Não sei se estão recordados. No último Verão, a espiral de preços anunciava o Apocalipse. O céu deixara de ser o limite das taxas Euribor. Milhares de famílias não tinham como cumprir as hipotecas. O preço dos combustíveis atingiu patamares de alucinação. As classes médias hesitavam entre arroz trinca e caviar Beluga. O fim do mundo seguia dentro de momentos. Por altura do Natal
escrevi um texto que, por ter sido lido na diagonal (como acontece quase sempre), causou geral perplexidade. Lembro-me da genuína irritação de uma amiga, funcionária pública e
blogger conspícua, durante o almoço de 24 de Dezembro, no Ritz: «
Nunca estivemos tão mal!» Perguntei pelos anos [2003-05] de congelamento de vencimentos e progressões, mas não, não senhor, o desastre é
hoje.
OK.
Como é fácil verificar, o texto de Dezembro é sobre quem tem emprego assegurado. Melhor dito, sobre o que podiam esperar de 2009 os empregados, aposentados e pensionistas. Os desempregados, infelizmente, não podem esperar nada. Não podem em 2009 como não podiam há cem anos. E como, em Portugal, o Estado emprega à volta de oitocentas mil pessoas, entre funcionários do regime geral, médicos, enfermeiros, professores, polícias, militares, magistrados, diplomatas, analistas de relações internacionais, engenheiros de estradas e pontes, bibliotecários, investigadores, conservadores de museus, autarcas, inspectores de finanças, técnicos aduaneiros, controladores aéreos, agrimensores, educadores de infância, espiões, etc., o aumento de 2,9% de que todos estão a beneficiar (o maior dos últimos 10 anos), desde Janeiro, permite que uma larga fatia da população activa esteja resguardada da crise por um
airbag providencial. E mais os outros todos das grandes empresas, as públicas (como a TAP, REFER e RTP) e as privadas (entre outras, a Portugal Telecom, a EDP e a Galp), dos bancos e seguradoras, etc., o que dá muita gente junta, e torna a lengalenga da crise uma anedota, nos termos em que é colocada. Podiam deixar a histeria para 2010, porque em 2010 não há eleições e, portanto, não deve haver almofadas para ninguém.
Vem isto a propósito da inflação negativa que a Primavera trouxe. Não contando com as famosas taxas Euribor, com quedas consecutivas há duzentas e tal sessões — hipotecas houve em que a prestação mensal baixou 300 euros —, facto é que desde o Verão de 1962 que os preços não recuavam. Acontece neste momento. Ao fim de 47 anos temos inflação negativa. Para sermos exactos, em 148 categorias analisadas, 50 baixaram de preço. Verificam-se quebras significativas em quatro: combustíveis (-19,8%), telefones fixos e móveis (-17,3%), computadores (-16,4%) e viagens de avião (-14,7%). Mas nem tudo desce de preço. Subiram as hortaliças (+9,6%), as cantinas (+8,7%), a joalharia e os relógios (+6,9%) e os transportes rodoviários (+5,8%). Mas, como há 8 meses, anuncia-se o Apocalipse. Preso por ter cão, preso por não ter.
Já agora, a vida como ela é. A pretexto da Páscoa, as televisões mostraram lojas de chocolates em Paris e Bruxelas. Por causa da crise, todas baixaram os preços. E nós por cá? As amêndoas de mascarpone que no ano passado se compravam a 26 euros o quilo, vendem-se agora a 39. O aumento de 50% significa que um pacotinho de 200 gramas passou de 5,2 euros para 7,8 euros. Alguém refilou?