Agora que o n.º 77 (Fevereiro) da
LER já está na rua, aqui fica a crónica
Púbis, Fac & Tamariz, que publiquei na minha coluna Heterodoxias, no n.º 76.
Com relativa surpresa, cruzei-me, no início de Setembro, nos corredores da Faculdade de Direito de Lisboa, com um bando de rapazes em calções. Não foi o facto de em todos caber uma mão-travessa entre o umbigo e o cós que me chamou a atenção. Foi o à-vontade do grupo num sítio que não se confunde com o Tamariz. O à-vontade deles e a indiferença de professores e funcionários. Lembrar-me que, em Julho de 1964, ainda não tinha 15 anos, fui severamente admoestado por um polícia depois de atravessar a marginal do Estoril, entre o Tamariz e as Arcadas, em calções. Um amigo da minha idade, que fez o mesmo na semana seguinte, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, no trajecto entre o Hotel Tivoli e o Teatro Avenida, foi levado para a esquadra, de onde os pais o resgataram após pagamento de multa no valor de 500 escudos, importância equivalente a dois euros e meio, mas que era, à época, o salário de muitos chefes de família. Enfim, azares de adolescentes laurentinos no país de Salazar.
Dez anos passados, na Primavera de 1974, menos de um mês antes da queda de Caetano, nova visita a Portugal, e perplexidades de outra natureza. Rumores de
coup d’état davam ânimo aos que engrossavam as filas homéricas que seguiam pelo passeio da Avenida de Roma entre a primitiva Barata e a esquina da Óscar Monteiro Torres: a multidão não cabia na livraria, e o livro de Spínola,
Portugal e o Futuro, vendia-se ao ritmo de uma edição por semana. Toda a gente falava de mudança iminente, sem saber ao certo em que direcção, se por iniciativa dos ultras da direita ou dos militares de esquerda. À noite, no Reimar, ali à Rua das Pretas, marinheiros de cepa rija antecipavam a aliança Povo-MFA sob a forma de trocas identitárias (na ausência de iconografia nacional, consultar a obra de Tom of Finland). Foi lá que pela primeira vez encontrei Mário Cesariny e Raul de Carvalho.
Um belo dia, dois ou três antes da revolução, almoço em Seteais. Interdição total de sapatos de tacão alto e camisas de fantasia. Numa época em que trolhas, bancários, jornalistas, empresários, funcionários públicos e profissionais liberais, irmanados pelo pé, mimavam Luís XIV do alto dos seus tacões, o Palácio de Seteais recusava abrir mão das convenções. (Sapatos de homem sem tacão alto quase só os importados de Inglaterra, que se vendiam no Pestana & Brito e no Lourenço & Santos a preços de extorsão.) Para a ocasião, vesti um fato de linho branco e uma camisa de algodão indiano em tons quentes; embora decentes, os sapatos castanhos não eram Church’s. A camisa provocou calafrios. Eu não podia ir para Seteais com aqueles quadrados. Mas ninguém conseguiu que desistisse do espírito Sloane Street. O
maître ficou notoriamente sem fôlego, e o almoço foi um sucesso. Hoje passaria despercebido até, ou sobretudo?, em Marco de Canaveses. A rigidez dos códigos duraria mais uma década, começando a ruir por efeito das novelas brasileiras. A
net fechou o ciclo.
Petrónio, o Petronius Arbiter de
Satyricon, é uma das mais remotas referências em matéria de
dress code. Mais perto de nós, Barthes explicou com minúcia a dicotomia entre vestuário-imagem e vestuário-real. Na Moita como em Beijing, o
dress code distingue géneros, classes sociais e profissionais, religiões, etnias, a inscrição ideológica, a orientação sexual. Os denominadores comuns atrapalham. Exemplo maior, as
mariconeras, assim se chamavam as malinhas de mão que os homens (fossem empregados do comércio, governadores do Banco de Portugal, motoristas da Carris, advogados, polícias de giro, intelectuais, etc.) usaram sem rebuço entre, digamos, 1972 e 1982. De Quito a Kuala Lumpur, as
mariconeras eram indissociáveis dos machos, salvo nos países de língua inglesa, creio, mas não vou jurar. Ah! nenhum juiz siciliano dispensava a sua Gucci com fecho dourado e tirinha vermelha e verde. Uma grande trapalhada, por cá também: nos encontros da CIP com a CGTP,
mariconeras dos dois lados da mesa.
Tudo isto por causa dos rapazes de púbis entrevisto do primeiro parágrafo.