Quinta-feira, Abril 30, 2009

RESPIRAÇÃO ASSISTIDA


Como se conta aqui, dez dirigentes da Função Pública foram punidos por incumprimento da avaliação dos funcionários sob sua tutela. Salvo dois casos (em dez), as respectivas identidades não mereceram divulgação por parte dos media. Mas, hoje, o Correio da Manhã dedica um artigo à directora-geral de infra-estruturas do ministério da Defesa, Clarinda de Sousa, «afastada do cargo por não ter efectuado no ano passado a avaliação dos funcionários do seu serviço.» E como é que esta dirigente é identificada pelo jornal? Como «mulher do ex-ministro da Economia, Mário Cristina de Sousa, ouvido recentemente pela PJ no âmbito do caso Freeport.» Não é extraordinário? Além de ministro de Guterres, Mário Cristina de Sousa foi docente universitário, secretário de Estado em governos do Bloco Central, presidente da EDP, etc., mas o que conta é a audiência na PJ. Olha se a jornalista tem dito que Mário Cristina de Sousa foi, como muita gente se lembra, o mandatário de Santana Lopes à Câmara de Lisboa! Era abusivo? Pois era! Isto do situacionismo não ser um problema de conspiração, mas de respiração (e, nalguns casos, de respiração assistida), tem muito que se lhe diga...

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A DOCE HOLANDA


Esta manhã, em Apeldoorn, cidade a 90km de Amesterdão, o cortejo da família real holandesa (celebrava-se o Dia da Rainha) foi interrompido por um indivíduo que lançou o seu Suzuki contra a multidão que estava no local. Para já, quatro mortos confirmados e cerca de quinze feridos.


[Foto de El País. Se clicar na imagem vê melhor.]

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O CIRCO


A minha empregada está inconsolável. Tinha férias marcadas para Cancún e soube ontem que a agência cancelou o programa. Tudo por causa da gripe dos porcos! Mais furiosa ficou com a promessa de upgrade num destino mediterrânico. Quero lá saber desse tal de upigráde na Sardenha. Aquilo é só cascalho! Faço-lhe ver as vantagens: em vez de sete tem direito a dez noites em hotel de quatro estrelas (contra o de três no litoral mexicano), pensão completa como contratado para o outro lado, e um voo directo muitíssimo mais curto. Não! Cancún é que era. A minha Mariza fez lá a viagem de fim de curso da Moderna quando ficou doutora em cinema, e ainda hoje revira os olhos quando fala do capilé com rum que lhe serviam na piscina. OK.

Como eu a percebo! Quando foi da gripe das aves, não sei se estão lembrados, as previsões mais modestas apontavam para quatro milhões, repito, quatro milhões de infectados só em Portugal, com uma taxa de mortalidade superior a 80%. Conheço gente que comprou Tamiflu no mercado negro. O frango vendia-se a dois euros o quilo no Corte Inglês (hoje custa o dobro), amigos meus desistiram de todas as viagens a leste das Maldivas, teóricos franceses — e quem senão eles? — largamente discutiram as consequências da pandemia, Coetzee falou de um vírus que pretendia «dominar o mundo» (cf. Diário de um Mau Ano, 2007), as televisões tornaram-se infrequentáveis, a Organização Mundial de Saúde perdeu as estribeiras, ministros voaram de continente em continente para discutir o Apocalipse. Em Portugal, a oposição em peso pediu a demissão do director-geral de Saúde porque o senhor não tem os dons oratórios de Louçã. Lembram-se? Dir-se-ia que nada disso aconteceu. Agora o circo voltou. A França quer impor uma barreira entre o México e o mundo (voos cancelados, já!). E daqui a nada Ana Jorge reúne-se no Luxemburgo com os seus homólogos. O mundo está perigoso.

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LISBOA A VOTOS. 2ª PREVISÃO


Autárquicas Lisboa. Estudo da Eurosondagem para o Expresso, SIC e Rádio Renascença:


António Costa / PS — 38,3%
Pedro Santana Lopes / PSD+CDS-PP+PPM+MPT — 31,1%
Helena Roseta / Cidadãos por Lisboa — 9,6%
Ruben de Carvalho / CDU — 8,0%
Luís Fazenda / BE — 6,1%


Relativamente ao estudo anterior, desta vez Helena Roseta ultrapassa Ruben de Carvalho.

Mas não esquecer: até ao lavar dos cestos é vindima!

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Quarta-feira, Abril 29, 2009

A FEIRA


Abre amanhã a Feira do Livro. Nesta 79.ª edição, que se mantém até 17 de Maio, o país convidado é o Brasil. Há 227 pavilhões e quatro horários diferentes ao longo da semana. Se é dos que costumava ir depois do jantar, vai ter de passar a fazê-lo mais cedo, porque este ano, de segunda a quinta-feira, a Feira fecha às 20:30h (mas, em compensação, abre às 12:30h). Às sextas-feiras e vésperas de feriado abre à mesma hora, fechando às 23:00h. Aos sábados está aberta das 11:00h às 23:00h. E aos domingos das 11:00h às 22:00h. Houve quem votasse contra estas alterações porque nem todos acreditam nas vantagens da hora do almoço. A mim parece-me um erro de cálculo, a ver vamos. Novidade absoluta é um pavilhão com 900 títulos da Penguin Books, da responsabilidade da Tinta da China, com descontos até 30%. As crianças têm os espaços do costume e computadores Magalhães à disposição.

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Terça-feira, Abril 28, 2009

AVALIAÇÃO DE FUNCIONÁRIOS


Não é de agora. Os media — todos, sem excepção — têm enorme dificuldade em lidar com a realidade da administração pública. A chegada dos blogues enfatizou o desconcerto. O que se passou ontem com a cessação das comissões de serviço dos dirigentes que não cumpriram os procedimentos relativos à avaliação dos funcionários públicos sob sua tutela, é um bom exemplo. O primeiro eco chegou-me pela LER ainda não eram cinco da tarde. Depois toda a gente botou faladura: Joana Amaral Dias, na Sic-Notícias, perorou como se vivêssemos no regime de Pol Pot. OK.

As pessoas têm de perceber que a avaliação é um direito dos funcionários. Sem avaliação, os funcionários ficam impedidos de progredir na escala indiciária (as famosas “promoções automáticas”), de concorrer (única forma de serem promovidos), de auferir prémios de desempenho, etc. Eu, se não fosse avaliado no prazo legal, apresentava queixa. Não sei se os funcionários prejudicados o fizeram. Sei apenas que à Inspecção-Geral de Finanças cabe averiguar a responsabilidade dos dirigentes nos atrasos verificados. E que dessa averiguação resultou o “afastamento” de dez dirigentes — dos ministérios da Cultura, Saúde, Obras Públicas e Defesa —, um deles a directora-geral do Livro e das Bibliotecas, Paula Morão, de quem sou amigo.

A administração pública tem milhares de dirigentes. Se a Inspecção-Geral de Finanças detectou dez casos de incuprimento, significa que a máquina está oleada. Aliás, segundo Bettencourt Picanço, dirigente do Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado, foi o sindicato quem alertou para «a existência de falhas e atrasos», pois, caso contrário, «bem que poderíamos estar sentados à espera que acontecesse alguma coisa.»

O que significa o “afastamento” de dirigentes? Significa que regressam ao lugar de origem. Se são do quadro da casa, deixam de ser directores-gerais, passando, por exemplo, para assessores (mas podem ter outra categoria). Se são de fora, regressam ao quadro a que pertencem. É o caso de Paula Morão, que regressará à Faculdade de Letras de Lisboa onde é professora catedrática.

Desconheço em absoluto as razões que levaram ao incumprimento da avaliação. Quaisquer que sejam, lamento. Soube, a título particular (e não foi a partir do topo), que a DGLB ia apresentar hoje a sua parte. Se assim era, as últimas 24 horas foram fatais. É pena. Por todas as razões e mais uma.

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CITAÇÃO, 166


Ferreira Fernandes, Crise não afecta a falta de chá, hoje no Diário de Notícias:


«Estava José Sócrates numa situação pública quando uma jornalista se aproximou: “Posso?”, disse ela. Respondeu Sócrates: “Claro, eu não mordo.” E ela: “Não morde, mas rosna. E às vezes rosna muito.”

A história foi contada, no domingo, pelo jornal Público. Temos, assim, que uma jornalista, no exercício das suas funções, disse a alguém sobre quem escrevia: “Você rosna.” Tenho a dizer o seguinte: está tudo maluco. Ao almirante Pinheiro de Azevedo irritava-o ser sequestrado; a mim é mais conversas parvas. Engalinham-me. Eu sei que é remar contra a maré mas, pronto, não gosto. Sócrates, a alguém que pediu para se aproximar, respondeu: “Claro, eu não mordo.” E podia responder. A frase é coloquial e, até, amigável. A isso a jornalista respondeu: “Não morde, mas rosna. E às vezes rosna muito.” E, não, não podia responder. Nenhuma jornalista (como jornalista, isto é, a trabalhar) pode falar assim a um primeiro-ministro. E como o hábito de desconversar já está arreigado, explicito o que digo: nenhum notário (enquanto notário) pode falar assim a um mecânico. Perceberam

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Apresentação no Porto


O meu romance O Mundo Sólido, editado pela Deriva, será lançado amanhã, dia 29, pelas 21:30h, na Livraria Leitura Books & Living do Centro Comercial Cidade do Porto. A apresentação da obra estará a cargo de Joana Matos Frias, ensaísta e professora da Faculdade de Letras do Porto, o que é uma óptima razão para aceitarem o meu convite e se deslocarem até ao piso superior da livraria na noite de quarta­‑feira.

Segunda-feira, Abril 27, 2009

MAX DU VEUZIT


Maria Isabel Barreno entrevistada por Inês Nadais, na revista Pública de ontem:


«Nunca fui leitora de romances cor-de-rosa, e sobretudo nunca fui compradora dessa literatura. Quem leu muita literatura cor-de-rosa e ainda tinha livros desse género em casa era a minha avó. Eu li alguns, até por curiosidade [...] do Max du Veuzy — até hoje estou convencida de que era um autor português que usava pseudónimo, mas não tenho a certeza —, com aqueles romances do John Chauffeur Russo. Durante toda a vida da minha avó, e creio que até à juventude da minha mãe, o Max du Veuzy era o grande autor de referência no género.»


Max du Veuzit (1886-1952), pseudónimo de Mdme Alphonsine Vavasseur-Acher Simonet, foi uma ilustre predecessora de Barbara Cartland, aliás Dame Mary Barbara Hamilton Cartland, e Corín Tellado, aliás María del Socorro Tellado López. Em Portugal, a obra de Max du Veuzit (mais de 60 títulos) está publicada nas Edições Romano Torres. Se preferir ler em inglês, pode sempre recorrer à Amazon.

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Domingo, Abril 26, 2009

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Desta vez não é livro, é revista, criatura de seu nome. Chegou em Abril ao número 3, facto de assinalar em tempo de rarefacção de poesia. Ao contrário dos poetas revelados nos anos 1990 (entre outros: Ana Luísa Amaral, Fernando Pinto do Amaral, Luís Quintais, Manuel de Freitas, Pedro Mexia e Rui Pires Cabral), que puderam contar com editores abertos às suas propostas, jornalismo cultural atento, uma bateria de críticos da mesma geração e cumplicidades institucionais de vária índole, os que chegam agora têm de seguir o protocolo de regra: publicações artesanais fora do circuito dominante, edições de autor, visibilidade restrita a círculos de iniciados. Não tem mal que assim seja. O tempo se encarregará de fixar os melhores. A nova revista é disso exemplo. Organizada pelo Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, com o apoio da Associação Académica, criatura é dirigida por Ana M. P. Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto. Além de portugueses, a revista publica autores de expressão ibérica, que neste número são dois: Ben Clark (Ibiza, 1984) e Elena Medel (Córdoba, 1985). Sobre os portugueses, nenhuma referência de natureza biobibliográfica. Têm 20 anos? Têm 50? (Um deles anda lá perto.) Isto não é mania. Como é que podemos, com propriedade, falar de uma revista de novos, se nada o garante? Podemos ir por aproximação ou presunção, mas não chega. A uma primeira leitura, diria que Cláudia Santos Silva apresenta (em particular do ponto de vista formal) o discurso mais consistente. E que os poemas de David Teles Pereira [ex: 1.LX] e Diogo Vaz Pinto, [ex: “No metro, em pé, ainda a acordar no abafo subterrâneo”] no largo fôlego dos respectivos enunciados, podem vir a ser grandes poemas no dia em que os autores forem capazes de os limar. A ideia da prosa dos versos é tentadora... mas não cai do céu. Isto dito, sublinhar o óbvio: o mais difícil, que é começar, está feito.


Ana Gomes: «É com pena que vejo não voltarem às listas do PSD e do CDS/PP para o Parlamento Europeu muitos colegas com quem mantive sempre boas relações pessoais e cuja actuação me habituei a respeitar e até por vezes a admirar, independentemente das divergências políticas. De João de Deus Pinheiro a Vasco Graça Moura, passando evidentemente pela minha amiga Assunção Esteves. Se não me espantei diante da exclusão de José Ribeiro e Castro, por o saber honrosamente distante da orientação Paulo Portas, já me caiem os queixos quando vejo a direcção do PSD desperdiçar um deputado de invulgar qualidade e excepcional influência em questões económicas e sociais como José Silva Peneda. Qualidade e influência reconhecidas em todo o espectro partidário, ao ponto de o seu próprio Grupo político, o PPE, já o estar a predestinar para coordenador da área social na próxima legislatura, segundo me afiançaram vários colegas desse Grupo, incrédulos com a perda. [...] Enfim, a actual direcção do PSD, em vez de tirar partido do investimento feito nos seus deputados nesta legislatura e do papel e influência que ganharam no seu Grupo Político, entendeu antes apostar em candidatos que, na sua maior parte, irão para o PE começar por andar... aos papéis.»

Filipe Nunes Vicente: «Rui Rio chegará à presidência do PSD até ao final do ano.»

Pedro Vieira: «deixem lá requalificar a praça, eu cá também gosto de festas com porco no espeto.»

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LISBOA A VOTOS. 1ª PREVISÃO


Autárquicas Lisboa. Sondagem da Aximage para o Correio da Manhã:


António Costa / PS — 36,1%
Pedro Santana Lopes / PSD+CDS-PP+PPM+MPT — 29,6%
Ruben de Carvalho / CDU — 8,4%
Helena Roseta / Cidadãos por Lisboa — 7,1%
Luís Fazenda / BE — 3,8%

Não esquecer: até ao lavar dos cestos é vindima!

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Sábado, Abril 25, 2009

PRESOS NUM ENGARRAFAMENTO


Aqui fica o texto que o Blogtailors me pediu e publicou ontem em primeira mão na secção Opinião no Blogtailors:


Passou praticamente um ano desde que Paulo Teixeira Pinto, reformado da presidência do Millennium BCP, comprou a Guimarães Editores. Numa entrevista que então deu a Francisco José Viegas, para o n.º 69 da LER (o primeiro da segunda série da revista), falou dos projectos e do sentido que fazia investir na área da edição. Não quer, disse ele, ser um mecenas, mas também não quer, acrescentou, «fazê-la para ganhar dinheiro». Único objectivo: qualidade. Para o conseguir, rodeou-se de dezoito personalidades (entre outras, Daniel Oliveira, José Barata-Moura e Nuno Rogeiro), «pessoas de qualidade superior para poder ter obras de qualidade superlativa». Antes da fase Paulo Teixeira Pinto, a Guimarães publicou Agustina, Cesariny, O’Neill, Cinatti, Goethe, Bergson, Eliot, Baudelaire, Kafka, Heidegger, etc. Um catálogo e tanto. Na fase Paulo Teixeira Pinto, que dura há um ano, publicou uma colectânea de declarações avulsas de Agustina, Dicionário Imperfeito, organizado por Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira, além de reedições de Oliveira Martins, Joaquim Paço d’Arcos e outros. Presumo que o conselho editorial esteja preso num engarrafamento.

Sem ofensa, isto das editoras e das livrarias diletantes lembra-me sempre os comes e bebes. Não conheço nenhum assalariado, médico, artista, bancário ou socialite que não sonhe abrir um restaurante. Nenhum domina os rudimentos da restauração mas todos se consideram aptos à empresa. Meia dúzia cresceu em casas onde havia boas cozinheiras, a maioria viaja, todos socializam. Nos jantares em que estas coisas se “discutem”, em regra a partir da segunda garrafa de Mouro 2005 (Miguel de Orduna Viegas Louro, da Quinta do Mouro, Estremoz, para Dirk Niepoort), distribuem-se lugares: «Tu tratas das relações públicas, eu fico na sala...» A maioria leva-se a sério, e alguns, para desgraça colectiva, até cometem.

Com os livros passa-se o mesmo. Atribuem-se virtudes encantatórias às palavras: «Vamos privilegiar as editoras da margem... porque os pequenos editores são a nossa prioridade.» Há trinta anos, quando as editoras da margem davam prestígio aos autores, os dedos de uma mão chegavam e sobravam para contar as livrarias que aceitavam (e só à consignação) os “pequenos” editores. Nesse tempo, a Buchholz fazia vista grossa a tudo o que fosse menos que Mondadori, Faber and Faber ou Farrar, Straus & Giroux. Felizmente, a Amazon repôs a realidade.

Umas vezes por naïveté, outras por ignorância, quase sempre por falta de sentido das proporções, a concepção que les beaux esprits têm do mercado (sim, do mercado, porque mexer com livros não os isenta das regras da economia) está na origem de flops sucessivos. O da Byblos, por exemplo; a essa, nem a cenoura tecnológica a salvou. Num mundo em que todas as bibliotecas de Alexandria estão à distância de um clique, o amadorismo não tem desculpa.

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Sexta-feira, Abril 24, 2009

TONY JUDT


Hoje no Público:


É frequente a obra de certos historiadores ultrapassar o âmbito do público especializado. Para dar um exemplo planetário, isso acontece com Eric Hobsbawm e, em particular, com o seu livro A Era dos Extremos (1994). Em certos países, Hobsbawm tornou-se mesmo uma espécie de «herói cultural popular». Não se pode dizer o mesmo de Tony Judt (n. 1948), mas quando Pós-Guerra foi traduzido no nosso país, toda a gente fixou o seu nome. Não é todos os dias que alguém faz da história do pós-guerra e da reconstrução europeia uma narrativa empolgante.

Professor de estudos europeus na Universidade de Nova Iorque, cidade onde dirige o Instituto Erich Maria Remarque, Judt publicou no ano passado uma obra aparentemente menos ambiciosa: O Século XX Esquecido. A aparência ilude. Estes ensaios sobre lugares e memórias, escritos entre 1994 e 2006, primeiro publicados em sítios tão diferentes como a New York Review of Books ou o Haaretz (o mais antigo diário de Israel), constituem, na verdade, uma história das ideias. O seu espectro é vasto: «dos marxistas franceses à política externa norte-americana, da economia da globalização à memória do mal», nada fica de fora. São notáveis os textos que dedica a Edward Said, Albert Camus, Hannah Arendt, Primo Levi, Arthur Koestler, Louis Althusser e Eric Hobsbawm. Ao longo do livro, numa linguagem sempre vigorosa, Judt opõe as teses progressistas dominantes (Sartre, Foucault, Sontag, etc.) às que o fascismo celebra (Jünger, Céline, Eliade, etc.). Outro tema recorrente é a supremacia do cosmopolitismo cultural por oposição às periferias geográficas e linguísticas.

A partir das recensões de obras de Ernest May (Strange Victory: Hitler’s Conquest of France, 2001) e John Lewis Gaddis (The Cold War: A New History, 2006), Judt escreve com proficiência sobre, respectivamente, a derrota francesa de 1940 e a história da Guerra Fria. Nos dois casos, contradita algumas conclusões. No tocante a Gaddis vai mais longe. Reconhecendo vivacidade na descrição dos políticos americanos, nota que Gaddis tropeça fora de portas, sobretudo no terceiro mundo: «Em resultado, este é um livro cujos silêncios são especialmente sugestivos. [...] é preciso uma perspectiva singularmente estreita [...] para publicar uma história da Guerra Fria com um índice remissivo sem uma única entrada para a Argentina, o Brasil, a Venezuela, o Panamá, Granada ou El Salvador, para já não falar de Moçambique, do Congo ou da Indonésia.» Ter «vista curta», diz Judt, é o preço a pagar por pensar a Guerra Fria a partir de Washington. Isso explica as omissões e o descaso com que são tratados acontecimentos ocorridos no Irão e na Guatemala, por exemplo.

A Guerra dos Seis Dias, que em Junho de 1967 reconfigurou o mapa e a política do Médio Oriente, é comentada num texto que explica a sua decepção com o «sionismo intolerante, ultra-religioso» e messiânico que adveio da vitória de Israel contra o Egipto, a Síria e a Jordânia (mais a coligação árabe que os apoiou). Judt, que tem uma costela judaica pelo lado do pai, descendente de rabinos lituanos, viveu num kibbutz em 1966-67. Conta como o ambiente era «provinciano e puritano», esvaziado de qualquer sugestão erótica. Ele próprio foi «severamente repreendido» por trautear canções dos Beatles. Assistiu à chegada, «especialmente da América, de uma nova geração de imigrantes entusiastas [para quem] a derrota dos inimigos históricos de Israel não era o fim da história, mas o início.» O ponto de partida do ensaio, que não é o único a ocupar-se de Israel, foi Six Days of War (2002), de Michael B. Oren, obra de «grande erudição e escrita viva», apesar da queda do autor por «verbos infelizes». Foi o último texto que Judt publicou na New Republic: Oren não gostou do que leu e escreveu uma carta injuriosa que a revista publicou na íntegra. A defesa que Judt faz de um só Estado para Israel e a Palestina azedou a troca de ideias.

Muito mais haveria a dizer sobre este livro admirável. Antes de terminar, gostaria de recomendar com veemência o ensaio dedicado a Hobsbawm. Cito a seu favor o que ele diz do outro: «O seu estilo é límpido e claro. [...] é um mestre da prosa inglesa. Escreve história inteligível para um público que sabe ler.» Fica dito.


Contra o esquecimento, in Ípsilon, 24-4-2009, pp. 36-37. Cinco estrelas.

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Quinta-feira, Abril 23, 2009

DIA MUNDIAL DO LIVRO E DO DIREITO DE AUTOR


Por determinação da UNESCO, celebra-se hoje o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor. Só em Lisboa há dezenas de eventos. Selecciono dois.


Às 17:00h, na Fnac Chiado, lançamento da colectânea O Prazer da Leitura, ilustrada por António Jorge Gonçalves. Os autores dos contos — Jacinto Lucas Pires, Richard Zimler, Jorge Reis-Sá, valter hugo mãe e Patrícia Reis — comparecem.

Às 18:00h, na Livraria Bulhosa Books & Living de Entrecampos, apresentação do romance O Mundo Sólido, de João Paulo Sousa, a cargo de Tiago Bartolomeu Costa, crítico de artes performativas e director da revista Obscena.

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IMPORTA-SE DE REPETIR?


Manchete do Público, hoje: Médicos vão pagar multas se não declararem doenças contagiosas.

Lead da notícia, na primeira página: «Projecto de lei do governo impõe penalizações [...] a clínicos que não comuniquem em 48 horas casos de sida, febre-amarela ou papeira.»

Sem comentários.


[A imagem mostra um casal de lésbicas: Patricia Davenport, HIV-positiva há 20 anos, e Evelyn Marquez, HIV-negativa. As duas vivem juntas há 16 anos, tendo casado há seis meses. Juntas, adoptaram e criaram três crianças. Além do belo cão da foto.]

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Quarta-feira, Abril 22, 2009

AUTO-ESTRADA ROSA


A parte mais interessante da entrevista de Sócrates à RTP foi quando o primeiro-ministro explicou por A+B a necessidade da chamada “terceira ligação” Lisboa-Porto, baptizada pelo PSD como auto-estrada rosa. Como ele disse, até se pode ir de Lisboa ao Porto pela Covilhã, sempre em auto-estrada. Por essa ordem de ideias, teríamos tantas ligações Lisboa-Porto quantas as que a nossa propensão para o passeio ditasse. De facto, o arranque da terceira via é da responsabilidade de governos do PSD, que adjudicaram lances correspondentes a 25% da sua extensão (no sentido Norte/Sul). O actual governo limita-se a concluir o projecto, que inclui a ligação entre Viseu e Coimbra, considerada prioritária.

[O mapa ali em cima não sei se está actualizado, mas foi o melhor que se pôde arranjar.]

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Terça-feira, Abril 21, 2009

SIGILO. PARA QUEM?


A semana passada, o PS viabilizou no Parlamento uma proposta do Bloco de Esquerda para levantamento do sigilo bancário na parte relativa a entradas de dinheiro. Em simultâneo, o conselho de ministros aprovou diplomas no mesmo sentido. Mas, soube-se agora, caso o articulado da proposta se mantenha inalterado, o que vai passar a acontecer é que, enquanto os contribuintes individuais podem ter as suas contas bancárias devassadas (em matéria de IRS) pela Direcção-Geral dos Impostos, à revelia de autorização judicial, as empresas ficam a coberto dessa arbitrariedade, porque, para as escrutinar, é sempre exigida a autorização de um tribunal. Em certos aspectos, face à legislação em vigor, a proposta do Bloco que o PS deixou passar até dificulta os procedimentos. Vários especialistas ouvidos pelo Público dão exemplos concretos. Um deles, o fiscalista Manuel Anselmo Torres, afirma que «a dispensa de autorização judicial para a derrogação do sigilo bancário fica, com efeito, limitada aos sujeitos passivos de IRS [tendo] o curioso efeito de aumentar a protecção do sigilo bancário da generalidade das empresas. Custa a acreditar que tenha sido assim aprovado.»

Tanto o Bloco como o PS já disseram que a ideia “não era essa”, tencionando afinar os diplomas na especialidade. É bom que o façam. Apesar dos esforços de muitos, ainda não vivemos numa república das bananas.

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Apresentação em Lisboa


Na próxima quinta­‑feira, dia 23 (depois de amanhã), será apresentado em Lisboa o meu romance O Mundo Sólido, editado pela Deriva. A sessão terá lugar na Livraria Bulhosa Books & Living de Entrecampos (Campo Grande, 10 B), a partir das 18:00h, com a presença do Tiago Bartolomeu Costa (crítico e director da revista de artes performativas Obscena), que falará sobre o livro. Estão todos convidados.

Segunda-feira, Abril 20, 2009

REGRESSO AO REAL


No dia seguinte à transmissão do DVD que pôs um terço do país a salivar, o Diário de Notícias publicou esta notícia. Como lhes convinha, muita gente fez de conta que não leu. E não se cansa de repetir que o primeiro-ministro processou os jornalistas da TVI, mas não Charles Smith. Sucede que na realidade ele os processou a todos. Verdade que, no dia em que o DN deu a notícia, o processo contra Smith ainda estava a ser ponderado por Daniel Proença de Carvalho. Entretanto, a coisa avançou. Nenhum jornalista, mesmo os assalariados da TVI, terá dificuldade em confirmar que essa queixa foi de facto formalizada. Insistir na tese de que só os jornalistas, taditos, mas o Smith não, não leva a lado nenhum. Não fazia sentido e não é verdade.

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CITAÇÃO, 165


Pedro Magalhães, Uma experiência para Lisboa, hoje no Público. Excertos:



«Eram sete horas da manhã do dia 17 de Fevereiro de 2003 quando ocorreu uma mudança histórica na cidade de Londres. A partir desse momento, todos os veículos que quisessem circular ou estacionar no centro da cidade durante os dias de semana passaram a pagar uma “taxa de congestão”, que é hoje de oito libras (nove euros). Os residentes têm direito a um desconto de 90 por cento e estão isentos de pagar a taxa se estacionarem em garagens ou zonas designadas. Veículos com baixas emissões de CO2, de emergência ou usados por deficientes, transportes colectivos, assim como motos e bicicletas estão também isentos. O cumprimento destas regras é aferido através de câmaras que identificam automaticamente as matrículas, que são diariamente confrontadas com o registo dos pagamentos feitos.

Quais os efeitos deste medida? Num artigo de Outubro de 2006 do Journal of Economic Perspectives, Jonathan Leape resume as conclusões dos estudos existentes. O número de veículos privados que circulam na zona central baixou em 30 por cento. Mais de metade dos indivíduos que deixaram de usar o carro para entrar na zona central passaram a usar transportes públicos. [...]

Estocolmo é ainda melhor exemplo de uma capital europeia que introduziu um esquema deste tipo, protegendo uma área central de 30 km2. Foi em Agosto de 2007, precedido de um período experimental na primeira metade de 2006, ao qual se seguiu um referendo local. As formas de pagamento são bastante mais fáceis que em Londres e incluem um sistema tipo “via verde”. Em Março passado, a revista Transportation Research dedicou um número inteiro ao assunto. Conclusões? Efeitos iguais ou maiores que em Londres: diminuição do tráfego e do tempo de viagem; ausência de efeitos negativos no comércio; transferência de viajantes para transportes públicos; ausência de efeitos regressivos ou progressivos em termos de equidade na distribuição dos custos; e redução de acidentes, poluição e custos de manutenção da via pública. [...]

Eu sei que votar numa eleição não é fácil e há muita coisa a considerar. Mas espero que os mais de 500.000 eleitores que podem votar nas autárquicas em Lisboa aceitem deste seu concidadão um critério que simplificará muito a nossa decisão. Irão dizer-vos que a rede de transportes públicos em Lisboa não permite que se impeça a entrada de carros. Mas vocês sabem, como eu, que isso não é verdade. Vocês vêem, como eu, autocarros vazios em hora de ponta, parados por detrás de um mar de carros nos eixos centrais por onde se passa quando se entra e sai de Lisboa. É preciso melhorar? Sim, e irão dizer-vos que não há dinheiro. [...]

Vão também dizer-vos que aqueles que vêm para a cidade não têm bons meios para cá chegar sem ser o carro particular. Mas mesmo que isso fosse inteiramente verdade — e vocês sabem bem que não é —, pensem de quem será a responsabilidade, e como o actual estado de coisas desresponsabiliza as câmaras dos concelhos limítrofes de melhorarem os transportes públicos nos seus próprios municípios e os governos de investirem em melhores maneiras de chegar à nossa cidade. Pensem nos custos — em tempo, produtividade, saúde, segurança, vida familiar, conforto — que todos pagamos pelo actual estado de coisas. Vocês sabem tão bem como eu que muitos dos candidatos que temos tido à Câmara de Lisboa a vêem como mero degrau para outros cargos políticos e que, por isso, têm medo de hostilizar o eleitorado dos concelhos vizinhos. Mas isso tem sido um problema nosso que, felizmente, a democracia ajuda a que possamos fazer com que seja apenas um problema deles. É simples: candidato que não proponha uma maneira séria e radical de impedir a entrada de carros na nossa cidade não merece um único dos nossos votos. Vamos fazer essa experiência? Vão ver que funciona.»

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Domingo, Abril 19, 2009

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. No final de 2006, Alberto Costa, ministro da Justiça, encomendou ao historiador Fernando Rosas «uma investigação académica sistemática sobre os tribunais políticos especiais que existiram em Portugal entre 1926 e 1974, ou seja, durante o período da Ditadura Militar e, depois, ao longo do Estado Novo.» Fernando Rosas desenvolveu o trabalho no âmbito do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, coordenando uma equipa constituída por Irene Flunser Pimentel, João Madeira, Luís Farinha e Maria Inácia Rezola. Tribunais Políticos é o resultado do seu trabalho. Além de vários fac-símiles, o volume, com 663 páginas, inclui a lista dos presos políticos processados pelo Tribunal Militar Especial entre 1933 e 1945 (264 pp), a lista de réus julgados nos tribunais plenários entre 1945 e 1974 (105 pp), bem como a dos advogados escolhidos por estes réus. Em suma, uma obra de consulta obrigatória para quem se interesse por história contemporânea ou, simplesmente, por quem queira perceber o país que ainda somos. Mas era dispensável publicar como prefácio um discurso do ministro da Justiça proferido no ano passado. A introdução de Fernando Rosas chega e sobra.



Ana Bela Almeida: «Ninguém lhe chama “um espaço”. Ninguém lhe chama “um conceito”. Não é multimédia. Não vende café. Não funciona como sala de concertos. Não é um projecto inovador. Não vende pins nem postais. Não é o último grito da vanguarda. Não é uma galeria. Não vende cd’s. É só uma livraria.»

O Jansenista: «[...] a) Quem é que lhe terá financiado as campanhas eleitorais em que andou metido todos estes anos — já que, aparentemente, não foi nenhum “empresário submisso”… / b) A que instituição bancária, repleta de “empresários submissos”, terá ele andado associado, no hiato que medeia entre a saída de São Bento e o ingresso em Belém…»

Pedro Vieira: «se por estes dias é obrigatório fazer um post com os xutos ao menos que se use uma canção decente.»

Tomás Vasques: «Há sinais cada vez mais claros de que Cavaco Silva está a caminhar cauteloso, mas com um rumo determinado; no percurso, vai deixando marcas para Manuela Ferreira Leite o seguir sem se perder. A estratégia está bem pensada e poderia resultar, dadas as circunstâncias. Mas, por estranho que pareça, os telejornais da TVI, às sextas-feiras, são uma contrariedade: somos um povo de brandos costumes; a obsessão doentia não compensa. Antes pelo contrário.»

Vieira do Mar: «Não sei como vai o caso freeport, nem o casa pia, nem o apito dourado, nem que desmandos andam por aí a fazer, os principais representantes dos nossos orgãos de soberania e afins, deixei de ver telejornais nacionais. A mediocridade intelectual das nossas classes política e judiciária, compostas essencialmente por bimbos orgulhosos da sua infância de plantadores de couves, que trazem ainda incorporado o chip do temor reverencial ao senhor da terra (hoje em dia, um bimbo-mor qualquer apenas um bocadinho mais acima na cadeia alimentar), faz com que já nada do que possam dizer ou fazer me espante, tanto de um lado como do outro. Perdi completamente a paciência para declarações, contra-declarações e declarações contrárias às contra-declarações, todas vazias de significado. Na prática, cada corporação, priorado, associação, assembleia, concelho ou puro e simples grupo de malfeitores, continua a fazer aquilo que muito bem entende, sem qualquer sentido de Estado, nas tintas para as pessoas e para a justiça com jota grande. Parecem todos umas sopeiras armadas em finas, umas elizas doolittle na fase intermédia de aprendizagem, quando ainda se nota o sotaque das berças e a mão lhes foge para a anca mas, com esforço, lá evitam a gritaria. Não há pior do que estas meias tintas institucionais em que o país vive, feitas de insinuações, de dizquedisses, suspeitas, bocas, mentideros e desmentidos. E a comunicação social, de uma domesticidade confrangedora, a chafurdar nos seus próprios objectivos, imediatos e comezinhos, não ajuda; antes, contribui para o nojo e o tédio de quem a ouve e lê. Faz falta quem pegue fogo a este circo.»

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Sábado, Abril 18, 2009

O ANÁTEMA


Hoje, na sua coluna do P2, a pretexto dos programas de debate introduzidos pela TVI24, o crítico Eduardo Cintra Torres trata abaixo de cão todos os comentadores afectos ao (ou simpatizantes do) Partido Socialista. Correia de Campos, antigo ministro da Saúde, é «uma correia, sim, mas de transmissão»; Augusto Santos Silva, ministro dos Assuntos Parlamentares, é «uma das personalidades mais insuportáveis da cena política»; e a jornalista Fernanda Câncio, que se «tem apresentado no programa [...] como defensora das posições do PS-Governo», revela em estúdio «a mesma intolerância que transpira da sua opinião no DN e dos posts em blogues, nestes roçando a má-criação

Sucede que Correia de Campos deixou o programa, sendo substituído por Manuel Villaverde Cabral, orientador do doutoramento de Eduardo Cintra Torres: «Com Villaverde Cabral há uma nova relação entre os intervenientes, de que resulta um equilíbrio salutar para um debate verdadeiramente útil.» OK.

Augusto Santos Silva é ministro. Não devia estar comentador. Uma sociedade evoluída exclui os governantes (e os legisladores) da opinião profissional.

Com Fernanda Câncio o caso muda de figura. Fernanda Câncio é jornalista. Fernanda Câncio, como qualquer comentador, pode e deve opinar sobre o que lhe aprouver. Era o que faltava que não pudesse defender as posições do governo. Em que recesso destas cabecinhas trauliteiras cabe o anátema? O governo não foi sufragado em eleições?

Em democracia, um comentador televisivo pode e deve ser criticado por mil razões: dizer disparates, insultar terceiros, ter um discurso abstruso, cuspir enquanto fala, não deixar ninguém falar, trazer caspa nos ombros, etc. Não pode é ser acusado por apoiar o governo. Como também não podem ser acusados os que o atacam. Não perceber isto é não perceber nada. Até porque o nonsense cria um precedente de consequências irreversíveis. No dia em que o governo mudar, como vai ser?

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CORRIGIR A PONTARIA


Hoje, no Correio da Manhã:


«Alguns documentos do caso Freeport que têm vindo a público são falsos. O CM sabe que algumas testemunhas ouvidas esta semana na Polícia Judiciária constataram que certos documentos, que a equipa de investigação juntou ao processo em resultado das diversas buscas efectuadas desde 2005, não correspondem nem de perto nem de longe aos que têm aparecido publicamente. [...] Um deles, sabe o CM, é o fax em inglês com o pedido de quatro milhões de libras...»

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Sexta-feira, Abril 17, 2009

JOHN CHEEVER


Hoje no Público:


John Updike disse um dia que John Cheever (1912-1982) era o maior estilista da sua geração. Se substituirmos “o maior estilista” por “o grande clássico”, não erramos a pontaria. Os seus contos têm a perfeição dos quadros de Edward Hopper. Isso é facilmente demonstrável agora que parte deles (vinte e oito, para sermos exactos) foi reunida no primeiro volume de Contos Completos. Cheever faz parte da geração de ouro da revista New Yorker, que juntou Nabokov, O’Hara, Salinger, Irwin Shaw e outros. Mas a sua reputação sofreu um revés com a revelação póstuma dos esqueletos que tinha no armário: a dependência do álcool e uma vida de homossexual enrustido. Muito se tem escrito sobre o assunto nos últimos 20 anos, e quem não tiver tempo ou paciência para as biografias (a última em data é a de Blake Bailey) pode ilustrar-se no ensaio que James Wolcott publicou recentemente na Vanity Fair. Os que leram Falconer (1977), o mais perturbante dos seus romances, não ficam surpreendidos com a extensão dos interditos. Afinal de contas, Ezekiel Farragut é o alter-ego do autor.

The Stories of John Cheever (1978) subsume o melhor da obra. Não admira que tenha ganho o Prémio Pulitzer e o Prémio Nacional do Círculo de Críticos. A tradução portuguesa corresponde a dois volumes, o primeiro dos quais colige alguns dos mais conhecidos: O rádio enorme, Camponês de Verão, Os malefícios do gin e O marido do campo. Como ele próprio diz no prefácio, esses contos são «a história de um mundo há muito desaparecido, quando a cidade de Nova Iorque era ainda inundada pela luz do rio [...] e quando quase toda a gente usava chapéu.» Todos questionam princípios aceites como bons, ao mesmo tempo que demonstram o modo como transformou a ficção na campânula de vidro que o abrigava da realidade. Ao fazer dos subúrbios elegantes o centro das suas preocupações, Cheever pretendeu eliminar as asperezas do quotidiano. Isto dito, nada mais errado do que ver nele um cultor de abstracções. Pelo contrário, os seus contos e romances recriam as tensões da vida conjugal e, em particular, a complexa teia das relações sociais. O facto de corresponder a um processo de ocultação (vivia no avesso do que escrevia) não diminui o mérito. Em Adeus, meu irmão, por exemplo, a crueza do retrato de Lawrence é exemplar na forma como escalpeliza o ódio em família: «A companhia de uma mentira é insuportável, e ele parecia a personificação de uma mentira.» Inimigo declarado da enxúndia retórica, Cheever foi minimalista num tempo (estes contos foram escritos nos anos 1940-50) em que uma saga como Les Thibault, de Roger Martin du Gard, ainda era considerada o epítome da grande ficção.

Apesar do incómodo, Cheever não atirou com a homossexualidade para debaixo do tapete. Mas o permanente conflito identitário levou-o a ridicularizar o tema, como faz em Clancy na Torre de Babel, conto de 1953 que integra este conjunto. Aliás, grande parte do sucesso popular de The Wapshot Chronicle, romance de 1957 que lhe valeu o National Book Award, advém da forma como reduz Coverly Wapshot, o protagonista, a um estereótipo camp.

Mas nem só de sarcasmo em ambiente patrício vive a obra. Por oposição ao título, Ó juventude e beleza! é o relato sem complacência da decadência de Louise e Cash Bentley. O elevado grau de acidez é adequado à intriga: alcoolismo, calvície, impostos em atraso, contas por pagar, escassez de convites, elásticos das cuecas estragados. Houve um tempo em que Cash foi novo: «Foi um herói. Foi adorado e feliz e cheio de uma energia animal, e agora está ali numa cozinha às escuras, despojado das suas proezas atléticas, da sua impetuosidade, do seu bom aspecto — de tudo o que tinha algum significado para ele. Sente-se como se os vultos no jardim ao lado fossem os espectros de uma festa nesse passado onde jazem todos os seus gostos e desejos e de onde ele foi cruelmente expulso.» Quando Louise lhe dá um tiro sem querer, e o mata, o sofrimento acaba.

Uma revisão mais atenta teria evitado erros pontuais de processamento de texto («lide de casa», etc.), numa tradução que faz justiça ao virtuosismo de Cheever.


A campânula de vidro, in Ípsilon, 17-4-2009, p. 34. Cinco estrelas.

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Quinta-feira, Abril 16, 2009

MENOS UM


Isto não podia ter acontecido. Infelizmente, aconteceu.

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CRIMINALIZAR A RIQUEZA


No dia em que o Parlamento discute o levantamento do sigilo bancário, uma proposta do Bloco de Esquerda que o PS se prepara (e bem) para viabilizar, vem a propósito recordar o que se passou ontem à noite no Jornal das 9 da SIC Notícias. Em estúdio, dando provas de uma contensão à prova de bala, Alberto Martins, líder parlamentar do PS, aguentou com fair play as investidas de Mário Crespo, que queria saber a razão pela qual o PS sistematicamente “obstaculizara” as propostas da oposição sobre criminalização do enriquecimento ilícito. Alberto Martins explicou por A+B. Afinal, para chegar ao enriquecimento ilícito, é preciso cometer vários crimes, todos previstos na lei. E rematou: «Nenhum país europeu criminaliza o enriquecimento ilícito. Em todo o mundo, só dois países o fazem — a China e a Zâmbia.» Et pour cause! Eu percebo que os estagiários que têm de esperar na rua e em vãos de escada por deputados e ministros, não tenham condições nem tempo de preparar-se. Mas um jornalista sénior como Mário Crespo, em vez de andar a reboque da lufa-lufa justicialista, tem a obrigação de o fazer. Evitava o embaraço de ouvir o que ouviu.

[O resort de Benguerra, em Inhambane, Moçambique, de que vemos uma imagem ao alto, é muito frequentado pelas classes possidentes da Zâmbia.]

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Perguntas e respostas


A propósito da publicação do meu romance O Mundo Sólido (em breve, nas livrarias), o António Luís Catarino, editor da Deriva, pediu­‑me que respondesse a algumas questões. O resultado dessa breve entrevista pode ser lido aqui.

[Em cima: Campo dei Fiori, em Roma, com a estátua de Giordano Bruno ao centro.]

Quarta-feira, Abril 15, 2009

Perversão em colóquio


Quem estiver no Porto nos próximos dias 23 e 24 de Abril terá a magnífica oportunidade de assistir ao Colóquio Internacional e Interdisciplinar «Artes da Perversão», organizado pelo Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Desde a análise do capitalismo contemporâneo até ao estudo da linguagem na poesia portuguesa de alguns autores das últimas décadas, passando pela reflexão sobre formas teatrais, a beleza das imagens ou questões éticas, o colóquio irá abordar a perversão através de uma ampla e sugestiva variedade de perspectivas. O programa completo pode ser consultado no cartaz acima exposto.

BACOQUICE TUGA


A bacoquice à volta do cão de água português oferecido a Obama está a atingir o paroxismo. Do modo como as notícias são dadas (omitindo a oferta do senador Ted Kennedy), parece que o cão foi daqui. Ora, como se sabe, Bo, que vemos na imagem a correr com o dono, é um filho da Nova Inglaterra, conforme atesta o respectivo pedigree. Se Bo é português... a minha gata é celta! Isto não tem importância nenhuma, excepto na parte em que não conseguimos livrar-nos do provincianismo bacoco, ou, o que é pior, da convicção de que os media nacionais são para o povão (a forma como muitas notícias são apresentadas dá a entender isso), porque as elites lêem estrangeiro.

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EVE KOSOFSKY SEDGWICK 1950-2009


Vítima de cancro, Eve Kosofsky Sedgwick morreu no último domingo, antes de completar 59 anos. Ler aqui o obituário da New Yorker. Académica de prestígio, devem-se-lhe textos centrais sobre a teoria queer. O mais famoso dos seus ensaios, Epistemology of the Closet (1990), está traduzido em Portugal desde 2003. Outras obras importantes são Between Men. English Literature and Male Homosocial Desire (1985), Tendencies (1993), Fat Art, Thin Art (1995), A Dialogue on Love (1999) e Touching Feeling. Affect, Pedagogy, Performativity (2003). Em 2002, a Universidade de Yale atribuiu-lhe o Brudner Prize.


[Soube da sua morte pelo Paulo Jorge Vieira, dirigente da Associação Não Te Prives.]

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Terça-feira, Abril 14, 2009

RANGEL NA EUROPA


Está desfeito o tabu. Paulo Rangel é mesmo o cabeça-de-lista do PSD às eleições europeias. Vem por aí desatino na certa. O forcing a favor de Marques Mendes não fazia sentido. Não foi ele que disse, nas 300 entrevistas que deu quando publicou o livro, que não queria saber da política para nada? Então!? Em todo o caso, solteiro por solteiro, acho que o PSD ficava melhor servido com Mota Amaral. Mas eles lá sabem.

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Um livro em imagens e sons


Quase a chegar às livrarias (com apresentações marcadas para 23, em Lisboa, e 29, no Porto), o meu romance O Mundo Sólido, editado pela Deriva, mostra­‑se um pouco mais através deste booktrailer, ao som de John Cage.

INFLAÇÃO NEGATIVA


Não sei se estão recordados. No último Verão, a espiral de preços anunciava o Apocalipse. O céu deixara de ser o limite das taxas Euribor. Milhares de famílias não tinham como cumprir as hipotecas. O preço dos combustíveis atingiu patamares de alucinação. As classes médias hesitavam entre arroz trinca e caviar Beluga. O fim do mundo seguia dentro de momentos. Por altura do Natal escrevi um texto que, por ter sido lido na diagonal (como acontece quase sempre), causou geral perplexidade. Lembro-me da genuína irritação de uma amiga, funcionária pública e blogger conspícua, durante o almoço de 24 de Dezembro, no Ritz: «Nunca estivemos tão mal!» Perguntei pelos anos [2003-05] de congelamento de vencimentos e progressões, mas não, não senhor, o desastre é hoje. OK.

Como é fácil verificar, o texto de Dezembro é sobre quem tem emprego assegurado. Melhor dito, sobre o que podiam esperar de 2009 os empregados, aposentados e pensionistas. Os desempregados, infelizmente, não podem esperar nada. Não podem em 2009 como não podiam há cem anos. E como, em Portugal, o Estado emprega à volta de oitocentas mil pessoas, entre funcionários do regime geral, médicos, enfermeiros, professores, polícias, militares, magistrados, diplomatas, analistas de relações internacionais, engenheiros de estradas e pontes, bibliotecários, investigadores, conservadores de museus, autarcas, inspectores de finanças, técnicos aduaneiros, controladores aéreos, agrimensores, educadores de infância, espiões, etc., o aumento de 2,9% de que todos estão a beneficiar (o maior dos últimos 10 anos), desde Janeiro, permite que uma larga fatia da população activa esteja resguardada da crise por um airbag providencial. E mais os outros todos das grandes empresas, as públicas (como a TAP, REFER e RTP) e as privadas (entre outras, a Portugal Telecom, a EDP e a Galp), dos bancos e seguradoras, etc., o que dá muita gente junta, e torna a lengalenga da crise uma anedota, nos termos em que é colocada. Podiam deixar a histeria para 2010, porque em 2010 não há eleições e, portanto, não deve haver almofadas para ninguém.

Vem isto a propósito da inflação negativa que a Primavera trouxe. Não contando com as famosas taxas Euribor, com quedas consecutivas há duzentas e tal sessões — hipotecas houve em que a prestação mensal baixou 300 euros —, facto é que desde o Verão de 1962 que os preços não recuavam. Acontece neste momento. Ao fim de 47 anos temos inflação negativa. Para sermos exactos, em 148 categorias analisadas, 50 baixaram de preço. Verificam-se quebras significativas em quatro: combustíveis (-19,8%), telefones fixos e móveis (-17,3%), computadores (-16,4%) e viagens de avião (-14,7%). Mas nem tudo desce de preço. Subiram as hortaliças (+9,6%), as cantinas (+8,7%), a joalharia e os relógios (+6,9%) e os transportes rodoviários (+5,8%). Mas, como há 8 meses, anuncia-se o Apocalipse. Preso por ter cão, preso por não ter.

Já agora, a vida como ela é. A pretexto da Páscoa, as televisões mostraram lojas de chocolates em Paris e Bruxelas. Por causa da crise, todas baixaram os preços. E nós por cá? As amêndoas de mascarpone que no ano passado se compravam a 26 euros o quilo, vendem-se agora a 39. O aumento de 50% significa que um pacotinho de 200 gramas passou de 5,2 euros para 7,8 euros. Alguém refilou?

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CITAÇÃO, 164


Pedro Picoito, A democracia da suspeita. Exemplar. Convém ler tudo. Excertos:



«Tinha prometido a mim mesmo não voltar à vexata quaestio [...] mas li esta tarde algumas coisas que me fizeram mudar de ideias. Consequência, por certo, da minha ingenuidade. Meia dúzia de anos a ler blogues e ainda me surpreendo. [...]

Em primeiro lugar, o alargamento da noção de conflito de interesses à pura intimidade põe em risco tanto a liberdade de opinião como a própria noção de conflito de interesses. Se até um suposto relacionamento íntimo dá origem a um conflito de interesses, então tudo é conflito de interesses. [...]

Nenhuma destas condições, que eu saiba, se verifica no suposto caso Câncio-Sócrates. O conflito de interesses não passa de uma suposta relação privada, cujo âmbito público se resume à opinião da cidadã Fernanda Câncio sobre o Primeiro-Ministro no jornal em que escreve e na televisão em que fala. Uma opinião a que tem direito, tenha ou não tenha qualquer relação com ele porque a opinião não é — repito — neutra. Ver aqui um conflito de interesses é pôr em causa a liberdade de opinião. E ver na liberdade de opinião uma vantagem ilícita é um insulto, não à cidadã Fernanda Câncio, mas a todos nós.

Pior ainda: é invadir, sem qualquer justificação moral ou legal, a vida privada da cidadã Fernanda Câncio. Para meu espanto, pouca gente se deu conta de tal ataque ao direito à privacidade. Tem-se repetido ad nauseam que a ambiguidade da relação Câncio-Sócrates alimenta as mais desvairadas especulações. [...]

Sim, surpreende-me que pessoas sempre tão preocupadas com a invasão da nossa vida pelo Estado, e com razão, não vejam que estender tão longe a suspeita do conflito de interesses é apenas trocar o Estado pela opinião pública no trabalho sujo. Esta democracia-tablóide, em que todos temos de saber tudo sobre todos a bem da transparência, repugna-me. Que sejam tantas vezes os próprios cidadãos a abdicar voluntariamente da sua intimidade em nome dos quinze minutos de fama ou outro prato de lentilhas qualquer, repugna-me ainda mais. Estamos muito perto da vigilância universal sonhada por todas as tiranias. Se não é o Big Brother, é o petit Robespierre. E que tudo isto se passe em democracia formal, de modo algum me tranquiliza. Esqueçam o Dreyfus, fruto de um dia mau, e lembrem-se do que anunciava Tocqueville para os dias piores.»


Sobre o mesmo tema, ler o Francisco José Viegas e o Filipe Nunes Vicente.

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Segunda-feira, Abril 13, 2009

E MAIS ESTA


A gerência da Marafona Irmãos Unidos, Lda., uma das empresas mais dinâmicas da Costa de Prata, proibiu as trabalhadoras de mudar o Tampax no refeitório. Uma trabalhadora a termo, apanhada em flagrante, argumentou com o facto de estar na sobremesa. Só faltava o Gelly, disse. A comissão de trabalhadores pediu uma audiência (com carácter de urgência) ao Presidente da República. O PSD prepara-se para chamar ao Parlamento o CEO da Marafona Irmãos Unidos, Lda., ausente em Phuket. O CDS quer tirar a limpo se o Tampax apreendido é da linha Classic ou Red. Notícias não confirmadas dão conta de uma Cimeira de bloggers-fêmea, a realizar nas próximas 36 horas, em local desconhecido da Serra dos Candeeiros.

Declaração de interesses: Acho intolerável este atentado à liberdade individual. Já não bastava os cabos de Cavalaria não poderem usar brincos pendentes e a lingerie Mad Max estar vedada às escriturárias de Faro. Intolerável!

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CAMPANHAS NEGRAS


A oposição britânica quer que Gordon Brown peça desculpas públicas por uma hipotética campanha negra do Labour contra os tories. Segundo David Cameron, líder dos conservadores, o Labour preparava-se para divulgar, através de um blogue registado como RedRag, histórias negras sobre os opositores: detalhes da «doença embaraçosa» que afectaria Cameron, bem como episódios indiscretos da vida privada de outros dirigentes tories, entre eles George Osborne, o ministro-sombra das Finanças, alegadamente envolvido com drogas e fotografado com prostitutas. Tudo começou com uma troca de correspondência entre Damian McBride, principal conselheiro de Brown, e o blogger Derek Draper, antigo spin doctor dos trabalhistas. Vários e-mails chegaram às mãos de outros bloggers (Guido Fawkes, que os tornou públicos, foi um deles) e aos jornais. McBride, que vemos ao alto com Brown, já se demitiu, depois de ter reconhecido a autoria e o envio, a partir de Downing Street, de e-mails «infantis e inapropriados». Uns patuscos, estes ingleses!

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Sábado, Abril 11, 2009

CITAÇÃO, 163


Miguel Sousa Tavares, Como fritar um PM em lume brando, no Expresso. Excertos:



«Eis o meu ponto de partida: eu não acredito que o cidadão José Sócrates Pinto de Sousa tenha, enquanto ministro do Ambiente, aceite quatro milhões (de euros ou de contos, a suspeita nunca ficou clara) para autorizar, contra a lei, o Freeport de Alcochete. Não acredito: é um direito que me assiste e que decorre não apenas da experiência de trinta anos a observar políticos por dever profissional, como também pelo conhecimento pessoal que dele tenho.

[...] Acho absolutamente intolerável que a investigação e esclarecimento de um assunto desta gravidade, envolvendo suspeitas deste tipo sobre um PM, acabe — uma vez mais! — por flutuar, sem prazo nem dignidade alguma, nesse limbo de maledicência e de justicialismo popular onde invariavelmente vegetam ultimamente todas as investigações deste tipo, entre a incompetência do Ministério Público e a leviandade de uma imprensa que vive para o escândalo e que se está borrifando para o que seja o Estado de Direito.

[...] Não consigo entender como é que, nas últimas semanas, o centro das atenções relativamente ao Freeport se deslocou dos resultados da própria investigação para as queixas de “pressões” dos magistrados dela encarregados.

[...] o caso Freeport ocupa a cena há três meses, [...] é objecto de uma gritaria sem fim e, em vez de medos, tem propiciado abundantemente o que melhor caracteriza a nossa investigação criminal nos chamados casos mediáticos: permitir ou promover a execução pública dos suspeitos, antes que eles tenham tido uma hipótese de se defender e muito antes de a acusação concluir se tem ou não matéria para levar o caso a tribunal. É grave que isto possa suceder com qualquer cidadão; é gravíssimo que possa suceder com o próprio primeiro-ministro: não por José Sócrates, no caso, mas pela saúde pública do regime democrático. Desgraçadamente, chegámos a um ponto em que qualquer pessoa, por mais inocente que esteja, e em especial se for figura pública, pode ser executada em lume brando na praça pública, num fogo assassino alimentado pela negligência da investigação e pelas sistemáticas violações do segredo de justiça, que permitem a uma imprensa sedenta de sangue e de “sucessos” atear as labaredas da execução popular. Mesmo quando, como foi o caso, tudo nasce de uma denúncia anónima — para mais, sugerida pela própria PJ e com contornos mais do que suspeitos de manobra política eleitoral, nunca devidamente esclarecida.

Eu não quero saber se os senhores magistrados se sentem ou não pressionados porque o PM supostamente lhes terá mandado dizer que andassem rapidamente com o processo, conforme é obrigação deles. Eu quero é que eles não finjam não perceber a gravidade do que têm em mãos, as implicações políticas imediatas e a prazo do arrastar do caso e a arrasadora suspeita que pende sobre a cabeça de um cidadão que, por acaso, também é primeiro-ministro.

Tanto quanto sei, seguindo as coisas de fora, todas as suspeitas contra José Sócrates assentam na existência de um vídeo onde um tal Charles Smith, para tentar justificar perante os patrões do Freeport uma quantidade de dinheiro que desapareceu em Portugal, o explica dizendo que teve de corromper o então ministro do Ambiente. Ora, o sr. Smith está para aí, à disposição dos investigadores, que aliás já o interrogaram algumas vezes. Permitam-me os senhores magistrados que diga que não vejo aqui nenhum bico de obra: ou conseguem que o sr. Smith prove como e quando pagou a Sócrates e qual o destino do dinheiro, ou não o conseguem e, então, só lhes resta uma coisa a fazer: arquivar o processo contra Sócrates e prossegui-lo contra o sr. Smith e demais envolvidos, por crime de falsas declarações e muito provável roubo, em benefício próprio, dos tais quatro milhões. Não alcanço porque são precisos cinco anos de adormecidas investigações e mais três meses de histeria investigatória para concluir uma destas duas coisas. [...]»

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Sexta-feira, Abril 10, 2009

MARIA ISABEL BARRENO


Hoje no Público:


Com quinze anos de intervalo, Maria Isabel Barreno (n. 1939) acaba de publicar o segundo romance inspirado na vida do tetravô paterno, esse Manuel António Martins que terá sido o primeiro Martins a chegar a Cabo Verde. Como em 1994, com O Senhor das Ilhas, interessa-lhe contar a história dos antepassados de seu pai. Vozes do vento prolonga a narrativa familiar sob o pano de fundo da colonização portuguesa. Desinteressada de fixar uma época, a autora ficciona a partir de factos reais: «Foi necessário preencher muito espaço vazio, muita lacuna, muito pensamento e muita intenção.»

É muito interessante acompanhar a evolução de Maria Isabel Barreno, entre o feminismo radical de Novas Cartas Portuguesas (1972) e a negociação de identidades que percorre os contos de O Círculo Virtuoso (1996). Praticamente em silêncio na última década, nem por isso se afastou do território de eleição: reflectir sobre a passagem do tempo.

Voltando ao centro da intriga: morto Manuel António Martins em 1845, a relação de forças muda com a chegada do novo comandante militar da ilha do Sal, um tal Gromicho Couceiro, odiado pelos negros e adversário declarado da Casa Martins, «um Estado dentro do Estado». Daí a revolta de 1846, que alguns consideram mero afrontamento entre as partes. João António Martins, o novo chefe da Casa, trocara a ilha do Sal pela de São Vicente, instalando-se no Mindelo, de onde fora banida a condição escrava e para onde seu pai projectara o porto que ligaria Cabo Verde ao vasto mundo.

É justamente a questão dos escravos o motor da discórdia entre Gromicho e a Casa Martins. O primeiro, manipulando a seu bel-prazer as ambiguidades decorrentes do novo estatuto: «Se são libertos, não são propriedade sua, e também terão de obedecer às minhas ordens.» Queria ele usar os homens nas guerras sem fim da Guiné. Do outro lado, João António, chefe da Casa, fazendo finca-pé e apoiando publicamente a lei de Sá da Bandeira. Como sempre na obra de Maria Isabel Barreno, trata-se de dar voz a movimentos de emancipação. O discurso flui com naturalidade, isento de proselitismo ou derrame passional, porque a crueza dos factos chega e sobra para nos reconduzir aos anos de brasa da ocupação. Com a morte de João António em 1857, a Casa Martins desaba: «Nem a notícia de sua morte ficou registada. Seu destino interrompido, engolido, como tudo nestas ilhas.»

Sem razão aparente, a segunda parte do livro, relativa à débâcle dos Martins, passa a ser narrada na primeira pessoa: «Entre 1857 e 1863 nada digno de registo aconteceu na família. Comecei por deixar estes anos em branco...». Isso muda a sintaxe da narrativa, operando um corte com a distanciação ideológica e afectiva que fora timbre da primeira parte.

A decadência da Casa Martins, outrora todo-poderosa, coincide no tempo com o pico da emigração para os Estados Unidos (os navios baleeiros eram uma tentação) e a chegada de Serpa Pinto, herói de África, mandado para Cabo Verde em regime de sinecura. O cargo de governador era inócuo: «Algures desanimou, entre a enormidade do necessário e a ausência de respostas. Refugiou-se na pompa e circunstância. Mandou comprar uma baixela de cristal e prata, e assim alindou seus jantares no Palácio do Governador e deixou um refrigério de luxo para os seus sucessores, nestas ardências e securas.» O permamente desencontro entre as preocupações das autoridades locais e o centralismo do Reino, em aspectos tão comezinhos como, por exemplo, a questão da água, relata-o Maria Isabel Barreno com vivacidade.

A pretexto dos avoengos da autora, Vozes do vento reconstrói a história de Cabo Verde à luz dos interesses coloniais.


A Casa Martins, in Ípsilon, 10-4-2009, pp. 22-24. Quatro estrelas.

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Quinta-feira, Abril 09, 2009

Animais e escritores


O número 485 do Magazine Littéraire, referente a este mês, dedica a sua atenção aos animais (em francês, a palavra bête é mais precisa, porque elimina desde logo qualquer alusão aos seres humanos). Ao longo do vasto dossiê central, é analisada a relação da literatura com esses habitantes do planeta que insistimos em designar como nosso. Há um texto, assinado por Pierre­‑Marc de Biasi e Déborah Boltz, que se centra em seis escritores (Colette, Françoise Sagan, André Gide, Paul Léautaud, Céline, que surge também na capa, e Michel Houellebecq) e nas ligações afectivas que desenvolveram com os animais que lhes eram, ou são, próximos. Num texto de grande pertinência, que abre com uma citação de Minima Moralia, de Adorno, sobre a expressão «é apenas um animal» (cf. página 104 da versão portuguesa, de Edições 70), Élisabeth de Fontenay nota como é ainda raro que, ao nível do ensaio, se coloque a questão do sofrimento dos animais, nomeadamente nos matadouros.
Existem, no entanto, outros motivos de interesse neste número da revista. Para lá das duas grandes entrevistas, a Paul Auster e a Catherine Clément, e das habituais recensões críticas, há ainda, a merecerem destaque, um texto de Oliver Rohe sobre a obra de Claude Simon e outro de Aliette Armel sobre o percurso literário de W. G. Sebald. Tomando como ponto de partida as recentes edições, em língua francesa, de Campo Santo (volume de ensaios sobre cuja versão portuguesa, por uma vez antecipando­‑se à gaulesa, escrevi aqui) e de duas obras sobre o autor de Austerlitz, Armel constrói um artigo rigoroso, que faz justiça à delicada melancolia de Sebald. No outro texto, Rohe (que acaba de publicar o romance Un Peuple en Petit) parte do princípio de que a obra de Claude Simon se funda na vontade de exactidão, a qual o teria levado a essa acumulação detalhada de informações, sem nunca descurar o ritmo da frase (aquilo que Jean­‑Paul Goux designava como o andamento), por meio da qual se edificam os seus livros. Oliver Rohe lê os romances de Simon como a complexificação de uma ideia já patente na Recherche proustiana, a saber, a resposta a um desejo de escrever que pode surgir destituído de objecto. Para o ensaísta, a obra de Proust (e, de igual modo, a do autor de La Route des Flandres) tenta demonstrar «à quel point, par l'écriture, par l'attention précise aux choses, tout est digne d'être dit, sur un même plan, de la sensation la plus anodine à la métaphysique la plus élaborée – d'autant plus qu'il y a un lien entre elles» (p. 83).

CASTELOS DE AREIA


Sem elementos de prova, ninguém faz milagres. Foi mais ou menos com estas palavras que uma advogada se referiu à absolvição dos 36 arguidos (acusados de associação criminosa, contrabando qualificado, contrafacção, introdução fraudulenta no consumo, fraude fiscal, etc.) de uma rede internacional de falsificação e contrabando de tabaco e bebidas alcoólicas. Num acórdão de 434 páginas, o colectivo sublinhou a inexistência de provas suficientes para condenação, a “negligência” dos investigadores, bem como os “esquecimentos, imprecisões, incoerências e contradições” do processo. A juíza-presidente, Manuela Trigo Fonseca, foi peremptória: «O tribunal não analisa ideias, suposições ou incertezas. Analisa, sim, factos objectivos e concretos. Os arguidos não podem ser responsabilizados criminalmente pelos factos que lhes foram imputados nestes autos.» O julgamento durou 15 meses, tendo terminado ontem com a absolvição de todos os arguidos. O Estado reclamava cinco milhões de euros de indemnização por fuga ao fisco. O MP vai recorrer. Assim vai a justiça.

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CITAÇÃO, 162


Francisco José Viegas, no Correio da Manhã e no sítio do costume, A Língua. Excerto:


«[...] um escritor devia saber que a Língua, sem realização literária, é apenas um bom resíduo para acrescentar o lixo dos burocratas — é apenas um alfabeto sem vida. O que faz a grandeza do Português é ter sido a língua de Euclydes da Cunha, de Eça, de Machado de Assis, [ao alto] de Camilo, de Drummond ou de Vergílio Ferreira — não por ser usada por um director das Alfândegas.»

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Quarta-feira, Abril 08, 2009

SEGURANÇA SOCIAL, NOVO TAKE


Uma nova versão do Código Contributivo da Segurança Social, em discussão a partir de hoje em sede de concertação social, alarga o espectro das remunerações sujeitas a desconto. Se for aprovado, ficam sujeitos a desconto os subsídios de alimentação, todo o tipo de gratificações, o 15.º mês, as despesas de representação, as ajudas de custo, os abonos de viagem, as despesas com transportes, os abonos de instalação, os abonos de falhas, a participação nos lucros da empresa, a utilização de viatura própria, as indemnizações, as aplicações financeiras a favor do trabalhador, as senhas de presença, etc. Não faltará um coro de protestos. Sem razão. Na realidade, uma boa notícia para quem vive exclusivamente do salário. Para os que andam perto dos 60 anos, a medida de pouco servirá. Mas para os mais novos, em particular os que têm menos de 40 anos, dará uma grande ajuda. Quem não conhece quadros bem sucedidos que descobrem com “surpresa”, no momento da reforma, quão magra é a pensão? Exemplo: honorários mensais à volta de 6000 euros, pensão de 1570. No privado, isto é mais frequente do que se julga. Porquê? Porque o bolo maior, livre de descontos para a Segurança Social, é em regra constituído por subsídios fixos, sendo os mais comuns os de antiguidade, isenção de horário, produtividade e chefia. As pessoas espantam-se... mas sabe-lhes bem descontar menos. O futuro vem longe... (Ainda outro dia uma amiga se queixava, amargurada: «Mas paguei sempre todos os impostos!» Acredito que sim. Sucede que os impostos são uma coisa, e a Segurança Social outra.) Quem não vai gostar nada da medida são os patrões, porque as suas contribuições disparam. E como! Até já pediram o adiamento da entrada em vigor das alterações, por serem penalizadoras. Pode ser que se habituem a pagar salários adequados, sem recurso a prebendas acessórias, os famosos benefits, que dão imenso jeito no activo, mas desaparecem na hora da verdade.

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NO VERMONT TAMBÉM


Depois do Massachusetts, do Connecticut e do Iowa, o Estado americano de Vermont legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Jim Douglas, o governador republicano, tinha vetado essa possibilidade, mas a lei acabou por ser aprovada por 100 votos contra 49 (na Câmara dos Representantes), e 23 contra 5 (no Senado). Há nove anos que o Vermont reconhece as uniões civis entre pessoas do mesmo sexo. Agora, permitindo o casamento, junta-se aos outros três Estados americanos, à Holanda, Bélgica, Espanha, Canadá, África do Sul, Noruega e Suécia, para já não falar de Israel e do Japão, países que reconhecem o casamento entre pessoas do mesmo sexo desde que celebrado noutros países, ou da França e do Reino Unido, países onde formalmente não lhe chamam casamento, mas onde as uniões civis gays subsumem todos os deveres, direitos e garantias do casamento hetero.

[A imagem mostra a psicóloga americana Thea Clara Spyer (na cadeira de rodas) e a sua companheira Edith Schlain Windsor. As duas casaram em 2007, ao fim de mais de 40 anos de vida em comum.]

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Terça-feira, Abril 07, 2009

ELITISMO BACOCO


A livraria Ler Devagar vai abrir outro espaço, desta vez na Lx Factory, e com vista para o rio. A partir do próximo dia 23, data da inauguração, os habitués da Fábrica de Braço de Prata, da Galeria Zé dos Bois, da Cinemateca e do Instituto Franco-Português, podem inscrever Alcântara na ronda do livro. Uma boa notícia. Entretanto, ouvido pelo Público, José Pinho, o gestor responsável, fala de programação cultural própria, horário alargado e livros. Pretende ter, diz ele «os catálogos inteiros das pequenas/médias editoras». OK. Quanto a best-sellers... talvez Saramago ou Lobo Antunes. (Qual deles? António? João? Nuno? É que best-sellers são os três.) Paulo Coelho «vai ser difícil». Fico sempre desconcertado com este tipo de afirmações. Uma livraria é uma livraria. Se querem fazer um clube de leitores, dêem o nome às coisas.

Na mesma onda, Zita Seabra, que abriu há dias a sua livraria no Bairro Alto, com a luzida apresentação de um livro de viagens de Maria Filomena Mónica, afirma: «Esta não é uma livraria de best-sellers. Os Paulos Coelho não estão cá.» Mas está a Paula Bobone! Isto é para levar a sério?

Eu nunca li o Paulo Coelho e uma data de gente que recebe prémios e comendas. Mas não gosto de livrarias que excluem autores por preconceito. E quando vou à maior parte delas tenho um azar do caraças. Giambattista Vico? Não há. E a falta que fazem os seus Princípios de Oratória. Michael Ignatieff? Não há. Será que The Lesser Evil: Political Ethics in an Age of Terror é uma obra descartável? E os contos que o poeta Robert Penn Warren juntou em The Circus in the Attic idem? E as muitas obras que o irlandês (naturalizado espanhol) Ian Gibson dedicou a Lorca e à repressão franquista, sendo a última em data Lorca y el mundo gay, são menos que os manuais de etiqueta das Bobones da vida? A lista não acaba nunca. O elitismo é sem razão.

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