Sábado, Fevereiro 28, 2009

CITAÇÃO, 154


José Pacheco Pereira, A bloguização da comunicação social, hoje no Público. Breves excertos:



«[...] Vários exemplos mostram como a perda de proporção e relevância, típica da agenda dos blogues (em si nada de mal) se transferiu para a comunicação social (em si mau, porque os critérios de fora não podem ser só os de dentro da blogosfera). O modo como assumiu relevância a proibição de umas imagens num computador Magalhães num Carnaval, ou o confisco de uns livros com a “origem do mundo” de Courbet na capa, a que jornais dedicaram páginas inteiras, PÚBLICO incluído, mostram esse efeito de bloguização. Na verdade, ambas as atitudes eram condenáveis e mereciam notícia, mas é completamente desproporcionada a relevância que lhes foi dada. Mais: é falso que tivessem o significado social que se lhes atribui, de mostrar um ambiente censório na sociedade portuguesa. Há de facto um ambiente censório, mas não é aqui, não é nos actos isolados dum magistrado e duns polícias, que revelaram não ser a norma. [...] By the way, convém também não esquecer que a obra era mesmo na sua origem pornográfica, encomendada para fazer parte de um “gabinete erótico”, e que não é líquido que o seu estatuto de obra de arte não impeça a sua exposição com reserva. Mesmo os jornais que mais espaço dedicaram ao acto “estúpido” e “ignorante” da polícia, não ousaram colocá-la na capa, como certamente não o fariam com uma fotografia de Mapplethorpe, e isso não era censura nenhuma. Passar por estas coisas com todo o simplismo de as ver apenas como uma luta entre a liberdade sem limites e a censura estúpida, é típico dos blogues, mas não devia ser típico dos jornais. Estes são editados, não são?

Disse atrás que as censuras mais preocupantes não são estas, são outras, mais invisíveis e mais perigosas porque consentidas. Não as vemos porque se escondem atrás da irrelevância espectacular, das distracções, uma especialidade dos blogues. É também por isso que a bloguização da comunicação social é má para o debate público.»

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Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

IRVINE WELSH


Hoje no Público:


Enquanto não chega The Bedroom Secrets of the Master Chefs (2006), uma sátira corrosiva à ASAE escocesa, vários livros de Irvine Welsh (n. 1958) estão neste momento a ser reeditados em Portugal. Por exemplo, Ecstasy (1996) e Porno (2002) regressaram às livrarias em simultâneo. Vamos falar do segundo.

Dividido em três núcleos principais, Porno prolonga Trainspotting (1993), a saga dos junkies dos cais de Leith que marcou a estreia de Welsh, a partir da qual Danny Boyle fez o filme que celebrizou ambos. Sem surpresa, tudo se passa no meio de droga e sexo, embora no lugar do primitivo bar haja agora um estúdio de filmes pornográficos. O intervalo de dez anos ajudou a refinar o humor negro, mantendo-se fiel ao imaginário de Iggy Pop. Os narradores são Sick Boy, Renton, Nicki, Spud e Begbie, cada um com o seu jargão próprio. Dos cinco, a universitária Nicki Fuller-Smith é a única que não vem de Trainspotting. Spud e Begbie falam à moda lá de cima, que o mesmo é dizer à moda de Edimburgo. Para resolver a discrepância entre o inglês comum e as peculiaridades da ortoépia escocesa, o tradutor Colin Ginks optou pela declinação à moda do Porto: «Tenho de dar um jeito à minha bida [...] Gostaba de apenas poder ir-bos bisitar primeiro, e combidar-te para saíres comigo, ‘tás a ber?» Não sei se corresponderá às inflexões fonéticas dos naturais da Escócia, mas sempre é melhor do que seguir o figurino oxbridge. O calão não foi esquecido, parecendo-me adequadas as correspondências.

Filho de um estivador e de uma criada de café, Welsh, antigo dependente de drogas duras, conhece bem o milieu que escolheu para centrar a obra. Tendo começado por trabalhar como electricista no departamento de habitação social da Câmara de Edimburgo, voltou a estudar depois da morte do pai, obtendo um MBA na Heriot-Watt University com uma tese sobre a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. Perguntado pelo Daily Mail sobre as origens sociais, afirmou considerar-se «not so much middle-class as upper-class. I'm very much a gentleman of leisure. I write.» Transgressão por transgressão, a crítica canónica sente-se mais segura com Nick Hornby. Mesmo se Welsh cita Voltaire. Tem a sua lógica.

Porno volta ao local do crime, isto é, a Leith, a zona portuária onde Welsh viveu os primeiros anos. Foi lá que situou Trainspotting, voltou lá por causa de Porno. Propósitos de assepsia de um auto-denominado Fórum das Empresas de Leith Contra a Droga, apostado numa versão yuppie da zona, não inibem Sick Boy, aliás Simon Davis Williamson, de fazer um filme pornográfico, Sete Malhadas para Sete Irmãos, inspirado num clássico famoso do musical americano, Sete Noivas para Sete Irmãos (Stanley Donen, 1954). Ao longo da história, a tensão é de cortar à faca, porque o grupo alimenta desconfianças mútuas, a coca complica, e o ressentimento de Begbie pelos anos passados na prisão não deixam ninguém tranquilo. Os diálogos seguem a norma: «Vai-te foder, Terry — diz o Rab com um sorriso amaneirado —. É satisfatório quanto baste, embora meia dúzia de caralhos enfiados na tua boca não seriam suficientes para que ficasses calado.» Nas partes em que entra a pronúncia do Norte (ou seja, nas falas de Spud e Begbie), a coisa fica altamente.

Mas nem só de trash vive o romance. Como Bret Easton Ellis não detém o exclusivo da citação de marcas, Welsh não desdenha os seus Gucci e Prada, ou mesmo o ocasional Chardonay Clos du Bois a acompanhar um «sublime homard bleu, suc lie de truffe noire et basilic pilé...». Se a ideia é promover o filme com vista aos prémios de Cinema para Adultos, há que agir em conformidade. Reflexões em torno de uma tese universitária e uma aguda consciência de classe, ajudam a matizar a figura de Sick Boy, provável alter-ego do autor, alguém empenhado no retrato social da geração descamisada da era Thatcher.

Sem menosprezo do fôlego narrativo, a que não é alheio o domínio perfeito da arquitectura romanesca, parecem-me excessivas as quase seiscentas páginas da história.


O bando de Leith, in Ípsilon, 27-2-2009, p. 38. Três estrelas e meia.

Adenda. Um leitor do jornal refere a existência de tradução de The Bedroom Secrets of the Master Chefs na Alêtheia. O leitor tem razão. A tradução existe, com um título ligeiramente diferente daquele que cita. As minhas desculpas aos leitores e à editora. A meu favor, se assim se pode dizer, o facto de essa tradução não constar dos registos da PORBASE (Base Nacional de Dados Bibliográficos), os quais, relativamente a Irvine Welsh, indicam 7 traduções, nenhuma delas a dos mestres cozinheiros.

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Quinta-feira, Fevereiro 26, 2009

CITAÇÃO, 153


Helena Matos, O país do faz de conta, hoje no Público. Breve excerto:


«[...] As taxas que não são moderadoras mas que se têm de chamar assim. 12,43 euros foi quanto pagámos no meu agregado familiar por uma operação de urgência, em Santa Maria, a uma apendicite. Além da operação propriamente dita, foram ainda dois dias de internamento com tudo o que tal implica de alimentação e cuidados de saúde. Os 12,43 euros também pagaram as consultas de pós-operatório. 12,43 euros é menos do que um carregamento de telemóvel. E claro que há uma lista imensa de pessoas que nem os 12,43 euros pagam por estarem isentas.

Dirão o PSD, o CDS e alguns deputados do PS que ninguém modera o acesso a uma cirurgia de urgência como era o caso desta. Pois não, mas isso não quer dizer que não se deva pagar nada. Faria aliás muito mais sentido que o CDS e o PSD, em vez de proporem a extinção das taxas moderadoras para as cirurgias e de embarcarem na cantilena do totalmente gratuito com o PCP e o BE, apresentassem propostas mais realistas e ousassem dizer que temos de nos deixar dos artifícios de linguagem que têm mantido intocável uma das mais profundas crenças do nosso legislador: a do gratuito. [...]»

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Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009

AINDA COURBET


A apreensão de alguns exemplares de Pornocracia, de Catherine Breillat (Teorema), numa feira de livros em Braga, foi um disparate e um acto de prepotência, entretanto reparado. Ponto. Porém, segundo o juiz desembargador António Santos Carvalho, ouvido pelo Público, trata-se de «uma falha monumental no campo da cultura [uma vez que] para ascender ao lugar de comandante da polícia já é necessária uma licenciatura e conhecimentos culturais mais vastos». Eu dou um rebuçado ao senhor juiz se 1% dos licenciados portugueses — e não necessariamente dos que concorrem à polícia ou à magistratura — tiver alguma vez ouvido falar de Cindy Sherman ou Matthew Barney. Courbet? A que título? Por outro lado, e é aqui que eu quero chegar, se em vez de Courbet estivesse lá um desenho de Cocteau (o que vemos ao alto é quase infantil; a reprodução é má, mas se clicar na imagem vê melhor) ou um retrato de Mapplethorpe — talvez Lou, se vossas excelências tiverem estômago —, a indignação seria, como neste caso, a uma só voz? Um quadro de 1866, exposto no d’Orsay, equivale hoje a uma lata de Sopa Campbell de Andy Warhol. Mas o Cocteau erótico — o de Le Livre Blanc, de 1927, e dos ulteriores desenhos — continua, na pátria das Luzes, arredio das bibliografias oficiais. E Mapplethorpe, como muita gente sabe, foi censurado (nos anos 1990) no Whitney, que não é exactamente uma feira a dois passos do Bom Jesus. Portanto...

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Terça-feira, Fevereiro 24, 2009

O ÓBVIO ULULANTE


O governo tornou pública a informação de que não vai mexer em fundos públicos para garantir aplicações especulativas de clientes do Banco Privado Português. Nem podia ser de outro modo. As carteiras de investimento são um risco que tem de ser assumido por quem joga esse jogo. O Estado apenas avaliza, através de um consórcio de seis bancos (a CGD, o BCP, o BES, o BPI, o Santander e a Caixa de Crédito Agrícola), um plafond de 450 milhões de euros para garantia dos depósitos. O restante — as aplicações financeiras atingem 1,275 mil milhões de euros — diz respeito a quem aplicou, pelos vistos mal, o seu dinheiro. Foi por terem sido detectados indícios de falsificação de contas e não contabilização de activos, entre outras irregularidades, que o Banco de Portugal suspendeu preventivamente seis administradores do BPP: Paulo Guichard, Salvador Fezas Vital, Fernando Lima, Paulo Lopes, Vítor Castanheira e Guilherme Portela Santos. Era o que faltava que fossem os contribuintes, no seu todo, a pagar as apostas erradas de meia dúzia. A revelação de que «alguns clientes do banco não têm contratos assinados e outros foram levados a pensar que se tratava de depósitos», como alega o seu (deles) advogado, dá a medida do imbróglio. Foi muito bonito enquanto pingou, mas agora que deu para o torto não têm de ser os outros a pagar o falhanço.

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Os três ironistas


A escrita oficial portuguesa está cada vez menos cinzenta. Depois dos ofícios marinettianos de Margarida Moreira, chegou a vez do humor surpreendente de um trio bracarense (infelizmente de nomes desconhecidos), que se serviu de um arrojado arsenal retórico para elaborar um auto de acusação. Graças ao sofisticado domínio da ironia, talvez apenas com paralelo na célebre proposta de Jonathan Swift, conseguiram declarar, sem vestígio de um sorriso a aflorar­‑lhes os rostos fardados, que apreendiam vários exemplares de um livro por causa das imagens pornográficas da capa. Por esta altura, os três humoristas devem estar ainda a festejar o sucesso da sua investida, tão convictamente representada que não foi possível a quase ninguém perceber que se tratava de uma paródia. Como escreveu algures Pessoa, a ironia mais bem conseguida é aquela que, não sendo desmentida pela realidade exterior, apenas se revela pela evidente impossibilidade de ser tomada a sério, ou seja, pelo facto de se constituir como demasiado absurda a concretização do que era proposto na referida ironia. Feliz a cidade, ou o país, que dispõe de escritores de tão alto recorte, como é o caso dos três excelsos artistas de Braga.

Segunda-feira, Fevereiro 23, 2009

PENN, OF COURSE


Nenhuma surpresa, excepto a espanhola da direita — no seu lugar devia estar Viola Davis, pelos dez minutos decisivos de Dúvida — e o extravagante jackpot de Danny Boyle. Vou ter de voltar a Quem quer ser bilionário?, pois, à primeira, aguentei pouco mais de meia hora; da próxima irei munido de carvedilol.

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Domingo, Fevereiro 22, 2009

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. A sociologia da literatura tem muito que se lhe diga. A rapaziada que começou a escrever versos anteontem não se lembra, mas Maria Teresa Horta (n. 1937) era mais famosa em 1973 do que Al Berto em 1996 ou Margarida Rebelo Pinto em 2006. Não admira: a Teresa era uma mulher bonita, dava nas vistas, fazia cineclubismo e, sendo feminista, punha o clitóris em letra de forma: «Eis na flor / o nervo mais antigo / na boca dela o botão dos lábios // Centro do gozo no lugar / mais íntimo // Lugar do corpo / de me vir a nado // Cisterna / cisterna / de todo o orgasmo». Um dia, por causa de Novas Cartas Portuguesas (1971), que escreveu a meias com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno, a imprensa internacional, incluindo a de língua inglesa (e Ms. Sontag), deu eco ao processo em Tribunal Plenário a que a obra deu azo. Outros tempos. Com a “revolução” de 74, a sopeirização dos costumes desvalorizou tais ousadias. E como a malta nova enjoa com facilidade, os maneiristas de pé-quebrado vivem o seu momento de glória. Isto para dizer que a poesia, como os vinhos, tem fases. Resumindo muito, Maria Teresa Horta saiu pela esquerda baixa quando a assepsia tomou conta da cena literária. Agora, a Dom Quixote deu à estampa a sua Poesia Reunida, grosso volume de 850 páginas que colige os dezoito livros de poesia publicados entre 1960 e 2006 (além destes, a Teresa também publicou narrativas em prosa). Poesia Reunida tem prefácio de Maria João Reynaud, que endossa a Bataille a definição do erotismo da autora: «uma imensa aleluia perdida num silêncio sem fim». Uma excelente oportunidade para voltar a Maria Teresa Horta.


Sabe o que é o Moblig...? Espreite aqui para conferir. Não é um mero contador de visitas. É um filtro, digamos, de representatividade (a partir de um espectro de critérios fixos). Uma boa surpresa ter descoberto que ocupamos a 6.ª posição no respectivo Top Blogs.

O tempo passou sem que tenha agradecido as nomeações dos bloggers que nos distinguiram com os Prémios Dardos ou nas listas Destes é que eu gosto... e cadeias similares. Eu sei, o desleixo é uma coisa muito feia. Mas acontece. Os amigos sabem que a escolha calou fundo. Os outros ficam a saber. Para não retribuir galhardetes, destaco aqui dois blogues que raramente cito, cuja companhia não dispenso: O Jansenista e o Berra-Boi. Distantes da vozearia de regra, O Jansenista e o Berra-Boi são espaços de bom gosto, sensibilidade e bom senso. Parece pouco? Pelo contrário. Não sei quem é o Jansenista, nem isso importa. Com ele partilho leituras, o gosto da viagem e uma certa concepção da arquitectura do mundo. O Francis C. Afonso sei perfeitamente quem é, e gostava de o ver um dia a expor as suas fotografias onde muitos pudessem avaliar o seu valor.

Um novo sítio da rede PNET. Desta vez o PNetPress.

Francisco José Viegas: «Uma coisa é o relacionamento do Estado português com o Estado venezuelano; outra coisa a comunhão de pontos de vista entre um partido europeu e um caudillo latino-americano. Que se saiba, não é o PS a negociar fornecimento de petróleo e de produtos alimentares nem a defender os direitos da comunidade portuguesa na Venezuela — isso cabe ao Estado português. O convite para o congresso de um partido supõe algum tipo de solidariedade ideológica, coisa que não se sabia que existia entre o PS e o PSUV. Ficamos cientes. Mas não é uma boa notícia.»

JMF: «[...] A fundação Pingo Doce/Barreto parece querer fazer o caminho inverso. É contra. Por definição, é contra. Pode ser um caminho interessante, mas duvido. Insisto: este tipo de fundações, feitas à base de doação de dinheiros ganhos à nossa conta, deveriam guiar-se por princípios de bem comum e, por isso, estarem abertas aos contributos da sociedade civil, mas também dos poderes, enfim, de todos. Sem preconceitos e sem espírito de trincheira. Assim, e tendo em conta os escritos de Barreto e as declarações mais recentes de Soares dos Santos, parece-me que, em vez de erigirem uma fundação, ficar-lhes-ia mais barato fazer um serviço de recortes de imprensa.»

Tomás Vasques: «[...] Eu sei que, por exemplo, o BE gostaria de ter a presença de Hugo Chávez no seu congresso na esperança de que os coelhos se reproduzissem muito mais. Mas Chávez não se deu a essa incómodo. Também sei que no PS há quem pense que a presença de Hugo Chávez no congresso dos socialistas é um “trunfo” contra o crescimento eleitoral do BE. Por isso, convidaram-no. É um erro. Um erro crasso. [...] A ser verdade que Chávez foi convidado para assistir ao congresso do PS, desde o aeroporto até ao aeroporto, o congresso do PS vai ser o congresso de Hugo Chávez.»

Vital Moreira: «A provar-se a verdadeira “fraude organizada” que aparentemente era o BPN, o Banco de Portugal pode não sair incólume da acusação de não ter feito tudo o que devia em matéria de supervisão. Todavia, o que não pode consentir-se é que as prováveis “falhas de regulação” sirvam para ilibar as falcatruas dos dirigentes do banco, nesta altura evidentes, muito menos para inibir o poder sancionatório do regulador. O caso torna-se intolerável, quando esse “argumento” é utilizado pelos próprios prevaricadores, alegando que a supervisão devia ter suspeitado das suas vigarices. Um dias destes ainda veremos um ladrão alegar a sua inocência num assalto que praticou, invocando que o guarda da casa não deu pela sua entrada. Haja decência!»

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LAGOA HENRIQUES 1923-2009


Morreu ontem à noite o escultor Lagoa Henriques, autor, entre outras, da estátua de Fernando Pessoa que vemos ao alto e ocupa a esplanada da Brasileira do Chiado. Natural de Lisboa, Lagoa Henriques foi professor das Escolas Superiores de Belas-Artes do Porto (1959-66) e de Lisboa (1966-93), depois de ter vivido alguns anos em Milão.

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Sábado, Fevereiro 21, 2009

AS COMISSÕES


Julgo não andar longe da realidade se disser que a maioria das pessoas desconhece as consequências das audições parlamentares de inquérito. Eu, por exemplo, não sei quais possam ser. Um indivíduo, seja ele qual for, é ouvido em sede de comissão parlamentar. Relata crimes de que teve conhecimento (v.g., declarações recentes de António Franco, ex-administrador da Sociedade Lusa de Negócios, responsável pelas operações entre o BPN e o Banco Insular), nos quais teve parte activa, ou não, mas que não ilude. O seu testemunho cai em saco roto? O Ministério Público é obrigado a actuar, ou pode fazer de conta? Caso a denúncia tenha sido feita ao MP antes da audição parlamentar, o carácter aberto das comissões de inquérito, largamente publicitadas, não colide com o segredo de justiça? São dúvidas razoáveis. O cidadão comum interroga-se sobre se os deputados têm competência equivalente aos magistrados do MP. Porque não se trata de avaliar politicamente. Trata-se de conferir casos de polícia: saber se A ou B meteu dinheiro ao bolso, quanto, quando, como e porquê. Ainda agora, Manuel Meira Fernandes, outro administrador da SLN, revelou que «vários administradores e ex-administradores do BPN receberam pagamentos de milhões de euros em numerário levantado do próprio banco, mas que os movimentos não ficavam registados nas contas», frisando que essas importâncias não correspondiam a salários, mas sim a pagamentos por fora. Não é extraordinário? Já agora, face a outros casos, o silêncio do MP significa o quê?

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Sexta-feira, Fevereiro 20, 2009

AS TAXAS


Vai por aí um grande desassossego com as taxas moderadoras na saúde. Não conheço o diploma do PS, nem conheço os diplomas da oposição. Por aquilo que leio e oiço nos media, o primeiro parece querer alargar o seu âmbito aos internamentos, e os outros abolir as taxas tout court. Pois, eu também preferia não pagar impostos! Mas por enquanto ainda vivemos num país que não é um offshore. Desde 1976 (com as alterações de 1979, 1993 e 2002) que o Serviço Nacional de Saúde é uma bandeira dos sucessivos governos. Mas nenhum foi capaz de moralizar a coisa. Onde é que eu quero chegar? À profunda injustiça que significa tratar por igual quem nada tem e quem muito pode. Dito de outro modo, o SNS presta o mesmo tipo de cuidados ao contribuinte com um rendimento anual ilíquido de 2800 euros (200 vezes 14) e ao contribuinte com um rendimento anual ilíquido de 840 mil euros (60 mil vezes 14). Com a agravante de que os presta com rapidez a alguns milhares de happy few, relegando os outros (a maioria) para filas de espera sem fim à vista. Isto é assim há mais de trinta anos. Quem conhece os médicos certos safa-se, quem não conhece lixa-se. A ideia de que os ricos e os poderosos vão para o privado é uma falácia. Os ricos e os poderosos, quando têm problemas sérios, vão para os hospitais públicos onde são tratados como ricos e poderosos. No tempo das clínicas, nenhuma estava equipada como qualquer hospital civil. Agora que há hospitais privados, bem equipados, os seguros de saúde e os protocolos com a ADSE começam a desviar alguns Vip’s dos hospitais públicos. Mas, numa unidade do Estado, nada impede a vendedora ambulante de pagar a taxa exigida ao CEO de uma grande empresa. Assim o CEO resolva ir para Santa Maria ou para o Curry Cabral porque trata por tu os respectivos directores clínicos. A mim parece-me imoral. Isto para dizer que o problema das taxas tem muito por onde pegar. Deve haver isenções? Pois deve. Mas quando falo de isenções estou a pensar nos que não têm condições de pagar, devendo ficar isentos, e nos que podem pagar, devendo pagar por inteiro (sendo indiferente que o façam por interposto seguro). Voltando ao espírito das taxas moderadoras, relato um episódio verídico, recente: alguém precisava ser operado às cataratas; não tem seguro; não é beneficiário da ADSE; o rendimento anual ilíquido do agregado familiar (duas pessoas) é inferior a 7 mil euros; o médico insiste na urgência da operação; pode escolher a fila de espera ou pagar duzentos euros para ter acesso, no espaço de uma semana, a uma unidade privada. Escolheu pagar. Foi operado com prondidão. Sim, eu sei, para muita gente os 200 euros são uma miragem. Mas também há muitos que arranjam sempre dinheiro para o popó e a casa no Algarve, e arrancam os cabelos com as taxas moderadoras. Já vai sendo altura de pôr ordem na questão.

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Margarida Moreira, admirável escritora futurista


Não conheço a qualidade literária dos outros directores regionais de educação, mas, se o padrão for o da senhora que ocupa o cargo a norte deste país, teremos talvez aí a real vanguarda da escrita em língua portuguesa. Verdadeiras palavras em liberdade, como propugnava Marinetti, quando, no Manifesto Técnico da Literatura Futurista (1912), afirmou ter sentido «a inanidade ridícula da velha sintaxe herdade de Homero» e experimentado um «desejo furioso de libertar as palavras, tirando­‑as para fora da prisão do período latino». Ah, como poderia ele ter sonhado que, quase um século depois desse texto seminal, iria encontrar uma discípula tão fervorosa como Margarida Moreira (cuja candidatura a um prémio literário, nunca em categoria inferior aos dos PEN Clube, quero desde já propor)? Não é verdade que o ofício acima reproduzido (clique para aumentar, por favor) é, finalmente, a consagração de uma arte verbal que vem colmatar a ausência de um grande escritor futurista? Depois de outra pérola de idêntico valor, a notável Margarida Moreira está, para nossa glória, apta a subscrever as palavras do seu mentor italiano no manifesto já citado: «A sintaxe era uma espécie de código abstracto […]. A sintaxe era uma espécie de intérprete ou de cicerone monótono. É necessário suprimir este intermediário […]». Está a consegui­‑lo.

NÃO SE FAZ


O episódio do carnaval de Torres Vedras tresanda por todos os lados. O indivíduo que fez a queixa, a procuradora que actuou sem primeiro ver o objecto do crime (diz ela que se «baseou numa fotografia desfocada»; olha se alguém se lembra de fazer o mesmo com um assassinato encenado...), a insistência no computador Magalhães. Mas a pérola estava reservada para hoje: no Público, a jornalista Romana Borja Santos conclui a reportagem dizendo que «Até ao fecho desta edição não foi possível contactar o Ministério da Educação.» O Ministério da Educação? Então e o Obama?

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Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009

Uma boa escolha


A escolha de Nuno Carinhas para director artístico do Teatro Nacional São João, no Porto, é uma boa notícia. Trata­‑se de uma evidente solução de continuidade, pois Nuno Carinhas é talvez o encenador que, à excepção de Ricardo Pais, mais trabalhos tem apresentado nos palcos desta instituição nacional (e não portuense, como tantas vezes, de modo errado, se afirma), entre os quais se contam, por exemplo, O Tio Vânia, de Tchékhov, ou Todos os que Falam, de Beckett. Isto significa que não se deverá repetir o equívoco que foi a passagem de José Wallenstein pelo TNSJ. Não terá sido ainda a escolha por concurso aberto a encenadores, como propusera Ricardo Pais, mas o director artístico cessante teve, naturalmente, uma palavra a dizer nesta decisão. Assim sendo, a estreia de Tambores na Noite, de Brecht, a 20 de Março, receberá a atenção especial decorrente de ser a primeira encenação de Nuno Carinhas como director artístico do São João. Falta agora a informação sobre o novo elenco administrativo, o que, convenhamos, não é um problema de somenos, pois é aí que se começam a criar as condições para o sucesso do trabalho em palco.

QUAL RESPEITABILIDADE?


Hoje, no Diário de Notícias, Maria José Nogueira Pinto escreve sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Às tantas, diz a antiga deputada do CDS-PP: «[...] É certo que pessoas do mesmo sexo vivem em união de facto e não há que escamotear essa realidade ou desproteger situações que merecem protecção jurídica. Foi para acautelar estas situações que se aprovou uma lei. Recordo-me bem, pois à época era deputada e participei nos trabalhos parlamentares que conduziram à sua aprovação. Afinal essa lei não serviu para nada, como se vê, porque para os que então a queriam o casamento surge, agora, como a única resposta aceitável. [...]» Tem razão num ponto: a Lei n.º 7/2001, de 11 de Maio, não serve para nada. Não serve para nada porque não acautela aspectos fundamentais da vida em comum: pensão de alimentos para o cônjuge sobrevivo, direito sucessório, usufruto da morada de família sem o actual limite de cinco anos, reconhecimento do vínculo familiar em hospitais e prisões, etc. Decerto não por acaso, a bancada parlamentar do PS prepara neste momento um diploma com vista a colmatar essas (e outras) lacunas. A ver vamos.

Voltando ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, diz ainda Maria José Nogueira Pinto: «Na busca de um estatuto de respeitabilidade [sic], os homossexuais exigem um símbolo suficientemente forte para afastar os fantasmas da diferença, da discriminação implícita, de uma situação apenas consentida, do medo da homofobia, da suposição do desprezo, da condescendência hipócrita.» Eu sei que há, e percebo que haja, homossexuais desejosos de casar. Mas não é com certeza para evitar discriminação ou receio de actos homofóbicos. Estão a ver um operário do Vale do Ave a meter baixa médica para prestar apoio domiciliário ao marido? Os homossexuais querem poder casar para serem cidadãos de pleno direito (incluindo não querer fazê-lo). Os homossexuais querem poder casar para terem acesso ao patamar de reconhecimento simbólico reservado aos heterossexuais. Tão simples como isto.

Estou em crer que as famílias de que Maria José Nogueira Pinto é o epítome (no plano formal isto é um elogio), não se casam por causa de nenhum hipotético estatuto de respeitabilidade. Casam porque querem. Ou será que estou enganado?

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Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009

ELEIÇÕES NO PEN: OS NOMES


Como divulgado aqui, realizam-se no próximo dia 3 de Março as eleições para os corpos gerentes do PEN Clube. Em princípio haverá duas listas concorrentes.

Uma liderada por Teresa Salema, em nome da “solução dinástica”, como lhe chama Maria Alzira Seixo: «A lista dos Corpos Gerentes que a direcção cessante apresenta [...] liderada por Teresa Salema [...] não me parece adequada [...] sancionam a “dinastia” até agora vigente, e de algum modo prolongam [...] o “mandarinato”.»

Outra liderada por Rui Costa, que tem a seguinte composição:


ASSEMBLEIA-GERAL
Nuno Júdice [Presidente], Luiz Fagundes Duarte e Rui Lage.

DIRECÇÃO
Rui Costa [Presidente], Filipa Melo, Rui Cóias, Maria Alzira Seixo, Ivo Machado, Luís Filipe Castro Mendes, Carlos Nogueira Fino e Paulo José Miranda.

CONSELHO FISCAL
Isabel Pires de Lima [Presidente], Fernando Pinto do Amaral, José Viale Moutinho, António Rebordão Navarro, Eduardo Bettencourt Pinto e Miguel Miranda.


É notória a representação de várias gerações e sensibilidades estéticas e políticas. Isto dito, espera-se que o PEN divulgue, como lhe compete, esta informação. Quanto sei (sou membro) ainda não o fez.

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Terça-feira, Fevereiro 17, 2009

Segundo aniversário


As comemorações do segundo aniversário da única revista portuguesa de artes performativas já começaram. Na passada sexta­‑feira, dia 13, a montra e a galeria da Fábrica Features, no edifício Benetton, ao Chiado (Lisboa), apresentaram uma instalação que tem por objectivo levar o público a conhecer os números anteriores da Obscena, oferecendo ainda, a quem adquirir um artigo na loja, um cd-rom com todos os exemplares da revista em pdf. Dois dias depois, na FNAC de Viseu, em colaboração com o Palácio do Gelo e com o apoio da EPSON e da Kameraphoto, foi inaugurada uma instalação de fotografia que recupera alguns dos trabalhos publicados ao longo das várias edições. Será a primeira de onze instalações, que terão lugar, até 18 de Julho, em Almada, Aveiro, Braga, Bragança, Coimbra, Covilhã, Faro, Matosinhos, Montemor­‑o­‑novo e Vila do Conde, em colaboração com diferentes teatros, galerias e livrarias, por vezes no âmbito de conhecidos festivais.
Entretanto, no próximo dia 23 de Fevereiro, chegarão às bancas as 100 páginas do número 18 da Obscena, que incluem entrevistas a Slavoj Žižek, Hans­‑Thies Lehmann, Paul Ardenne, Dimítris Dimitriádis e Hans-Ulrich Gumbrecht, para além de artigos de e sobre Jon Fosse, Jérôme Bel e Jacques Rancière. Este número da revista dirigida por Tiago Bartolomeu Costa incluirá ainda o necessário balanço das políticas culturais desenvolvidas nos dois últimos anos, reflectirá sobre o Ano Internacional para a Criatividade e Inovação e discutirá os modelos de circulação das obras de arte da responsabilidade do Estado. Haverá ainda uma análise do fenómeno Britney Spears, o testemunho de um grupo de portugueses presente nos recentes conflitos da Grécia, a pré­‑publicação de uma nova tradução de Sobre o Teatro das Marionetas (da responsabilidade de José Miranda Justo), de Heinrich von Kleist, e uma reflexão sobre as possíveis ligações entre a pornografia e as artes performativas. Os leitores estão de parabéns.
Adenda: Quando disse que a Obscena era a «única revista portuguesa de artes performativas», não pretendi desvalorizar o trabalho de outras publicações periódicas, como, por exemplo, a Sinais de Cena ou a Artistas Unidos. O que acontece é que estas revistas se dedicam exclusivamente ao teatro, em âmbito mais alargado, como a primeira, ou em articulação com o trabalho de uma companhia, como a segunda. Em todo o caso, nenhuma delas se ocupa de outras disciplinas que pertencem às artes performativas, aqui se marcando a diferença em relação à Obscena, que sempre pretendeu ser mais abrangente nesse domínio, com a dança, a música ou as artes plásticas, entre outras formas de expressão ligadas ao acto performativo, a encontrarem aí um espaço de reflexão. Tal facto – insisto – não significa qualquer desvalorização de outros projectos, mas apenas a evidência das suas singularidades.
Aproveito ainda para referir que a instalação no edifício Benetton, em Lisboa, prossegue até ao dia 28 de Fevereiro.

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

DE PERNA ESTENDIDA


Em boa companhia.

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Domingo, Fevereiro 15, 2009

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. O brasileiro João Ubaldo Ribeiro (n. 1941) costuma ser citado a propósito de um romance libertino cuja venda foi interdita numa conhecida rede portuguesa de supermercados. Ignorância ou sacanagem? Mas o Prémio Camões 2008 tem mais por onde pegar. Em Viva o Povo Brasileiro (1984), por exemplo. O romance vai de 1647 a 1977, não deixando de fora nenhum episódio relevante da história do Brasil que tenha ocorrido nesse lapso de tempo. Como não podia deixar de ser, mete tugas, holandeses, negros e índios ao barulho, gente de todos os estratos, incluindo padralhada, porque sem essa mistura era uma vez a identidade brasileira. O essencial da intriga passa-se em Itaparica (Bahia), terra natal do escritor. Mas não se pense que a cronologia é linear. Vai ter de dar muito salto para ter uma visão de conjunto. As 846 páginas podem desencorajar alguns, mas o esforço vale bem a pena.



Depois de Abel Barros Baptista, A. M. Pires Cabral, Arnaldo Saraiva, Carlos Mendes de Sousa, Fernando Cabral Martins, Frederico Lourenço, Gonçalo M. Tavares, Gustavo Rubim, Helena Buescu, Jorge Fernandes da Silveira, José Emílio-Nelson, Luís Maffei, Luís Mourão, Mário de Carvalho, Nuno Júdice, Pedro Eiras, Rita Taborda Duarte e Rui Lage, chegou a minha vez de responder ao inquérito OLAM sobre “o melhor” / “o mais importante” livro de poesia e ficção do século XX português.


João Pinto e Castro: «Louçã afirmou ontem no Parlamento — eu ouvi — que o governo já gastou 1% do PIB para salvar o BNP. Que verdade há nisto? Eis os factos. A nacionalização do BNP não envolveu o pagamento de qualquer indemnização aos seus accionistas. A CGD concedeu-lhe posteriormente um empréstimo para fazer face às suas dificuldades de liquidez. Quanto dinheiro foi então pago pelo Estado ao BNP ou aos seus accionistas? Nenhum. Nada. Zero. Qualquer pessoa familiarizada com a diferença entre doação e empréstimo entende isto; mas o Dr. Louçã, que é professor de economia, finge não compreender. Alguns apoiantes do Bloco de Esquerda defendem Louçã argumentando que o Governo ainda não deu, mas vai dar. Ao melhor estilo da imprensa tablóide, baralham factos com previsões. Terão razão? Esta especulação recrudesceu quando se soube que o BNP tem um “buraco” de 1.800 milhões de euros. “Cá está!”, dizem eles, “Vai ser o Estado, logo os contribuintes, a tapar o buraco, visto que os activos do banco são insuficientes para resolver o problema”. Qual a origem das dificuldades financeiras do BNP? Aparentemente, o banco endividou-se para adquirir activos financeiros que entretanto se desvalorizaram fortemente. Assim sendo, não está em condições de fazer face aos encargos contraídos. Significa isso que não resta outra solução senão o Estado pagar essas dívidas? Para esclarecer este ponto seria indispensável conhecer-se em detalhe a estrutura da dívida, ou seja, como foi ela financiada e quando terá que ser paga. Falta também saber-se quais dos activos financeiros detidos pelo BPN são susceptíveis de virem a valorizar-se no futuro e quando isso acontecerá. Por outras palavras, não é possível estabelecer-se neste momento se a operação de nacionalização do BPN virá a saldar-se por um lucro ou por um prejuízo. O Dr. Louçã e o Prof. Karamba, porém, já sabem. Mas há outro ponto. O Dr. Louçã mostra-se muito alarmado com o buraco de 1.800 milhões de euros, embora insista em negar que o risco sistémico justificasse a intervenção do Estado. Quando lhe dá jeito à argumentação, o buraco é grande; caso contrário, é pequeno. Isto permite-lhe ignorar duas coisas. Primeiro, que os tais 1.800 milhões de euros são devidos a outras instituições, e que, se o BPN não os pagasse, isso teria consequências. Segundo, e ainda mais grave, o BPN tem 5.500 milhões de euros de depósitos, também eles titulados por empresas e particulares. Tendo em conta que o Estado português garantiu todos os depósitos bancários até ao limite de 100 mil euros, parece lógico admitir-se que a pura e simples falência do BPN teria sempre encargos mais elevados para os contribuintes, mesmo no caso extremo de ser necessário pagar por inteiro os tais 1.800 milhões de euros. A finalizar, eu gostaria que o Bloco de Esquerda me explicasse qual a sua opção preferida para lidar com o problema do BPN: a) Não fazer nada, como pretende agora o PSD e sustentam os republicanos nos EUA? / b) Socorrer os bancos sem que o Estado use a legitimidade que essa intervenção lhe confere para apertar o controlo sobre a sua gestão, como Obama está a fazer? / c) Nacionalizar os bancos insolventes, como fizeram, entre outros, os governos inglês e português? / Nada disso. O meu prognóstico é que o Bloco optará antes por convocar uma manifestação de protesto contra os banqueiros. Que falta de paciência para aturar garotos.»

Maradona: «Gostei muito do texto do Francisco Sarsfield Cabral no Público de hoje (ontem). Fala sobre a Irlanda e, curiosamente, fala muito sobre nós. Um exemplo: de país e de artigo.»

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Sábado, Fevereiro 14, 2009

NÃO VÁ O DIABO TECÊ-LAS!


O meu amigo Pacheco Pereira dá hoje à estampa no Público um extenso artigo orwelliano: Exercício de futuro próximo com base na lei de Murphy. Recomendo a sua leitura ao som dos Pink Floyd, em particular The Wall. Breve excerto:


«O Governo X encontra uma situação económica, financeira e social sem paralelo na vida do país, a não ser no pós-1918. No final de 2009, ou no início de 2010, toma posse o Governo X que resultou de eleições legislativas meses antes. Um longo processo de formação do governo explica-se pelo facto de se tratar de um governo minoritário, que pode apenas contar com uma maioria parlamentar que resulta de um acordo político precário, com franjas políticas instáveis, obtido a muito custo com intervenção directa do Presidente da República em nome do “interesse nacional”. É uma espécie de “governo de salvação nacional” sem que ninguém o sinta com legitimidade para tal [...] Volta a falar-se de ditadura e de golpes militares. Centenas de milhares de trabalhadores estão no desemprego e já passaram a data-limite para receberem o subsídio a que tinham direito. [...] O Governo X encontra-se com uma emergência social. Herdou uma situação incomportável e que não pode em nenhuma circunstância continuar: milhares de salários em várias indústrias estavam a ser pagos pelo Governo anterior com o disfarce de “formação”, por períodos que coincidiam com o ano eleitoral. Não há nenhuma possibilidade de o continuar a fazer no estado em que estão as contas públicas. [...] Para o Governo X não há muitas soluções para além de um programa muito severo de austeridade, com um aumento drástico de impostos, e uma redução acentuada do nível de vida. [...] A radicalização política do partido no anterior Governo, impulsionada por um primeiro-ministro acossado e arrogante, impedira qualquer viragem política, porque este “não queria perder a face”. Políticas erradas e ineficazes, em vez de serem corrigidas, eram premiadas com mais e mais dinheiro, numa tentativa de as salvar pela overdose. O Governo tornara-se errático e orientava-se pelas estrelas. O dinheiro fluía para um vazio, enriquecia quem não devia, salvava o património de quem não devia e desbaratava o erário público sem qualquer efeito útil. O período que precedera as eleições que dera origem ao Governo X tinha sido de um desperdício eleitoral sem paralelo, a pretexto da “crise”, que o primeiro-ministro cessante tinha prometido não chegar. Na fase final do seu mandato, o mesmo primeiro-ministro tinha inflamado o espaço público com frases incendiárias contra os “ricos” e promessas sobre promessas e inúteis novas divisões, num país que já tinha tantas. Quem veio a seguir encontrava tudo minado e as sementes de violência plantadas cada vez mais fundo. No dia da posse do Governo X, toda a esperança estava perdida. Tudo o que podia ter corrido mal correra mal.»


Porquê o pós-1918, se temos a grande crise de 1981-85 tão perto? (Quando, após a derrocada da AD, no auge do Bloco Central de Soares e Mota Pinto, minado pela Fronda de Eanes por interposto PRD, as classes médias, médias mesmo, tinham de usar expedientes para comprar coisas tão prosaicas como bacalhau e arroz.) Será o artigo uma confissão antecipada da derrota do PSD? Ou será que uma sua hipotética vitória faria duplicar a construção e venda de villas de luxo na Costa de Prata? E as filas à porta do Gambrinus darem a volta ao quarteirão? E dois terços dos actuais desempregados obter emprego? Cá por mim, acho que a chave está aqui: «Quem veio a seguir encontrava tudo minado e as sementes de violência plantadas cada vez mais fundo.» Nunca é cedo para prevenir... o embaraço que seria a inopinada chegada do PSD ao governo.


[Ao alto, Bread Line. No one has starved, de Reginald Marsh, 1932.]

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Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009

CORRADO AUGIAS


Hoje no Público:


A história de Nova Iorque parece ter entrado nas prioridades da edição portuguesa. Depois de Nova Iorque, Cidade Fantasma, de Patrick McGrath, surge agora Os Segredos de Nova Iorque, do jornalista italiano Corrado Augias (n. 1935). As duas obras inserem-se em projectos próprios: o livro de McGrath na colecção que a Bloomsbury dedica a escritores e cidades, editada em Portugal pela Asa; o de Augias numa série de volumes que o autor escreveu sobre várias cidades. Entre nós, Os Segredos de Roma foi traduzido e publicado pela Cavalo de Ferro em 2007. A principal diferença entre os dois é que McGrath escreve numa perspectiva pós 11 de Setembro (o seu livro é de 2005), ao contrário de Augias, que aproveita a experiência de correspondente do jornal La Repubblica, nos anos 1980, publicando o livro em data anterior ao ataque ao World Trade Center. Como quer que seja, são pontos de vista nos antípodas um do outro.

Corrado Augias parte do conceito de melting pot para explicar a alma da grande metrópole americana. À laia de contraditório, cita Baudrillard: «Porque é que as pessoas vivem em Nova Iorque? Elas não têm aí qualquer relação entre si. Mas há uma electricidade interna que emana da sua pura promiscuidade. [...] Não há qualquer razão humana para lá viver, mas apenas o êxtase da promiscuidade.» De facto, negros, judeus, irlandeses, hispânicos, muçulmanos, russos, italianos, chineses, etc., todos adoptam Nova Iorque como segunda pele. E nenhum europeu ignora que existe uma Nova Iorque «onde as formalidades não existem e tudo é permitido», lado a lado com outra Nova Iorque «onde as formalidades são obrigatórias e inderrogáveis». Por isso, «toda a estupefacção se dissolveu há muito tempo no hábito». Até aqui, estamos no domínio do óbvio. Mais controversa será a tese de que Nova Iorque é refractária ao erotismo: «Nova Iorque é certamente um lugar cheio de sexo, de situações, de estímulos ligados à sexualidade; mas o erotismo é outra coisa.» Nada de perífrases, portanto.

Augias segue o enquadramento histórico de factos e pessoas. Não admira por isso que a narrativa comece em Paris, no atelier de Fréderic-Auguste Bartholdi, o escultor a quem se deve a Estátua da Liberdade que domina a baía de Nova Iorque. Os sentimentos filo-americanos da intelectualidade francesa de Oitocentos fazem com que Bartholdi arrisque a versão moderna do Colosso de Rodes. A circunstância de comungar o ideal maçónico dos pais fundadores da nação americana é um incentivo precioso. Quando, finalmente, a 21 de Maio de 1885, a estátua (desmontada em fragmentos catalogados, distribuídos por trezentas caixas) deixa a França a bordo de um navio da Marinha francesa, escoltado por um cruzador americano, essa travessia do Atlântico culmina quinze anos de esforços políticos, financeiros e diplomáticos insuficientes para levar Bartholdi a desistir do projecto.

Havendo muito por onde ‘pegar’, Augias escolheu uma colecção de casos particulares, ou, dito de outra forma, uma colecção de segredos, para com eles contar a história da cidade. Os de Evelyn Nesbit (1884-1967), por exemplo. Evelyn tornou-se corista da Broadway não tinha ainda 16 anos. Contar a sua história é falar de Stanford White, o arquitecto que moldou Nova Iorque na viragem do século XIX para o século XX, e de Harry K. Thaw, o milionário com quem foi casada (e o assassino de White). Em plano secundário, John Barrymore também faz parte da intriga. A história de Evelyn encheu páginas de jornais, tendo inspirado artistas, poetas (Keith Maillard escreveu Dementia Americana, um longo poema narrativo) e romancistas, sendo E. L. Doctorow o mais aclamado, porque Ragtime (1975) foi um sucesso: em livro, na Broadway e, mais tarde, na versão de Milos Forman para cinema. Por falar em filmes sobre a rapariga do baloiço vermelho, Richard Fleischer pegou na história logo em 1955 (The Girl in the Red Velvet Swing), e Claude Chabrol repetiu a dose em 2007.

Mas nem só de gossip vive o livro. Edgar Allan Poe, que escreveu O Corvo (1845) em Nova Iorque, dá azo a novas revelações. O mesmo se diga de Nero Wolfe, Marilyn Monroe, Arnold Rothstein (o gangster que levou Scott Fitzgerald a escrever The Great Gatsby em 1925), Dorothy Parker, «a miúda mais brilhante da cidade» (como lhe chamou Edmund Wilson), o nascimento da Broadway, Irving Berlin, etc. As histórias estão bem encadeadas, a informação é rigorosa e a escrita fluente. Isso garante uma leitura agradável, mas longe de ser exaltante, sem o brilho das mil luzes da cidade que nunca dorme. Em todo o caso, tem o seu quê de irónico que um autor de formação marxista (Augias foi deputado ao Parlamento Europeu nas listas do PDS) revele tão grande fascínio pelo tipo de segredos em que apoia o livro.


Nova Iorque pré-11/9, in Ípsilon, 13-2-2009, p. 48. Três estrelas e meia.

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DOSE DUPLA


O que levará um jornal de referência a publicar, em dois dias seguidos, a mesma notícia? Ontem, Tiago Guilherme publicou no Diário de Notícias uma “peça” sobre a TVI24, o canal de notícias que arranca no próximo dia 26. Sob o título Constança volta a dar cartas, o que pressupõe um artigo sobre a colunista — de que modo e com quem Constança voltará a dar as tais cartas —, o publicista alinhou os nomes da dúzia e meia de futuros colaboradores do novo canal: Vasco Pulido Valente, Rui Ramos, Vital Moreira, Francisco José Viegas, Fernanda Câncio, João Pereira Coutinho, mais uns actores de novela. Hoje, sob o título TVI24 muda a imagem de toda a informação da estação, Paula Brito repete a dose, no mesmo jornal e nos exactos termos do seu colega da véspera. Foi distracção? Para publicidade é muito chocha. E depois não é por nada, mas qualquer almoço com um ou dois happy few revela mais do que o DN avança.

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CITAÇÃO, 152


Vasco Pulido Valente, O regime e o PSD, hoje no Público. Síntese:


«[...] E se Ferreira Leite não for substituída, uma operação agora provavelmente inútil, o problema do PSD acabará por se tornar um problema de regime, porque é difícil imaginar o regime sem uma alternativa de direita. [...] O país pagará caro a fantasia Ferreira Leite e o endémico caos do PSD. Os regimes começam a cair pelos partidos. O dr. Cavaco que se lembre disso.»

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Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

O LEITOR


Stephen Daldry tem dois êxitos no currículo: Billy Elliot (2000) e The Hours (2002). Agora fez The Reader a partir da adaptação do romance de Bernhard Schlink, Der Vorleser (1995), feita por David Hare. Sydney Pollack e Anthony Minghella, dois dos produtores, morreram antes da conclusão do filme, que tem tudo para ser uma “grande obra”, mas fica longe de o conseguir. Kate Winslet continua imbatível em registo pedófilo. David Kross, uma boa revelação, mantém o registo certo até ao fim. Ralph Fiennes e Bruno Ganz, ambos muito bem (como sempre). Sim, há um segredo que é a chave do plot, mas soa a acto falhado. Fora isto, apesar dos pergaminhos, O Leitor é um razoável pastelão.

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Curta­‑metragem sobre Clarice Lispector


aqui tive ocasião de referir o projecto inovador sobre Clarice Lispector que Patrícia Lino concebeu e tem vindo a executar paulatinamente. Agora anuncia­‑se a apresentação da curta­‑metragem realizada por esta aluna da Faculdade de Letras da Universidade do Porto no âmbito do seu trabalho. Intitulada O Mistério segundo C. L., poderá ser visionada no próximo sábado, dia 14 de Fevereiro, às 18h, no Clube Literário do Porto. Na ocasião, será também exposto o trabalho gráfico, composto por fotografias e desenhos, que Patrícia Lino tem realizado sobre a autora de Perto do Coração Selvagem (1943).

Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009

A MOEDA DO TEMPO


Com A Moeda do Tempo, Gastão Cruz (n. 1941) foi o vencedor do Prémio Literário Correntes d’Escritas (20 mil euros), patrocinado pelo Casino local. A decisão foi tomada hoje, por unanimidade, por um júri constituído por Ana Luísa Amaral, Casimiro de Brito, Fernando Guimarães, Jorge Sousa Braga e Patrícia Reis. Entre outras, estavam a concurso obras dos brasileiros Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz, do moçambicano Eduardo White, do espanhol Antonio Gamoneda, e dos portugueses A. M. Pires Cabral, Armando Silva Carvalho, José Agostinho Baptista, Maria Teresa Horta e Nuno Júdice.

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CITAÇÃO, 151


Miguel Gaspar, Problemas de imagem, hoje no Público. Breve excerto:


«[...] E o problema de Manuela Ferreira Leite, ao fim de todos estes meses, continua a ser o de ter muita gente pronta a dar conselhos e pouca gente disposta a ir à luta. O esperado, num país de treinadores de bancada. Para resolver o problema da credibilidade da oposição, era necessário um governo sombra, alguém que seguisse dossiers e respondesse à letra a Manuel Pinho, a Mário Lino, eventualmente mesmo a Augusto Santos Silva. É o que se faz nos países civilizados e permitia [ao] partido mostrar que tem uma política para cada sector. O único risco para o líder, evidentemente, é sair-lhe na rifa alguém pior do que Manuel Pinho, Mário Lino ou mesmo Augusto Santos Silva. Mas reconheço que é difícil fazer um governo sombra com um partido que mergulha na sombra sempre que está na oposição. [...]»

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Terça-feira, Fevereiro 10, 2009

ICÓNICO, DIZEM ELES


Não me lembro de ver ninguém protestar contra a falta de lavagem das ruas, o avanço do mato nas “zonas verdes”, os carros em cima dos passeios e em segunda fila, os buracos do Saldanha e outros sítios menos nobres, as paredes grafitadas, a vandalização dos telefones públicos, a deficiente sinalética do Túnel do Marquês, os ecopontos transformados em lixeiras a céu aberto, etc. Não. Há que ser selectivo. Um hotel no edifício do Tribunal da Boa Hora? Nem pensar! Os argumentos vão da anedota («contribuirá para desertificar a Baixa») à ideologia («edifício icónico, símbolo da liberdade»). Para Mário Soares, é mesmo «uma pouca-vergonha e um acto antilisboeta». A porcaria, já se viu, não incomoda estes preclaros defensores da nossa memória colectiva.

[A foto é de Carlos Medina Ribeiro e foi roubada aqui.]

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Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

COMO TODAS AS COISAS


É impressão minha, ou isto


«Votemos, já que temos a valsa começada, e o nada há-de acabar-se como todas as coisas.» [Mário Crespo, Jornal de Notícias.]


está a pedir aspas? Caso contrário, torna-se um plágio disto:


«[...]
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas
.
[...]»

Reinaldo Ferreira 1922-1959 / Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia

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Questionar a escola


Até ao final desta semana (13 de Fevereiro, para ser mais concreto), ainda se aceitam inscrições para as Derivas de Fevereiro, subordinadas ao tema «Escola: Há Lugar para Novos Criadores?». A série de palestras decorrerá no Auditório da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, nos dias 27 e 28 deste mês, contando com nomes provenientes de áreas bem distintas, desde a literatura à música, passando pelas artes plásticas, pelas novas tecnologias, pelo serviço das bibliotecas ou pelo sector das relações públicas de um teatro nacional. No momento em que a educação está de novo no centro de um debate nacional, em que a crise do ensino voltou a ocupar a atenção da imprensa, dos blogues e do público em geral, este dia e meio de reflexão sobre a importância do cânone nos programas escolares e a aspiração à liberdade criativa afigura­‑se especialmente pertinente. As inscrições devem ser endereçadas à Deriva, editora responsável pela organização do encontro. O programa está disponível aqui.

NONSENSE


Vi, com esforço, o primeiro episódio da mini-série A Vida Privada de Salazar. Como é que a SIC passa aquilo em horário nobre? Onde raio foram os autores do script descobrir a queda na banheira? Que é feito do contexto sociológico e político da época? Partiram do princípio de que é para ser visto por iletrados maiores de 60 anos? Simplesmente desastroso.

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Domingo, Fevereiro 08, 2009

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Pode uma tese de doutoramento em literatura, com enfoque na construção da personagem romanesca, suscitar o interesse de leitores não especializados? Pode. Sobretudo se, fazendo fé em Arnaldo Saraiva, autor do prefácio, devermos a Cristina da Costa Vieira (n. 1973) o «mais extenso e denso estudo português» sobre o assunto. Dividido em cinco grandes áreas — linguística, retórica, narratologia, axiologia e semiologia contextual —, A Construção da Personagem Romanesca (Colibri) chegou às livrarias no fim do ano. Trata-se da versão revista, «e aumentada em alguns pontos», da tese de doutoramento que a autora apresentou e defendeu, em Dezembro de 2005, na Universidade da Beira Interior. O espectro do trabalho é muito amplo: vai de Cervantes a Tolkien, sem esquecer Ray Bradbury ou Margarida Rebelo Pinto (o extenso índice onomástico permite detectar algumas curiosas omissões). Creio que o público comum ganharia com uma exposição menos “tecnicista” de certos trechos. Seja como for, um trabalho de grande fôlego que pode ser lido ao sabor dos nossos autores de eleição.


Sobre as eleições no PEN Clube, marcadas para 3 de Março, Maria Alzira Seixo divulgou o seu apoio à lista liderada por Rui Costa. No essencial, M.A.S. afirma: «A lista dos Corpos Gerentes que a direcção cessante apresenta, a concorrer com a nossa, e liderada por Teresa Salema [situa-se] numa continuidade de “linhagem” que não me parece adequada à instilação urgente, no PEN, de um sangue novo, para um novo vigor, de que a agremiação tanto necessita. Os seus projectos de mudança são sérios [mas] sancionam a “dinastia” até agora vigente, e de algum modo prolongam [...] o “mandarinato” que desde há décadas caracteriza o PEN. Até agora, e apenas em dois dias, posso por mim dar conta dos seguintes apoios recebidos: Eduardo Lourenço, Vasco Graça Moura, Helena Carvalhão Buescu, Carlos Mendes de Sousa e Fernando Pinto do Amaral.» Fica registado.


Está disponível o site Guerra Colonial, cuja importância me dispenso de sublinhar. A despeito de variadas colaborações, suponho (mas isso não é claro a quem acede ao sítio) que seja da responsabilidade da Associação 25 de Abril. É assim que se faz a História.


Henrique Fialho: «Uma cliente aponta para o mais recente número da revista LER e pergunta se pode levar. Respondo-lhe que sim, ao que ela pega num exemplar e guarda-o dentro da mala. São 5 euros, lembro-lhe. Ela pede-me desculpa, retira a revista e volta a colocá-la no expositor de onde a havia retirado. Julgava que era para oferta, diz-me. [...]»

Paulo Gorjão: «Há semanas que se fala nos bastidores do PSD na possibilidade de Rui Rio assumir a liderança do partido sem eleições directas. Independentemente da oposição que pudesse existir a uma solução deste tipo, e não tenhamos dúvidas de que ela existiria e teria peso político, não acredito que Rui Rio aceitasse uma solução desta natureza. Precisamente porque tenho a certeza que não o faria — por razões de princípio e de circunstância — julgo que já deveria ter arranjado um pretexto para se pronunciar e para encerrar o assunto.»

Pinho Cardão: «Francisco Louçã resolveu agora usar de parábolas para melhor difundir a sua mensagem aos crentes. [...] Não tocado ainda por tanta fé, não percebi bem em que é que o trabalho humano se assemelha ao trabalho reprodutor dos coelhos, pelo que não consegui atingir o profundo significado da parábola. E confesso que bem gostaria de ser iluminado pelo mestre para saber o valor que poderá resultar da colocação de dois trabalhadores numa caixa, embora de outras dimensões, claro, mas vazia de ferramentas, equipamentos e meios de produção. [...]»

Tomás Vasques: «Na Convenção do BE confrontaram-se, hoje, a linha marxista-leninista e a linha trotskista. Os marxista-leninistas – a linha minoritária – defendem um entendimento pré-eleitoral com o PCP e que Manuel Alegre rompa com o PS, como condição para o apoio do BE a uma eventual candidatura presidencial. Aliás, no mesmo sentido, rejeitam o apoio a Helena Roseta para a Câmara de Lisboa, argumentando que nesse “peditório já deram”. Por sua vez, os trotskistas — a linha maioritária —, encabeçada por Louçã, aposta forte na estratégia do “entrismo”. [...] É aí que está a “mina de ouro” eleitoral do BE, já que, só por si, não chega lá. Louçã desdobra-se em declarações, intervenções e entrevistas explicando a sua estratégia: não exige a ruptura de Manuel Alegre com o PS para o apoiar nas presidenciais; está disponível para apoiar Helena Roseta e o movimento “cidadãos por Lisboa” à Câmara da capital; exibe Carvalho da Silva na abertura da Convenção e por aí fora. E não quer nada com o PCP porque Louçã sabe que se o PCP entrar lá se vai o domínio do BE na “ampla frente” anti-PS. As 3 eleições deste ano e as próximas presidenciais são muito importantes para o futuro do BE, mas mais importante ainda será o papel de Manuel Alegre, Helena Roseta e Carvalho da Silva nesta estratégia. A história é madrasta: os bolcheviques de ontem passaram a ser os mencheviques de hoje. Os bolcheviques estão, dentro do BE, em minoria. E estes sabem bem, o que os deve irritar ainda mais, que Trotsky era um social-democrata que aderiu aos bolcheviques às portas da revolução de Outubro. Pessoalmente, estou convencido que Louçã vai dar com os burrinhos na água, ou melhor, ele bem tenta fazer coelhinhos fora do BE, mas vão acabar por sair duas notas de 100 euros.»

Vieira do Mar: «Nesta sociedade de informação em permanente mudança e mainãoseioquê, já nem os trolhas são como antigamente. Ontem, ao cruzar-me com um grupo de pessoal das obras que esperava o autocarro na paragem, um deles vira-se para outro, após cuidada observação da minha passante pessoa, e exclama: Ela tem um andar perfeito. “Um andar perfeito”?! “Um andar perfeito”?! É que, apesar da finesse da observação (e até da sua razoável pertinência), e de pela primeira vez não ter sido comparada a um produto comestível ou a um veículo com motor, não sei se ria se chore.»

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Sábado, Fevereiro 07, 2009

ATÉ TU, BRUTUS?


Os números da Eurosondagem que divulguei ontem, e constam da edição do Expresso, são semelhantes aos da Aximage, realizada entre os dias 2 e 5 de Fevereiro, quando o Correio da Manhã fazia manchetes com o Caso Freeport. Os principais resultados da Aximage, hoje publicados no CM e no Jornal de Negócios, são estes:


PS — 38,2%
PSD — 23,8%
BE — 12,0%
CDU — 9,2%
CDS/PP — 7,7%


Mas fazendo a redistribuição de indecisos, passa a ser:

PS — 40%
PSD — 24,9%
BE — 12,6%
CDU — 9,6%
CDS/PP — 8,1%


[Nos resultados brutos, a diferença entre o PS e o PSD sobe de 11,2% para 14,4% entre a Eurosondagem e a Aximage. Com redistribuição de indecisos passa a ser de 16,2%.]

Em quem tem mais confiança para primeiro-ministro?

José Sócrates — 47,9%
Manuela Ferreira Leite — 22,3%



«Manuela Ferreira Leite é a única líder partidária que mereceu uma nota negativa do próprio eleitorado: 9,6%.»

O primeiro-ministro deve demitir-se na sequência do Caso Freeport?

NÃO — 73,4%
SIM — 17,1%


O primeiro-ministro está a falar verdade?

SIM — 42,2%
NÃO — 30,8%


Está em curso uma campanha contra o primeiro-ministro?

SIM — 57%
NÃO — 33,5%


O Presidente da República tem actuado bem no último mês? / 60% acha que sim.

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PÚBIS, FAC & TAMARIZ


Agora que o n.º 77 (Fevereiro) da LER já está na rua, aqui fica a crónica Púbis, Fac & Tamariz, que publiquei na minha coluna Heterodoxias, no n.º 76.



Com relativa surpresa, cruzei-me, no início de Setembro, nos corredores da Faculdade de Direito de Lisboa, com um bando de rapazes em calções. Não foi o facto de em todos caber uma mão-travessa entre o umbigo e o cós que me chamou a atenção. Foi o à-vontade do grupo num sítio que não se confunde com o Tamariz. O à-vontade deles e a indiferença de professores e funcionários. Lembrar-me que, em Julho de 1964, ainda não tinha 15 anos, fui severamente admoestado por um polícia depois de atravessar a marginal do Estoril, entre o Tamariz e as Arcadas, em calções. Um amigo da minha idade, que fez o mesmo na semana seguinte, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, no trajecto entre o Hotel Tivoli e o Teatro Avenida, foi levado para a esquadra, de onde os pais o resgataram após pagamento de multa no valor de 500 escudos, importância equivalente a dois euros e meio, mas que era, à época, o salário de muitos chefes de família. Enfim, azares de adolescentes laurentinos no país de Salazar.

Dez anos passados, na Primavera de 1974, menos de um mês antes da queda de Caetano, nova visita a Portugal, e perplexidades de outra natureza. Rumores de coup d’état davam ânimo aos que engrossavam as filas homéricas que seguiam pelo passeio da Avenida de Roma entre a primitiva Barata e a esquina da Óscar Monteiro Torres: a multidão não cabia na livraria, e o livro de Spínola, Portugal e o Futuro, vendia-se ao ritmo de uma edição por semana. Toda a gente falava de mudança iminente, sem saber ao certo em que direcção, se por iniciativa dos ultras da direita ou dos militares de esquerda. À noite, no Reimar, ali à Rua das Pretas, marinheiros de cepa rija antecipavam a aliança Povo-MFA sob a forma de trocas identitárias (na ausência de iconografia nacional, consultar a obra de Tom of Finland). Foi lá que pela primeira vez encontrei Mário Cesariny e Raul de Carvalho.

Um belo dia, dois ou três antes da revolução, almoço em Seteais. Interdição total de sapatos de tacão alto e camisas de fantasia. Numa época em que trolhas, bancários, jornalistas, empresários, funcionários públicos e profissionais liberais, irmanados pelo pé, mimavam Luís XIV do alto dos seus tacões, o Palácio de Seteais recusava abrir mão das convenções. (Sapatos de homem sem tacão alto quase só os importados de Inglaterra, que se vendiam no Pestana & Brito e no Lourenço & Santos a preços de extorsão.) Para a ocasião, vesti um fato de linho branco e uma camisa de algodão indiano em tons quentes; embora decentes, os sapatos castanhos não eram Church’s. A camisa provocou calafrios. Eu não podia ir para Seteais com aqueles quadrados. Mas ninguém conseguiu que desistisse do espírito Sloane Street. O maître ficou notoriamente sem fôlego, e o almoço foi um sucesso. Hoje passaria despercebido até, ou sobretudo?, em Marco de Canaveses. A rigidez dos códigos duraria mais uma década, começando a ruir por efeito das novelas brasileiras. A net fechou o ciclo.

Petrónio, o Petronius Arbiter de Satyricon, é uma das mais remotas referências em matéria de dress code. Mais perto de nós, Barthes explicou com minúcia a dicotomia entre vestuário-imagem e vestuário-real. Na Moita como em Beijing, o dress code distingue géneros, classes sociais e profissionais, religiões, etnias, a inscrição ideológica, a orientação sexual. Os denominadores comuns atrapalham. Exemplo maior, as mariconeras, assim se chamavam as malinhas de mão que os homens (fossem empregados do comércio, governadores do Banco de Portugal, motoristas da Carris, advogados, polícias de giro, intelectuais, etc.) usaram sem rebuço entre, digamos, 1972 e 1982. De Quito a Kuala Lumpur, as mariconeras eram indissociáveis dos machos, salvo nos países de língua inglesa, creio, mas não vou jurar. Ah! nenhum juiz siciliano dispensava a sua Gucci com fecho dourado e tirinha vermelha e verde. Uma grande trapalhada, por cá também: nos encontros da CIP com a CGTP, mariconeras dos dois lados da mesa.

Tudo isto por causa dos rapazes de púbis entrevisto do primeiro parágrafo.

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LER 77


A LER n.º 77, de Fevereiro, chegou ontem às bancas e livrarias. Veja aqui o que traz lá dentro.

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Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009

E AGORA?


Na sua edição da semana passada, a revista Visão pintou a manta com a famosa carta rogatória do SFO britânico. Na edição hoje posta à venda, a revista informa que, afinal, não foi detectado nenhum buraco financeiro nem qualquer pagamento de luvas pelo Freeport. Chegaram a esta conclusão como? Porque o grupo americano Carlyle, actual proprietário do Freeport PLC, fez um desmentido oficial após auditoria às contas, garantindo essa certeza. A notícia também pode ser lida no Diário Económico.

Por seu lado, a revista Sábado, que na semana passada ajudou à festa, dá hoje o dito por não dito relativamente à citação de alguns factos. Mas é preciso ler os 10 ou 15 mil caracteres da “peça” para encontrar a retractação...

Esperar para ver como as televisões reagem ao desmentido da Carlyle.

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A VIDA COMO ELA É


Efectuada entre 28 de Janeiro e 3 de Fevereiro, isto é, no pico do Caso Freeport, esta sondagem encomendada pelo Expresso, a SIC e a Rádio Renascença, hoje divulgada, deu os seguintes resultados:


PS — 40,3%
PSD — 29,1%
BE — 10,1%
CDU — 8,8%
CDS/PP — 6,9%



Moral da história: uma percentagem significativa de portugueses não vai em cantigas. Tanto assim é que, em matéria de escrutínio pessoal (o índice de confiança), a apreciação que fazem dos líderes partidários dá estes extraordinários resultados:

Com saldo positivo:

Sócrates — 20,6%
Louçã — 4,3%
Portas — 3,1%


Com saldo negativo:

Jerónimo — 5,8%
Manuela Ferreira Leite — 10,5%


Verdade que ninguém bate o Presidente da República, detentor de um saldo positivo de 55,5%.

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VASCO GRAÇA MOURA


Hoje no Público:


Autor de uma obra muito vasta nos domínios da poesia, da ficção e do ensaio, bem como tradutor laureado de Dante, Shakespeare e outros clássicos, Vasco Graça Moura (n. 1942) foi desafiado a ficcionar um crime real, ponto de partida para Morte no Retrovisor, o conto que abre a colectânea. Mas nem sempre, como nesse caso, estas Ficções e quase ficções partem de situações concretas. Na sua singeleza, o subtítulo diz que alguns contos são mais contos do que outros, tomando pretextos de vária índole: as atribulações de tesouraria de António Gonçalves, impressor de Os Lusíadas; uma troca de correspondência entre Philip Lord Chandos e Francis Bacon; os insondáveis critérios que regem o quotidiano dos colégios para meninas de boas famílias, etc. E até um trecho do romance que Graça Moura publicou em 1993, Partida de Sofonisba às 6h12 da manhã, aqui recolhido como conto autónomo. Evidência comum aos 22 textos da colectânea, o modo como uma ampla erudição reforça o virtuosismo narrativo, nos envios culturalistas como no plebeísmo discursivo.

Sirva de exemplo Frios, divertida narrativa que junta uma agente especial do KGB e um chauffeur inglês de nome John. A sombra de Max du Veuzit não impede, antes acicata, produtivas elucubrações em torno da dinâmica do frio, porque Irina Aisskrimovna — que em Paris trabalha como porteira do ministro da Defesa, fazendo-se passar por emigrante mirandesa — é mulher de algumas luzes: «Em Portugal é assim. [...] A escola é exigentíssima. Mesmo lá nas berças, obrigam-nos a ler Camões a partir dos dez anos e toda a literatura francesa, do Roman de Renard até Philippe Sollers, a partir da mais tenra puberdade.» De modo que, entre dois gelados, numa esplanada à beira do Arco do Triunfo, Dante cruza-se com Soares de Passos, e ambos com o beiço tristíssimo de Feijó, um dos «trejeitos mais kitsch de toda a poesia portuguesa». Irina discute «a ruptura entre Debray e Madame de Danglars» (cf. Dumas pai, 1844) com o mesmo à-vontade com que discreteia sobre a dose certa de gelo no gin-tonic. O diálogo traz Le Carré e a Merteuil (cf. Laclos, 1782) à colação. Atordoado, John, que lera o seu Vaillant, contrapõe com a seca realidade do National Geographic Magazine. Irina enfada-se: «Pede lá a adição, não sejas trengo.»

A mesma fina ironia perpassa em Dear Godfather, breve ensaio sobre a relação amorosa de Graham Greene com Catherine Walston, mulher e mãe dos filhos de Lord Harry Walston. Greene e Catherine eram católicos fervorosos, razão que os levava a procurar nos braços um do outro múltiplos motivos de contrição: «andavam constantemente atrás de Deus, perseguindo-O pela via do sexo e do remorso. Tratava-se sempre de um penoso sacrifício em nome da fé ardente que os flamejava. [...] E depois tinham também remorsos de não repetir o pecado.» A coisa durou doze anos, com vários amantes pelo meio: Dorothy Glover e mais umas quantas do lado de Greene; enquanto Lady Walston tinha preferência pelos jesuítas com quem se decubitava.

Mas nem tudo se passa entre sedas e cultura highbrow. A luta de classes, ao tempo da Segunda Grande Guerra, dá o mote à história de Isménia, operária numa das fábricas de conservas de Matosinhos que abasteciam a Wehrmacht. Grávida do filho do patrão, que vai casar com a filha do importador alemão, Isménia não hesita em capar o Rufino com a faca do amanho. No dia seguinte, «meteu numa lata de sardinhas em tomate a parte que tinha cortado do sexo do Rufino. O lote, cujas unidades no formato 1/4 club 30m/m ostentavam a vinheta da marca Walkyrie contra umas suásticas desfraldadas sobre um mar de cabeças humanas e braços estendidos, havia de seguir dentro em pouco para a Alemanha...».

Agora que a obra ficcional de Graça Moura é objecto de reedição na Quetzal — Quatro Últimas Canções (1987), o primeiro romance, acaba de chegar às livrarias —, Morte no Retrovisor demonstra mais uma vez que muita da melhor ficção nacional é obra de poetas.


Histórias com gente dentro, in Ípsilon, 6-2-2009, pp. 31-32. Quatro estrelas.

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Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009

MILK


Dezoito anos depois do primeiro projecto, Milk ficou pronto e chegou às salas portuguesas. Oliver Stone desistiu, mas Gus Van Sant não. As recusas de Kevin Spacey, Robin Williams, James Woods, Daniel Day-Lewis, Richard Gere, Brad Pitt e Matt Damon (os dois últimos para o papel de Dan White) não o desmoralizaram. Sean Penn e Josh Brolin aceitaram ser Harvey Milk e Dan White. O filme está nomeado para 40 prémios, entre eles oito óscares: melhor filme, actor principal, actor secundário, direcção, argumento (Dustin Lance Black), edição, música, guarda-roupa. Há quinze meses antecipei o essencial aqui. O plot sublinha a campanha ultramontana movida pela cantora Anita Bryant e pelo senador John Briggs contra a comunidade homossexual. Apoiada pelo lobby do fundamentalismo religioso da Florida, Anita Bryant conseguiu, em 1977, que a população homossexual de Miami-Dade fosse discriminada em matéria de habitação. No ano seguinte, com a Briggs Initiative, também conhecida por Proposição 6, o senador tentou fazer à escala nacional (o tema foi votado em referendo) o mesmo em matéria de educação: deviam ser expulsos do ensino todos os homossexuais e lésbicas, bem como todos os funcionários que apoiassem esses docentes. Até Reagan votou contra! Briggs foi derrotado e parte do mérito coube a Harvey Milk. Basicamente é disto que trata o filme. Que o mesmo é dizer de direitos, liberdades e garantias. Nada voltou a ser como dantes. Ora aí está um filme que devia passar nas escolas: do básico ao superior.

[A imagem mostra Harvey Milk e o mayor George Moscone, ambos assassinados por Dan White, a 27 de Novembro de 1978, após a derrota da Briggs Initiative.]

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