade sexual, adoptou o nome de Jan Morris. Como nota Carlos Vaz Marques no prefácio de Veneza, cuja versão actualizada foi agora traduzida, «É quase escandaloso [...] ser esta a primeira vez que o leitor tem a oportunidade de encontrar o nome de Jan Morris nas estantes das livrarias portuguesas.» De facto.

A obra é vasta: entre livros de viagem (os mais aclamados), ensaios, cinco volumes de memórias, dois romances, uma colectânea de contos, uma biografia do almirante Jackie Fisher, recolhas de artigos, etc., Morris tem publicada meia centena de títulos. Como introdução, recomendaria três: o excepcional Veneza (1960), o pungente relato autobiográfico de Conundrum (1974), e a trilogia Pax Britannica (1978), sobre as luzes e sombras do Império.

A primeira versão de Veneza foi escrita «ainda na pessoa de James Morris», o que não aconteceu nas de 1974, 1983 e 1993. Muita coisa mudou desde 1945, ano da primeira visita, quando o então jovem oficial se deixou seduzir pela «mistura de tristeza e espectacularidade» da cidade, associando o perfil dos «palácios periclitantes» a um bando de «aristocratas inválidos que se atropelam para apanhar ar fresco.» A escrita é fluente, capaz de cerzir informação prosaica com erudição histórica, sem com isso beliscar a melodia da frase.

Morris adverte que não se trata de um livro de história, nem de um guia, nem sequer de uma reportagem. Ignore os avisos. O índice remissivo contém todas as referências importantes, e uma cronologia entre o ano 421 e 1960 não deixa nada de fora. O índice onomástico é precioso. Convém perceber que falamos de uma sociedade fechada: «Veneza nunca foi amada. Sempre esteve à parte, sempre foi invejada, sempre suspeita, sempre temida. [...] Era o leão que caminhava sozinho.»

O preâmbulo detalha as circunstâncias das sucessivas visitas de Morris, primeiro com «olhos jovens, especialmente sensíveis aos estímulos da juventude», mais tarde guiada pela ideia que guardava da cidade, em conflito aberto com a realidade do mundo contemporâneo: «apinhada, envelhecida e inconformista». Depois, a obra desdobra-se em cinco partes: Terra à Vista, Os Habitantes, A Cidade, A Laguna e O Embarque. Cada uma delas nos leva pelo fio da história. Peripécias do quotidiano, declinações dialectais, humores, mitos, equívocos, anedotário indígena, bricabraque, antigos ritos, nada escapa ao exaustivo tour d’horizon. Mesmo quem conheça Veneza surpreende-se com o caudal e a minúcia do relato, não isento de malícia: «Veneza ficou meio louca nas décadas que antecederam a sua queda [...] Actualmente... está relativamente sóbria...»

Morris ama Veneza mas não doura a pílula: «Em Veneza nunca se pode ter muitas certezas. O estranho é que, apesar de a informação ser claramente incerta, quem nos informa é habitualmente dogmático [...] O ponto fraco do veneziano é detestar confessar a sua ignorância.» O passado histórico explica. Morris fala de doges e ladrões com mesmo à-vontade com que nos familiariza com Ticiano. A chegada de Vasco da Gama à Índia pôs fim ao monopólio de Veneza? Sabemos que sim. Não obstante, a cidade «manteve a jactância e a pompa, preservando ainda hoje a sua reputação grandiosa.» Afinal, comerciar indiscriminadamente com cristãos e muçulmanos, fazendo tábua rasa das sanções papais, e tratar os Cruzados como meros mercenários, não é para qualquer um. Não por acaso, as grandes potências do século XVI se uniram (em 1508, na Liga de Cambrai) contra ela.

Nenhum capítulo se ocupa de arte em sentido estrito, porque a cidade é um museu vivo, nenhuma pedra ali está por acaso, e a mais inocente figura, se não for um Tiepolo ou um Guardi, pode ser que seja Mantegna ou Antonello da Messina. De modo que não vale a pena enfatizar o óbvio. Bellini, Carpaccio, Tintoretto, Veronese, Canaletto, Longhi, Canova e muitos mais, têm, na narrativa, estatuto idêntico ao do povo anónimo. Isto, que num autor menos apetrechado daria azo a uma crónica de viagem, transforma-se nas mãos de Morris numa obra que (estamos a falar de Veneza) se mede pelas memoráveis bitolas de Ruskin e Brodsky.

Não sei se, como exarou um comité de críticos consultados (em 2008) pelo Times, Jan Morris é ou não um dos mais importantes autores britânicos do pós-guerra. Sou avesso a esse tipo de classificações, as quais tendem (não estou a dizer que seja o caso) a deixar-se contaminar por razões exteriores à literatura. A minha única certeza é a da excepcional qualidade da sua escrita.


Os enigmas de Veneza, in Ípsilon, 26-6-2009, p. 38. Cinco estrelas.

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Quinta-feira, Junho 25, 2009

A NOVA GUIMARÃES


No pasado 25 de Abril, publiquei aqui este texto, divulgado na véspera no Blogtailors, como artigo de opinião. Passam hoje dois meses. No ínterim, Paulo Teixeira Pinto, presidente da Guimarães Editores, convidou-me a visitar a casa, onde fui recebido, com toda a cordialidade, por ele e por Vasco Silva, o editor.

Dizia eu que, que, na sua fase actual, a Guimarães se limitara a reeditar um catálogo de clássicos de prestígio, tendo ficado, em matéria de originais, pelo Dicionário Imperfeito, uma colectânea de declarações avulsas de Agustina Bessa-Luís, organizado por Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira. E ironizava dizendo que o conselho editorial devia estar preso num engarrafamento de trânsito...

Estas coisas acontecem porquê? Porque cada vez mais a distribuição é um caos. Sucede que, já em 2009, a Guimarães editou meia centena de títulos. Mas, em livraria, eu vi três. A notável saga da Crónica da Vida Lisboeta, de Joaquim Paço d’Arcos — seis romances, publicados entre 1938 e 1956, agora reunidos em três volumes de capa dura —; o referido Dicionário Imperfeito e, por último, Pensadora entre as coisas pensadas (2008), lição do doutoramento honoris causa em Línguas e Literaturas Europeias e Americanas outorgada a Agustina pela Universidade Tor Vergata, de Roma, em edição bilingue traduzida por M. Freitas da Costa.

E afinal há um mundo por descobrir. Joaquim Paço d’Arcos (1908-1979) devia dispensar apresentações. Mas o labéu de escritor do Ancien Régime afastou-o dos leitores com menos de 70 anos. Afinal, ninguém como ele descreveu o quotidiano classista do Estado Novo — e vou citar palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, autor da introdução à trilogia — «com traços de monarquia absoluta rural e ultraconservadora mais do que de despotismo esclarecido e, certamente, de fascismo contemporâneo.» Também vamos ter Agustina ne varietur: cinquenta volumes, dos quais cinco estão já em livraria, incluindo O Chapéu das Fitas a Voar, com relatos autobiográficos inéditos. E o Sena integral, começando com Sinais de Fogo (1979). Paulo Teixeira Pinto concorda comigo: «É o grande romance do século XX português.» E Oliveira Martins, senão integral, pelo menos o essencial. Mais Ferreira de Castro, Conan Doyle, Hesse, etc. Excelentes notícias.

Tenho aqui comigo os cerca de 50 volumes feitos desde Janeiro. Em traços gerais, a Guimarães divide-se em cinco chancelas. A Guimarães ela-mesma, para filosofia e ensaio (foi reeditado o 1.º tomo da História da Filosofia Portuguesa, de Pinharanda Gomes); a Ática, para poesia; a Athena — que foi buscar o título ao Almada — para livros de arte tout court, da pintura e escultura da Renascença ao pós-punk e ao concretismo, do design à fotografia e ao cinema, etc.; a Centauro, para recuperar ensaios breves, à laia de folhetos; e, last but not least, a IZI Press para obras fora de contexto específico.

Uma colectânea de 23 contos, Kismet (2009), escritos por autores anónimos, assinando sob pseudónimo — futebolistas, decoradores, CEO’s, esoterologistas bíblicos, advogados, matemáticos, espiões, economistas, um violoncelista e um que outro jornalista —, traz um boletim de voto para os leitores escolherem o preferido. Alguns são muito bons. Há um regulamento a cumprir e manual de instruções. Quem acertar, ganha um prémio. Não sei qual. Kismet, que leva por subtítulo Contos de Fados, tem posfácio de Luiza Costa Gomes. Nenhum nome na capa, com fundo fotográfico ouro-negro de Inês Sena. Colecção-mãe: Guimarães.

Termino destacando Alvorada Desfeita (2009), de Diogo de Andrade — pseudónimo de um alto quadro do Estado, testemunha privilegiada dos meandos militares e políticos do antes e do depois do 25 de Abril —, ficção sobre o que seria Portugal se a revolução não tivesse triunfado. Tomás, Caetano, Spínola, Kaúlza, Costa Gomes, Barbieri Cardoso e outros que tais, são protagonistas centrais. História virtual, portanto. Como nota António Marques Bessa, o plot denota o conhecimento de quem exerceu o poder, fazendo-o numa «tecitura fina de intriga e conjuntura epocal». A este ritmo, vamos longe.

Batam o pé aos livreiros!

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Quarta-feira, Junho 24, 2009

EXPLICAR O ÓBVIO


Relativamente a este meu texto, José Gomes André tem uma dúvida legítima. Explico. Sendo os problemas sérios, e não tendo conseguido ser resolvidos a contento por um governo de maioria absoluta, vão continuar por resolver, a menos que a futura oposição, seja ela qual for, não aposte na política da terra queimada, como tem feito a actual: PSD+BE+PCP+CDS-PP+PEV. Ou seja, se por hipótese a direita chegar ao governo, desacreditada como está, vai fazer o quê?

Desacreditada? Claro! E com pompa e circunstância! Exemplos avulsos: o comportamento do PSD durante o bloqueio dos camionistas em Junho de 2008 (com MFL no poleiro); as posições do PSD em matéria de Código do Trabalho; a instrumentalização do desemprego, que infelizmente não se resolve com passes de mágica; o blasé do PSD face às ameaças concretas de alguns militares; o episódio dos bonés da polícia; o apoio explícito às manifs da Fenprof, sem que o PSD tivesse apresentado no Parlamento um projecto alternativo de avaliação de professores; a cumplicidade objectiva com a liquidação de Correia de Campos (o melhor ministro da Saúde desde que existe SNS); o descarado lobby contra a Ota, cujo único objectivo foi favorecer os interesses do Sul elitista; os ziguezagues com o TGV, que no tempo de Barroso ia ter sete linhas, e agora cai o Carmo e a Trindade porque Sócrates quer três (Madrid, Porto, Vigo); o horror à terceira travessia do Tejo, porque o lobby do PSD quer um túnel Algés-Trafaria; as obsessões bipolares quanto à reforma da Administração Pública; o descaso do estado da Justiça; o desinteresse com a roda-livre dos sindicados do MP; a hipocrisia no caso BPN; as assobiadelas para o lado no caso BPP; a tentativa de demolição de Constâncio (não simpatizo com o personagem), que, como sabem, não pode ser demitido de governador do BdP, por muito que o sr. Nuno Melo barafuste com óbvia má-educação (cf. Pacheco Pereira), e que já devia ter mandado a comissão de inquérito catar macacos, fossem quais fossem as consequências; a complacência com as fugas ao segredo de justiça; o apoio descarado à estratégia tablóide de alguns media; etc., etc., etc. Para já não falar no défice da economia e no dossiê Provedor de Justiça.

Isto são coisas que o BE e o PCP podem fazer. Estão lá para isso. Mas um partido que quer ser governo não pode. O que vai MFL, se chegar a São Bento, fazer com os professores? Fazê-los a todos titulares...? Convidar Mário Nogueira para ministro da Educação? E o desemprego cai a pique por obra e graça do Espírito Santo? E por aí fora.

Portanto, caro José Gomes André, eu, como eleitor, e eleitor PS, fico muito preocupado «com a possibilidade de estes mesmíssimos problemas» continuarem por resolver. Acho que fui claro o bastante.

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Terça-feira, Junho 23, 2009

COLECÇÃO DA K À VENDA


Os mais novos não se lembram da revista K, que se publicou entre 1990 e 1993, tendo Miguel Esteves Cardoso como director e Pedro Rolo Duarte como editor geral. O projecto gráfico é de João Botelho (o cineasta, sim). E, entre os colaboradores, gente do quilate de Vasco Pulido Valente, que publicou lá, em primeira mão, alguns dos seus ensaios decisivos; Agustina Bessa-Luís, João Bénard da Costa, Maria Filomena Mónica, António Barreto, Francisco José Viegas, Helena Vaz da Silva, Carlos Quevedo, Eduardo Guerra Carneiro, Júlio Pereira, Manuel Hermínio Monteiro, Ferreira Fernandes, Rui Vieira Nery, Pedro Ayres Magalhães, António Cerveira Pinto, Rui Zink, etc., além de fotografia de superior qualidade de Inês Gonçalves, Augusto Brázio, Álvaro Rosendo e outros. A nata da época. Espírito cool. Não voltou a haver nada parecido. Um melting pot de arte, política, sociedade, literatura, nonsense, entrevistas corrosivas, tudo o que hoje a imprensa tem pudor em dizer ou explicar. A imagem ao alto mostra o primeiro número.

A que vem o arrazoado? Um amigo divorciou-se, não tem espaço na nova casa para a parte da biblioteca que era dele, decidiu desfazer-se de tudo o que era revista. As avulsas mandou entregar na junta de freguesia. A ex-mulher ficou com a colecção completa da Colóquio-Letras. Vai bem com as estantes, diz ela, que é prof de Letras. Ele ficou com a K. Mas acha um desperdício ficar com ela só por ficar. Foi a um alfarrabista apreçar. Pediram-lhe 100 euros pela colecção completa. Achou excessivo. Pôs anúncio no ebay por 70 euros. Mas como o ebay se calhar é pouco consultado por cá, pede-me (e faço-o com todo o gosto) que divulgue no blogue: «Vende-se por 70 euros colecção completa (32 números, 1990-93) da revista K em bom estado de conservação.» Usar, para eventual contacto, o e-mail deste blogue:
daliteratura@gmail.com


Adenda. A revista vendeu-se 20 minutos depois de publicado este post. Lamento só agora informar, mas não vivo agarrado ao computador. Embora o tenha feito pessoalmente, reitero o agradecimento aos 42 potenciais compradores (até às 16:35h).

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Segunda-feira, Junho 22, 2009

CALCANHAR DE AQUILES


Parece que, se por hipótese o PSD ganhar as legislativas de Setembro, Manuela Ferreira Leite pretende governar sozinha, ora com apoio parlamentar do CDS-PP, ora com apoio parlamentar do PS. Há um porém. Manuela deve ter memória: nas legislativas de 2002, quem impôs condições foi Paulo Portas. Foi o líder do CDS-PP quem lembrou a Barroso que, sem ele, a direita não tinha maioria. Foi essa aliança, imposta por Portas na noite das eleições, que obrigou Barroso ao governo de coligação. Perante a evidência, Sampaio deu luz verde à maioria PSD/CDS-PP. Portanto, se daqui a três meses o PSD obtiver 38% e o CDS-PP 7%, é provável que a direita do arco governativo consiga eleger 116 deputados. Mas Portas terá de ser tido em conta, como em 2002. Bem pode o baronato do PSD pensar o contrário, que Portas exigirá, no mínimo, ser ministro de Estado.

Eu, se fosse votante PSD (não sou), começava a tomar doses cavalares de sertralina. É que um hipotético futuro governo do PSD vai ter de explicar muito bem explicada a necessidade do TGV para Madrid — o qual se fará com Sócrates, com Manuela ou outros quaisquer —; a desnecessidade (como diria Mia Couto) do TGV para o Porto; o novo aeroporto de Lisboa (até porque o lobby que o mudou da Ota para Alcochete vai apresentar a factura); vai ter de lidar com os bonés dos polícias; vai ter de aguentar o sr. Mário Nogueira e as manifs da Fenprof (outra factura incómoda); vai ser obrigado à dança do ventre por cada Quimonda ou Autoeuropa que fechar de vez; vai ter de convencer 700 mil funcionários públicos da necessidade de lhes congelar os salários — MFL teve a coragem de dizer que o faria —; vai ficar com o mono do BPN nas mãos; vai ter de entender-se com os clientes do BPP; e ainda vai ter de aturar por mais dois anos (salvo erro) o dr. Vítor Constâncio, o qual, se não sair pelo seu pé, de livre vontade, não pode ser demitido. É muita areia para a camioneta da Buenos Aires. Paulo Rangel admite com veemência uma coligação com o CDS-PP, partido onde militou; mas Nuno Morais Sarmento pensa exactamente o contrário. O economista Daniel Bessa, um independente conotado com a ala direita do PS, que foi ministro da Economia do primeiro governo de Guterres, abandonou o cargo ao fim de seis meses. Mas, quem diria!, foi Bessa que MFL escolheu para coordenar o Fórum Portugal de Verdade. Verdade que o primeiro governo de Cavaco (1985-87) não tinha maioria; nem os dois de Guterres (1995-2002), mas Guterres fugiu assim que sentiu o fedor do pântano. Et pour cause. E a procissão ainda vai no adro.

Adenda. Um leitor atento e amigo lembra-me, com propriedade, que um resultado de 45% de um partido, ou de uma coligação, pode garantir maioria absoluta, sim senhor; mas isso já não é verdade se os 45% resultarem (como exemplifico em cima) da soma de 38% com 7%. Fica feita a correcção matemática, tendo em vista as regras do sistema eleitoral vigente. Em todo o caso, o meu exemplo é meramente retórico.

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Domingo, Junho 21, 2009

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Desconfio sempre dos escritores que ganham todos os prémios. O brasileiro Bernardo Carvalho (n. 1960), com toda a obra editada em Portugal pela Cotovia, é um desses casos. Recentemente deu uma interessante entrevista ao Ípsilon, conduzida por Alexandra Lucas Coelho. O seu último romance, O filho da mãe, um projecto encomendado (o autor teria de passar três meses numa cidade estrangeira e situar lá o plot), tem São Petersburgo como cenário. O título tem que ver com o facto de existir uma associação de mães que zela pelos interesses dos filhos destacados à força para a Tchetchénia. Bernardo Carvalho viveu em São Petersburgo durante uns meses. Um susto. O livro fala da nova Rússia. A Rússia dos arqui-milionários, do consumismo desenfreado, das máfias. A Rússia que deixou de ser URSS mas não abdicou do ocupar a Tchetchénia. Fala de desespero e humilhação: oficiais do exército russo que obrigam recrutas e soldados a prostituirem-se com homens. Isso é prática corrente, denunciada em revistas de grande circulação e até no 60 Minutos. Porquê? Porque, não havendo (ou sendo escasso o) dinheiro para o pré, o negócio rende para os dois lados: o oficial-proxeneta e o magala abusado. Bernardo Carvalho escreve realmente muito bem. Por acaso é gay. O filho da mãe acaba por ser uma história de amor (Genet não anda longe), um outing de viés, que empolga e se lê de um fôlego. Adenda. Alerta-me João Paulo Sousa para o seguinte: Bernardo Carvalho não tem, como escrevi acima, toda a sua obra editada em Portugal pela Cotovia. Há um volume editado pela Asa, Medo de Sade (2000), e outros dois, um de 1995, outro de 1996, que continuam por editar. Obrigado, João Paulo. A Cotovia editou seis títulos do autor, incluindo o primeiro, Aberração, 1993.


Henrique Raposo: «[...] Saber esperar é uma virtude. E saber as prioridades também. Lisboa/Madrid é necessário. Lisboa/Porto é grã-finismo tonto.»

João Gonçalves: «[...] Como em tudo neste país, tudo tem donos. E os donos não abdicam das suas pequeninas trelas, das suas capelinhas, dos seus cortesãos. Sena voltou a Portugal para o “10 de Junho” de 1977, a convite de Eanes, e fez o melhor discurso até hoje proferido nessas tétricas comemorações. [...]»

Jorge Ferreira: «Já antes das últimas eleições legislativas de 2005 aconteceu a mesma coisa. Personalidades de várias áreas decidem esquecer os egos e reunem-se para fazer manifestos temáticos. Ou sobre as agruras da economia, ou sobre os temores da educação, ou, mais prosaicamente, sobre os horrivelmente chamados “grandes desígnios nacionais”. Há um denominador comum, sempre, entre a maioria destas mentes preocupadas: estiveram quase todos no Governo onde enriqueceram o curriculum, mas pelos vistos, empobreceram o país, vista a sobrevivência de tanta preocupação nas respectivas consciências. O que acho estranho é que o ano tem 365 anos e a legislatura tem 4 anos, mas estas almas só se revelam na véspera de eleições. O que fazem entretanto? Esquecem as preocupações, ou têm mais que fazer? Agora saiu um manifesto pelo adiamento das grandes obras públicas por causa da crise. Estiveram à espera que o PS perdesse umas eleições para falar. Suspeito.»

José Pacheco Pereira: «Paga-se um preço por criticar os jornais, embora muita gente que os leia não se aperceba das pequenas vinganças e desconsiderações. A capa do i de hoje é um bom exemplo. Não me pronuncio, como é óbvio, sobre a “entrevista” de Menezes que está ao seu nível e que não me surpreende. Mas surpreende-me que um jornal que se pretende sério escolha uma frase insultuosa para título, e isso é de sua responsabilidade. / Sucede que, na quarta-feira passada, o i tinha-me pedido uma entrevista de fundo. Por consideração com a Maria João Avilez que ma pediu, dei a entrevista, estando presente uma equipa de televisão e um fotógrafo do jornal. Mas enganei-me quanto à seriedade do jornal a que dei a entrevista, pelo que, a não haver um pedido de desculpas pela afronta, não autorizo a sua publicação, facto que já comuniquei à Maria João Avilez.»

José Simões: «Desculpem lá a ingenuidade, mas estes 28 crânios não são aqueles que defendem que a recuperação da economia nacional e a competitividade das empresas portuguesas passa por congelar ou até reduzir salários (que não os próprios)? / [que] desempenharam quase todos eles funções governativas nos últimos 35 anos; não estiveram quase todos eles à frente do sistema — com toda a carga pejorativa que o termo “sistema” carrega — bancário português; [que] enquanto responsáveis e/ou titulares de cargos, nunca fizeram a ponta de um corno para evitar termos desembocado num beco quase sem saída. Antes pelo contrário, trataram da vidinha e atenderam aos lóbis amigos e amigos do “sistema”. E é de tratar da vidinha que isto trata. Isto é para levar a sério? [...] Adenda: uma resposta que nunca iremos ter é, se os resultados das europeias tivessem sido diferentes este “manifesto” teria visto a luz do dia?»

Osvaldo Manuel Silvestre: «Nunca a expressão “cidadãos-jornalistas” foi tão apropriada. Talvez por isso, as forças do regime tenham começado agora a destruir telemóveis, atacando os seus utilizadores, o que se parece muito com desespero. A velha confusão entre a notícia e o seu portador, com o espectáculo do seu ódio deslocado. Ou talvez não: porque agora a notícia coincide com o portador, e é para este efeito de hipermediação, e hipergeração, que o regime iraniano não está, como é manifesto, preparado (algum estaria?). Preparou-se para a sabotagem electrónica, é verdade, segundo a economina do modelo clássico da contra-informação, ainda «realista», modelo que subjaz também à proibição e extradição física do jornalista, esse tropo da epistemologia (e da epopeia) moderna da verdade como “correspondência”. Mas não podia prever que as ruas de Teerão se tornassem um instantâneo, e infinitamente reduplicado, palco global, com todas as encenações e todas as verdades produzidas pela tecnologia dos média. Ou que a esfera pública finalmente realizasse todas as promessas do Iluminismo e não conhecesse limites — fisicos, sociais, “nacionais”, civilizacionais — à realização de todo o seu potencial emancipatório. Não é, de facto, uma revolução, o que está a ocorrer em Teerão, mas muitas ao mesmo tempo. E, como nas revoluções, o que surpreende não é apenas que ocorram num tempo de repente fora dos eixos, mas que ocorram ali, onde supostamente não haveria condições para tal. [...]»

Pedro Lains: «Só li em diagonal e fui logo ler o que Silva Lopes diz, pois é de quem mais gosto e, claro, há lá razões fortes. Como em outras partes. Não há dúvida de que é um exercício extremamente bem feito. Sem dúvida que vou ler com mais atenção. [...] Não quer dizer que não se pense mais uns metros. Mas apenas uns metros. E não se deite fora o bebé com a água do banho, pois há trigo e joio nos investimentos projectados. É preciso não ter medo de ser bom aluno por vias não tradicionais.»

Rui Bebiano «[...] Não ter posição neste confronto, fazer de conta que não é connosco, ou, pior, tomar partido por Ahmadinejad só porque este se arvora em paladino do anti-americanismo, apenas revela cegueira e menosprezo pelos princípios básicos de uma ética democrática.»

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Sexta-feira, Junho 19, 2009

MOMENTO ZANDINGA


Um amiga portuguesa, imigrante no Canadá, não sabe se vai votar nas legislativas. Não sabe, porque, diz ela, não faz a mínima ideia do que pode acontecer perante três cenários possíveis: vitória do PS com maioria absoluta; possibilidade de maioria absoluta somando o PSD e o CDS-PP; possibilidade de maioria absoluta somando o BE com a CDU [PCP+PEV]. E pergunta: «Se uma destas três hipóteses se verificar, o que muda?» A pergunta tem a ver com o facto de estar a pensar voltar a Portugal dentro de 3 ou 4 anos. Respondi da forma como segue:


Hipotética renovação da maioria absoluta do PS, elegendo um mínimo 116 deputados:

Correia de Campos substitui Maria de Lourdes Rodrigues na Educação.
Maria de Belém substitui Ana Jorge na Saúde.
Maria João Rodrigues deixa o European Policy Centre (Bruxelas) para substituir Manuel Pinho na Economia.
Pinto Ribeiro substitui Alberto Costa na Justiça.
Manuel Maria Carrilho deixa a UNESCO (Paris) para substituir Pinto Ribeiro na Cultura.
O TGV Lisboa-Madrid é adjudicado antes do fim de 2009.
O TGV Lisboa-Porto é adiado para a 2.ª metade da legislatura.
O novo aeroporto de Lisboa é adjudicado antes do fim de 2009.
A 3.ª travessia do Tejo é adjudicada até ao início da Primavera de 2010.


Hipotética coligação ou acordo pós-eleitoral do PSD com o CDS-PP:

Medina Carreira ocupa, durante escassas semanas, o lugar de ministro das Finanças.
O TGV Lisboa-Madrid é adjudicado antes do fim de 2009.
O TGV Lisboa-Porto é adiado sine die.
O novo aeroporto de Lisboa é adjudicado antes do fim de 2009.
A 3.ª travessia do Tejo é adjudicada até ao início da Primavera de 2010.
Paulo Rangel troca Bruxelas pelo lugar de ministro-adjunto da 1ª Ministra.
A 1ª Ministra congela os salários dos funcionários públicos por 4 anos.
A 1ª Ministra congela o valor das aposentações dos funcionários públicos sine die.
A 1ª Ministra congela o valor das pensões da Segurança Social sine die.
Assim que terminar o mandato de Vítor Constâncio, Miguel Cadilhe vai a governador do BdP.
O sistema de avaliação dos professores é transformado em progressões automáticas.
A ASAE é esvaziada de competências.
A ERC é extinta.
O dossiê BPN é arquivado.
O dossiê BPP é esquecido.
A imigração vê-se reduzida a mínimos residuais.
A lei da interrupção voluntária da gravidez é derrogada.
José Pacheco Pereira é nomeado embaixador de Portugal na UNESCO.
Paulo Portas, ministro da Defesa, tem dificuldades em ser recebido em Washington D.C.


Hipotético acordo pós-eleitoral do BE com um governo do PCP:

A Banca é nacionalizada.
Os salários dos empregados bancários são congelados.
A EDP e a GALP são nacionalizadas.
O investimento estrangeiro cai a pique.
O défice atinge 9%.
A inflação atinge 27%.
É imposto um tecto salarial aos administradores de empresas públicas: 4500 euros.
Portugal abandona a NATO.
O Tratado de Lisboa é rasgado.
Economistas prudentes evitam a saída de Portugal da zona Euro.
O Código do Trabalho é revogado.
As taxas moderadoras na saúde são abolidas.
Os hospitais privados são nacionalizados.
Uma compilação de resoluções de assembleias-gerais do MFA do período entre 11 de Março e 24 de Novembro de 1975 prevalece sobre a Constituição da República.
O rating internacional da República cai para níveis inferiores aos de 1919.
É aprovada legislação permitindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
É criado um imposto especial sobre riqueza (património de valor igual ou superior a cem mil euros).
O TGV Lisboa-Madrid é adjudicado antes do Verão de 2010.
O TGV Lisboa-Porto é adiado sine die.
O novo aeroporto de Lisboa é adjudicado antes do Verão de 2010.
A 3.ª travessia do Tejo é adjudicada até ao Outono de 2010.
Francisco Louçã é nomeado Procurador-Geral da República.
Mário Nogueira substitui Maria de Lourdes Rodrigues na Educação.
O sistema de avaliação dos professores é transformado em progressões automáticas.
Ao fim de 8/9 meses, o BE retira o apoio ao governo.


[Imagem de Mark Shaver.]

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Hoje, o programa Grandes Livros, que a RTP-2 emite às 21:10h, é dedicado ao romance Sinais de Fogo (1979), de Jorge de Sena, provavelmente a mais importante obra da literatura portuguesa de ficção de todo o século XX. Se clicar no título do romance, tem acesso ao vídeo promocional. Logo a seguir a uma das minhas falas, o senhor do megafone é Francisco de Sousa Tavares, no Largo do Carmo, antes da rendição de Caetano.


[A caricatura é do artista plástico Vasco.]

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ARMISTEAD MAUPIN


Hoje no Público:


O que representa contar uma vida «presa por pastilhas elásticas e arames», ou seja, à custa de um combinado de nevirapina, lamivudina e zidovudina? É isso que faz, com fina ironia, passe o absurdo, o escritor americano Armistead Maupin (n. 1944), famoso pelas suas histórias de São Francisco — Tales of the City, seis volumes publicados entre 1978 e 1989, os quatro primeiros traduzidos em Portugal —, que deram origem à premiada série de televisão de Alastair Reid. Essas histórias retratam a mudança de paradigma da cidade que foi o símbolo da revolução sexual dos anos 1970, por efeito da devastação provocada a partir de 1981 pela pandemia do HIV.

Armistead Maupin é um escritor e jornalista laureado, combateu no Vietname (1967-70) como fuzileiro naval, assumiu publicamente a sua homossexualidade em 1974 e, em 2007, casou com o fotógrafo Christopher Turner. Michael Tolliver está vivo, o seu mais recente romance, chegou às livrarias portuguesas numa tradução irrepreensível de Duarte Sousa Tavares.

Michael Tolliver não é um personagem novo no universo de Maupin. Quem tenha lido os livros anteriores recorda as suas divertidas incursões no National Gay Rodeo, um evento improvável, mas se há coisa de que Maupin não pode ser acusado é de previsibilidade. Um dia (daqui a 10 anos?, menos?), historiadores, antropólogos e sociólogos não vão poder ignorar que o Leitmotiv da ficção anglo-americana pós-1980 foram as consequências da identificação do HIV, com toda a carga moral que os anos Reagan associaram à doença. Nesse particular, os livros de Maupin estão na primeira linha do enfoque. Porque se há uma diferença brutal entre a ficção, apesar de tudo “macia” (e alusiva), de escritores como Edmund White ou David Leavitt, e a crueza da vida como ela é, essa diferença é peremptória nos relatos desapiedados de Maupin, mais próximos dos testemunhos de Andrew Holleran ou Dennis Cooper. Como se estivéssemos a comparar António Lobo Antunes e Mário Cláudio (o exemplo tem como única utilidade dar um contraponto nacional facilmente perceptível por toda a gente). Maupin não generaliza, nem reduz a brutalidade da doença ou o glamour mediático de certos sectores da comunidade gay a episódios de vituosismo narrativo, como faz, por exemplo (e de forma superlativa), Augusten Burroughs.

Logo na segunda página de Michael Tolliver está vivo, a propósito de um encontro fortuito num supermercado (um dos personagens não se lemba das circunstâncias em que conheceu o outro), a súbita lembrança de certo pormenor anatómico marca o tom da assertividade como, no mundo de língua inglesa, o quotidiano das pessoas comuns se transforma em literatura. Decerto não por acaso, o realismo mágico (uma forma como qualquer outra de iludir a realidade) é uma invenção latino-americana.

A crítica tem-se dividido entre os que consideram Michael Tolliver está vivo como sendo o 7.º volume das histórias de São Francisco. Não é. Muita coisa mudou desde 1989 (a casa de Barbary Lane desapareceu), e o Michael Tolliver de agora é um homem mais velho, que reflecte na passagem do tempo. Contra todas as probabilidades, sobreviveu à doença. E o Viagra abriu-lhe novas possibilidades. Michael Tolliver está vivo integra o núcleo dos romances autónomos, entre eles o muito apreciado The Night Listener (2000), adaptado ao cinema por Patrick Stettner, com Robin Williams no protagonista. Diferença desde logo decisiva, o facto de Michael ter agora um amante 20 anos mais novo do que ele.

Por falar em amantes, um aspecto determinante deste novo livro tem a ver com o facto de o narrador falar do seu ‘marido’, por oposição à fórmula tradicional do ‘companheiro’. Opção que traduz, sem rodeios, o quadro legal dos últimos anos, em que cinco Estados norte-americanos legalizaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo: «Sumter, entretanto, tinha ficado imediatamente fascinado pelo meu marido, espalhando os fantoches a seus pés como se fossem ofertas a um deus loiro.»

As mulheres são importantes em Michael Tolliver está vivo, isso não é novidade na obra do autor. Enganam-se os que possam supor que o livro é sobre saunas e bares de engate. Afinal, São Francisco não é só o Castro. Um leitor sem preconceito pode lê-lo com o mesmo prazer (nas descrições da vida de bairro, das pequenas profissões, das querelas familiares, etc.) como lê Jane Austen ou Saul Bellow. Maupin nunca doura a pílula. Mas também não vê o mundo a preto e branco. A tonalidade e as harmónicas da sua escrita permitem-nos sonhar com os pés assentes na terra.


O mundo não acaba no Castro, in Ípsilon, 19-6-2009, p. 42. Cinco estrelas

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Quinta-feira, Junho 18, 2009

COMO É?


Para quem andava a censurar (e bem) a ubiquidade de Ana Gomes e Elisa Ferreira — e eu até admiro e simpatizo com a primeira —, eurodeputadas eleitas e pré-autarcas anunciadas (ao contrário de António Costa e Paulo Pedroso, que é como autarcas que vão lutar, sem o respaldo de São Bento) esta possibilidade é espantosa! E espantosa é um adjectivo benévolo. A ausência, ontem, à votação da moção de censura ao governo, apresentada pelo CDS-PP, terá sido um 1.º sinal da mobilidade de Rangel?

Em próxima revisão constitucional, uma das alterações pertinentes seria obrigar a nova eleição (individual) para preencher o lugar de cada deputado ou autarca que, fossem quais fossem as razões, deixasse de o ser.

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O'NEILL VEZES NOVE



Esta história é muito eloquente. Nove exemplares?

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Quarta-feira, Junho 17, 2009

ESPERTEZA SALOIA


Aqui fica o texto que o Blogtailors me pediu e publicou ontem em primeira mão, na secção Opinião no Blogtailors:


No passado dia 14, na sua coluna do Público, Vasco Pulido Valente tornou público um caso extraordinário. O seu romance Glória, editado em 2001 pela Gótica e pelo Círculo de Leitores, chegou, em Outubro do ano passado, sem conhecimento e autorização sua, à 5.ª edição. Dando de barato a falta de consideração pelo autor, que não foi tido nem achado, isto pressupõe que estão esgotadas as quatro edições precedentes. Porém, segundo Vasco Pulido Valente, nunca a Gótica (ou seja, desde 2001) lhe prestou contas dos direitos de autor.

O ponto é a Gótica, porque foi a Gótica que foi absorvida por uma nova entidade empresarial, chamada Medialivros, S. A., que também detém a Difel e a Inapa, e foi a nova empresa a decidir a famosa 5.ª edição, notificando o autor ao fim de sete meses de consumado o facto.

Eu não tenho formação jurídica, nem o Vasco Pulido Valente precisa dos meus conselhos, mas, por muito menos (em sede de literatura), já vi providências cautelares terem eficácia. Até porque é o próprio autor a exarar:

«Devo, assim, declarar que não autorizei a reedição de Glória, que nunca reeditaria o livro na sua forma actual e que desaconselho a toda a gente a sua compra. Tanto mais quanto a Medialivros, S. A., sob o seu nome de Gótica, resolveu acrescentar ao título — Glória — um subtítulo grotesco, digno de tablóide, que desvirtua inteiramente a natureza do estudo de história cultural, que na realidade escrevi: ‘A vida do político, jornalista e criminoso José Cardoso Vieira de Castro.’ Tencionava rever e corrigir o livro (um dos que, aliás, prefiro). O comportamento da Medialivros, S. A. torna por um longo tempo esse projecto impossível.»

Também me causa estranheza um contrato de edição celebrado em 2001 continuar válido ao fim de oito anos, sem cláusula de excepção.

Vasco Pulido Valente não é obrigado a saber que a Medialivros comprou três editoras, uma delas a Gótica, reeditando os respectivos catálogos à revelia dos autores. Quando o grupo Leya comprou este mundo e o outro, os autores foram informados dos trâmites do negócio, houve gente que negociou forte e feio (como devia), gente que levou a melhor, gente que pôde intuir os prós e os contras, gente que ficou, gente que percebeu que ia ficar no limbo e gente que assumiu a ruptura. E os media não se calaram! A Medialivros ninguém sabe o que é. Até pode vir a ser um grande grupo, dinamizando as três chancelas que absorveu. Mas não pode tratar obras literárias como latas de Sopa Campbell.

Portanto, como lhe compete, Vasco Pulido Valente não está com meias-medidas. Desaconselha a compra da 5.ª edição da obra, acrescentada de um subtítulo apócrifo, o qual, como sublinhou o historiador ao Diário de Notícias, «desvirtua inteiramente a natureza de estudo de história cultural que na realidade escrevi».

Uma história de facto extraordinária. Ao comprar a Gótica, assumindo como seu o catálogo publicado, a Medialivros tem a obrigação de prestar contas de tudo o que ficou para trás. A Gótica (vamos imaginar) foi negligente nos compromissos contratuais? Azar da Medialivros, que devia saber o que comprou e agora terá de responder pela leviandade.

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Terça-feira, Junho 16, 2009

BORLAS


Esta notícia dá a medida da dimensão da crise. A British Airways não é a Quimonda. Faz parte da primeira meia dúzia de gigantes da aviação comercial. Em 2008, teve um prejuízo de 474 milhões de euros. E agora propõe não pagar os salários aos seus 30 mil trabalhadores, por períodos que variam entre uma semana e um mês, dando como exemplo o facto de o CEO da companhia ter anunciado que vai renunciar aos 72 mil euros de salário que receberia em Julho. E as pessoas pagam as contas como? Fazendo sessões de hula-hup nos parques de Londres? O mundo anda perigoso.

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A verdade da arte


No excelente trabalho que a Quetzal tem vindo a desenvolver na sua nova fase, insere­‑se a publicação da obra completa de Vergílio Ferreira, que conta já com a reedição de uma meia dúzia de títulos. Se, naturalmente, têm merecido destaque alguns dos melhores romances do autor de Aparição (que, aliás, também aparecerá em breve na nova chancela), os ensaios não foram esquecidos, como é disso prova o regresso às livrarias de Do Mundo Original. Neste volume, recuperam­‑se ensaios publicados até 1957, data da primeira edição do livro, ou seja, todos anteriores ao romance já citado (de 1959) e contemporâneos de obras como Mudança (1949) e Manhã Submersa (1953). Percebe­‑se bem, aliás, como estes textos foram sendo redigidos paralelamente à composição de Aparição, de Cântico Final ou de Apelo da Noite (estes dois últimos, apesar de apenas publicados, respectivamente, em 1960 e 1963, foram escritos durante a década de 50). Desde o início, impressiona a coerência de um pensamento sobre a arte que se desenha e reitera ao longo de todos os textos. Um dos tópicos mais glosados é o da sinceridade do artista, que, na óptica do autor, serve para o distinguir de um teorizador, na medida em que as ideias podem ser discutidas e contestadas racionalmente, mas o mesmo não se pode fazer em relação a uma obra de arte: «Se uma obra de arte nos não fala, ela puramente não existe. Mas um raciocínio que reputamos errado existe; por isso o negamos ou corrigimos ou tentamos corrigir. Um sofisma pode vencer­‑nos a dialéctica; uma obra de arte falhada não nos vence porque só teria de convencer­‑nos» (p. 42).
Não deve, porém, confundir­‑se esta noção de sinceridade com a que Pessoa rejeitava na sua teoria do fingimento. Em Vergílio Ferreira, talvez seja mais adequado aproximar a sinceridade da intencionalidade no sentido da fenomenologia husserliana. Trata­‑se de uma vivência que o artista experimenta e que é verdadeira de um modo que não é exactamente reproduzível por palavras, ainda que estas tentem circunscrever aquilo de que se quer falar. É, em suma, a aparição de uma verdade, cabendo à arte o trabalho, sempre à beira do fracasso, da sua possível reconstituição: «Todos nós já experimentámos a estranha situação de já não gostarmos de uma obra que tínhamos admirado. O que se passou (se não foi apenas a eliminação da sua aparição, ou seja, o seu desgaste) foi somente que à essencialidade da vida que tal obra revelava nós já aí a não sentimos: tal obra, para nós, deixou indizivelmente de existir» (p. 45).
A mim, agrada­‑me que a obra de Vergílio Ferreira, que agora revisito, não tenha deixado de existir para mim, ou seja, satisfaz­‑me verificar que há nela muito que continua a impor­‑se­‑me como verdade artística, mesmo quando a arte é a do ensaio. Apraz­‑me ainda constatar como um dos autores mais importantes da literatura em língua portuguesa do século XX encontrou uma editora capaz de lhe tratar a obra com o cuidado e a dignidade que ela merece. À qualidade gráfica e ao cuidado posto na composição acresce um índice remissivo, no final do volume, para orientar o leitor na vasta galeria de referências que sempre foram manobradas nos textos reflexivos de Vergílio Ferreira (julgo que é num dos volumes de Conta­‑Corrente que ele afirmou que já lhe bastava não ler ou não conhecer o que haveria de surgir depois da sua morte).
Quase a fechar o livro, o ensaio que lhe dá o título apresenta­‑se como um elogio ou uma defesa da arte enquanto absoluto, num tempo em que tal proposta estava condenada a receber múltiplos ataques (como, aliás, ainda hoje). Não se trata, no entanto, da imposição de um credo, que deveria obrigar os outros a submeterem­‑se­‑lhe, mas da afirmação categórica de que a arte tem de constituir­‑se como um valor absoluto para aquele que a pratica, sob pena de, assim não o fazendo, toda a sua actividade redundar num irremediável fracasso. Para Vergílio Ferreira, «é precisamente porque a arte é uma presença inteira de nós próprios, uma adesão em plenitude e em profundeza, que numa vivência artística nada de nós fica à margem, nada em nós acusa uma desunião» (pp. 224-225).

Segunda-feira, Junho 15, 2009

A BIANCA


A chegada da Bianca (a donzela branca) a casa de uns amigos muito queridos foi um raio de luz nestes dias extremamente complicados, porque na semana em que o país parou, com as idiossincrasias do SNS, os planos de saúde prime, os hospitais privados onde o tempo de espera nas urgências (a que chamam eufemisticamente atendimento permanente) é superior ao de Santa Maria e o Who's Who clínico está todo a banhos no Dubai, a genuína simpatia de meia dúzia de profissionais e a disponibilidade irrestrita de alguns amigos (mesmo de alguns que estavam a 300km de Lisboa), não permite, infelizmente, resolver o que é preciso.

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Domingo, Junho 14, 2009

HISTÓRIA DE ISRAEL



Israel não permite meias-tintas. Gente na aparência civilizada perde as estribeiras quando se fala do Estado isrealita. Já tive a minha dose. O historiador Tony Judt diz que tudo começou a partir da Guerra dos Seis Dias, em Junho de 1967, altura em que certa ideia de sionismo messiânico, intolerante e ultra-religioso deu cabo do capital de simpatia que o jovem estado gozava mesmo nos sectores da esquerda europeia. Um dos ensaios de Judt — Vitória Sombria: a Guerra dos Seis Dias de Israel, coligido em O Século XX Esquecido — é eloquente a tal respeito. Escrevi sobre esse livro no Público, mas pode lê-lo também aqui. O que me faz voltar ao assunto é a notável História de Israel de Martin Gilbert (n. 1936), o historiador que toda a gente reconhece como o mais reputado biógrafo de Churchill e um especialista do Holocausto.

São de novo as Edições 70 a trazer à edição portuguesa estas obras fundamentais para a compreensão do século XX. A História de Israel de Gilbert tem capa dura, 823 páginas, uma enorme colecção de mapas que ajudam a perceber a volatilidade das fronteiras, portofolios fotográficos, índices remissivos e, naturalmente, a sistematização histórica da fundação de Israel após o termo do mandato britânico (sem descurar os antecedentes do século XIX). Gilbert não tem a escrita luminosa de Judt. Mas não deixa nada de lado, e pode-se dizer que é “menos empenhado” na defesa de soluções politicamente correctas, embora isso seja de somenos na medida em que nenhum facto, nenhuma nuance, nenhum dado relevante é omitido ou devidamente contextualizado. O leitor tem a obrigação de avaliar por si. A sua leitura faria muito bem às cabecinhas caceteiras que lhes deu para ter ponta com o xerife do Hezbollah quando podiam tê-la com a rapariga (ou o rapaz) da porta do lado. É que neste tipo de questões convém saber do que se fala. E a juventude trintona de alguns plumitivos blogueiros tende frequentes vezes ao anedotário dos mitos urbanos.

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Sábado, Junho 13, 2009

CAMELOT


Portugal está em crise? Económica? Verdade mesmo? Com um milhão de portugueses no Algarve, onde os hotéis (sobretudo os de 4 e 5 estrelas, estão com uma ocupação média de 96%, sendo dois terços dos hóspedes portugueses?). Com dezenas de restaurantes fechados em Lisboa entre os dias 6 e 14? Com pequenas empresas (seis a oito empregados) que fecharam de 8 a 13? Com serviços de urgências hospitalares reduzidos a mínimos? Com laboratórios de diagnósticos clínicos encerrados de 9 a 14? Com centros de enfermagem fechados a 9, 10 e 13? Isto é Portugal ou Camelot?

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Sexta-feira, Junho 12, 2009

A sociedade domesticada


No seu mais recente livro, Em Busca da Identidade: O Desnorte, acabado de editar pela Relógio d'Água, José Gil procede de novo a uma análise das actuais condições de existência em Portugal. O ponto de partida é conhecido e já tinha sido diagnosticado por Eduardo Lourenço: trata­‑se da hiperidentidade, que se poderia definir como a doença que consiste em sermos «portugueses antes de sermos homens» (p. 10). Para o autor, o grande problema que daqui decorre é o da construção de subjectividades marcadas por este desequilíbrio. Procedendo a uma transferência de conceitos e mecanismos psicanalíticos para o plano colectivo (em perfeita consciência do risco que isso comporta), José Gil encontra numa subjectividade característica durante o salazarismo os traços do que Sandor Ferenczi designou como introjecção. De uma forma algo simplificada, pode dizer­‑se que esta consiste num processo de diluição de responsabilidades através de um ego inchado, omnipresente, que engoliu o mundo e permite, assim, que os seus afectos flutuem aí livremente. No caso português, «o sujeito ‘vive­‑se’ como um zero social e pessoal, um falhado, e queixa­‑se de tudo e de todos –– queixa­‑se do ‘país’, nunca de si próprio» (p. 15). Se é certo que o fim do fascismo impôs a construção de novas subjectividades, não é menos exacto que a força dos padrões interiorizados não se desvanece de repente. Para o filósofo, decorre daí «a nossa dificuldade em nos desviarmos de uma via única, a nossa tendência a não ver senão a norma, a criar constantemente zonas claustrofóbicas, a viver a democracia como, paradoxalmente, uma imensa cobertura­‑véu colectiva, desde os média ao tipo de governação, passando pelo medo da crítica e da liberdade» (p. 18). Podemos ver aqui o mecanismo que levou à concepção de um cartaz como aquele que o PS apresentou recentemente, afirmando que eles combatem a crise enquanto os outros combatem o PS. Subjacente a esta frase propagandística está a ideia do caminho único, da despolitização, segundo a qual há apenas uma boa solução e tudo o resto é uma perda de tempo. O objectivo é a recusa da argumentação, é a negação do confronto democrático, é a tentativa de intimidação através da exclusão: aqueles que não aceitam o que os senhores do cartaz propõem desinscrevem­‑se do espaço público (como diria José Gil), porque a única possibilidade de inscrição consiste em aceitar o tal caminho único. Por isso, o líder do Partido Socialista pôde dizer, após a derrota nas eleições europeias, que não se vai desviar do rumo traçado, como outrora a ministra da educação já dissera que a manifestação de 120 000 professores em Lisboa (apenas a 20 000 da totalidade da classe profissional) não era relevante.

A esse propósito, aliás, José Gil escreveu que se tratava de uma fuga à contenda, através da qual «o poder torna a realidade ausente e pendura o adversário num limbo irreal». Ao deixar «intactos os meios da contestação mas fazendo desaparecer o seu alvo, desinscreve­‑os do real». Trata­‑se, portanto, de «uma não­‑acção, uma acção não­‑performativa», que pretende impor «a interiorização da obediência». É «um processo de domesticação da sociedade», o que representa mais do que meros traços psicóticos: na verdade, relativamente ao comportamento do primeiro­‑ministro e da sua ministra da educação, deve falar­‑se, como faz José Gil, da «não­‑inscrição elevada ao estatuto sofisticado de uma técnica política» (pp. 55-56).

Quinta-feira, Junho 11, 2009

PNET LITERATURA


A PNETLiteratura tem a partir de agora quatro novos escritores residentes: a brasileira Patrícia Melo (n. 1962), o moçambicano Nelson Saúte (n. 1967), o angolano Ondjaki (n. 1977) e eu próprio. Abrindo o site, se clicar nos retratos da barra superior à direita, fica a saber um pouco mais sobre cada um.

A minha colaboração tem hoje início (um texto por mês), com a crónica Contra o preconceito, na coluna Linha de Água. A coordenação da PNETLiteratura continua a ser da responsabilidade de Luís Carmelo, e o bando dos quatro junta-se à equipa fundadora: Almeida Faria, Carlos Pessoa Rosa, Gonçalo M. Tavares, Jorge Reis-Sá, Maria do Carmo Figueira, Pedro Teixeira Neves e valter hugo mãe. A partir de Setembro, João Pereira Coutinho junta-se à tribo.

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Quarta-feira, Junho 10, 2009

GRANDE OFICIAL DO MÉRITO


Numa manhã pessoalmente muito complicada, que infelizmente começou muito cedo, em que o 10 de Junho e as televisões são a última das prioridades, uma inesperada e feliz coincidência fez-me ouvir de raspão o nome do Francisco José Viegas, na reportagem que a RTP está a passar da cerimónia das comendas. Fiquei parado dois minutos a ver o Francisco receber o colar de Grande Oficial da Ordem do Mérito. Dispenso-me de explicar a justeza da distinção. O Francisco é um grande amigo e um grande escritor. Parabéns, Francisco!

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Terça-feira, Junho 09, 2009

SINAIS MUITO PREOCUPANTES


O Parlamento Europeu tem agora 736 deputados, ao invés dos 783 que teve na anterior legislatura. (Por isso é que a representação portuguesa passou de 24 para 22 deputados.) Sucede que, desses 736 deputados eleitos entre quinta-feira e domingo, um total de 36 são de extrema-direita, oriundos de (e eleitos por) partidos de treze países, que têm nos seus programas a xenofobia, o racismo, o anti-islamismo, a homofobia, o anti-semitismo, etc. Foi em nome desses “valores” que foram eleitos. A democracia tem destas coisas.

Na Holanda, por exemplo, o 2.º partido mais votado foi o PVV (Partij voor de Vrijheid), que obteve 17% de votos. O seu líder, Geert Wilders, está legalmente impedido de entrar no Reino Unido. [Sigla corrigida graças à amabilidade de uma leitora.]

No Reino Unido, o impensável aconteceu. O BNP (British Nacional Party) elegeu dois deputados. Nenhuma pessoa de cor pode ser membro do BNP, e os imigrantes, mesmo os europeus, deviam (diz o BNP) ser expulsos do país.

Em França, a FN (Front National) de Le Pen perdeu votos, mas conseguiu eleger três deputados.

Na Dinamarca, o DF (Dansk Folkeparti), com 13,5% conseguiu duplicar a representação parlamentar. São aqueles senhores que apoiaram os cartoons do Jyllands-Posten. Lembram-se?

Na Grécia, o LAOS (Laïkós Orthódoxos Synagermós), cujo líder, Georgios Karatzaferis, é um conhecido negacionista do Holocausto, obteve 7% e dois deputados.

Na Áustria, o FPÖ (Freiheitliche Partei Österreichs) obteve o dobro dos votos de 2004. Tem agora 13%. Bandeira eleitoral: «O Ocidente em mãos cristãs».

Na Hungria, o JOBBIK (Magyarországért Mozgalom) chegou aos 15% e três deputados. Patrocina milícias para-militares contra a presença de ciganos no país.

Na Eslováquia, foi também à custa de slogans anti-ciganos que a extrema-direita elegeu um deputado.

Na Bulgária, o ATTACK (Natsionalen Sǎyuz Ataka), partido declaradamente anti-imigrantes e anti-muçulmano, manteve os seus dois deputados com os 12% de votos obtidos.

Na Roménia, o ultra-nacionalista PRM (Partidul România Mare), que não tinha representantes no Parlamento Europeu, elegeu agora três deputados.

Na Finlândia, tão cool, o partido dos “verdadeiros” filandeses, o PS (Perussuomalaiset), da direita radical, obteve 10% e elegeu um deputado. Mote da campanha: «Rua com os imigrantes».

Na Itália, onde Berlusconi ganhou folgadamente — mas, ao pé desta gente, Berlusconi é um “democrata”... —, a oposição à sua direita, representada pela LN (Lega Nord), elegou 9 deputados. Também não querem imigrantes.

Na Bélgica, o VL (Vlaams Beleng), com 6%, perdeu um lugar. Mas ainda lá ficaram dois deputados.

Os votos de protesto costumam dar nisto!

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ÁRVORE DAS PATACAS OUT


O Presidente da República vetou hoje (e bem) as alterações à Lei do Financimento dos Partidos, aprovadas por unanimidade na Assembleia da República. Como alguém disse noutro contexto, o rumor da opinião pública fez tremer os vidros de Belém. O que dirá desta vez o PSD, que aprovou o diploma com larga soma de argumentos?

Para quem gosta de estatísticas, este é o 9.º veto de Cavaco: sete diplomas da AR, dois do governo. O recorde continua nas mãos de Sampaio, que utilizou 12 vetos no seu primeiro mandato.

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Os prémios dele


Thomas Bernhard definiu algures a sua escrita como uma arte do exagero. Ao fazê­‑lo, tornou claro como não distinguia entre as obras especificamente ficcionais e as outras, em que o suposto elemento autobiográfico toma a dianteira e ocupa a maior parte do palco (apesar da linguagem, excluí os textos dramáticos bernhardianos destas considerações). Ora, se esta distinção nunca é muito clara, menos o será no caso do autor austríaco, que sempre se deleitou com a sua capacidade de misturar as referências e de, por conseguinte, confundir aqueles que gostam de isolar, como componentes químicos, os elementos constituintes da sua obra. Em toda a sua escrita em prosa, quer nos célebres cinco volumes da presumida autobiografia, quer nos romances mais ou menos longos, é da criação de uma figura modelar que se trata, seja através do próprio narrador, seja por meio de personagens que estão afectivamente ligadas ao protagonista. Não espanta, portanto, que estas características se encontrem no volume póstumo que a Quetzal ofereceu agora aos leitores portugueses. Intitulado Os meus Prémios (Meine Preise, 2009), o pequeno livro conta, como tem sido hábito desde que a obra de Bernhard principiou a ser editada com regularidade entre nós, com a tradução cuidada de José A. Palma Caetano, que também assina uma nota final. Reúnem­‑se aqui os textos que o autor de Alte Meister (1985) redigiu sobre o que rodeou a entrega de alguns dos prémios literários que lhe foram atribuídos. A nota dominante é um sentido de humor que resulta, precisamente, da já citada arte do exagero. No primeiro texto, sobre o prémio Grillparzer da Academia de Ciências de Viena, o sorriso do leitor é solicitado desde a frase inicial, em que Bernhard afirma ter sentido necessidade de comprar um fato para a referida cerimónia, mas apenas duas horas antes do evento; recorrente ao longo do texto, esta referência permitirá um contraste fortemente irónico entre a suposta formalidade do evento e o desprezo com que o escritor afirma ter sido tratado, culminando com a troca do fato na loja onde o comprara, por considerar que ele estava, afinal, muito apertado. Este «chamado acto solene», como o escritor o refere, já tinha sido objecto da sua atenção em O Sobrinho de Wittgenstein (Wittgensteins Neffe, 1982), e mesmo de forma mais ácida, através das considerações que, então, o introduziam: «Receber um prémio não significa senão deixar que lhe façam em cima, porque se é pago para isso. Eu senti sempre as entregas de prémios como a maior humilhação que se pode imaginar, não como uma elevação. Porque um prémio é sempre entregue por pessoas incompetentes, que querem fazer em cima de uma pessoa e que fazem copiosamente em cima de uma pessoa, quando se recebe o seu prémio. E fazem com toda a razão em cima de uma pessoa, porque a pessoa é tão baixa e tão vil que recebe o seu prémio. Só nos casos de extrema necessidade e de a vida e a existência se encontrarem ameaçadas e só até aos quarenta anos é que se tem o direito de receber um prémio associado a uma quantia em dinheiro ou um prémio em geral ou uma condecoração. Eu recebi os meus prémios sem me encontrar em situação de extrema necessidade e sem que a vida e a existência estivessem em perigo e tornei­‑me assim vil e abjecto e repelente, na verdadeira acepção desta palavra» (Lisboa, Assírio & Alvim, 2000, pp. 87-88).

Segunda-feira, Junho 08, 2009

EUROPEIAS. NÚMEROS


Mais de seis milhões (6043567) de portugueses que podiam fazê-lo, não foram votar. Isto representa 62,95% dos inscritos.


O PSD ganhou — 1127017 votos (31,68%), oito deputados.
O PS perdeu — 945299 votos (26,58%), sete deputados
O BE passou a 3.ª força — 381787 votos (10,73%), três deputados. Parabéns, Rui.
A CDU [PCP+PEV] obteve o melhor score dos últimos 15 anos — 379285 votos (10,66%), dois deputados
O CDS-PP tem razão para estar zangado com os institutos de sondagens — 297793 votos (8,37%), dois deputados.


Até ontem, Portugal tinha direito a 24 deputados. Agora só tem direito a 22.


Se estes resultados fossem “transferíveis” para as legislativas de Setembro (não são), eventuais acordos pós-eleições, com maioria parlamentar, seriam ineficazes à esquerda e à direita:

PSD+CDS-PP = 40,5%. Insuficiente para eleger 116 deputados.
PS+BE = 37,31%
PS+CDU = 37,24%
BE+CDU = 21,39%

Isto não tranquiliza ninguém!

Sobra o Bloco Central. PSD e PS juntos somam 58,26% (muito longe dos tradicionais 75%). As corporações que por birra foram votar contra o PS, à revelia das suas convicções — conheço muitos conservadores que votaram Bloco por causa das famosas “avaliações” —, podem antever o resultado de um pacto assim.


O PSD ganhou as europeias em 1987, 1989 e 2009. O PS ganhou-as em 1994, 1999 e 2004.


O discurso de Sócrates teve o tom adequado às circunstâncias. O de Rangel, cheio de farpas escusadas num vencedor, perdeu “grandeza” na alusão (descabida) ao telefona-não-telefona.

A ideia peregrina de que o governo tem de ficar de braços cruzados até Setembro («perdeu legitimidade», dizem Rangel e Manuela) não tem pés nem cabeça. E se as legislativas fossem daqui a 18 meses? Um exemplo pequenino: os clientes do BPP que têm as contas congeladas há sete meses, vão ficar outros sete a pensar em anteontem? Porque isso é um problema estrutural. Mexe com o dinheiro dos contribuintes e abre precedente. Mas tem de ser resolvido.

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Domingo, Junho 07, 2009

VOTAR. PS, OBVIAMENTE


Não fique em casa. Vá votar. Qualquer que seja a sua escolha, vote. Não votando, o prejudicado é sempre você, qualquer que seja o ângulo do prejuízo.

Eu, naturalmente, voto PS. Não tem mistério nenhum. Foi o Partido Socialista que fundou a democracia portuguesa (nunca o agradeceremos convenientemente a Mário Soares) e foi ainda o Partido Socialista que nos meteu na Europa.

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Votar


Como hoje é dia de eleições europeias, faço minhas as palavras que encontrei neste blogue, apelando ao voto, contra a abstenção, os brancos e os nulos. Note­‑se, em todo o caso, que não se trata de um asséptico apelo ao voto, à maneira do habitual discurso de um presidente da república, mas de um apelo que implica um mais amplo comprometimento: «Como tomar banho na praia, beber um copo ou dormir são actos insignificantes, é preferível a insignificância do nosso voto. Um voto contra Sócrates, que representa o pior dos últimos trinta e cinco anos: inscreveu-se no PS porque se enganou na porta, assinou projectos que simbolizam a degradação imobiliária do país interior, transformou o PS no partido dos Coelhos e dos Varas, dos Campos e dos Vitais, esteve na trapalhada do Freeport, na entrega do CCB, criou a dona Lurdes e a dona Ana, privatizou o ar e nacionalizou o BPN, foi elogiado ad nausea pelo dr. Dias Loureiro. Aos socialistas que votam nessa sêxtupla de pesadelo que assombra as rotundas da pátria – Campos e Estrela, Gomes e Estrela, Capoulas e Estrela, Vital e Estrela, Elisa e Estrela – devíamos dizer: jamais esqueceremos.»


Nota: A magnífica imagem foi encontrada aqui.

Sábado, Junho 06, 2009

RITA VANESSA


Agora que o n.º 81 [Junho] da LER já está na rua, aqui fica a crónica Rita Vanessa, que publiquei na minha coluna Heterodoxias, no n.º 80.



Pode uma criança de 9 anos escrever as biografias de Mozart e Napoleão? A avaliar por Thomas Kennerly Wolfe, pode. Mas quem é Thomas Kennerly Wolfe? É aquele cavalheiro de fato branco, mais conhecido por Tom Wolfe, que frequentou a Casa Branca na Era W. Muita gente rangeu os dentes. Em querendo ser justos, devemos notar que Tom Wolfe fez do New Journalism um género literário. O New Journalism mistura realidade e ficção, sim senhor, mas não, não é aquilo que alimenta a imprensa tablóide. Tom Wolfe crismou-o em 1973, quando Joan Didion, Hunter S. Thompson, Truman Capote, Norman Mailer e outros gurus menores garantiam a excelência do género. Acrescentar que escreveu quatro romances memoráveis, e uma dúzia de colectâneas de ensaios sobre o modo de vida e a cultura americanas, sendo as minhas preferidas Radical Chic & Mau-Mauing the Flak Catchers (1970) e Hooking Up (2000). Absolutamente incontornável.

Vem isto a propósito da tradução do penúltimo romance, I Am Charlotte Simmons (2004), que a Dom Quixote juntou agora ao catálogo. A gente lê e percebe o óbvio. Certas coisas só podem ser escritas na América. Assim mesmo, na América, como dantes se dizia, como ouvi gritar aos emigrantes de Elia Kazan.

Charlotte Simmons podia ser Rita Vanessa, moça de Lanhelas que um dia se viu na Universidade Católica de Lisboa rodeada de betos com excesso de testosterona. Evidência: a Católica está longe de ser, como pretende a Dupont do livro, um mix da Duke e de Stanford, mas para o caso tanto faz. Também admito que na Palma de Cima se pratique sexo morigerado, por oposição ao historial de Dupont. Seja como for, é fácil extrapolar.

Com mais ou menos ajuste, a história decalca-se. Difícil é transpor o Vos Saluto para os nossos hábitos. Vejamos: Tom Wolfe agradece a professores, actuais e antigos alunos, atletas, treinadores, viajantes e cidadãos indiferenciados. Nada de novo. Mas não estou a ver nenhum escritor português a agradecer ao senhor Silva uma digressão pelas casas de leitão da Bairrada (Wolfe agradece penhorado a quem lhe mostrou «os espantosos viveiros de árvores de Natal») e, em simultâneo, à Cotinha Morais, do Instituto de Literatura Comparada, o zelo aplicado em madrugadas de estúrdia na 24 de Julho (Wolfe identifica e agradece a quem o levou «a infiltrar-se na vida nocturna estudantil, coisa que os homens sensatos nunca fazem»), tão palpitantes quanto os segredos ocultos sob as bancadas de um estádio universitário de futebol. Alguém imagina um escritor português a agradecer à Zizi Bouza, bibliotecária especializada em exegeses ne varietur, a revelação do Lado Negro do campus?

Nós por cá não agradecemos, salvo, em casos especiais, a bolsa de investigação. A tradição anglo-americana de agradecer ao editor, ao revisor, ao bichano, à família, aos amigos, a colegas de ofício, a quantos leram o original, etc., desobrigando o vasto mundo de ocasionais erros ou imprecisões, essa boa prática inexiste.

Tom Wolfe vai mais longe. Precede o Vos Saluto de outro agradecimento: “Aos meus dois estudantes universitários”, ou seja, os filhos Alexandra e Tommy. Diz ele: «Graças ao vosso poder de abstracção, o vosso pai teve apenas de trabalhar o material que tinha acumulado das visitas aos vários campus universitários em todo o país.» Os rebentos corrigiram o jargão de modo a torná-lo plausível na boca dos personagens. O autor vem do tempo bestial, os filhos estão no altamente.

Isto para dizer que é indiferente vermos como Rita Vanessa, a provinciana, perdão, Charlotte Simmons, idem, se desenrasca em comboios de sexo oral. A marca de um grande autor antecipa sempre a escrita. As orgias de Dupont e os episódios de violação colectiva que marcam a vida das Fraternidades mais elitistas (casos houve que chegaram a tribunal), servem de pretexto para questionar o sistema americano de ensino. Tom Wolfe é exemplar.

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A GAFFE


O dream team da Casa Branca também mete a pata na poça. O lapso de Obama, no discurso do Cairo, contrapondo a “tolerância” do Islão com os horrores da Inquisição após a queda do Califado de Córdova (1031), deve ter deixado os espanhóis de cabelos em pé. É que a Inquisição só chegou a Córdova em 1498, mais de 260 anos depois da cidade andaluza ter deixado (em 1236) de ser árabe. Olha o Bush a dizer uma destas!

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Sexta-feira, Junho 05, 2009

LER 81


A LER n.º 81, referente a Junho, chegou hoje às bancas e livrarias. Pode-se dizer que a Europa é o mote, a que um ensaio inédito de Eduardo Lourenço dá o tom. Noutro registo, os nossos cabeças-de-lista às eleições do próximo domingo respondem a um inquérito literário. Paulo Rangel, por exemplo, cita o Frederico Lourenço romancista como o autor que mais o surpreendeu. Nuno Melo opta por Miguel Sousa Tavares. Vital Moreira e Miguel Portas coincidem em Saramago (surpresas tardias, tendo em vista que a pergunta reporta «aos últimos tempos»). Ilda Figueiredo cita Inês Fonseca. Mas esta é só uma das seis perguntas. Em matéria de entrevistas, temos o brasileiro Bernardo Carvalho entrevistado por Filipa Melo e Pedro Rosa Mendes por Carlos Vaz Marques. E depois o resto, que é muito: notícias, rumores, notas de leitura, recensões críticas, pré-publicações, a biblioteca de Vasco Graça Moura, um artigo de Rui Ramos, recomendações de leitura para o Verão, os traumas literários de Rita Ferro, uma conversa com Carla Hilário Quevedo, o sofá de João Miguel Tavares, o divã de José Gil e, naturalmente, as crónicas dos malandros do costume. Tudo devidamente ilustrado pelo Pedro Vieira. Em cheio!

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