Domingo, Maio 31, 2009

PELA IGUALDADE


Realiza-se hoje, em Lisboa, no Cinema São Jorge (16:00h), a apresentação pública de um Movimento pela igualdade no acesso ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Na mesa vão estar Daniel Sampaio, Isabel Mayer Moreira, Fernanda Lapa, Ana Zanatti e Pedro Marques Lopes.

Na impossibilidade de citar os mais de mil subscritores desse Manifesto, deixo aqui alguns nomes. São pessoas de todas as profissões, com representatividade na sociedade civil, designadamente escritores, poetas, ficcionistas, ensaístas, críticos, artistas plásticos, fotógrafos, cineastas, músicos, actores, médicos, advogados, magistrados, arquitectos, pediatras, deputados, sociólogos, jornalistas, antropólogos, investigadores, psicólogos, empresários, dirigentes associativos, editores, livreiros, autarcas, psiquiatras, sindicalistas, historiadores, geógrafos, informáticos, juristas, coreógrafos, estilistas, apresentadores de televisão, biólogos, colunistas, linguistas, arqueólogos, físicos, humoristas, politólogos, encenadores, galeristas, bloggers, curadores de museus, programadores culturais, professores de todos os graus de ensino, bem como, naturalmente, activistas LGBT e centenas de anónimos.


A — Adriana Bebiano, Alexandra Lencastre, Alexandre Quintanilha, Ana Benavente, Ana Bola, Ana Catarina Mendes, Ana Drago, Ana Gabriela Macedo, Ana Gaiaz, Ana Luísa Amaral, Ana Luísa Guimarães, Ana Maria Pereirinha, Ana Matos Pires, Ana Salazar, Ana Sara Brito, Ana Vidigal, Ana Zanatti, Anabela Mota Ribeiro, André Freire, António Avelãs, António Bracinha Vieira, António Fernando Cascais, António Costa, António Marinho Pinto, António Pinto Ribeiro, António Serzedelo. B — Bárbara Bulhosa, Bernardo Sassetti, Boaventura de Sousa Santos, Bruno Sena Martins. C — Carlos Barradas, Carlos Fiolhais, Carlos Mendes de Sousa, Carlos Pamplona Corte-Real, Carlota Lagido, Catarina Furtado, Catarina Portas, Clara Ferreira Alves, Clara Keating, Cucha Carvalheiro. D — Dalila Carmo, Daniel Oliveira, Daniel Sampaio, Delfim Sardo, Desidério Murcho, Diana Andringa, Diogo Infante, Dóris Graça Dias. E — Edite Estrela, Eduarda Abbondanza, Eduardo Dâmaso, Eduardo Pitta, Elísio Estanque, Eurico Reis. F — Fátima Bonifácio, Fernanda Câncio, Fernanda Lapa, Fernando Dacosta, Fernando Gomes, Fernando Vendrell, Fernando Rosas, Filomena Marona Beja, Filipa Lowndes Vicente, Filipe Moura, Francisco George, Francisco Teixeira da Mota. G — Gabriela Moita, Gastão Cruz, Gonçalo M. Tavares, Graça Morais, Gracinda Candeias, Guta Moura Guedes. H — Helena Pinto, Helena Roseta, Helena Vasconcelos, Helga Moreira, Heloísa Apolónio, Henrique Feist, Herman José. I — Igor Jonatas, Inês de Medeiros, Inês Pedrosa, Inocência Mata, Irene Pimentel, Isabel do Carmo, Isabel Mayer Moreira, Ivo Ferreira. J — Joana Amado, João Arriscado Nunes, João Galamba, João Gil, João Luís Carrilho da Graça, João Paulo Cotrim, João Pedro Rodrigues, João Pinto e Castro, João Salaviza, João Sedas Nunes, João Tordo, Joaquim de Almeida, José Diogo Quintela, José João Zoio, José Luís Peixoto, José Manuel Almeida e Costa, José Maria Vieira Mendes, José Mário Branco, José Saramago, José Wallenstein, Julião Sarmento, Júlio Machado Vaz. L — Leonor Areal, Leonor Xavier, Leonor Seixas, Lídia Jorge, Lígia Amâncio, Lili Caneças, Luís Capoulas Santos, Luís Januário, Luís Filipe Costa, Luís Osório, Luís Fazenda. M — Mafalda Ivo Cruz, Mafalda Lopes da Costa, Mamadou Ba, Manuel Graça Dias, Manuel Loff, Maria Irene Ramalho, Maria Isabel Barreno, Maria João Guardão, Maria João Seixas, Maria Manuel Viana, Maria Rueff, Maria Velho da Costa, Mário Tomé (major na reserva), Marta Crawford, Marta Rebelo, Miguel Cardina, Miguel Lobo Antunes, Miguel Portas, Miguel Vale de Almeida, Miguel Sousa Tavares, Miguel von Hafe Pérez, Miguel Wandschneider. N — Natália Luiza, Nuno Artur Silva, Nuno Carinhas, Nuno Costa Santos, Nuno Galopim, Nuno Markl, Nuno Ramos de Almeida. O — Odete Santos, Olga Roriz. P — Patrícia Reis, Patrícia Vasconcelos, Paulo Corte-Real, Paulo Jorge Vieira, Paulo Pires, Pedro Albuquerque, Pedro Calapez, Pedro Marques Lopes, Pedro Múrias, Pedro Vieira (Irmãolúcia), Pêpê Rapazote, Piet Hein Bakker. R — Raquel Alão, Raquel Freire, Ricardo Araújo Pereira, Ricardo Gross, Ricardo Pais, Richard Zimler, Rita Ferro Rodrigues, Rogério Casanova, Rosa Oliveira, Rui Bebiano, Rui Cardoso Martins, Rui Pena Pires, Rui Reininho, Rui Tavares, Rui Zink. S — São José Almeida, Sara Cacao, Sara Figueiredo Costa, Sara Magalhães, Sérgio Godinho, Sérgio Trefaut, Sérgio Vitorino, Sílvia Real, Sofia Aparício, Sónia Morais Santos. T — Teresa Almeida, Teresa Guilherme, Teresa Pizarro Beleza, Teresa Schmidt, Tiago Bartolomeu Costa. V — valter hugo mãe, Vanessa Rato, Vasco Araújo, Vasco M. Barreto, Vasco Rato, Vasco Santos, Vera Mantero, Vital Moreira. W — Wanda Stuart. Z — Zé Pedro (Xutos).

Pode ler aqui o texto do Manifesto. Se estiver de acordo, assine também.

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O debate sobre a cultura na Europa


Terá hoje lugar, a partir das 17 horas, o debate sobre políticas culturais europeias que aqui anunciei. Quem não puder estar presente terá agora a possibilidade de o acompanhar em directo no sítio do jornal Público, onde também foi criado um fórum para que os ouvintes possam ir deixando os seus comentários.

Sábado, Maio 30, 2009

EUROPEIAS. 4ª PREVISÃO


Eleições Europeias. Estudo da Intercampus para a TVI. Falta uma semana para a prova dos nove:


PS — 37,1%
PSD — 32,0%
BE — 9,9%
CDU [PCP+PEV] — 7,7%
CDS-PP — 3,5%
Outros — 4,9%

[Presumo que os 4,9% em falta correspondam a votos brancos e nulos.]

Se a projecção se confirmar, o CDS-PP não elege nenhum deputado.

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A entrevista incómoda


Os compagnons de route do Partido Socialista que se apressaram a elogiar a análise crítica que José Gil fez ao país que permitiu a ascensão de Santana Lopes a primeiro­‑ministro vão ficar incomodados com a entrevista do filósofo divulgada pelo Público na edição de hoje. Já se sabe: vão assobiar para o lado, como se não se passasse nada, como se tivéssemos todos ido a banhos e o país estivesse parado até segunda­‑feira.

Sexta-feira, Maio 29, 2009

VLADIMIR NABOKOV


Hoje no Público:



Em russo, Sogliadatai quer dizer espião, ou vigilante. Foi com esse título que Vladimir Nabovov (1899-1977) publicou, em 1938, a novela que em 1965 passou a chamar-se The Eye. Escrita em 1930, recupera, por interposto Smurov, a memória dos desapossados da revolução bolchevique. O Olho vem agora juntar-se à já extensa bibliografia do autor em português.

Nabokov deixou a Rússia em 1919. Seu pai, um proeminente advogado de causas liberais, membro do Parlamento e fundador do Partido Democrata e Constitucional (Kadet), chegou a ministro da Justiça no governo de transição. A experiência durou pouco, e a família viu-se obrigada a fugir para Inglaterra, onde Nabokov frequentou o Trinity College. A família mudou-se para Berlim em 1920, mas ele continuou os estudos em Cambridge. Partiu em 1923, depois do assassinato do pai por lealistas monárquicos. Não admira que o tema dos emigrados russos de Berlim lhe seja caro. Afinal, foi na capital alemã que viveu até 1937, quando, para fugir aos nazis, se mudou para Paris e dali para os Estados Unidos.

A novela cabe toda em menos de 90 páginas. Mas seria um erro supor que essa brevidade prejudica o seu lugar na hierarquia da obra. O facto de dispensar o largo fôlego dos romances que fizeram de Nabokov um nome de referência do século XX, casos de Lolita (1955), Fogo Pálido (1962) e Ada ou Ardor (1969), não traduz menor eloquência de recursos discursivos. Pelo contrário. Se, como parece consensual, o virtuosismo do autor atinge a sua melhor forma nos contos (sirva de exemplo, entre todos, As Irmãs Vane, de 1959), não é de admirar que O Olho faça a síntese dessas qualidades.

O Olho põe em cena um conjunto de personagens arquetípicas: um homem de negócios expatriado (Kasmarine), um coronel que combateu no Exército Branco (Mukhine), um diarista bonacheirão (Bogdanovitch), um judeu excêntrico que tem uma livraria e sonha com a Índia (Weinstock), uma médica que conheceu os horrores da Guerra Civil russa (Mariana), etc. Tudo se passa em Berlim. No centro da intriga está Matilde, «senhora nutrida, desinibida, com um olhar manso», casada com Kasmarine e amante de Smurov. Smurov trabalha como preceptor de uma família russa «que ainda não tivera tempo de empobrecer». Ali conheceu Matilde, visita da casa. Matilde é o tipo de mulher que, ao surgir, dá a sensação «de que alguém [subiu] o aquecimento da sala»; a tal ponto que, quando a perdia de vista, Smurov «sentia frio, frio até à náusea.» Ao mesmo tempo que potencia o efeito alusivo, a economia narrativa não elide a minúcia descritiva. Como notou Harold Bloom, Nabokov é mais tchekoviano do que gostaria (ele preferia Gogol), e mesmo aqui isso se nota de forma indelével.

Por razões que o leitor a seu tempo descobrirá, Smurov suicida-se com um tiro bem sucedido. Porém, a partir do momento em que o corpo desemparado se afunda no soalho «como num poço sem fundo», a sua vida em «plano incorpóreo» ganha uma inesperada vivacidade. Começa por trabalhar como vendedor na livraria de Weinstock e, em pouco tempo, participa nas sessões de Mesa de Pé de Galo que convocam César, Maomé, Púchkin, Lenine e outros. É especialmente divertido o diálogo com Lenine, que protesta saudades de Baden-Baden, embora recuse falar da vida além-túmulo sem autorização do plenário...

O carácter simbólico da história não inibe as questões identitárias, Leitomotiv que atravessa as duas fases da obra de Nabokov: a russa (os dez livros que escreveu entre 1926 e 1939), e a americana (tudo o que escreveu a partir de 1941). Smurov é um dos alvos. A seu respeito, Bogdanovitch, classificando Smurov como «canhoto sexual», escreve: «É notável como estes indivíduos [...] ao mesmo tempo que anseiam fisicamente por um qualquer espécime belo da virilidade madura [...] escolhem para objecto da sua (perfeitamente platónica) admiração uma mulher...» Um juízo arriscado, como o desenvolvimento da intriga demonstra.

Sublinhar a irrepreensível tradução de Telma Costa, que também traduziu, entre outras obras, os Contos Completos de Nabokov.


O Vigilante de Si Mesmo, in Ípsilon, 29-05-2009, p. 32. Cinco estrelas.

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Quinta-feira, Maio 28, 2009

ELOGIO DO CONTO


A contista canadiana Alice Munro (n. 1931) foi este ano a vencedora do Man Booker International Prize, batendo opositores do quilate de V. S. Naipaul, Joyce Carol Oates, Peter Carey, António Tabucchi, James Kelman, etc. A parcimónia não belisca a excelência da obra: dezasseis livros entre 1968 e 2009 (apenas o segundo, Lives of Girls and Women, de 1971, é tecnicamente considerado, não sem controvérsia, um romance). Em Portugal estão traduzidas duas colectâneas de contos, sendo a mais recente O Amor de uma Boa Mulher (1998, trad 2008, Relógio d'Água). Na síntese do júri, Munro dá «em 20 ou 30 páginas a profundidade que só se esperaria de um romance». Nem mais. O tamanho nem sempre conta!

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CITAÇÃO, 172


Ferreira Fernandes, hoje no Diário de Notícias, Legal, é. Mas é correcto?


«Há uns anos, quando Paulo Portas apareceu como Zorro na política, nunca lhe perguntaram o que deviam perguntar. Para aquele justiceiro de quem se sabia que tinha um Jaguar como parte do ordenado da Universidade Moderna (sobre o qual, assim, não pagava impostos) havia duas perguntas. A primeira: “O Jaguar?” A segunda, já que não responderia à primeira: “E o Jaguar?” Nestas eleições europeias, eu tenho uma pergunta para as candidatas socialistas, Ana Gomes e Elisa Ferreira. Para a primeira: “Sintra?” Para a segunda: “Porto?” E não saio daí. Tenho também uma pergunta para Paulo Rangel, o cabeça de lista do PSD. Foi notícia ele ter suspendido o mandato em 2007 e 2008, durante meses (tendo continuado a trabalhar como jurista), mas ter voltado sempre na véspera das férias, para receber o ordenado quando o Parlamento estava parado. Evidentemente, isto é legal. Como o Jaguar, Sintra e Porto. Como era legal aquele deputado inglês fazer-se reembolsar pelo combate às doninhas no seu quintal... Mas legal não é suficiente. A pergunta que tenho para Rangel: É correcto?»

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CITAÇÃO, 171


Filipe Nunes Vicente, Os Gauleses:


«Toda a gente interessada em desfiar o novelo BPN? Todos, não. A SIC continua a abrir telejornais com a “menina Alexandra”. / Se — e quando — Dias Loureiro começar a cantar de memória, que menina vai valer ao dr. Balsemão? Nessa altura haverá muita coisa para analisar e até o Freeport parecerá uma brincadeira de crianças.»

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O riso na penumbra


Não nos devemos deixar enganar: o contexto histórico da peça actualmente em cena no Teatro Carlos Alberto, no Porto, não faz dela uma obra que pretenda reflectir especificamente sobre um momento concreto da vida da Europa; a Viena de 1683 arrasada pelos turcos serviu a Howard Barker para equacionar a situação de uma cidade vitimada por um cerco (questão que, como sabemos, parece estar sistematicamente a regressar à história do nosso continente) e, em traços ainda mais largos, analisar os comportamentos humanos durante uma crise que abala profundamente todas as referências. Neste regresso à obra do criador do Teatro da Catástrofe, a companhia As Boas Raparigas contou de novo com uma encenação do seu director artístico, Rogério de Carvalho, extremamente adequada para um espectáculo marcado pela penumbra e pela presença exacta e rigorosa da voz. Os Europeus (The Europeans, 1990), em tradução de Francisco Frazão, é uma peça encomendada pela Royal Shakespeare Company, mas que foi considerada inadequada para o seu público. Em sentido inverso, deve assinalar­‑se aqui a inteligência dos responsáveis do Teatro Nacional São João, de que o Carlos Alberto depende, por apresentarem, num dos seus palcos, um espectáculo e uma companhia tão exigentes. As duas horas de duração de Os Europeus, em cena até 31 de Maio, decorrem com fluidez para quem se mantiver atento aos diálogos, o que não é difícil de conseguir, dada a excelente dicção dos actores, mas são igualmente capazes de inquietar o espectador nas suas convicções morais. A figura de uma mulher, Katrin (interpretada por Paula Garcia), que, violada e mutilada, se recusa a esconder do público a sua mácula é a resistência do indivíduo sobre todas as pressões da colectividade, não como a afirmação romântica de uma luta contra o mundo, antes como a denúncia da ideologia dos falsos consensos, dos apaziguamentos que não representam mais do que uma capitulação perante o poder dos mais fortes. Barker retoma a ideia de catástrofe do teatro grego, mas dissocia­‑a da catarse que, na antiguidade clássica, permitia ao espectador libertar as suas emoções; na sua obra, o dramaturgo britânico prefere que a inquietação permaneça, que o regresso da tranquilidade não seja viável, que, em suma, aquele que assiste à peça seja obrigado a confrontar­‑se com o que a sociedade, perante o seu absurdo, mais procura escamotear da praça pública: a morte. Por isso, o riso com que o Imperador (em interpretação notável de Miguel Eloy) abre Os Europeus traz já a marca do desespero ou, pelo menos, da recusa em encarar o desastre. É nas falas do Padre Orphuls (outra grande interpretação de Wagner Borges, depois do trabalho magnífico em Mãos Mortas, também de Barker), mas também nas intervenções do herói Starhemberg (encarnado por Nuno Geraldo), que se expõem algumas das provocações maiores que o dramaturgo disseminou pela obra. No final, ninguém sai ileso.

Quarta-feira, Maio 27, 2009

A PROBLEMÁTICA DO EGO


O que ontem se ouviu do monólogo do banqueiro exigia, para memória futura, o Mario Puzo que não temos. Bem vistas as coisas, nada de muito surpreendente (salvo no chamar os nomes aos bois). Uma coisa contudo me intriga. O buraco do BPN foi tornado público no dia 2 de Novembro de 2008. Nesse dia, um domingo, apanhando toda a gente de surpresa, o governo reuniu em conselho extraordinário, nomeando nova administração. Cadilhe foi à vida. Em menos de dez dias, a Assembleia da República aprovou, e o Presidente da República promulgou, legislação atinente à nacionalização do BPN. A espiral dos números não parou de subir. Só nos primeiros cinco dias, o buraco passou de 700 milhões para 1,2 mil milhões de euros. Hoje tudo isso são amendoins. Entretanto, Oliveira e Costa, o “patrão”, foi (e continua) preso. A comissão de inquérito parlamentar anda há mais de quatro meses a ouvir este mundo e o outro com grande estardalhaço mediático. Nisto tudo, o que faz o Ministério Público? Discute a problemática do ego?

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EUROPEIAS. 3ª PREVISÃO


Eleições europeias. Estudo da Aximage para o Correio da Manhã e o Jornal de Negócios:


PS — 38,0%
PSD — 31,1%
BE — 8,5%
CDU [PCP+PEV] — 7,9%
CDS-PP — 6,3%

Relativamente ao estudo anterior da Aximage, o PS perde 0,5% enquanto o PSD perde 1,2%.

Outros+Brancos+Nulos — 8,2%
Abstenção prevista — 64,7%

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Terça-feira, Maio 26, 2009

EUROPA SOFT


Ontem, durante uma visita à Academia Portuguesa de História, o Presidente da República pediu aos partidos uma campanha «serena, esclarecedora e que mobilize os portugueses» para as eleições europeias. Sampaio não diria melhor. Do ponto de vista da serenidade, a dormência é de regra. Do lado do esclarecimento, como sempre, zero. As pessoas, a larga maioria das pessoas, não faz a mínima ideia das competências do Parlamento Europeu. Os partidos perdem pouco tempo com tais minudências. Talvez fosse mais útil Cavaco apelar directamente ao sentido cívico da Comissão Nacional de Eleições para que esta promova a difusão, nas rádios e televisões, de spots publicitários, curtos e objectivos, com informação concreta sobre em que medida a Europa interfere com o nosso quotidiano. De outro modo, ninguém percebe o que está em jogo. E metade do país vai mandar o escrutínio às urtigas.

O modelo das campanhas está esgotado. E atingiu o seu ponto alto na agenda do deputado Nuno Melo, cabeça-de-lista do CDS-PP, que ontem teve duas reuniões à porta fechada: uma com o Sindicato dos Guardas Prisionais, no Estabelecimento Prisional de Custóias, em Leça do Balio, e outra com agentes da PSP em Santa Maria da Feira. Parece anedota? Pois parece. Dizem os media que foi queixar-se aos guardas e polícias das “leis brandas” que temos. Por este andar ainda o veremos a ter reuniões com magistrados “pressionados”, um tema eminentemente europeu... Como é que esta gente pode ser levada a sério?


[Na imagem, Police Car (1983) de Andy Warhol.]

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Segunda-feira, Maio 25, 2009

CAIXA DOIS?


Da primeira (e única) vez que foi presente à comissão parlamentar de inquérito sobre o BPN, Oliveira Costa recusou falar. Escudou-se no segredo de justiça para não abrir a boca. Mas pelos vistos mudou de ideias, porque amanhã volta a São Bento a seu pedido, aparentemente para fazer o ponto da situação. É que foram feitas dezenas de audiências com antigos colaboradores seus e ninguém se entende. Até aqui, tudo bem (ou mal, consoante o ponto de vista). Mas como é que os media, todos, sem excepção, sabem que ele vai revelar o montante dos pagamentos feitos a Dias Loureiro e a um senhor de nome Caprichoso? Se esses pagamentos tiveram cobertura legal, não vejo o motivo do frisson. Se não tiveram, onde pára o segredo de justiça?

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Domingo, Maio 24, 2009

A política cultural europeia


A política cultural para a Europa vai ser tema de um debate organizado pela revista Obscena. No próximo dia 31 de Maio, pelas 17h00, no Teatro Municipal S. Luiz, em Lisboa, irão apresentar as suas propostas, com moderação do Tiago Bartolomeu Costa, director da Obscena, os candidatos a eurodeputados Edite Estrela (PS), João Ferreira (CDU), Rui Tavares (BE) e representantes do CDS-PP e PSD, ainda por indicar. Quem quiser poderá, até 29 de Maio, escrever para a revista (obscena@revistaobscena.com) e colocar as dúvidas ou as questões que gostaria de ver abordadas durante o debate.


Adenda: O PSD far­‑se-á representar por Mário David, enquanto Teresa Caeiro falará em nome do CDS-PP. O debate será transmitido pelo Rádio Clube Português, a partir da edição online, e terá uma moderação conjunta do Tiago Bartolomeu Costa e da Elisabete Pato (jornalista do RCP).

PONTO DE PARTIDA


No dia do arranque da campanha para as Europeias, fazer o ponto da situação. Aqui fica a média dos resultados de todas as sondagens realizadas entre 14 de Abril e 20 de Maio, por cinco entidades diferentes: Markest, Intercampus, CESOP (Universidade Católica), Aximage e Eurosondagem. Daqui a 7 de Junho se verá como vai ser. Ponto de partida:


PS — 36,18%
PSD — 33,70%
BE — 11,64%
CDU [PCP+PEV] — 8,12%
CDS-PP — 5,24%


Conferir aqui.

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Sábado, Maio 23, 2009

CITAÇÃO, 170


Manuel Carvalho, Delação na sala de aula, hoje no Público. Excertos:


«[...] Encerrado, e bem, este caso com um processo disciplinar, esperava-se que o Ministério da Educação se preocupasse com o outro lado da questão: o método usado pelas alunas e assumido pelas suas encarregadas de educação. Ora, que se saiba, não haverá ao nível da escola nem da direcção regional qualquer diligência, o mínimo gesto, a mínima palavra de censura pelo acto. O que, para os cidadãos e, principalmente, para os professores, quer apenas dizer uma coisa: que a espionagem clandestina do que se passa na aula, o recurso a tecnologias para instigar a delação é um método que não causa o mínimo arrepio à tutela. [...]

[...] Doravante, o recurso a gravações clandestinas que não têm qualquer valor probatório em sede de processo na justiça ordinária (exigem autorização de um juiz), passa a ser legitimado nas salas de aula. Os momentos de descontracção, de diálogo franco e aberto, de proximidade entre professor e aluno estarão condenados a desaparecer das nossas escolas. Nenhum professor deixará de ter medo ao pensar no fantasma da gravação oculta sempre que arriscar sair da matéria oficial para fazer o que lhe compete: abrir horizontes aos seus alunos. [...]

[...] Querer resumir o incidente à condenação da professora é por isso um insulto a todos os que consideram a bufaria um daqueles vírus que a escola tem o dever de extirpar dos hábitos dos jovens.»

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Sexta-feira, Maio 22, 2009

MIRAGEM


Lembram-se da colecção de arte da Fundação Ellipse, instalada no Centro de Arte Contemporânea de Alcoitão? Pois é. Foi uma das garantias dadas para o empréstimo de 450 milhões de euros ao Banco Privado Português. Ontem, na assembleia-geral da Privado Holding, entidade que controla o BPP e detém 84% da propriedade da referida colecção, ninguém se entendeu com o valor dela. João Rendeiro, o homem que a reuniu, encomendou avaliações (no ano passado) que apontam para um valor entre 40 a 45 milhões de euros. Mas a Deloitte, nas contas que apresentou, fica por 20 milhões. E Francisco Capelo não tem dúvidas: a colecção está “sobreavaliada”. Valerá 5,28 milhões de euros (ou seja, 12% do valor contabilizado pela Privado Holding) na melhor das hipóteses. Enfim, cinco milhões de euros sempre são cinco milhões de euros.


[Na imagem, For Sale by Owner de Nathan Griffith.]

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Quinta-feira, Maio 21, 2009

Planificação da existência


É na entrada de Minima Moralia (Minima Moralia: Reflexionen aus dem beschädigten Leben, 1951) a que Theodor W. Adorno atribuiu o número 91 que se pode encontrar uma descrição do horror ao vazio que caracterizava a sociedade europeia de meados do século passado. Tal descrição, porém, como facilmente se verifica, não perdeu a sua actualidade. Segundo as palavras do ensaísta alemão, vertidas para português por Artur Morão no volume das Edições 70, espalhava­‑se «de um modo epistémico, como outrora a peste e a cólera», o que já fora observado «como pressa, nervosismo e instabilidade», dando origem ao aparecimento de forças «com que os apressados viajantes do século XIX nem sequer podiam sonhar». A consequência visível era uma ocupação do tempo que outrora pôde realmente ser considerado livre, visto que agora todos deveriam «ter sempre algo que fazer». Aproveitar o tempo livre equivaleria, portanto, a planeá­‑lo (sem que se compreendesse o paradoxo inerente a essa noção, porque aquilo que se planeia, que se enquadra numa grelha, deixa imediatamente de estar livre), a inserir­‑lhe empreendimentos, a enchê­‑lo «com a visita de todas as organizações possíveis ou, sem mais, indo daqui para ali em rápidos movimentos».

O intelectual, como observou Adorno, não conseguiria escapar ileso desta tendência, sendo empurrado para uma má consciência relativa ao seu trabalho, como se este «fosse algo roubado a alguma ocupação urgente, ainda que só imaginária». Ele seria, assim, como tem continuado a ser desde então, conduzido para uma excitação acentuada, para uma verdadeira actividade contra­‑relógio, que se tornariam impeditivas da reflexão e, consequentemente, do trabalho especificamente intelectual: «Amiúde, é como se os intelectuais reservassem para a sua própria produção as horas que lhes sobram das obrigações, das saídas, das nomeações e das inevitáveis celebrações». Não conseguir escapar a este circuito equivaleria, ou equivale, a ver­‑se envolvido nele cada vez mais, podendo tal processo desencadear uma dependência acentuada. Adorno comparou aqueles que se deixam arrastar por esses mecanismos aos drogados, não sem esquecer em que medida a lógica competitiva se desenvolve neste território em todo o seu esplendor. Ele lembrou, por exemplo, a alegria com que, nessa óptica, um intelectual «recusa um convite alegando ter já aceite outro», visto que isso «proclama o seu triunfo na concorrência» (p. 141). A acção do intelectual tenderia, ou tenderá, pois, a rodopiar sobre o vazio, sobre um tédio dissimulado no movimento, mas cada vez mais afastado daquele princípio de intervenção estética ou mental que teria guiado os seus primeiros passos.

JOÃO BÉNARD DA COSTA 1935-2009


Morreu hoje João Bénard da Costa, director da Cinemateca Portuguesa desde 1991. Oriundo do catolicismo anti-salazarista, foi presidente da Juventude Universitária Católica (1957-58) e, em 1963, um dos fundadores da revista O Tempo e o Modo, onde se manteve até 1970. Desde sempre ligado ao cinema, foi dirigente cineclubista (1957-60), responsável pelo sector no Serviço de Belas-Artes da Fundação Calouste Gulbenkian (1969-71) e professor de História do Cinema no Conservatório Nacional (1973-80). Em 1980 ingressou na Cinemateca como subdirector. Foi ainda presidente da Comissão de Programação da Federação Internacional de Arquivos de Filmes (1990-95). Em Storia del cinema mondiale (Einaudi, 1999), de Gian Piero Brunetta, a parte relativa ao cinema português é de sua autoria. Entre os livros que escreveu, contam-se monografias dedicadas a Hitchcock, Buñuel, Lang, Dreyer, Ford, Hawks, von Sternberg e Nicholas Ray, os dois volumes de Os Filmes da Minha Vida (1990 e 2007), colecção de ensaios originalmente publicados no Indy (1988-97), Muito Lá de Casa (1993), O Cinema Português Nunca Existiu (1996), etc. Também foi actor, especialmente em filmes de Manoel de Oliveira, bem como assistente de produção e realização, cronista do Público até Dezembro do ano passado, e presidente (reconduzido por Cavaco) da comissão organizadora das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Quando, em Fevereiro de 2005, atingiu o limite de idade para o exercício de funções públicas, Isabel Pires de Lima, então ministra da Cultura, concedeu uma licença de carácter excepcional que lhe permitiu continuar à frente da Cinemateca. Em Setembro de 2008 recebeu a medalha de mérito cultural como reconhecimento do seu trabalho na instituição. Só a saúde o afastou da Barata Salgueiro. Em Janeiro último, Pedro Mexia ocupou interinamente o seu cargo.

[Foto de Tiago Dias.]

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Quarta-feira, Maio 20, 2009

MARCOS ANA


Conheci Marcos Ana (n. 1920) no último Verão, quando me desloquei a Medellín para participar no festival internacional de poesia que há dezoito anos consecutivos junta naquela cidade colombiana poetas de todo o mundo. Marcos Ana era o mais velho dos 74 que lá estiveram no ano passado, e o único de quem se pode dizer que é uma lenda viva. Mas a sua discrição foi de regra. Combatente republicano da Guerra Civil Espanhola, esteve preso durante 23 anos (1939-62), antes de exilar-se clandestinamente em França. Registo com agrado a edição portuguesa das suas memórias, Digam-me como é uma árvore (2007), cujo lançamento está anunciado para o próximo dia 28, no Instituto Cervantes de Lisboa. Enquanto não chega o filme que Almodóvar está a preparar sobre a sua vida, quem quiser saber mais pode documentar-se aqui.

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Terça-feira, Maio 19, 2009

GUERRA SANTA


Nos últimos anos escreveram-se centenas de livros sobre a Jihad islâmica, associando-a a uma “guerra santa” contra o Ocidente. Como se, do lado de cá, o laicismo fosse de regra. Dead Certain (2007), de Robert Draper, sobre a presidência Bush, põe o acento tónico no tema. Draper é insuspeito de antagonismo pela Administração W. Mas acaba de divulgar na GQ uma série de documentos que revelam a manipulação religiosa da guerra contra o Eixo do Mal. Essa documentação mostra que os relatórios de Donald Rumsfeld dirigidos a Bush contêm excertos de citações da Bíblia. Conferir as imagens aqui. Frank Rich comenta o facto neste artigo publicado no NYT de sábado passado. Caso para dizer que estão bem uns para os outros.

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Segunda-feira, Maio 18, 2009

BACCHANALIA


Parece que uma professora do ensino básico de uma escola de Espinho falava de orgias (durante as aulas) com as alunas. Os rumores têm três anos. Agora, uma aluna gravou. A mãe da aluna apresentou queixa da docente e cedeu a gravação à SIC, pelo menos à SIC, que foi onde ouvi, sem perceber metade, um arrazoado irracional sobre competências académicas, para o 69, julgo eu, mas posso estar errado. A frase mais audível foi: «Mas quais são as habilitações da tua mãe...?» Por que será que estas coisas só acontecem a Norte?

[Na imagem, Bacchanalia (1890) de Auguste Levêque.]

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O leitor mais atento


A provar que a expressão leitores mais atentos deve ser usada com parcimónia está a notável desatenção de António Guerreiro — aqui assinalada pelo Jorge Reis­‑Sá — no momento de escrever uma recensão crítica sobre o novo livro de Tiago Araújo.

SEI LÁ


Esta notícia dos Blogtailors é muito reveladora: desde que, em Março, a editora Oficina do Livro disponibilizou o pdf de Sei Lá (1999), de Margarida Rebelo Pinto, fizeram-se dez mil downloads do livro. Caso para dizer, com razoável segurança, que cai pela base a ideia peregrina de que os cerca de 150 mil exemplares vendidos, nos últimos 10 anos, foram adquiridos por adolescentes pré-alfabetizadas, louras-burras (as louras-inteligentes são supostas não ler nada abaixo de Kierkegaard) e imigrantes em tirocínio do português básico. Passaram dez anos. O efeito surpresa já era. E dez mil downloads é muito download junto.


[Na imagem, Female Head (1960) de Andy Warhol.]

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Domingo, Maio 17, 2009

HISTÓRIA FÍSICA E MORAL


Suponho que as gerações mais jovens saibam muito pouco de José-Augusto França (n. 1922), historiador de arte, ensaísta e romancista, catedrático jubilado da Universidade Nova de Lisboa e, provavelmente, o actual decano dos autores portugueses. Dizer, muito resumidamente, que França foi um dos fundadores do Grupo Surrealista de Lisboa (1947-49), dirigiu revistas que marcaram época, casos de Unicórnio/Bicórnio/Tricórnio/ Tetracórnio/Pentacórnio (1951-56) e Colóquio-Artes (1971-96), foi director do Centro Cultural Português em Paris (1980-86), sendo autor de inúmeras obras de referência sobre arte portuguesa, das quais destacaria, entre dezenas de títulos, A Arte em Portugal no Século XIX (1967), A Arte em Portugal no Século XX (1974), O Romantismo em Portugal (1974) e Os Anos Vinte em Portugal (1992). Com idêntico espectro e ambição ninguém fez melhor, nem sequer parecido. Mas França é também um olisipógrafo emérito, com vasta bibliografia sobre a história de Lisboa. Nesse âmbito, dois títulos são incontornáveis: Lisboa Pombalina (1965; a ed. de 1987 foi muito acrescentada) e Lisboa, Urbanismo e Arquitectura (1980). Ainda recentemente, num inquérito da Time Out sobre “Os 10 melhores livros de Lisboa”, em que participei, tentei meter o França, porque nenhum outro como ele escreveu tanto sobre a cidade, mas o trabalho da revista era estritamente sobre ficção. OK.

Chegou agora a vez de Lisboa. História Física e Moral (2008), nas livrarias desde o último Natal. Como vem escrito na contracapa, «cobre a existência contínua da cidade de Lisboa, abordando inicialmente o sítio geográfico e os seus primeiros habitantes, depois as cidades romana, visigótica e muçulmana, e indo, após a reconquista nacional de 1147, até depois do ano 2000.» Há capítulos específicos sobre os períodos Medieval, Manuelino, Maneirista, Filipino, Barroco, Joanino, Pombalino, Oitocentista e Novecentista, com as respectivas plantas topográficas. Em 23 subcapítulos recupera-se a memória e a circunstância dos mais relevantes factos históricos, políticos e culturais ocorridos até 1998. Vários índices remissivos — de autores, arquitectos, urbanistas, artistas plásticos, sítios, arruamentos, edifícios, monumentos, personagens, instituições, etc. —, um índice de mapas e ilustrações e ainda um índice analítico dos capítulos, permitem consulta orientada. Dizer ainda, porque é verdade, que o livro, apesar das suas 873 páginas de grande formato, se lê como um romance, com a vantagem de poder ser lido ao sabor dos nossos interesses. Eu, por exemplo, comecei pela Lisboa Oitocentista (pp. 445-626). Agora que tanto se fala em obras públicas inoportunas, avaliar as querelas que rodearam a construção do Terreiro do Paço, do Teatro São Carlos, da Avenida da Liberdade ou do Campo Grande. Avaliar as querelas e o que custaram ao erário público. Portugal não muda! Imprescindível.

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EUROPEIAS. 2ª PREVISÃO


Eleições europeias. Faltam três semanas. Estudo da Aximage para o Correio da Manhã:


PS — 38,5%
PSD — 32,3%
BE — 9,2%
CDU [PCP+PEV] — 8,7%
CDS-PP — 5,6%
Outros — 0,7%


Abstenção prevista: 68,1%.

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Sábado, Maio 16, 2009

PESSOA, OF COURSE


Ai que prazer / Não cumprir um dever

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Sexta-feira, Maio 15, 2009

NA RESERVA


Manuel Alegre desfez o tabu. Não integrará as listas do PS às próximas legislativas, mas não deixa o partido. De certo modo, auto-impõe o lugar de senador na reserva.

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Quinta-feira, Maio 14, 2009

BURACOS, NOTÍCIAS


Hoje, em artigo assinado por Carlos Rodrigues Lima, o Diário de Notícias informa:

«O processo do Freeport está agora “blindado”, porque a resposta ao pedido de informações do Conselho Superior do Ministério Público ao Departamento Central de Investigação e Acção Penal que chegou à Procuradoria-Geral da República tinha elementos que estão em segredo de justiça. Por isso, nada foi divulgado. [...] A investigação ao caso começou em finais de 2004, com a chegada à Polícia Judiciária de Setúbal de documentos e uma denúncia anónima que deram origem ao processo-crime. [...] Depois dessas diligências, o processo desapareceu de circulação até finais de 2008.»

Estranhamente, o texto dá um salto de 2004 para 2008, omitindo factos importantes ocorridos nesse intervalo de tempo, que fizeram manchete e são do conhecimento público.

A saber, o mesmo Diário de Notícias, em artigo assinado por Licínio Lima no dia 25 de Abril de 2007, informava:

«Zeferino Boal, militante do CDS-PP e candidato à presidência da Câmara de Alcochete nas últimas eleições autárquicas, é o autor da denúncia anónima que originou a investigação da Polícia Judiciária em volta do caso Freeport, em 2004. [...] A revelação foi feita pelo inspector da PJ Elias Torrão, da directoria de Setúbal, que ontem começou a ser julgado no 6.º juízo dos Tribunais Criminais de Lisboa, por violação de segredo de justiça e de funcionário. [...] Em Janeiro de 2005, Armando Carneiro, presidente da administração da Euronotícias, proprietária da revista Tempo, junta na sua casa de Aroeira o inspector Torrão, o antigo chefe de gabinete de Santana Lopes Miguel Almeida, o advogado José Dias, que trabalhou no escritório de Rui Gomes da Silva, ex-ministro adjunto e ministro dos Assuntos Parlamentares do Governo de Santana Lopes, e o jornalista Vítor Norinha. Segundo Torrão, todos eram seus informadores. Realizou-se, depois, outra reunião com a inspectora Carla Gomes, titular do processo. [...] O escândalo rebentou uma semana antes das eleições ganhas por Sócrates. [...]»

Em Julho de 2007, Elias Torrão foi condenado a oito meses de prisão, tendo recorrido para o Tribunal Constitucional. Zeferino Boal saiu do CDS-PP. Miguel Almeida, antigo chefe de gabinete de Santana Lopes enquanto presidente da CML, (ainda) é deputado do PSD.

Marinho Pinto, Bastonário dos Advogados, lembrou estes factos num texto publicado há dois meses no boletim da Ordem.

As cronologias não são obrigatórias. Mas, sendo feitas, não faz sentido que omitam peripécias estruturantes... Sobretudo se, como é o caso, foram julgadas em tribunal. Sobretudo se, como é o caso, envolvem um antigo inspector da PJ (condenado), um antigo presidente de uma concelhia do CDS-PP, um advogado ligado ao escritório de um ministro do PSD, vários jornalistas e um deputado do PSD. Não custa nada. Foi ali, e daquela forma, que o caso Freeport começou.

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Quarta-feira, Maio 13, 2009

A morte do leitor


A Bertrand fez chegar às livrarias um volume com a cinta que acima reproduzo. É uma verdadeira fonte de ensinamentos, se formos capazes de retirar deste pedaço de papel todas as lições aí contidas. Em primeiro lugar, descobrimos que o respeitável Andrea Camilleri é o «maior autor da literatura italiana»; eis um exemplo de informação concentrada, ainda por cima capaz de revolucionar todas as noções habitualmente difundidas sobre a história da literatura italiana. Esqueçam Dante, Petrarca, Leopardi, Svevo, Pavese, Tabucchi, entre tantos outros, pois a Bertrand já nos elucidou sobre quem é «o maior», como quem anuncia o vencedor de um concurso televisivo. O mais interessante, porém, é a citação supostamente proveniente do Daily Telegraph: «Um autor a ler antes de morrer». Partindo do princípio de que não houve deslize do tradutor, deveremos começar por colocar a questão de saber a que morte se refere a frase; como é pouco provável que seja a do autor, insistentemente negada que ela tem sido nos últimos tempos (e que, mesmo assumida em sentido literal, não parece muito relevante para o caso, pois não se vê muito bem por que motivo seria importante ler um livro antes que o autor morresse, a menos que, na obra, ele solicitasse um comentário escrito a quem dela tivesse tirado proveito), ficamos confinados a esse conceito pós­‑foucauldiano da morte do leitor. Assim sendo, a existência de livros que devem ser lidos antes da morte do leitor tem obrigatoriamente de nos sugerir (até por um certo sentido de equilíbrio) a existência de livros que devem ser lidos depois ou mesmo durante a morte do leitor. Explorando um pouco essa radical renovação conceptual que a Bertrand, com subtileza, através de uma discreta cinta, quer introduzir nos nossos hábitos de leitura, imagino que Malone Meurt, de Beckett, se poderia enquadrar no último género referido, ao mesmo tempo que Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, ou Cuando Fui Mortal, de Javier Marías, pertençam aos livros que devem ser lidos depois de morrer. Por outro lado, se a morte nos aparecer como um limite, fácil será de constatar que o nascimento também deve ser chamado à discussão, abrindo espaço para os livros que devem ser lidos depois de nascer e para os que devem ser lidos antes de nascer, sem esquecer aqueles com que o leitor há­‑de contactar enquanto está a nascer. Eis, em suma, uma verdadeira mudança de paradigma, que é, ao mesmo tempo, um autêntico plano mundial de leitura.

CITAÇÃO, 169


P. D. James, a Baroness James of Holland Park, em The Private Patient (2008), agora traduzido:


«[...] Três meses antes Emma e ele tinham estado presentes no casamento civil de Clara e Annie, uma cerimónia tranquilamente feliz para a qual apenas os pais de Clara, o pai viúvo de Annie e alguns amigos próximos tinham sido convidados. [...] — Deve parecer perverso da nossa parte unirmo-nos num laço legal quando vocês se confrontam com milhares de divórcios ou vivem juntos sem o benefício do casamento. Somos muito felizes mas tínhamos de garantir que cada uma de nós era reconhecida como o parente mais próximo da outra. Se algum dia a Annie estiver no hospital eu preciso de estar ao pé dela. E depois há a questão dos bens. Se eu morrer primeiro, os meus bens devem ser herdados pela Annie e isentos de impostos. [...]»


Não, não é um policial politicamente correcto. Sucede que, continuando a escrever (cada vez melhor) aos 89 anos, P. D. James não pode ignorar o mundo à sua volta. O trecho citado é atípico.

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Terça-feira, Maio 12, 2009

Duas em uma


No número 19, já nas bancas, a Obscena oferece duas revistas em apenas uma. De um lado, há um vasto dossiê sobre o papel ocupado pela cultura no discurso europeu, que inclui uma entrevista com o comissário do sector, o eslovaco Ján Figel’, mas que apresenta também a opinião de diversos especialistas, entre políticos, gestores, grupos de pressão e artistas. Nessa parte, constam ainda as reflexões de Adolfo Mesquita Nunes, André Dourado, José Soeiro e Rui Hermegildo Gonçalves sobre a eventual dimensão nacional das eleições europeias. Do outro lado da revista, é a análise da prática artística que ocupa todo o espaço, através da apresentação de um panorama da criação contemporânea no nosso continente, da reflexão sobre as marionetas que terão destaque em diversas cidades, da memória da compositora Constança Capdeville e de entrevistas e artigos sobre encenadores e coreógrafos oriundos de distintos pontos da Europa. Nesta secção, incluem­‑se dois textos meus: um perfil da companhia de teatro As Boas Raparigas, nas vésperas da estreia do seu novo espectáculo (Os Europeus, de Howard Barker, encenado por Rogério de Carvalho, que subirá ao palco do Teatro Carlos Alberto, no Porto, na próxima sexta­‑feira, dia 15), e a crítica à peça Tambores na Noite, de Bertolt Brecht, encenada por Nuno Carinhas, que já esteve em cena no Teatro Nacional São João e que se apresentará brevemente em Guimarães (a 16 deste mês), em Aveiro (a 23) e em Portimão (a 30). Há ainda os textos de Nelson Guerreiro, de António Pinto Ribeiro e de Miguel Magalhães, respectivamente sobre a relação entre as indústrias criativas e as artes performativas, uma experiência em Ouagadougou, capital do Burkina Faso, e as diferentes interpretações e significados do acto de aplaudir. A lista de locais de venda da revista dirigida pelo Tiago Bartolomeu Costa está disponível aqui.

EM QUE FICAMOS?


Aparentemente, o vírus H1N1, vulgo Gripe A, pode ser visto de dois ângulos. O da OMS e o das estimativas dos epidemiologistas que o estudam. Vamos ficar pelo México. Segundo a OMS, eram 1626 os casos confirmados, até anteontem, no país onde tudo começou. Mas, segundo dados revelados ontem na edição online da revista Science — citados hoje no Público num artigo de Ana Gerschenfeld —, o número de infectados, até 30 de Abril, só no México, deverá ser de 23 mil. Discurso directo: «Our estimates suggest that 23,000 (range 6,000-32,000) individuals had been infected in Mexico by late April...» Os subscritores do artigo não estão a fazer previsões. Estão a transmitir a sua convicção da realidade actual. É caso para perguntar o porquê de tamanha discrepância entre os números da OMS e os das autoridades científicas.

Adenda. Um leitor da comunidade científica fez o seguinte reparo: «Pensar que se pode testar amostras de toda e qualquer pessoa com sintomas de gripe é absolutamente ingénuo, dados os números em causa, e a quantidade de laboratórios (e recursos) disponíveis. Assim a comunidade científica recorre a modelos epidemiológicos para tentar estimar o número real a partir dos casos confirmados e suspeitos. É uma dessas estimativas que o artigo da Science apresenta.»

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DEMOCRACIA DIRECTA


Pinto Monteiro recebeu ontem as conclusões do inquérito às alegadas pressões do caso Freeport, documento que será hoje apresentado e discutido no Conselho Superior do Ministério Público. Para cumprir agenda? É que os jornais da manhã (não um, mas todos), como aliás já ontem à noite as televisões, antecipam o seu conteúdo e possíveis consequências. Comentários para quê?

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Segunda-feira, Maio 11, 2009

URBANO



Tem lugar amanhã, em Lisboa, uma homenagem ao escritor Urbano Tavares Rodrigues. Realiza-se na Biblioteca Museu República e Resistência, onde, às 17:30h, é inaugurada a exposição Escritaria em Penafiel, que pode ser vista até ao próximo dia 23. Às 18:30h realiza-se um colóquio sobre a vida e obra de Urbano, sendo oradores Patrícia Reis, Mário de Carvalho e José Casanova; e às 21:30h estreia o filme Memória das Palavras — Urbano Tavares Rodrigues, do cineasta António Castanheira.

Entretanto, a Dom Quixote continua a editar a obra completa do autor. O segundo dos dez volumes previstos saiu há menos de um mês. Em 518 páginas, colige: Uma Pedrada no Charco (1958, novelas), As Aves da Madrugada (1959, novelas), Bastardos do Sol (1959, romance) e Nus e Suplicantes (1960, novelas). No prefácio, referindo-se ao período de factura destas obras, Manuel Gusmão sublinha: «Se é inequívoca a vibração ético-política da sua obra, Urbano Tavares Rodrigues já não é um escritor neo-realista canónico. Relacionável, ainda assim, com a chamada “polémica interna do neo-realismo”, a narrativa de Urbano participa das linhas de renovação da ficção portuguesa, que por esses anos se processa a partir do interior desse movimento e, tangencialmente com ele, por outras correntes de um realismo socialmente fundado. É uma experiência existencial, social e individualmente construída, que constitui em larga medida a matéria que Urbano Tavares Rodrigues trabalha ficcionalmente.» A síntese é exemplar. Acrescentar o óbvio: ler ou reler Urbano obriga a (re)pensar os caminhos da ficção portuguesa. A capa do volume reproduz Paisagem (1950), óleo de Nikias Skapinakis.

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CRÓNICA DA PESTE


No meio de informações desencontradas, nos media estrangeiros e nos nossos, o ponto da situação da Gripe A parece ser este: desde que o vírus H1N1 foi identificado, o número de países com casos confirmados é agora de 30. Nesses 30 países — Portugal é um deles, com 1 caso confirmado —, os casos registados são 4379. À cabeça estão os Estados Unidos, com 2254 casos confirmados em 44 estados. Em segundo lugar o México, com 1626. Assim sendo, nos restantes 28 países há 499. Por junto, morreram 53 pessoas em todo o mundo, três das quais nos Estados Unidos.

Portugal, além do único caso confirmado, tem uma suspeita de 2.º caso. E a desorientação (seria por ser sábado à noite?) que rodeou a transferência desse doente, um português que regressou dos Estados Unidos na semana passada, do Porto para Matosinhos, primeiro com protocolo de segurança, depois sem protocolo, e de novo com protocolo, obrigando a mudança de ambulância e a nova equipa (a primeira teve de ser mandada para casa de quarentena), não augura nada de bom. Olha se em vez de uma suspeita, tem sido meia dúzia!?

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Domingo, Maio 10, 2009

VÍCIOS PRIVADOS, PÚBLICAS VIRTUDES


O Reino Unido mergulhou em novo escândalo. Nada que surpreenda. Tinha eu 13 anos quando rebentou o Caso Profumo, o qual, para um rapaz daquela idade, vivendo numa sociedade liofilizada como era a sociedade moçambicana dos anos 1960, tinha contornos abstrusos. (Para quem não sabe: em Março de 1963, os jornais ingleses noticiaram que John Profumo, ministro da Guerra no governo conservador de Harold Macmillan, tinha como amante uma prostituta de luxo, Christine Keeler, “cliente” habitual de Yevgeny Ivanov, o attaché naval da Embaixada da URSS em Londres. Isto no auge da guerra fria. Profumo foi obrigado a demitir-se. Macmillan, o primeiro-ministro, resistiu até Outubro. Pelo meio houve o misterioso suicídio do Dr. Stephen Ward, o osteopata das classes altas que apresentou Christine a Profumo durante um weekend em Cliveden. Uma trapalhada. A imagem mostra Christine Keeler. Michael Caton-Jones fez, em 1989, Scandal, o filme do caso.)

Agora o assunto é mercearia. Foi revelado há três dias que Gordon Brown, mais cinco ministros do seu governo e doze deputados do Labour, usaram dinheiros públicos para pagar despesas pessoais. Brown, por exemplo, gastou perto de seis mil libras (entre 2004-06, quando era Chanceler do Tesouro) para mandar limpar a casa do irmão. O milando envolve gente respeitável como Peter Mandelson, ministro “for Business”, e os seus colegas da Saúde, Interior, Turismo e Imigração. Todos usaram dinheiros públicos para despesas particulares. O esquema é legal: a lei permite que usem 24 mil libras por ano para manter uma segunda residência. Eles não se fizeram rogados, interpretando a cláusula de forma extensiva: a mulher de Phil Woolas, ministro da Imigração, vestia-se em estilistas famosos; Barbara Follet, ministra do Turismo (casada com o escritor milionário Ken Follet), pagava segurança privada. Etc. Uma coisa puxa a outra, também se soube que o deputado conservador Greg Barker, ministro-sombra do Ambiente, especulou no imobiliário: comprou uma casa com um empréstimo estatal, praticamente sem juro, e depois vendeu-a com um lucro de 320 mil libras.

Tudo isto veio a público porque alguém vendeu ao Daily Telegraph, por 300 mil libras, um CD com o inventário das despesas da Câmara dos Comuns. Onde é que a gente já viu isto? O Parlamento processou o jornal.

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Sexta-feira, Maio 08, 2009

TODOS OS POEMAS DE POE


Já tínhamos a primeira leva de Todos os Contos de Edgar Allan Poe, agora temos a Obra Poética Completa em tradução de Margarida Vale de Gato. Tanto o volume da Quetzal/Círculo de Leitores como este da Tinta da China celebram os 200 anos do nascimento e os 160 da morte de Poe (1809-49). Numa introdução de 35 páginas, Margarida Vale de Gato faz um exaustivo tour d’horizon sobre a obra do autor americano e sua repercussão na literatura e na edição portuguesa: «Edgar Allan Poe é o autor americano mais traduzido no nosso país; mas, paradoxalmente, foram poucos os poemas vertidos para português europeu. Na verdade, o único volume editado em Portugal de (dezoito) poemas de Poe [...] consiste num plágio quase integral das traduções do brasileiro Milton Amado...» Refere-se Margarida Vale de Gato às edições Roussado Pinto (1957) e Globo (1943). Tendo chegado ao nosso país nas versões de Baudelaire, facto é que, a partir do original inglês, Poe contou entre nós — para poemas avulsos publicados em antologias, jornais e revistas — com tradutores como Fernando Pessoa, Cabral do Nascimento, Luiz Cardim, A. Herculano de Carvalho e Herberto Helder. A presente edição de Obra Poética Completa foi possível no âmbito de uma investigação de doutoramento apoiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. Margarida Vale de Gato dividiu a obra em dois núcleos: os Poemas Coligidos (pp. 49-188), ou seja, aqueles que Poe «apresentou ou preparou para publicação»; e os Poemas Não Coligidos (pp. 189-218), que são os que «foram sendo encontrados pelos investigadores em periódicos, espólios ou colecções pessoais.» Além do acervo poético, o volume inclui Policiano (1835-36), texto dramatúrgico inacabado de que algumas passagens foram recuperadas em The Raven and Other Poems (1845); e ainda A Filosofia da Composição (1846), ensaio sobre a construção do poema. Extensas notas aos textos e uma cronologia do autor completam a edição (não bilingue) que teve o apoio da Fundação Luso-Americana. Filipe Abranches ilustrou.

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Quinta-feira, Maio 07, 2009

SOLIDARIEDADE EM JULGAMENTO


O escritor italiano Antonio Tabucchi começou hoje a ser julgado, em Pisa, por ter causado “danos” na imagem de Renato Schifani, presidente do Senado italiano. O que fez Tabucchi? Solidarizou-se com o jornalista Marco Travaglio, que, num artigo de opinião, mostrara estranheza pelo facto de os media omitirem sistematicamente as alegadas ligações de Schifani — segunda figura do Estado — a pessoas condenadas por ligações à Máfia. Schifani pede 1,25 milhões de euros de indemnização a Tabucchi (a Travaglio pede mais: 1,3 milhões). Os artigos de ambos, Tabucchi e Travaglio, foram publicados em L’Unità no ano passado.


[Na imagem, Schifani está à direita de Berlusconi.]

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O PRIMEIRO DIA DO i


Dez meses depois de anunciado, surgiu hoje nas bancas o i. A 1.ª capa pode ser vista aqui. Dirigido por Martim Avillez Figueiredo, o novo matutino tem formato reduzido: é mais curto e estreito que o Público. Outra novidade: tem as 72 páginas agrafadas, como o 24 Horas. O grafismo não é emocionante mas tem a vantagem de ser limpo. André Macedo é o director-adjunto. Há dois subdirectores e duas subdirectoras. Exceptuando Ana Sá Lopes (redactora principal), Ana Suspiro, Bruno Faria Lopes (grandes repórteres) e os editores sectoriais, entre eles Pedro Rolo Duarte (Revista), Céu Guarda (Fotografia) e Paulo Pinto Mascarenhas (Zoom), a ficha técnica omite o nome dos jornalistas que compõem a redacção. Do Conselho Editorial fazem parte, entre outros, Paulo Teixeira Pinto, Mafalda Lopes da Costa e Pedro Abrunhosa. Este primeiro número traz a lista de todos os colunistas que vão fazer a opinião do i. Salvo Jaime Nogueira Pinto, nenhum outro nome tem repercussão nacional. Com eco entre happy fews, haverá Paulo Tunhas às quartas, Pedro Lomba às sextas, Marta Crawford aos sábados e Bernardo Pires de Lima no Radar/Zoom, o que pressupõe sem dia certo. Do lado dos estrangeiros as apostas são fortes. Três colunistas famosos do New York Times: Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia em 2008, Thomas Friedman, Prémio Pulitzer em 1983, 1988 e 2002, e Nicholas Kristof, Prémio Pulitzer em 1990 e 2006. Krugman escreverá aos sábados, Friedman às sextas e Kristof às quintas (começou hoje). Além destes, vai haver Bernard Henri-Levy às quartas. Aos domingos, aparentemente, não há opinião. Será o dia da revista? Uma entrevista a Obama, feita por David Leonhardt (NYT) e ilustrada com uma foto de página inteira de Pete Souza (o fotógrafo de origem portuguesa que cobre o quotidiano da Casa Branca), bem como uma reportagem sobre imigração, são dois bons momentos deste número. A p. 49 é dedicada a temas LGBT. A política fica por conta do Bloco Central. Não há livros. O desporto (Estoril Open) é residual. Esperar para ver.


[A imagem mostra Two Men Reading Newspapers on Park Bench, 1927, de Boris Artzybasheff.]

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Quarta-feira, Maio 06, 2009

O ESTADO DAS COISAS


Irá Paulo Rangel federar todas as sensibilidades da direita (o que inclui todas as sensibilidades à direita da ala direitista do PSD), como Soares em 1975 e 76 federou todo o centro? A avaliar pelo que se ouve e lê, a hipótese tem pernas para andar. As sondagens que dão 2% ao CDS-PP começam a fazer sentido. Irá o PSD evoluir da fase passional para a do intelectual orgânico? Daqui a um mês logo se vê.

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Terça-feira, Maio 05, 2009

NOTÍCIAS DA CRISE


Noticiário das 12:00h na SIC-Notícias: «Chegou esta manhã a Lisboa, com duzentos passageiros portugueses a bordo, o primeiro dos três vôos diários oriundos do México.» Alguns destes turistas, trabalhadores de uma seguradora, tiveram brinde à chegada: a empresa prolongou-lhes as férias em sete dias, como precaução sanitária.

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Segunda-feira, Maio 04, 2009

O BLOCO CENTRAL


Nos últimos dias, não há cão nem gato que não defenda o retorno ao Bloco Central. O Bloco Central, para quem não sabe, foi a fórmula inconsequente que o PS e o PSD arranjaram para comer da mesma gamela. Fórmula inconsequente, isto é, contrária à lógica e ao bom-senso, absurda, ilógica, contraditória, revelando falta de reflexão, de ponderação e de prudência, irresponsável, irreflectida, imprudente e leviana. Lamento, mas não há outra forma de colocar a questão.

O governo do Bloco Central, o 9.º Constitucional, chefiado por Soares, durou de 9 de Junho de 1983 a 5 de Novembro de 1985. Cavaco entrou em cena no dia 6. Era preciso fazer as reformas estruturais que o Bloco Central não fizera. Passaram 24 anos, e toda a gente acusa o governo actual de não ser capaz de levar até ao fim as reformas estruturais. Como em 1983-85, também em 2009 fazer reformas estruturais significa reformar o Estado, a Justiça, a Educação e a Saúde. Grande parte da acrimónia universal releva das tentativas do actual governo para mexer nessas áreas. Pode lá ser!, brada a oposição.

O pessoal anda agitado com o resultado das sondagens. Até ao mês passado, as sondagens davam, grosso modo, 69% ao Bloco Central: cerca de 40% para o PS, e de 29% para o PSD. De acordo com os últimos números da Universidade Católica, hoje divulgados pelo Diário de Notícias, esse patamar subiu agora para 75%, ou seja, para três quartos do eleitorado: 41% para o PS, 34% para o PSD. Os mesmos números dizem-nos que há mais 19% à esquerda do PS (o BE com 12%, a CDU com 7%). E só 2% a acrescentar à direita do PSD: os 2% do CDS-PP.

Face aos números, tese por tese, faria mais sentido discutir a possibilidade de acordos pós-eleitorais, de incidência parlamentar, entre o PS e um dos partidos à sua esquerda. Desenterrar o Bloco Central, numa altura em que PS e PSD defendem modelos diametralmente opostos de gestão da coisa pública, serve para foguetório mas não leva a lado nenhum.

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Domingo, Maio 03, 2009

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Em pouco tempo, Henrique Raposo (n. 1979), que a si mesmo se classifica como jovem underdog, construiu uma reputação de colunista político. Oriundo da revista Atlântico, actual colaborador do Expresso, acaba de publicar A Caipirinha de Aron, colecção de Crónicas de um Liberal Triste. Partindo da improvável osmose entre o autor de L'Opium des intellectuels e o de Toda nudez será castigada, ou, dito de outro modo, do «conflito entre Aron e o Anjo», o Henrique disserta com o mesmo desembaraço sobre Haydn e a lei das rendas. Como observa Rui Ramos na contracapa, «Há aqui estilo como o estilo deve ser: resultado de trabalho e não de pose.» Acrescentaria, a seu favor, a evidência de uma escrita isenta do modo partidário de escrever que contamina tanta “opinião” publicada. Ao contrário dos grandes moralistas do imediatismo em prime-time (a maioria acaba com as calças nas mãos, como um famoso episódio recente acaba de ilustrar), o Henrique tenta estabelecer um fio condutor no quotidiano de um país avesso à perspectiva histórica. Estas reflexões estão divididas em três núcleos: o primeiro ocupa-se do Estado de Direito; o segundo do Estado Social (ou seja, o Estado Social-Porreiro, a III República, os direitos adquiridos, política & negócios, etc.); e, por último, o terceiro, daquilo a que o Henrique chama o ar do tempo: relativismo multiculturalista, ambientalismo dogmático, etc. Não concordo com muito do que o autor defende, mas isso não está em causa. Um intelectual da direita? E então!?



O Mundo Perfeito acabou. Explica a Isabela: «[...] Não posso dar-me ao luxo de escrever como escrevo num espaço que ainda permite abusos tão graves e impunes do ponto de vista da autoria moral dos textos aí publicados. Foi aqui ultrapassado, a meu ver, um limite ético, que nada tem a ver com liberdade de expressão. Por outro lado, sinto que o que fui escrevendo sobre as minhas memórias coloniais, as quais considero historica e politicamente relevantes, foi sendo erradamente interpretado. Afinal, talvez não seja possível escrever sobre colonialismo três décadas após o seu término, a não ser como se espera vê-lo escrito. Talvez o colonialismo não tenha terminado ainda. Talvez seja confuso isto de uma mulher não conservadora, um pouco anarca, independente de esquerda ser simultaneamente filha de uma pesada herança colonial que não nega. [...] Tenho muita pena de terminar aqui, e de forma tão inesperada, um blogue que foi a minha vida durante quatro anos. [...] Decidi assim porque não quero que haja aqui equívocos, os quais nunca alimentei; as coisas são simples: quem manda aqui sou eu, sempre foi assim; os textos que aqui publiquei pertencem-me inteiramente do ponto de vista legal e não tolero que sejam usados para fins que considero moralmente questionáveis. Sou eu que decido o que fazer com eles. [...]»

Almocreve das Petas: «[...] O episódio insensato e intolerante que se passou na concentração (e manifestação) do 1.º de Maio com o candidato Vital Moreira, que abriu telejornais e relembrou outros “esquisitos” acontecimentos – casos da Marinha Grande, Felgueiras e Matosinhos –, é absolutamente lamentável ao mesmo tempo que não desculpa ninguém. [...] Por isso, neste alucinado espectáculo, ninguém está de fora. Os exaltados sujeitos que tentaram tirar esforço de Vital Moreira, extravasaram os limites da civilidade, e praticaram um acto gratuito e provocatório, que contra eles se virou. [...] Esta inesperada feira, em pleno 1.º de Maio, sugere que os tempos que vamos assistir vão ser de lodo e destruição. A degradação económica e política, a intolerância, a oratória pífia, impregnam os ares. Revolver as cinzas, é o que nos resta. Se ainda tivermos tempo!»

Filipe Nunes Vicente: «Imaginem Alegre numa passeata com Louçã. Imaginem uns amigos de Mário Machado que insultam e empurram Alegre. / Imaginem Louçã no prime-time dos telejornais.»

Paulo Ferreira: «Se comprar algum produto na Praça LeYa, guarde o talão. Os sensores anti-roubo continuam a não funcionar correctamente, ou os assistentes simplesmente se esquecem de tirar o autocolante que activa o sistema de protecção, e o mais certo é ficar um bom pedaço à saída a justificar-se. Se comprar algum produto na Praça LeYa, tenha os livros que comprou à mão. Pois nunca se sabe se não terá de fazer prova que pagou cada um dos produtos que leva no saco. [...]»

Tomás Vasques: «Num país de cantigas de escárnio e maldizer, as mordomias contam muito. E a inveja, também. Até lhe chamamos “dor de cotovelo”. É caso para dizer: os cavalos também se abatem. Às vezes abatem-se uns aos outros.»

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INTERDITOS


Agora que o n.º 80 [Maio] da LER já está na rua, aqui fica a crónica Interditos, que publiquei na minha coluna Heterodoxias, no n.º 79.



As democracias não estão isentas de interditos. Em tese, tudo é permitido. Na realidade, as patrulhas vigiam. Entre nós, o bufo-a-bem-da-Nação multiplicou-se a coberto de redes de anonimato garantido. A intolerância do bufo é sem medida. O bife do vizinho, por exemplo. Pelo bife, questão moral, será capaz de toda a ignomínia. Se a coisa meter trufas ou foie gras, a torpeza atinge o zénite. Talvez aceite o carapau e a meia-desfeita, mas nunca o cacciucco, porque o cacciucco regado a viognier é o retrato do seu falhanço. O que é o cacciucco? É a versão toscana da bouillabaisse, com casca de laranja (ripas fininhas) em lugar do açafrão. Aí chegado, o bufo cega.

Num país pequeno, pobre e mesquinho como ainda é o nosso, nada como a ideia de gourmandise para fazer vir à tona o ressentimento de sucessivas gerações de subalternos. Não admira. Enquanto o vasto mundo investia na pirotecnia culinária, criando uma cozinha de ornamento e álibi de que a variante molecular é o anticlímax, a cintura industrial de Lisboa celebrava os amanhãs que cantam com o consumo imoderado de sapateiras. Teve o seu tempo a desforra contra o trivial dos patrões. Agora que acabou, subjaz o rancor. O intelectual foi sempre o homem a abater, o ar do tempo apenas mudou as munições.

Num poema menos citado do que devia, Alberto de Lacerda resume: «O exílio é isto e nada mais / Na sua forma mais perfeita: / Hoje na terra de meus pais / Somente a luz não é suspeita». De facto.

Como o preconceito fez escola, as patrulhas não desarmam.

Vejamos: literatura gay. Nada como a literatura gay para desatinar o bufo. Mas o que é literatura gay? São os livros de Proust, Thomas Mann e Gore Vidal? Ou só os de Genet, Edmund White e Andrew Sullivan? E porquê? Os homossexuais enrustidos não contam? E os não enrustidos mas muito bem comportados, daqueles que as senhoras gostam de casquinar ao chá? E os poetas epicenos driblando os tropos?

Por que será que nunca nas livrarias vi bancas reservadas a escritoras com pêlos nas axilas? Será porque a mulher peluda é um fantasma subliminar? A lógica do livreiro que separa Virginia Woolf, Yukio Mishima, Renaud Camus, Thom Gunn, Elizabeth Bishop, Joe Orton, Ali Smith, Caio Fernando Abreu, Armistead Maupin ou Paul Monette, entre tantos, radica no preconceito e na ignorância. Isso explicará a omissão de Guimarães Rosa. Afinal de contas, não é fácil explicar a história dos jagunços Riobaldo e Diadorim. Verdade que o equívoco dá emprego a muita gente. Sem armário, não havia departamentos de lesbian and gay studies. Sob o aparato da teoria dos géneros, são ínvios os caminhos da exclusão.

E depois há o Manoel de Oliveira.

O Manoel de Oliveira tem 100 anos e pôs o cinema português a falar francês. Em 1972, O Passado e o Presente juntou na Gulbenkian os próceres do Estado Novo e o Gotha do reviralho. Passado o intervalo da revolução, Manoel de Oliveira tornou-se, por mérito próprio e vantagem sobre o russo, o Eisenstein do Douro. Por causa dele, a Deneuve passou a comer tripas e arroz de couve penca. Por causa do que ele fez ao Camilo, a pátria entrou em tumulto, não me recordo já se em 1978 ou 79. A paz chegou com Francisca (1981), e mais ninguém piou. O dogma não se discute. Entre curtas e longas, para cima de 40 filmes, acertando as vezes todas que quis. E não foi uma nem duas. O problema não é o Manoel de Oliveira. O problema é terem feito dele uma versão camp de Nossa Senhora de Fátima. Isso não se faz com um homem do seu tamanho. Por estas e por outras, mais estas do que aquelas, um amigo brasileiro, espectador dos festejos do centenário, perguntava: «a coisa não tá ficando meio xiita?» A gente ouve e engole em seco.

Minudências? Decerto que sim.

Exemplos de como um atavismo de séculos sobreleva o verniz da democracia. Foi em vão? Trinta e cinco anos de puro desperdício? Herdeiros de Marx e Maurras, para sempre condenados às patrulhas invisíveis?

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