Segunda-feira, Março 30, 2009

Capa e abertura


Esta é a capa do meu romance O Mundo Sólido, editado pela Deriva, que chegará às livrarias na segunda quinzena de Abril. Ainda nesse mês, será apresentado em Lisboa, a 23, e no Porto, a 29. Mais adiante, darei todas as informações sobre os lançamentos. Para já, aqui fica a abertura da obra:

Ao fim de um dia cansativo no gabinete, em que toda a minha atenção se concentrara no projecto da nova biblioteca de Ravenna e me levara a passar parte da hora de almoço a compor sucessivos desenhos sobre guardanapos de papel, e após um lento regresso ao apartamento em que vivo com a Paola, em parte devido à certeza de não a encontrar à minha espera, em parte para libertar o pensamento dos esquissos e traçados que o haviam ocupado durante tanto tempo, encontrei, na caixa do correio, entre inúteis folhetos publicitários e dois sobrescritos de aparência institucional, uma carta do meu filho, que me apressei a abrir, onde ele me anunciava que não seria pai. O texto era breve e estava impresso numa folha branca, demasiado branca, sem uma única palavra escrita à mão, nem mesmo o nome no fim a assinar, permitindo pensar que outra pessoa o teria redigido, mas eu não quis admitir essa possibilidade, embora ela talvez me houvesse tranquilizado um pouco. Com a carta na mão esquerda, aberta sobre a restante correspondência, detive­‑me à saída do elevador, como se de repente tivesse esquecido o que fazia ali e as escadas à minha direita e a porta em frente não me fossem familiares, como se as paredes tivessem adquirido uma redobrada espessura para que não me restassem dúvidas sobre a sua opacidade, sobre a total impossibilidade de as transpor, como se o mundo quisesse excluir­‑me e anunciasse o seu propósito com uma violência silenciosa. Não me mexi quando a luz das escadas se apagou e fiquei rodeado por uma escuridão quase total, apenas contrariada pela clarabóia do telhado, que deixava passar suficientes vestígios de uma noite clara ou da iluminação pública para que o meu olhar forçasse o negrume e aos poucos recuperasse os contornos das formas que me cercavam. Só consegui libertar­‑me da imobilidade quando ouvi uma porta a abrir­‑se e, por não ter conseguido localizar a proveniência do som, receei que se tratasse da vizinha de cima e que ela pudesse descer pelas escadas e me encontrasse ali parado, à porta de casa, em completo silêncio, o que teria aproveitado de imediato para me acusar de estar a espiá­‑la, de andar a espiá­‑la há muito tempo, como já uma vez dissera. Falaria em voz muito alta, como então havia feito, para que os outros moradores do prédio ouvissem e aparecessem nos patamares, provocaria um escândalo para gritar mal de mim e da Paola, por isso abri depressa a porta do apartamento e meti­‑me lá dentro antes sequer de acender uma luz. Tacteei até à sala e atirei­‑me para cima de um sofá, onde, no intuito de me libertar da agitação nervosa e irracional que crescera dentro de mim nos últimos minutos, abandonei os papéis e as chaves que me ocupavam as mãos e massajei lentamente o rosto com as pontas dos dedos. Enquanto repetia o movimento devagar, para forçar a minha respiração a adaptar­‑se a esse ritmo e regressar à sua cadência habitual, pensava que não deveria ter aberto a carta sem a presença da Paola, não deveria sequer ter aberto a caixa do correio, nunca deveria ter feito nada tão potencialmente perigoso sem que a Paola estivesse por perto e pudesse intervir e acalmar­‑me se tal fosse necessário. Tentei imaginar o que ela me teria dito se estivesse comigo naquele momento, mas esse esforço, que me obrigou a rever mentalmente a carta pousada ao meu lado e a rememorar cada uma das palavras do meu filho, ao invés de permitir que eu recuperasse alguma serenidade, apenas serviu para agravar a ansiedade de que procurava libertar­‑me. Quase saltei do sofá em direcção à janela mais próxima, movido por uma intensa e inesperada sufocação, para abri­‑la de par em par e engolir o ar quente do exterior nocturno. O meu olhar derivou da rua estreita e pouco iluminada, por debaixo daquela janela, até aos clarões eléctricos da avenida perpendicular, onde se situava a entrada do prédio, para regressar ao ponto de partida e se deter sobre o toldo de um pequeno restaurante a que eu e a Paola costumávamos recorrer com alguma regularidade à hora de jantar, mas não conseguiu que o nome do meu filho Álvaro, em caracteres demasiado negros sobre uma superfície branca, como uma cortina hesitante entre a transparência e a opacidade, desistisse de me ocupar o pensamento. O ruído dos carros na avenida misturava­‑se à voz neutra do meu filho, tal como eu o imaginava a dizer­‑me as palavras que preferira escrever, tal como eu o imaginava a contar que a Maria caíra desamparada nas escadas do prédio e, ainda que tivesse sido logo socorrida por ele, que a levara de imediato ao serviço de urgência de um hospital central, perdera a criança que deveria nascer dali a três meses. A concluir a carta, o meu filho assegurava­‑me que a mulher estava bem, mas não deveria ser inquietada com telefonemas sobre o seu estado de saúde, para que a memória pudesse limpar­‑se, como ele dizia, numa expressão que me causou alguma repugnância, sem que eu compreendesse imediatamente porquê.

Sexta-feira, Março 27, 2009

O andamento da prosa


Em coerência com a sua produção ficcional, os principais ensaios de Jean­‑Paul Goux, nomeadamente La Fabrique du Continu e La Voix sans Repos, defendem uma ideia da prosa romanesca baseada nas noções de voz e de ritmo. A sua exemplificação pode ser encontrada no breve ensaio «De l’Allure», aqui disponibilizado, em que o autor de Les Hautes Falaises se serve de excertos de obras publicadas em França entre 1945 e 1990 para tornar claro o que significa falar de ritmo da prosa. Contra o estafado princípio da fragmentaridade – ainda que tal não represente o regresso de qualquer noção de totalidade oitocentista –, Goux considera que a principal característica dos romances fundamentais da modernidade reside antes na continuidade que o movimento da sintaxe consegue emprestar a essas escritas. Em «De l’Allure», talvez para que ninguém o acusasse de influenciar os leitores através da utilização de nomes mais ou menos canonizados de escritores, Goux optou por nunca designar os responsáveis pelas frases de que serve para sustentar a sua estética; em todo o caso, os exemplos que aparecem na segunda parte do ensaio são facilmente identificáveis por quem estiver familiarizado com o romance do século XX: são extraídos, respectivamente, das obras Korrektur (recentemente vertida para português por José A. Palma Caetano e publicada pela Fim de Século, sob o título de Correcção), de Thomas Bernhard, Histoire, de Claude Simon, e Un Beau Ténébreux, de Julien Gracq. O que Goux detecta nas frases de abertura destes livros (a de Histoire não é a de abertura, mas está na segunda página de texto do romance) é o que designa por allure; será lícito traduzir esta palavra por andamento, no sentido musical do termo, assim reunindo as ideias de movimento e de ritmo, mas também encarando a frase como um corpo, ao qual é inerente um determinado dinamismo. A lógica de contraste, que Jean­‑Paul Goux aplica à frase de Bernhard, reescrita segundo o modelo de uma frase rejeitada na primeira parte do ensaio, torna este conceito muito nítido. Entre outros méritos, a reflexão crítica deste autor afasta­‑se das confusões geradas por esse conceito gelatinoso de «prosa poética», ao mesmo tempo que evidencia de novo – e com uma nitidez quase cegante – que o romance, quando não se quer confundir com produtos de pacotilha, não é uma história.

INTERVALO


Agora, se me dão licença, vou ali e volto na próxima quarta-feira.

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ÁLVARO SANTOS PEREIRA



Hoje no Público:


Num país em que a literatura e as ciências sociais monopolizam a produção ensaística, e onde discutir o noticiário económico não dispensa o conhecimento de jargão próprio, é uma boa notícia encontrar nas livrarias um livro como O Medo do Insucesso Nacional, de Álvaro Santos Pereira (n. 1972), economista que lecciona na Simon Fraser University, de Vancouver. Não é a primeira vez que o autor escreve sobre “o estado da Nação”, que acompanha à distância — primeiro a partir do Reino Unido, actualmente a partir do Canadá — sem défice de objectividade. Ainda há dois anos publicou Os Mitos da Economia Portuguesa, obra que pôs ao alcance do público não especializado uma série de assuntos que a imprensa generalista trata quase sempre de raspão.

A vantagem deste tipo de obras é a sua acessibilidade ao leitor comum, interessado em informação rigorosa isenta de economês. Suponho que a formação anglo-saxónica de Álvaro Santos Pereira contribua para a extrema coloquialidade dos seus livros (mesmo de um romance polémico como Diário de um Deus Criacionista, 2007), mas, em nenhuma circunstância, o recorte informal da linguagem traduz menor atenção ao rigor hermenêutico.

Um dos capítulos mais interessantes esclarece as principais causas da estagnação da economia nacional. E como nenhum facto é alheio ao respectivo contexto histórico, outros capítulos reportam à evolução do crescimento económico português no século XX, seguindo a passo as consequências da política do Estado Novo e os custos da perda das colónias. Álvaro Santos Pereira não perde de vista aquilo a que (com propriedade e ironia) chama «a nossa falta de Educação»... ou os efeitos nefastos que a inoperância da Justiça impõe ao tecido económico e social. E ainda explica em que medida os equívocos gerados pelo fundamentalismo orçamental de Bruxelas afectam o nosso quotidiano, sem contudo fazerem avançar o país...

Num subcapítulo intitulado “Um regime de mal educados”, o autor demonstra a ineficácia das políticas educativas desde a monarquia liberal. Um gráfico sobre a taxa de escolarização em três momentos concretos (em 1870, 1900 e 1940) ilustra a extensão do nosso atraso, pondo a realidade portuguesa em confronto com a de outros dezasseis países europeus, e também com a dos Estados Unidos. Álvaro Santos Pereira lembra, muito a propósito, a frase célebre de Salazar no discurso de tomade de posse, em 1928, como ministro das Finanças: «Instrução aos mais capazes, lugar aos mais competentes, trabalho a todos, eis o essencial.» Nunca é demais recordar que a escolarização completa do ensino primário, em Portugal, «foi apenas alcançada no início da década de 1960», e que em vésperas do 25 de Abril de 1974... a do ensino secundário era de 28%! Extraordinário? Nem tanto.

A perda do Império ultramarino é analisada sob o ponto de vista económico, aspecto em regra negligenciado em detrimento do enfoque meramente político, ou seja, moral. Sem reserva, o autor sublinha: «Durante os seus 5 séculos de existência, o império foi várias vezes a principal fonte de receitas para o erário público e um destino essencial para as exportações nacionais.» Em consequência, não podemos dissociar a crise financeira e orçamental dos anos 1970-80 da descolonização. Afinal, as colónias foram quase sempre fonte garantida e substancial de divisas estrangeiras (foi assim desde 1892), mais do que suficientes para sustentar a máquina de guerra e o aparelho administrativo-colonial. Desmontando lugares-comuns que fizeram o seu caminho na opinião popular, Álvaro Santos Pereira deixa claro: «Será que os custos da colonização foram maiores do que os benefícios? Não. [...] Com efeito, até ao início das guerras coloniais, a contribuição das colónias para as despesas públicas portuguesas permaneceu bastante modesta, quase nunca ultrapassando 5% do total das despesas do Estado.» A situação inverteu-se com o eclodir da guerra, altura em que essa contribuição subiu para 26% das despesas do Estado.

Outros temas, como a macrocefalia de Lisboa, a dificuldade de viver com reformas de 200 euros, a mais-valia das empresas que apostam na inovação, as horas de trabalho dos portugueses, os prémios de excelência, os “campeões nacionais”, a derrapagem de prazos, a moda das viagens ao Brasil (num país pobre, e em crise, 20 mil portugueses passam todos os anos férias no Brasil), etc., fazem deste livro um interessante companion do Portugal hoje.

Parece-me pleonástico referir que as informações de natureza factual dispõem de adequada remissão bibliográfica.


Economia sem economês, in Ípsilon, 27-3-2009, p. 34. Quatro estrelas.

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Quinta-feira, Março 26, 2009

DERIVA POPULISTA


Sir Fred Goodwin, que vemos na imagem, terá sido responsável pela falência do Royal Bank of Scotland? Enfim, era o CEO. Agora, afastado do cargo e do banco, foi-lhe atribuída uma pensão anual de 696 mil libras, o equivalente a 750 mil euros. Ontem, a sua mansão foi atacada. São reacções naturais de pessoas que perderam tudo. O mesmo se tem passado em Nova Iorque, com os prémios atribuídos a dez gestores da AIG (um deles recebeu um bónus de 6,4 milhões de dólares, o equivalente a 4,7 milhões de euros; nove acederam em devolver um terço do dinheiro recebido), que só não faliu porque a Reserva Federal injectou milhares de milhões. A ira das pessoas que perderam o emprego, ou a casa, ou as duas coisas, percebe-se. O que se percebe menos bem é a tentativa de extrapolar o “método” para a realidade portuguesa. Estas coisas começam lá em cima (exemplo: os cinco mil euros que António Vitorino cobra à Brisa por cada sessão de Assembleia-Geral; e quantos cobrará Manuela Ferreira Leite ao Santander?) mas, quando menos se espera, chegam cá a baixo. No Estado, há funcionários de 1.ª e de 2.ª conforme os ministérios, os institutos e as direcções-gerais. Os de 1.ª são os das Finanças, da Justiça e das Autoridades reguladoras. Os de 2.ª são os outros todos. E não estamos a falar de trocos. A deriva populista é sempre má conselheira!

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GRANDES LIVROS NA RTP-2


A RTP-2 começa a transmitir amanhã, sexta-feira, a série Grandes Livros. Trata-se de doze documentários com a duração de 50 minutos cada, narrados por Diogo Infante. Esta produção Companhia de Ideias, inspirada na série americana Great Books — do Discovery Networks em parceria com o Center for the Book in the Library of Congress —, incide sobre obras maiores da literatura portuguesa. A saber: Os Maias, de Eça de Queiroz, Os Lusíadas, de Camões, O Delfim, de José Cardoso Pires, Aparição, de Vergílio Ferreira, Histórias da Terra e do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro do Desassossego, de Bernardo Soares [Pessoa], Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, Sermão de Santo António aos Peixes, do padre António Vieira, Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto e Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. Em cada documentário, escritores, críticos e professores de literatura comentam (em diálogo com Joana Palminha) o plot, a importância e o contexto histórico da obra em análise, bem como a figura do autor. Logo ao fim da tarde, no Corte Inglés, Isabel Pires de Lima apresenta publicamente a série. Para ver às sextas-feiras (20:00h) a partir de amanhã.

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CITAÇÃO, 159


José Pacheco Pereira, a partir de um artigo de Eva Cabral, no Diário de Notícias, intitulado “Mota Amaral apontado para as eleições europeias”. Excerto:


«[...] Mais fontes anónimas emitindo meras opiniões políticas. Por que razão são anónimas? Têm medo que os matem numa esquina? [...] Na verdade, muito do jornalismo político é feito por cinco amigos (cujas posições são conhecidas e que estão sempre dispostos a dizê-las anonimamente, não vá porem em causa o seu lugar de deputado ou as aspirações ao seu lugar de deputado...), um telemóvel e muito, muito, vento. [...] Um pessoa, um blogue, uma blague, passou à categoria de multidão, a ser “sempre referenciados”. Se eu quiser até posso propor a Dama das Camélias ou o Morgado de Fafe que espero que não me tomem a sério e coloquem nos jornais. Ah! e já agora, anonimamente, eu também posso argumentar que a Dama tem o “handicap” de estar doente e o Morgado de ter vícios. Isto chama-se ruído, não tem qualquer valor informativo. Repito o que já disse antes: se a maioria dos portugueses soubesse efectivamente como são feitas as “notícias”, não comprava um jornal, não via um noticiário, a não ser como entretenimento, ou como obra de ficção.»

[Na imagem, actores da Traviata durante um intervalo do ensaio geral no Teatro Regio de Parma.]

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Quarta-feira, Março 25, 2009

O THRILLER


A propósito disto, Francisco Mendes da Silva prova aqui que é possível discordar com ironia e fair play, qualidades raras no mundinho de certezas e birras que caracteriza a bloga. Ainda por cima tem razão... na parte respeitante ao meu “entusiasmo” com o thriller. Continuo a achar a comissão de inquérito redundante (com a papa feita, sobra o quê para a polícia?), mas se o MP discute o sexo dos anjos, haja alguém para pôr as mãos na massa. Se calhar, alguns deputados erraram na vocação. Estão sempre a tempo de mudar...

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Nem sempre a verdade


No seu romance Todas as Almas (Todas las Almas, 1989), Javier Marías criou um narrador que, durante dois anos de residência em Oxford, profere conferências sobre literatura espanhola e dá vagas aulas de tradução. Numa delas (a única, se a memória não me atraiçoa, que é referida explicitamente no livro), as perguntas disparatadas dos alunos incomodam bastante o narrador, ao ponto de o induzirem a encontrar respostas tão absurdas como as questões que lhe são propostas. Interrogado sobre a origem da palavra papirotazo, o protagonista de Todas as Almas declara (de acordo com a minha edição de 1990, da Quetzal, com tradução de Salvato Telles de Menezes): «Com que então papirotazo. A este tipo de pancada dada com o dedo indicador chama­‑se assim porque era desta maneira que se batia nos papiros encontrados no Egipto nos começos do século XIX para experimentar a sua resistência e começar a determinar a sua antiguidade» (p. 17).
A consciência do absurdo que encontrou como resposta levará o narrador à posterior consulta de um dicionário, para, por fim, descobrir a verdadeira etimologia dessa palavra. Em todo o caso, consciente de que aquele tipo de conhecimento, pelo seu carácter ornamental, teria durado poucos minutos na mente e na memória dos alunos, o imaginativo professor acaba por se sentir menos culpado. É então que, em jeito de súmula conceptual desse capítulo, compõe esta sábia defesa da ficção no seu confronto permanente com o que, por comodidade, persistimos em designar como verdade: «Às vezes o saber verdadeiro é indiferente e então pode inventar­‑se» (p. 19).

ELEMENTAR


À medida que as audições parlamentares ao caso BPN se sucedem, vai-se conhecendo melhor a extensão dos “interesses”. Ontem, por exemplo, ficou a saber-se que entre Agosto e Dezembro de 2007 decorreram as negociações que levaram à compra de quatro mil hectares da herdade de Rio Frio, junto ao Campo de Tiro de Alcochete. Quem emprestou os 87 milhões de euros necessários ao negócio foi o Millennium BCP, mas o BPN emprestou mais 180 milhões a um dos co-proprietários dos terrenos. A transacção efectuou-se dias antes do anúncio oficial da localização do novo aeroporto de Lisboa. Sobre quem passou a informação de que seria ali, exactamente ali, que seria construído o novo aeroporto, ainda não há certezas, mas o círculo está identificado. As vestais que acham que a opção Ota foi substituída por Alcochete por razões meramente logísticas, podem limpar as mãos à parede. (Lembram-se do famoso estudo de viabilização, feito em tempo recorde e pago por gente que não quis ser identificada?) Isso já era óbvio no calor das discussões, quando, como num passe de mágica, metade do país virou expert em construção de aeroportos. Mas agora sabemos quem lucra com o negócio. Aos poucos, a narrativa do BPN vai explicando o estado a que isto chegou.

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Terça-feira, Março 24, 2009

LOST


Começa hoje às 22:20h, na FOX, a transmissão da 5.ª temporada de Lost, que é provavelmente a série mais emocionante de sempre. Os sobreviventes estão de volta à ilha. Depois da 4.ª, meio a correr (a greve dos argumentistas condicionou tudo), esperemos que a nova temporada volte ao padrão habitual. Enquanto não chega o DVD, todas as terças na FOX.

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PRURIDOS


Não sei se estão lembrados, mas, em Setembro de 2005, um tablóide dinamarquês, o Jyllands-Posten (o jornal mais lido da Dinamarca), publicou 12 cartoons sobre Maomé. Os bonecos foram publicados na edição do dia 30, acompanhados de um editorial que reivindicava o direito a «desafiar, blasfemar e humilhar o Islão». Copenhaga ficou a ferro e fogo, embaixadas da Dinamarca foram vandalizadas em vários países da Europa, Médio Oriente e América Latina, diplomatas árabes regressaram aos países de origem, cidadãos dinamarqueses tiverem de ser retirados do Líbano, etc. O circo durou meses. Por cá, foram muitos os que defenderam o direito ao ultraje, porque, diziam, a liberdade de expressão é sem limites. A parte engraçada é que são os mesmos (ou grande parte deles) que, na semana passada, arrancaram os cabelos por causa de um anúncio da RDP/RTP que toma por móbil os engarrafamentos de trânsito em dias de manif. Como se o país não tivesse problemas sérios para discutir e resolver, o PSD foi ao ponto de pedir a demissão da direcção da Antena Um. De patetice em patetice, o anúncio acabou por ser retirado. Afinal, quando convém, a liberdade de expressão sempre tem limites. Provado está que a CGTP — suposto alvo da “ofensa” — é mais importante que Maomé.

Este comentário vem atrasado? Talvez. É que, seguindo a linha de raciocínio da “indignação”... não percebo, muita gente não percebe, por que carga de água o PSD e a CGTP não pediram ainda que fosse retirado o recente anúncio do Smart for two. Sim, aquele à Tarantino, em que o passageiro do banco de trás assassina o condutor. Melindre por melindre...

Segunda-feira, Março 23, 2009

ANTÓNIO QUADROS


É hoje apresentada publicamente a Fundação António Quadros. A sessão terá lugar no Círculo Eça de Queiroz, em Lisboa (18:30h), sendo oradores os ensaístas João Bigotte Chorão, António Braz Teixeira, José Esteves Pereira e Guilherme d’Oliveira Martins, bem como Mafalda e Rita Ferro. Aprovada em conselho de ministros no passado mês de Janeiro, a Fundação preservará o espólio do patrono e o de seus pais, os escritores António Ferro e Fernanda de Castro. A Fundação é presidida por Mafalda Ferro, que vai agora diligenciar com António Costa, presidente da Câmara de Lisboa, a cedência de um espaço condigno. António Quadros, escritor e pensador, autor de uma obra muito vasta em vários domínios, pai da romancista Rita Ferro, foi um ilustre teorizador das estruturas simbólicas do Imaginário em literatura, tendo deixado o seu nome para sempre associado ao IADE, que fundou.

[A imagem reproduz a capa de Retrato de uma Família, fotobiografia editada pelo Círculo de Leitores em 1999.]

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Entrevista sobre Clarice


Não será preciso ter a televisão ligada mais do que uma hora e um quarto para se acompanhar a entrevista que Patrícia Lino, autora do blogue Projecto Clarice (já por mim aqui referido), dará ao programa Toma Café?, do Porto Canal. Amanhã, terça­‑feira, dia 24 de Março, entre as 10:30h e as 11:45h, falar­‑se­‑á da obra da autora de Água Viva (1973) e da divulgação da sua escrita que por cá tem sido feita. No programa, conduzido por Olga Diegues e Rui Terra, participará ainda Joana Matos Frias, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, responsável pela disciplina de Métodos e Técnicas de Pesquisa, no âmbito da qual teve origem o trabalho notável de Patrícia Lino.

Domingo, Março 22, 2009

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Ainda outro dia lembrei, num artigo de opinião publicado no Blogtailors, reproduzido aqui, o facto de a tradução de clássicos ser uma actividade constante no tempo, menos ocasional do que supõe a maioria das pessoas, porque o jornalismo literário apenas dá atenção aos tradutores que fazem parte do star system. Ninguém liga peva à competência própria ou ao pedigree académico. Receio bem que isso possa acontecer com a tradução que J. Teixeira de Aguilar fez de Todos os Contos de Edgar Allan Poe, cujo primeiro tomo acaba de ser publicado pela Quetzal e o Círculo de Leitores. Verdade que Poe, em termos absolutos, não é um clássico, é um homem do século XIX. Nasceu em 1809, morreu em 1849, escreveu crítica literária — a ordem de citação não é arbitrária —, ficção, poesia e textos teóricos. (Sob o título Poética, uma excelente colecção desses textos teóricos foi traduzida e editada por Helena Barbas, em 2004, sob chancela da Fundação Calouste Gulbenkian.) Foi também editor do Southern Literary Messenger entre o final de 1835 e o início de 1838. Os contos, toda a gente sabe ou presume saber, são o epítome da obra. O magnífico volume agora dado à estampa colige 34, em 518 páginas de grande formato. Graficamente, a edição é irrepreensível, contando com ilustrações de Joan-Pere Viladecans. Mas não se compreende que uma edição desta natureza seja omissa no tocante à origem dos textos. Sem saber qual a edição utilizada por J. Teixeira de Aguilar — tradutor de, entre outros, Kafka, Asimov e John Le Carré —, como perceber a lógica deste 1.º tomo? Afinal, os contos agora traduzidos foram escritos nos anos 1820, 1830 ou 1840? Estas coisas são importantes... A omissão de referências biográficas é outro senão. Embora uma edição com esta ambição devesse exigir cronologia do autor (o essencial cabia em duas páginas), ao menos uma nota de badana referindo a nacionalidade americana e as datas de nascimento e morte. Vamos acreditar que o 2.º tomo venha a tempo de suprir as lacunas. Isto dito, uma obra imprescindível.


Lourenço Ataíde Cordeiro: «Dia 31 de Março, ali à Rua do Século, abrirá as suas portas ao público a livraria Alêtheia, um projecto de Zita Seabra queprivilegiará o público elitista”; ora, uma livraria que privilegie o público elitista é uma coisa que faz tanto sentido como uma telenovela que privilegie o grande público, uma Gisele Bündchen que privilegie os heterossexuais, ou um restaurante vegetariano que privilegie os malucos.»

Miguel Abrantes: «O programa de variedades de Manuela Moura Guedes é um momento único de televisão. Está tão longe da realidade que, já depois de a apresentadora ter anunciado que Jorge Miranda era a escolha do PS para provedor de Justiça, a conversa com Vasco Pulido Valente ignorou esse dado novo, continuando a bater na tecla de que os partidos continuavam à procura de um comissário político para o cargo. [...]»

Paulo Querido: «A primeira vítima da partilha digital foi a indústria musical, já lá vai uma década. O cinema temeu o pior e, talvez por ter reagido cedo, escapou. A seguir foram os jornais a declararem-se vítimas da Internet, essa “praga” que supostamente destrói a capacidade de lucro das indústrias culturais. A próxima vítima chama-se indústria da informática. Mais propriamente, os técnicos e programadores. Os despedimentos na indústria informática dispararam. Despede-se mais que nos meios de comunicação social, só que, ao contrário deste sector, há algum novo emprego. [...] Tal como sucede na indústria da música e no jornalismo, actividades onde continuamos a assistir ao pungente fingimento de que tudo está na mesma, também entre a indústria da informática teremos, não tarda, o grupo dos negacionistas — os que dirão que “a crise” é a única responsável pelos despedimentos e restruturações e que, mal o dinheiro volte a jorrar, retomarão os antigos privilégios. Más notícias para eles: não, não retomarão privilégios. O tsunami do amadorismo varrerá também essa praia.»

Vieira do Mar: «Hoje, a minha mãe tinha na caixa de correio um anúncio manuscrito que dizia mais ou menos isto: “brasileira de meia-idade oferece-se para todo o tipo de tarefas domésticas. Não roubo marido”. A sério: não roubo marido. A propósito de mãe: o meu pai é o melhor do mundo, ponto.»

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Sábado, Março 21, 2009

A CP E AS UNIÕES DE FACTO


Soube-se hoje que o deputado Bruno Dias, do PCP, protestou (e bem) junto da administração dos Comboios de Portugal e do ministério das Obras Públicas, através de requerimento da Assembleia da República, contra o extravagante entendimento que a CP faz da Lei n.º 7/2001, de 11 de Maio, mais conhecida por lei das uniões de facto. E qual é esse entendimento? Este: antes de efectuar o desconto devido aos cônjuges nas viagens de comboio, previsto nos regulamentos da empresa, a CP exige aos seus trabalhadores que vivem em união de facto — a Gilberta com a Renata, o Mário com a Teresa, o Nuno com o Filipe, etc. — que apresentem atestado de sanidade mental e certificado de registo criminal. Não, não é uma anedota. Argumentam os burocratas da CP que o art.º 2.º da referida Lei n.º 7/2001, nos pressupostos impeditivos das uniões de facto, que são cinco, inclui «demência notória e anterior condenação por homicídio» (o que em si mesmo é um abuso, porque quem pode casar é livre de o fazer com loucos ou assassinos). Vai daí, nada como verificar se o mecânico das oficinas-gerais é um potencial serial killer ou se a empregada da limpeza fugiu do Miguel Bombarda sob nome falso. Eu percebo que o funcionário dos recursos humanos possa ser tonto, e o director de serviços idem, mas alguém tem de responder por isto. Rapidamente, e em força!

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Sexta-feira, Março 20, 2009

OMBUDSMAN


Basta consultar esta lista para tirar a limpo a origem partidária dos sucessivos Provedores de Justiça. O primeiro de todos, responsável pela instalação da Provedoria, foi Manuel da Costa Braz, um homem do MFA, à época tenente-coronel de Artilharia, nomeado por Costa Gomes (Presidente da República) em Dezembro de 1975. Seguiram-se, por eleição parlamentar, José Magalhães Godinho (PS), Eudoro Pamplona Corte-Real (AD), Ângelo Almeida Ribeiro (PS), Mário Raposo (PSD), Menéres Pimentel (PSD) e Nascimento Rodrigues (PSD). Ou seja, desde 1990 que a Provedoria de Justiça está nas mãos do PSD. O actual Provedor, Nascimento Rodrigues, foi eleito a 18 de Maio de 2000, tendo tomado posse a 9 de Junho seguinte. Isto são factos.

E agora vem o nonsense. O que é que leva um alto dignitário do Estado a dar uma entrevista à Visão no tom que Nascimento Rodrigues usou? Eles comem tudo, disse, referindo-se ao PS. Por acaso, em matéria de Provedoria de Justiça, quem anda a rapar a gamela há dezanove anos é o PSD... E a “comédia à portuguesa”, como lhe chama, continua em cena porque o PSD tem rejeitado os nomes propostos pelo PS: Freitas do Amaral, António Arnaut e Rui Alarcão. Em contrapartida, o PS rejeitou Laborinho Lúcio, o qual, diz a Visão, «não desagradaria a José Sócrates». Agora está em cima da mesa um “nome muito forte” proposto pelo PS. A ver vamos em que ficamos. Por exemplo, corre nos mentideros que gente do PSD gostaria de ver Paula Teixeira da Cruz no lugar...

Sendo o Provedor de Justiça membro por inerência do Conselho de Estado, Nascimento Rodrigues argumenta que não se pode desligar a sua eleição da... «conexão que ela tem no quadro da composição actual do Conselho de Estado. É inaceitável, do ponto de vista da equidade e da transparência democráticas, pretender-se alterar, agora, o equilíbrio institucional daquele Conselho.» E esta?

Entre outras razões, Nascimento Rodrigues quer ver-se livre da Provedoria de Justiça para... criar «um blogue de comentários, que me ajude a ultrapassar a minha iliteracia informática e me obrigue a reflectir sobre as razões por que sinto tanto desencanto com a visível degradação da qualidade da vida política no nosso país.» Um blogue! Não é tocante!?

Adenda. Acaba [20:35h] de ser divulgado oficialmente o nome da personalidade que o PS apresentou esta semana ao PSD, numa derradeira tentativa de consenso: o professor Jorge Miranda, um dos pais da Constituição, e um apoiante indefectível de Cavaco Silva. O PSD recusou. O PS vai agora negociar com os outros partidos a eleição do próximo Provedor de Justiça.

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Quinta-feira, Março 19, 2009

CITAÇÃO, 158


Francisco José Viegas, hoje, sobre António Botto, na sua coluna no Correio da Manhã. Excerto:


«[...] O país envergonha-se de António Botto porque aprecia muito a pequena anedota que desvaloriza uma obra, uma personagem, um nome. O país muito macho e alazão (mas muito bicha às escondidas) suspeita de Botto e evita usar o seu nome. Faz mal. O contacto com a sua poesia só eleva o leitor e abre a caixa dos preconceitos, para os ver cair depois. Um dos títulos das suas obras completas é Cartas que Me Foram Devolvidas, o que dá bem a ideia do medinho com que esta gente ficou, só de ouvir dizer o nome de António Botto.»

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ENFIM, ADOREI


Ana Pereirinha / Henrique Fialho, que hoje mesmo se despede da blogosfera (uma baixa de peso, sobretudo por ser uma voz informada e desalinhada) / Inês Ramos / Isabel Coutinho / João Pombeiro / João Villalobos / José Mário Silva / Paulo Ferreira / Pedro Vieira, autor do retrato ao alto, e quem senão ele poderia tê-lo feito? / Sara Figueiredo Costa / e Tomás Vasques, e espero não ter esquecido ninguém, divulgaram a conferência que fiz anteontem na Casa Fernando Pessoa, a pretexto dos 50 anos da morte de António Botto. A todos o meu obrigado.

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Quarta-feira, Março 18, 2009

COMO É?


De acordo com esta notícia, «As famílias com desempregados vão ter uma redução de 50 por cento na prestação do crédito à habitação. A medida — que terá uma duração máxima de dois anos — faz parte de um pacote apresentado hoje pelo primeiro-ministro, durante o debate quinzenal na Assembleia da República, que visa apoiar as famílias durante este período extraordinário de crise.»

Se mal pergunto: a benesse é extensiva às famílias com desempregados que, em vez de pagarem hipoteca ao banco, pagam renda ao senhorio? Caso não seja, e está-se mesmo a ver que não vai ser, a medida é altamente discriminatória, visando em primeiro lugar proteger o sistema bancário.

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Terça-feira, Março 17, 2009

50 ANOS


Faz hoje 50 anos que morreu António Botto, em consequência do atropelamento de que foi vítima no dia 4 de Março de 1959, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, do Rio de Janeiro. Como na altura escreveu Carlos Drummond de Andrade na sua coluna diária, «O que se viu foi o poeta morrer colhido por um automóvel, sem sequer a dramaticidade do fim instantâneo: lentamente, no hospital, depois de treze dias de inconsciência.» Para assinalar a data, faço hoje às 18:30h uma conferência na Casa Fernando Pessoa.

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BOTTO & SENA


No âmbito do Ano Europeu da Criatividade e Inovação (2009), do Dia Mundial da Poesia (21 de Março) e do Dia Mundial do Livro (23 de Abril), a Direcção‐Geral do Livro e das Bibliotecas organiza um torneio poético de evocação de António Botto e Jorge de Sena, por ocasião dos 50 anos da morte do primeiro [1897-1959] e dos 90 anos do nascimento do segundo [1919-1978].

O torneio dirige-se a todos os estudantes do 3.º ciclo do ensino básico (categoria A) e do ensino secundário (categoria B). A participação consiste em glosar e desenvolver — em verso ou prosa de ficção — qualquer uma das estrofes seleccionadas de Botto e Sena.

Os trabalhos concorrentes devem ser entregues até ao próximo dia 15 de Maio na Biblioteca Municipal do concelho de residência do aluno, ou na Biblioteca Escolar do estabelecimento de ensino frequentado. Os responsáveis das Bibliotecas deverão fazer chegar os textos concorrentes, em triplicado, às instalações da DGLB, até ao próximo dia 30 de Maio, dirigindo-os para: Direcção de Serviços do Livro / Direcção‐Geral do Livro e das Bibliotecas / Campo Grande, 83, 1.º / 1700‐088 LISBOA.

O júri avaliará o bom domínio da língua portuguesa, em termos de correcção gramatical e boa utilização dos recursos expressivos; exposição e articulação de ideias; bem como o conhecimento, velado ou explícito, da obra do poeta escolhido.

Ver aqui o regulamento na íntegra e as estrofes de Botto e Sena postas a concurso.

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A dor da literatura


Numa sociedade que tende a desvalorizar o livro, na exacta medida em que o faz proliferar, ou que se interroga sobre a possibilidade da sua sobrevivência enquanto objecto, enquanto suporte de papel, um volume como este, editado no final do ano passado pela Assírio & Alvim, parece surgir em contracorrente; ora, é muito importante que o faça, é fundamental que ele reivindique o direito à sua elevada qualidade gráfica e que insista em acreditar na existência de leitores capazes de o merecerem. As oito pinturas de Ilda David’, para além da que figura na capa, estabelecem um diálogo profícuo com o texto de Maria Velho da Costa, sugerindo visualmente a intensa relação das duas personagens principais, ao mesmo tempo que criam um espaço de enorme beleza plástica. Colocadas na separação dos dois primeiros capítulos do romance (quer dizer, depois de Myra ter encontrado Rambo, ou Rambô), estas imagens quase surgem como outro capítulo, não numerado, mas igualmente capaz de mostrar a ligação profunda da rapariga e do cão.
Ao conferir a linguagem humana a um animal, Maria Velho da Costa confirma, em Myra, a sua apetência pela polifonia como modelo estruturante do romance. Como é óbvio, a fala do cão não é o único elemento a contribuir para a diversidade de vozes aqui revelada; há palavras que chegam de outras línguas, há uma captação do registo oral, do calão e da gíria de marginais, mas há, sobretudo, dispersos por todo o livro, ecos de outras obras: são frases ou expressões em itálico, incrustadas no texto da autora, que se apropria delas para construir o seu discurso, não como quem plagia (o itálico está aí precisamente para nos lembrar como esses fragmentos da língua se construíram pela primeira vez noutro texto), mas como quem, por ter consciência de que nunca uma obra de arte se constrói sobre o vazio, reconhece uma dívida e presta uma homenagem. É como homenagens vagamente sussurradas que gosto de ver estas apropriações do discurso alheio, como vénias discretas, atiradas ao longe, para quem as reconhecer ou estiver disposto a conhecê­‑las, e também como a afirmação de uma estética do romance ou da prosa narrativa, segundo a qual a força de um texto reside, não na sua pretensa originalidade, mas na capacidade de reivindicar a sua memória, isto é, de se constituir desassombradamente como um palimpsesto. Por isso, nenhum nome é inocente, nem a transformação a que alguns são submetidos, como também não é inocente ou inócuo que o visionamento de Saló, de Pasolini, apareça como a etapa decisiva para o conhecimento do mundo por parte de Myra. Da dor até à dor, e daí até ao nada (ao contrário daquela personagem de Faulkner que afirmava preferir a dor ao nada), eis o percurso de Myra e do seu cão, desenganados quanto à hipótese de encontrarem outro argumento para as suas vidas que não seja o confronto permanente com o mal. É a própria protagonista, aliás, que afirma, à maneira de um enunciado simultaneamente ético e estético: «Odeio gente que se mete com a literatura e depois não a sofre» (p. 202).

Segunda-feira, Março 16, 2009

AS PENSÕES, AGAIN


Sob o título AIG revê plano de prémios para funcionários, João Ramos de Almeida assina hoje no Público (cito a edição online) um texto relativo às previsões da OCDE, para 2050, das pensões de reforma. O subtítulo da peça é: Governo evitou falar na baixa das reformas. Afinal, o artigo é sobre o futuro dos funcionários americanos da AIG, ou sobre os trabalhadores portugueses em geral?

A abrir, lemos: «A administração da seguradora norte-americana AIG, nomeada pelo Estado depois da ajuda pública de 180 mil milhões de dólares, aceitou reformular os prémios previstos para os seus [dela, AIG] funcionários e que ascendem, para 2008, a 220 milhões de dólares.»

E logo a seguir: «Os documentos oficiais da reforma de 2006 mostram que o Governo evitou a conclusão de que as pensões iriam baixar. O executivo não comentou até à hora de fecho desta edição.»

Qual a relação de uma coisa e outra? Em que parte é que o ministro Vieira da Silva responde pela AIG? Será que a edição online do jornal sobrepôs dois textos distintos?

Lá mais para o fim, o articulista escreve: «Para quem está no mercado de trabalho, não vai ser fácil estimar a quebra da sua pensão. As estimativas da OCDE — as mais completas — são para 2050. As da Comissão Europeia para 2046 ou 2050. Em grande medida, dependerá do ano de reforma. Em 2030, por exemplo, uma pensão bruta ficará entre o valor actual e o corte previsto para 2050. E quais são essas estimativas? A infografia mostra que para quem se reformar em 2050 e o seu último salário for metade do salário médio (antes de impostos), então a primeira pensão recebida representará 70,4 por cento do salário. Quebra estimada: como antes da reforma de 2006, a pensão representava 92 por cento do salário bruto, [não é verdade, nem sequer para funcionários públicos aposentados a partir de 2003] será de 23 por cento. Mas atente-se que depois de impostos ficará com 81,6 por cento do salário líquido. Isso será correcto se até 2050 não for alterado o nível de tributação, o que é muito improvável e torna qualquer previsão falível

Ora, se não é fácil estimar quebras de pensões a partir das mil e uma variáveis (início e montante dos descontos, período contributivo, idade do trabalhador, ano de aposentação, esperança de vida, factores de sustentabilidade, carga fiscal, etc.), ainda por cima num horizonte superior a 40 anos, para que serve o arrazoado?

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Domingo, Março 15, 2009

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Quem faz questão de passar por culto tem de citar Herman Melville (1819-1891) com ar de quem o trata por tu ao mesmo tempo que sugere que lá em casa se lia o Moby-Dick (1851) ao serão. Citar Bartleby, the Scrivener (1853) também ajuda, até porque nenhum curso de escrita criativa o dispensa. Curiosamente, grande parte destes devotos ignora que Melville foi um grande poeta. Eugénio de Andrade andava sempre com ele na boca. Agora, graças a Mário Avelar, professor de literatura e estudos anglo-americanos da Faculdade de Letras de Lisboa, um conjunto de 36 poemas acaba de ser traduzido. (Em volume, creio que é a primeira vez que acontece em Portugal.) Mário Avelar seleccionou a partir de Battle-Pieces and Aspects of the War (1866), John Marr and Other Sailors (1888) e Timoleon, Etc. (1891), deixando de lado dois títulos: um de 1876, e outro, póstumo, de 1924, ano em que foi descoberto o manuscrito de Billy Budd. Este volume de Poemas é bilingue. A tradução de Mário Avelar leva em conta a prosódia original, as diferentes declinações do inglês usadas pelo poeta, o jargão científico, os envios biografistas e toda a panóplia de jogos intertextuais que fazem de Melville um autor difícil.


Eu entrei naqueles filmes há muito tempo, mas não me tornei artista, porque não preciso de compensar nenhuma frustração... — quinta frase da p. 161 de O Segredo de Leonardo Volpi, de Fernando Pinto do Amaral (Dom Quixote). O simpático repto foi do António Pinho Cardão mas, sem querer ser desmancha-prazeres, encalha aqui.

Vários leitores querem saber o que penso da TVI24, estranhando o meu silêncio sobre o novo canal. Não penso nada. Nunca vi. Assinante do MEO, não tenho acesso à TVI24. Se tivesse, se calhar acontecia o que acontece com a TVI generalista: uma hora por ano? Sei lá...

Isabel Goulão: «[...] A verdade é que o luto, o seu cerimonial, ou melhor, a sua prática da forma como a conheço, está a tornar-se num capítulo de manual de etnologia ou tema de antropologia. Se forem estudos de caso de lugares distantes, tanto melhor, maior o exotismo do lugar e mais excêntricos os seus indígenas. Na blogoesfera, também pouco se refere o luto, mas não é de estranhar, pois isto é suposto ser um lugar onde somos todos felizes. A morte é cada vez mais um artigo de jornal sobre o monopólio das agências funerárias, a crescente laicidade dos velórios e o preço das missas cobradas em paróquias cuja localização desconhecemos. [...]»

Jorge Ribeirinho Machado: «Ontem, na TSF, uma estudante de enfermagem dizia que estava na manif porque “ainda estou a estudar, mas, quando acabar, é certinho que vou para o desemprego, e por isso tenho que começar já a lutar pelos meus direitos!” / Mas... de que direitos falava?»

JMF: «Mário Crespo começou hoje o seu manuelamouraguedesciário com um espanto aderente, mas bem encenado, acerca do piquenicão liderado por Jerónimo de Sousa que invadiu a cidade durante a tarde. E depois, numa daquelas tiradas demagóg... perdão, dramáticas, manifestou a sua pena por não podermos ouvir as razões de cada um dos 200 mil — disse ele — que lá estiveram. E foi aí que dei graças a Deus por a comunicação social portuguesa ter as vistas curtas. Imaginem que o Crespo, num rasgo de criatividade que não lhe estranharíamos, lhe dava para querer ouvir os 9 milhões e 800 mil que lá não estiveram!»

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Sábado, Março 14, 2009

ONDE ESTÁ A SURPRESA?


Assim que começou a haver certezas da candidatura presidencial de Cavaco Silva, escrevi que os seus apoiantes (entre os quais conto bons amigos) seriam os primeiros a ficar decepcionados com o resultado de uma sua hipotética vitória. Nem ele era homem para fundar a IV República — desejo secreto de tantos —, nem alguém capaz de encarnar uma versão direitista do Soares adepto das forças de bloqueio. Como então escrevi, uma vez eleito, Cavaco seria um Sampaio mais sisudo. A realidade provou que tinha razão. Ao fim de três anos de mandato, com quinze vetos a leis da Assembleia da República (aprovadas em 2.ª volta), a devolução de um único diploma do governo, e a recente confissão de impotência face à crise, as dúvidas dissiparam-se. A censura à boca pequena chegou a letra de forma: «A presença de Cavaco em Belém, com a sua solenidade e o seu provincianismo, não serviu para nada.» Quem o diz é Vasco Pulido Valente, quebrando o tabu do não-dito. E Medina Carreira, mandatário de Cavaco em Lisboa, ouvido pelo Expresso, não hesita na comparação: «pela sua natureza, Cavaco é como o Marcello Caetano — formalista, não gosta de rupturas e segue o instinto de defesa.» Quebrado o interdito, a neurose fará o seu caminho. A mim espanta-me muito o espanto de quem o devia conhecer melhor.

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Sexta-feira, Março 13, 2009

PARTIR A CORDA


Entrevistado pelo Expresso na semana passada, Manuel Alegre foi claro:

Se os movimentos de cidadãos pudessem candidatar-se ao Parlamento avançava com o MIC já nas próximas legislativas? / «Avançava.»

Contra o PS? / «Contra o status quo e a favor de uma renovação da democracia.»

Muita gente no PS não gostou. E comentou em conformidade. Clareza com clareza se paga.

Hoje, entrevistado por Maria Flor Pedroso na Antena Um, Manuel Alegre questionou: «O PS quer ir às eleições comigo ou sem mim? Essa é que é a questão.»

Disse ainda que, se fosse às «reuniões do grupo parlamentar, depois das eleições presidenciais, já não havia grupo parlamentar. [...] Se calhar já não havia governo. Desculpe, mas é assim! [...] Ou ia ao grupo parlamentar e ficava calado ou falava. [...] E na situação política em que estamos em Portugal, se eu fizesse intervenções [...] se calhar não teria sido possível nós chegarmos onde chegámos com alguma estabilidade, cujo mérito se deve ao presidente do grupo parlamentar, ao secretário-geral José Sócrates e a mim.»

Em que ficamos? Manuel Alegre só não concorre contra o seu próprio partido porque a Lei impede os movimentos de cidadãos de concorrerem a eleições legislativas. E ele não quer transformar o MIC em partido. OK. Aqui chegados, convinha talvez partir a corda.

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AUGUSTEN BURROUGHS


Hoje no Público:


Não tem nada que enganar: Augusten Burroughs (n. 1965) é o sujeito declarado da própria obra. O que sabemos da sua infância e adolescência — quem leu Correr com Tesouras conhece os detalhes mais sórdidos — é suficiente para pôr os cabelos em pé, e só a capacidade de nos fazer rir e chorar com a mesma intensidade resgata a narrativa do pesadelo (ao contrário do que supõe o pensamento correcto, o abuso, a pedofilia e outras disfunções também acontecem em famílias cultas e sofisticadas como a dele). Mais tarde, A Seco deu conta do doloroso processo de desintoxicação do álcool. Como o título indica, Efeitos Secundários é o corolário disso tudo.

Narrado como sempre na primeira pessoa, a diferença é que desta vez Augusten fala do lugar do escritor, e do escritor que vive com outro homem (o seu companheiro Dennis Pilsits), com quem partilha o quotidiano prosaico de qualquer família da classe média: os animais de estimação, as viagens, a angústia da escrita, as pequenas irritações domésticas, certa propensão bulímica. Como de ordinário, o retrato é sem filtro: «Muita gente acha que sou uma pessoa divertida e encantadora. Muita gente está enganada. Em pessoa não sou especialmente divertido. Sou sério e cansado. Cansado de ter vivido dezassete vidas diferentes, comprimidas no espaço de uma só. Doem-me as costas, sou careca e tenho a pele estragada. Tento ser divertido, mas o máximo que consigo é ser desajeitado e um bocado patético. Visto-me como um gajo de dezanove anos e uso cremes de setenta e cinco dólares para as rugas à volta dos olhos.» Definitivamente, a introspecção deixou de ser um tique francês.

Não estamos a falar de ficção. Efeitos Secundários é uma colecção de ensaios sobre temas tão variados como as obrigações do escritor (promover a obra nos sítios mais improváveis), hipocondria, publicidade, identidade sexual, seguros de responsabilidade civil, o fosso cultural entre os Estados Unidos e a Inglaterra, anúncios pessoais, hipocrisia, batatas fritas, idiossincrasias dos buldogues franceses ou até o hipotético assassinato de John Updike, ponto de partida para uma hilariante reflexão sobre a reciprocidade entre consumo e glória literária. Afinal, «se o Udike morresse nessa noite, os meus duzentos dólares poderiam transformar-se em quatrocentos no dia seguinte. Poderia pôr os livros à venda no eBay e, com o lucro, comprar uma pilha de livros na Barnes and Noble.» Augusten pega no pretexto para ir ao eBay conferir a sua própria cotação...

O processo é simples. Em vez de memórias formais, subordinadas à cronologia e outros protocolos, Augusten serve-se de incidentes da sua vida pessoal com a destreza de quem manipula detonadores. A escrita inteligente e o equilíbrio perfeito entre sarcasmo e humor transformam a leitura num prazer. Qualquer autor menos articulado ficaria inibido com o aparente desinteresse do material, mas, nas mãos de Augusten, o texto dispara em todas as direcções. Infracções de trânsito, por exemplo. Augusten e uma amiga não fazem a coisa por menos: são ultrapassados pela direita?, são atingidos pelo lixo atirado da janela de outro carro? são insultados por motoqueiros? Respondem com imagens violentas. Porque as pessoas estão preparadas para um manguito, mas não estão à espera de ver «uma mulher nua com um quilo de salsichas enfiadas no ânus» (isso elimina todos os outros pensamentos), nem «um homem a enfiar a ponta do pénis no prepúcio de outro» (a Harley desacelera). Nenhum desejo de transcendência o persegue. Se a vida das pessoas comuns é uma sucessão de peripécias, grande parte sensaboronas, muitas dramáticas, algumas empolgantes ou divertidas, e se um escritor é uma pessoa igual às outras, vivendo no meio delas, é natural que faça da condição humana o objecto do seu trabalho. Ser escritor, diz ele, «é como ser uma actriz pornográfica com duas enormes feridas abertas — uma em cada mama. E depois usar um fato-de-banho muito decotado para as mostrar.» Zola não andava longe disto.


Danos colaterais, in Ípsilon, 13-3-2009, pp. 35-36. Quatro estrelas.

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Quinta-feira, Março 12, 2009

DESDE 2007? CADÊ A FONTE?


Hoje, no Público, os jornalistas Lurdes Ferreira e Nuno Simas assinam uma peça sobre o 4.º aniversário da tomada de posse de Sócrates como primeiro-ministro. Pode ler-se:

«José Sócrates cumpre hoje quatro anos de mandato como chefe do Governo. Literalmente com altos e baixos.» — Confere.

«A onda de optimismo dos portugueses, que associaram o Verão ao Mundial de Futebol nesse ano, [em 2006] deu a Sócrates o seu segundo maior pico de popularidade. Seguiram-se meses de sobe e desce, quase sempre acima dos 10 pontos de balanço positivo, no barómetro político da Marktest, numa altura em que, com os outros líderes de esquerda, foi um dos vencedores do referendo sobre o aborto, em Fevereiro de 2007.» — Confere.

«Foi assim até Maio. [de 2007] Desde essa altura — e depois de revelado o caso da sua licenciatura na Universidade Independente — que a popularidade de Sócrates está em terreno negativo, abaixo da “linha de água”. [...] E assim se mantém.» — Qual a fonte do jornal?

É importante conhecer a fonte de tal “certeza”, porque a afirmação dos jornalistas contradiz todas — repito: todas — as sondagens encomendadas e divulgadas até hoje pelo próprio Público, pelo DN, pelo Correio da Manhã, pelo JN, pelo Expresso, pela RTP, pela SIC, pela TVI, pela Rádio Renascença, pela TSF, pela Visão, pela Sábado, etc. Onde é que Lurdes Ferreira e Nuno Simas descobriram que Sócrates está em terreno negativo desde Maio de 2007? Terá sido numa mesa de pé-de-galo?

Para não ir ao paleolítico do actual governo, fico pelo estudo mais recente da Eurosondagem [Expresso, SIC e Rádio Renascença], divulgado na última sexta-feira, dia 6, no qual Sócrates, apesar de uma quebra de dois pontos percentuais, mantém 18,6% de balanço positivo. No mesmo estudo, à pergunta sobre quem tem mais competência para governar, o score de Sócrates é de 57,7% contra 14,8% de Manuela Ferreira Leite. Ou ainda esta da Aximage para o Correio da Manhã, divulgada no passado dia 8, onde Sócrates obtém 48,3% no grau de confiança para primeiro-ministro, contra 20,5% de Manuela Ferreira Leite. A realidade é aborrecida? Inventa-se outra realidade!


Adenda. Sempre atento (e competente), Pedro Magalhães explica aqui como as coisas são. Obrigado. Também diz que o Público refere a fonte. Será a edição em papel, pois a online é omissa.

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Quarta-feira, Março 11, 2009

MODA & DESIGN NO BNU


Três anos depois da sua saída do CCB, a Colecção Capelo parece ter destino certo. A Assembleia Municipal de Lisboa aprovou ontem, por unanimidade, a aquisição — por 15,5 milhões de euros — do edifício que foi sede do Banco Nacional Ultramarino. É portanto lá que vai ficar o futuro Museu da Moda e do Design. Segundo António Costa, o edifício do BNU tem uma área que corresponde ao triplo do Palácio de Santa Catarina, junto ao miradouro com o mesmo nome, cuja compra pela Câmara foi impugnada em tribunal. Por acordo entre o coleccionador e Santana Lopes, a Colecção Capelo, que inclui design e moda, é gerida desde 2004 pela CML. (Em 2005, a Colecção Capelo teve 40 mil visitantes, ou seja, 23% do total do CCB no mesmo ano.) O espólio de moda nunca foi exposto em continuidade, pois, das 700 peças da colecção, apenas metade esteve disponível ao público. Entretanto, no mesmo edifício da Rua Augusta será instalada a Loja do Cidadão que actualmente funciona nos Restauradores. São boas notícias, contudo extravagantes numa cidade esburacada de cabo a rabo.

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Terça-feira, Março 10, 2009

A HERANÇA DE MADAME DE RAMBOUILLET


Aqui fica o texto que o Blogtailors me pediu e publicou ontem em primeira mão, na secção Opinião no Blogtailors:



A generalidade das pessoas assanha-se facilmente com aquilo que considera a deficiente cobertura da imprensa escrita à actividade editorial. É evidente que estas “poucas pessoas”, e a generalidade delas, se esgota no reduzido círculo de quem acompanha a vida literária. Vamos a ver, e as razões de queixa radicam quase sempre no facto de A ou B não ter chegado às páginas dos jornais. É natural. Publicando-se por ano, em Portugal, qualquer coisa perto de 20 mil títulos, se 10% desse total for alvo de referência, podemos dar-nos todos por satisfeitos. Não falo de recensões críticas, as quais, se chegassem às 600 por ano, e por jornal de referência, cobririam o essencial. (Sem dispor de números, suponho que o Ípsilon, do Público, terá publicado em 2008 qualquer coisa entre 360 e 400 recensões críticas de livros; esta estimativa exclui a rubrica “Saídas”.) Não sendo possível recensear tudo o que sai dos prelos, seria no entanto desejável que os jornais alargassem o espectro do enfoque.

Sempre me causou perplexidade o afunilamento do jornalismo literário à recepção crítica da ficção, da poesia (cada vez menos) e, em casos particulares, da tradução de clássicos, actividade constante no tempo, menos ocasional do que presume uma larga maioria de leitores. Traduzir Séneca, Dante ou Ariosto não comove o jornalismo literário se o tradutor não fizer parte do star system, pois ninguém liga peva ao pedigree académico. O resto desaparece. E não, não é verdade que a causa seja o espaço progressivamente mais reduzido que os jornais reservam aos livros. Bem vistas as coisas, na segunda metade dos anos 1980, época dita “de ouro” do jornalismo literário português, o panorama era idêntico. Havia mais espaço, verdade que sim, aceitava-se como direito dinástico o lobby a favor de certas coteries, a promoção de obras e autores obedecia a critérios (mal ou bem, havia critérios definidos; a moda do “porque sim” é recente), mas, na realidade, tudo girava em torno do binómio poesia/ficção. Os termos inverteram-se, sendo hoje em dia mais ficção e menos poesia.

Numa época em que tanto se traduz, em todos os géneros, a desatenção dos jornais ao ensaio literário ou político, à história, à sociologia, a trabalhos de índole jornalística (como, entre outros, os de Bob Woodward e Robert Fisk), ao teatro, à crónica, ao memorialismo, às biografias, a volumes de correspondência, etc., dá que pensar. Eu percebo que um jornal tenha dificuldade de encaixar num caderno de livros notas de leitura sobre teoria de bioestatística e epidemiologia. Certo, não dá a bota com a perdigota. Mas se Sloterdijk e Zizek (embora não Rorty) são hoje clichês do jornalismo hebdomadário, o espartilho da genologia perde sentido.

O problema não está na pouca ou nenhuma atenção dada a A ou B, que talvez sejam famosos no prédio onde vivem. A questão é outra. Melhor ou pior, as pessoas preocupam-se com questões civilizacionais, dezenas de obras reflectem essas questões (só a Era Bush é toda uma biblioteca!), e, contudo, o que chega à nossa imprensa é residual. Esse défice tem consequências.


[Catherine de Vivonne, 1588-1665, marquesa de Rambouillet, fundou o mais influente salão literário de Paris, dando origem ao movimento das précieuses. Na impossibilidade de obter uma imagem sua, ou de digitalizar a partir de obras volumosas, fica um retrato (1938) do inner circle de Dorothy Parker, que fundou a Round Table no Hotel Algonquin de Nova Iorque, o equivalente moderno dos salões literários.]

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CITAÇÃO, 157





Thomas Jefferson, em 1802. Premonitório:


«I believe that banking institutions are more dangerous to our liberties than standing armies. If the American people ever allow private banks to control the issue of their currency, first by inflation, then by deflation, the banks and corporations that will grow up around the banks will deprive the people of all property until their children wake-up homeless on the continent their fathers conquered.»

Adenda. Parece que esta citação não é exactamente exacta (passe o pleonasmo). Cheguei lá na sequência de uma troca de impressões sobre a “falência” do sistema bancário internacional. Exacta ou não, a quotation atribuída a Jefferson tem aparecido transcrita em inúmeros jornais, sites e revistas americanas. Jorge Assunção remete para o sítio onde o imbróglio é explicado. Obrigado.

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A escrita sensual


Gosto do que poderia classificar como a inactualidade deste livro, gosto do modo como se constrói em aparente indiferença a tudo o que não seja uma motivação reiterada do seu autor. Pouco importa que saibamos ou não as datas dos textos; o que é necessário situar no tempo é feito através das referências aos vários autores cuja obra Julien Gracq comentou (com uma perspicácia do olhar que só não surpreende quem considera que os artistas são, em grande parte das vezes, os melhores críticos). Ao mesmo tempo, há notáveis considerações sobre o ofício da escrita, altivas na aparência, mas que são apenas a afirmação categórica de uma perspectiva sobre a arte literária que dispensa os consoladores acenos de concordância (como é sabido, Gracq tinha em pouca consideração os «escritores» que se dedicavam mais ao desenvolvimento das suas relações sociais do que ao árduo labor de organizar as palavras). Atente­‑se, nessa óptica, ao que afirmou o autor de En Lisant en Écrivant (1980) sobre a motivação da escrita: «On écrit d'abord parce que d'autres avant vous ont écrit, ensuite, parce qu'on a déjà commencé à écrire: c'est pour le premier qui s'avisa de cet exercice que la question réellement se poserait: ce qui revient à dire qu'elle n'a fondamentalement pas de sens. Dans cette affaire, le mimétisme spontané compte beaucoup: pas d'écrivains sans insertion dans une chaîne d'écrivains ininterrompue» (pp. 144-145).
A esta ideia de continuidade poderia associar­‑se a consciência da profunda relação entre o som e o sentido das palavras, que Gracq considerava estar presente em qualquer verdadeiro escritor, independentemente de a sua arte verbal se concretizar na poesia ou na prosa: «Même dans la prose, il faut que le son sache tenir tête au sens. On n'est pas écrivain sans avoir le sentiment que le son, dans le mot, vient lester le sens, et que le poids dont il est ainsi doté peut l'entraîner légitimement, à l'occasion, dans de singulières excursions centrifuges. L'écriture comme la lecture est mouvement, et le mot s'y comporte en conséquence comme un mobile dont la masse, à si peu qu'elle se réduise, ne peut jamais être tenu pour nulle, et peut sensiblement infléchir la direction» (p. 148).
Movimento e sensualidade seriam, assim, duas características fundamentais da arte verbal, a qual, como é dito no volume da José Corti, não se poderia dissociar do corpo que a produz (o que, no entanto, não se deve confundir com a falácia de que deveria ser interpretada a partir do conhecimento desse corpo): «Dans une écriture sensuelle, comme l'est en principe celle d'un artiste, il me semble qu'il devrait passer quelque chose des saisons et des humeurs du corps» (p. 159).

Segunda-feira, Março 09, 2009

CITAÇÃO, 156


Teresa de Sousa, Ou eu ou o caos, Parte II, hoje no Público. Excertos:


«Ninguém deve compreender melhor José Sócrates do que Cavaco Silva. Dei por mim a pensar nisto enquanto lia e ouvia — com alguma distância mental, confesso — os relatos do XVI Congresso do PS e os respectivos comentários. As palavras-chave da narrativa ecoavam na minha memória. A “desertificação” do PS, a morte das “sensibilidades”, o “unanimíssimo”, a arrogância do poder “absoluto”, a radicalização política do “eu ou o caos”.

Estavam a falar sobre Sócrates ou sobre Cavaco?

[...] Vivi, ainda no Expresso, cada minuto da campanha eleitoral de 1987, que deu ao Presidente a primeira maioria absoluta. Fiz a de 1991, no PÚBLICO [...] Estive em dezenas de Conselhos Europeus em que participou. Vi-o vezes sem conta actuar no Parlamento.

O guião das campanhas era simples: ele e o povo. Ele, transportado num andor por uma máquina sem falhas, o palco e o povo. E essa corrente magnética (que se sente, não se explica) que se estabelece entre alguns (raros) políticos e as multidões. Por cima das nossas cabeças. Cavaco não lia jornais (ou, pelo menos, era o que dizia): a sua relação com a imprensa era distante, tensa e difícil. O discurso era básico, repetitivo e eficaz. “Ou eu ou o caos” despido de qualquer roupagem. Brutal? Adequado. Os portugueses, finalmente europeus (graças ao euromilhões que Soares lhe deixou de presente, a ele e ao país, e que só mais tarde agradeceu), entregavam-se aos primeiros prazeres do seu novo estatuto burguês. [...]

O “capitalismo popular” que Cavaco roubou à sua heroína Margaret Thatcher [...] tinha finalmente o seu grande intérprete. Não precisava de ideologias nem de concessões. Era assim, em toda a sua nudez e com toda a sua eficácia. Ele e o povo. Partidos? Parlamento? Rituais democráticos por vezes incómodos.

Escreveu-se muito sobre ambos, Cavaco e Sócrates. Pragmáticos. Implacáveis quando se trata de vencer. Pouco tolerantes à “maçada” dos partidos. [...] Sócrates vem de dentro da política, da democracia consolidada e europeia, de outra geração. [...] E tem uma tarefa mais difícil: radicalizar a importância da “estabilidade” num país mais europeu com uma imprensa muito mais diversificada e plural. E uma crise tão brutal que questiona todas as verdades que ainda ontem tínhamos como certas. [...] ninguém o compreenderá tão bem como Cavaco.»

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Domingo, Março 08, 2009

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Domingos Lobo (n. 1946) não é o protótipo do escritor que ande a ser citado a propósito e despropósito. Contudo, é autor de uma obra incontornável sobre a guerra colonial: Os Navios Negreiros não sobem o Cuando (1993), justamente premiada. A bibliografia inclui romance, contos, poesia, teatro e até a edição de uma Antologia de Poesia Portuguesa Erótica, Burlesca e Satírica do Século XVIII. Domingos Lobo acaba de publicar Território Inimigo, colectânea de contos que prolonga algumas das questões suscitadas com As Lágrimas dos Vivos (2005), obra em que o autor reflecte sobre aspectos da modernidade e o território escorregadio das identidades em conflito. Fio condutor, a ideia de liberdade face aos vários modos da hipocrisia dominante.


Alexandre Andrade responde ao inquérito OLAM.

Ephemera, a biblioteca de José Pacheco Pereira agora a céu aberto.

Elas, uma antologia (com critério) no feminino pela mão do Henrique Fialho.

Gabriel Silva: «Em 30 anos de deputado (mais coisa menos coisa), não estou de momento a lembrar-me de que Manuel Alegre tivesse apresentando um projecto a possibilitar candidaturas independentes ao parlamento. É pena, mas ainda lhe restam seis meses...»

José Simões: «O comissário político da guerrilha para a “Frente da Educação”, ameaça intensificar os combates e começar também a atingir alvos civis. Aplicar aos alunos aquilo que vem reclamando para a casta superior da sociedade portuguesa: a isenção de avaliação. / E quando a guerrilha passa a atingir alvos civis, deixa de ser guerrilha para passar a ser terrorismo.»

Lourenço Ataíde Cordeiro: «Sou o único a esperar ansiosamente pelo debate entre Laurinda Alves e Vital Moreira?»

Ouriquense: «[...] A credibilidade e o bom nome do Parlamento não passam por se lá entrar de gravata, nem por se tentar falar ou ter um comportamento acima das reais possiblidades. O “vai para o caralho” de Martins foi das coisas mais sinceras que se têm ouvido naquela casa e isso é positivo.»

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Sábado, Março 07, 2009

MEDELLÍN


Agora que o n.º 78 (Março) da LER já está na rua, aqui fica a crónica Medellín, que publiquei na minha coluna Heterodoxias, no n.º 77.



Quem tenha lido La Virgen de los Sicarios (1993), de Fernando Vallejo, ou, não o tendo feito, tenha visto o filme que Barbet Schroeder fez a partir da obra, não esqueceu Medellín, a cidade de Botero, antigo feudo do cartel de Pablo Escobar, importante centro industrial e cultural da Colômbia, país do qual se pode dizer que vive em conflito aberto: as lutas independentistas começaram em 1810; a guerra dos mil dias (1899-1903) opôs para sempre liberais e conservadores; as FARC mantêm o terror em extensas zonas territoriais na zona de fronteira com o Equador; o número de “desaparecidos” excede a imaginação mais vertiginosa. A tudo isso, o romance de Vallejo e o filme de Schroeder acrescentaram um halo de perversão em cenário pouco menos que apocalíptico, com vista para os Andes.

Foi portanto com surpresa e alguma apreensão que, faz agora um ano, recebi o convite para participar no Festival Internacional de Poesia de Medellín, feito por Fernando Rendón, director da revista Prometeo, responsável pelo evento. Inimigo jurado da direita colombiana, Fernando Rendón é uma lenda no milieu da “literatura de causas”, alguém capaz de tirar do sério gente conspícua como Harold Alvarado Tenorio e Eduardo Escobar, dois poetas não convidados que acusaram a organização do festival, em artigos publicados nos jornais de Bogotá, de manter conluio com a izquierda asesina, sabendo ambos (e deplorando) que o festival recebe apoio do governo, e que Álvaro Uribe, o presidente, com o ser um homem da direita tradicional, faz parte da oligarquia dominante.

Mas a poesia tem razões que a razão desconhece e, em Julho, parti para a Colômbia, onde me juntei a outros 73 poetas, sendo colombianos 14. A chegada ao aeroporto internacional (existe outro para voos domésticos) provoca ansiedade no europeu habituado ao Espaço Schengen: um polícia armado a cada 10 metros, um cão por cada dois polícias, retratos de terroristas nas paredes, etc. Deveras inquietante. Mas a logística do festival apanha-nos ao fim de vinte passos fora do avião. A partir dali andamos literalmente ao colo. Tendo em conta que esta décima oitava edição reuniu 74 poetas oriundos de 54 países, expressando-se em 28 idiomas diferentes, contando cada poeta com uma equipa de recepção própria, e dispondo os de expressão não-castelhana, que eram 40, de tradutor particular (o meu foi John Viana, um actor que trabalha actualmente numa dramaturgia do Livro do Desassossego, inexcedível de zelo e afabilidade), é fácil avaliar a dimensão da empresa.

O Festival de Medellín é considerado, até pela New Yorker, o mais importante em todo o mundo. Ao longo dos oito dias que dura, promove para cima de cem sessões. Em 2008 realizaram-se 96 em Medellín e 14 noutras cidades de Antioquia. Houve ainda um seminário de poesia. Verdade que existem mais festivais de poesia com idêntico prestígio, casos de Roterdão, Berlim e, para não sair da Europa, o da União Latina, este com carácter bienal e itinerante (o de 2007 foi em Roma). Mas quem os conheça sabe que estamos a falar de coisas diferentes. Numa capital europeia, como provavelmente nas grandes cidades americanas, uma leitura de poesia mobiliza, quando mobiliza, 60 a 80 pessoas (não estou a falar de Auden ou Neruda no pico das carreiras respectivas). Em Medellín, os espectadores são às centenas em cada uma das 12 ou 14 sessões que se realizam em simultâneo, chegando aos milhares nas colectivas de abertura e fecho. Sim, custa a acreditar. O holandês Bas Kwakman, o especialista em Fernando Pessoa que dirige o Festival de Roterdão, convidado como observador, ficou boquiaberto.

À margem do festival, fui espreitar a mítica Catedral Metropolitana, templo dedicado a Nossa Senhora dos Sicários, ou seja, à virgem dos matadores. Cheguei lá depois de atravessar a Passaje Junín, coração do centro histórico da cidade, espécie de Calcutá dos trópicos, que estabelece um violento contraste com a modernidade e limpeza da rede de metro, servindo com eficiência uma área com perto de seis milhões de habitantes.

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Sexta-feira, Março 06, 2009

DANIEL GALERA


Hoje no Público:


Quando se fala da renovação do português escrito no Brasil, a linha de fronteira é 1922, o ano da Semana de Arte Moderna de São Paulo. À época, a enfática oposição de Mário de Andrade à matriz clássica da linguagem, patente no prefácio de Paulicéia desvairada, trazia consigo o propósito de sabotagem do português solene por interposta transgressão sintáctica. Nada disto é novidade, mas talvez ajude a explicar a progressiva evolução do português literário do outro lado do Atlântico, tendo por balizas Machado de Assis e Daniel Galera, com, de permeio, as peculiares declinações de Érico Verissimo, Clarice Lispector, Rubem Fonseca, Hilda Hilst, Valêncio Xavier, Bernardo Carvalho e outros. Vale o intróito porque Mãos de Cavalo, de Daniel Galera (n. 1979), pode suscitar resistência por parte do leitor menos afeito às mil possibilidades da língua.

Daniel Galera ainda não tem 30 anos. Nasceu em São Paulo, vive em Santa Catarina, mas passou grande parte da vida em Porto Alegre; foi na capital do Estado do Rio Grande do Sul que fundou a editora Livros do Mal; entretanto, publicou três romances e uma colectânea de contos (alguns destes livros estão traduzidos na Argentina e em Itália); traduziu autores tão diferentes como Irvine Welsh ou Michael Coleman; antes e em simultâneo colaborou com regularidade no COL, o fanzine electrónico, melhor dito, o Mailzine, «sem imagens, sem formatação, sem html: texto puro». Chegou agora a Portugal o penúltimo livro, precisamente Mãos de Cavalo, romance de iniciação, aprendizagem e busca de identidade, com acção centrada em Porto Alegre e momentos deveras conseguidos: «Cada vez que levava um golpe no rosto, simulava o impacto jogando a cabeça com força para o lado, e o sangue espirrava sobre a porta do banheiro ou o vidro do box. [...] A porta estava coberta de respingos vermelhos. Tinta vermelha diluída escorria por seu pescoço e tórax. A pia estava toda vermelha. O chão estava vermelho.» Hermano ficou sozinho com a lembrança de Bonobo, o estojo de lápis Caran d’Ache e o medo, com eles roteirizando a briga falhada. Sem iludir o facto, é da impossibilidade que o autor trata. Por exemplo, querer amar e não ser capaz. O blasé urbano é uma máscara como outra qualquer.

Mãos de Cavalo foi escrito a dois tempos: o tempo do rapaz, e o do homem. No lapso de um dia, o cirurgião alpinista escava o passado: tinha 15 anos, a Esplanada estava longe de ser um bairro, Hermano mantinha intacto «um resquício de excitação esperançosa, marcada por superstições e resoluções». Agora é um profissional bem sucedido, com tédio da família: a mulher cita Ballard, ele faz abdominais. No entretanto, conjectura com o Cerro Bonete boliviano (existe outro na Argentina), mítica montanha intocada, ou quase, sem «estrada, cidade, porra nenhuma. O desgraçado fica na borda de uma cratera vulcânica com uns seis ou sete quilômetros de diâmetro.» A fala é de Renan, subir aos picos é a cara dele, mas Hermano assume o transfert.

Como quem não quer a coisa, porque a prosa dúctil e pouco adjectivada subtrai ênfase ao discurso, Galera faz um mix perfeito entre memorialismo (na acepção clássica do termo) e deriva pós-modernista. Impressiona o domínio da linguagem, aguentando o tom sem falha rítmica, mesmo nos períodos longos, nos quais disseca a trama com precisão de relojoeiro: da bicicleta Caloi Cross aro 20 às coordenadas do Google Earth nada surge fora de contexto, o que inclui provas de downhill (ciclismo de montanha), cenas de sexo e preocupações ambientais, porque a mulher, artista plástica, fez uma instalação a partir do transplante de uma figueira, coisa que ninguém faz sem um exaustivo protocolo prévio. A todas essas a escrita não derrapa, adequando-se a cenografia a cada nova situação: «Levou ela até o Lami, estacionou sobre a areia num recanto secreto [...] e passaram o resto da madrugada avançando limites na história pessoal e no corpo do outro [...] como se isso pudesse fazer desmoronar aquele estado de felicidade quase eufórica que vibrava no interior do carro e parecia depender de um delicado equilíbrio de fatores.»

Após o triunfo da desconstrução e das alegorias dos anos 1980 e 90, as gerações novíssimas (o primeiro livro de Daniel Galera é de 2001) regressam à divisa de Forster: «the novel tells a story». Digamos, sem favor, que o autor de Mãos de Cavalo o faz com brio.


A educação de Hermano, in Ípsilon, 6-3-2009, p. 32. Quatro estrelas.

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