Hoje no
Público:
O aviso é desarmante: «
Se você gosta da Yoko Ono, não vai gostar deste livro. Se além da japonesa maluca, também não gostar da Björk, esqueça. Ouviu? Esqueça.» Quem o diz é Mónica Marques (n. 1970), uma portuguesa radicada no Brasil, que não faz parte do ‘Meio’ nem tem cátedra. Tem só um blogue que classifica como da
diáspora blasée. [o
Sushi Leblon] Condições bastantes para suscitar o desinteresse da imprensa cultural. Erro fatal, porque Mónica Marques escreve como poucos, e
Transa Atlântica vê-se que foi escrito sem pedir licença. Resumindo muito, Mónica Marques é alguém que usa o vernáculo com propriedade: «
Na xota não, eu quero casar virgem.» O livro é uma festa. Facto: eu deploro Yoko Ono e Björk.
Sem distinguir entre narrador e autor textual, Mónica escreveu
Transa Atlântica como quem redige o diário de uma mulher entre os 30 e os 40, chamando as coisas pelos nomes: ela gosta de «
garotos malhados», e explica porquê; mas também gosta de «
algumas patricinhas, muito redondas, muito esguias, muito morenas, um nadinha brancas, um nadinha morenas», e não esconde. Na realidade, o diário é o romance de uma cidade, o Rio de Janeiro. À medida que a narrativa avança, vemos reflectida «
a favela e o asfalto, o açúcar mais doce e aquela sombra de crueldade» da cidade que fez sua. Nos interstícios há espaço para os anos de Lisboa, entre o Café Império e a Fonte Luminosa, com derivas ao Guincho.
Mónica não é mulher de metáforas, seu forte é a metonímia: «
lancei-me para as mesas pretas do fundo do bistrô chique e moderninho da livraria [onde] as mulheres de meia-idade combinavam seus brunchs com brownies light...» A metonímia ajuda a dar cor ao cinza chato das pessoas normais:
«Cansei. Não há coisinha mais egoísta do que uma pessoa normal. Nem mais perigosa. Grau de acidez superior a 0,4%. Extra-virgem.» Mónica esqueceu o exacto momento em que deixou de ser uma “pessoa normal”. E escrever é uma forma de exorcizar a falha. De ordinário, o retrato é de tendência, como convém nos ajustes de contas, mas nem por isso menos nítido: «
Pessoas normais sonham com a mulher de quatro à beira da cama, mas não pedem que ela se ponha de quatro, a bunda erguida como nos filmes.» Com ela é sempre assim: curto e grosso.
A tentação aforística tem quota de leão, mas seria abusivo pensar no
Dictionnaire des idées reçues, de Flaubert, em formato carioca. A possível genealogia no mapear da cidade e de alguns dos seus ícones (Chico Buarque, Vinicius de Morais, Nelson Rodrigues, Arnaldo Jabor, Rubem Fonseca, Ferreira Gullar) vai em linha recta para Ruy Castro. Sucede que Mónica conhece os limites e nunca perde o pé. Faz tudo como quem não quer a coisa, seguindo o fio da história, fino como o da calcinha de fio dental, com ocasional desdobramento de personalidade: «
Às vezes eu sou Marta». Mulher sofisticada, e liberada, não teme consultas de búzios com Mãe Valéria de Oxossi, «
que não deve ser analisada mas com certeza lê Saramago». Do que ela gosta mesmo é dos inferninhos e do mar da Vieira Souto, esse «
mar que é o azedume dos grã-finos», a dois passos do pórtico da eternidade: «
Eu gosto de adolescentes de shorts descaídos com as suas bundas perfeitas».
Transa Atlântica é um romance dentro de um diário, ferramentas a céu aberto (o do Leblon), matéria textual, a luz perto do coração, a pulsão do pau, os morros, a doçura dos pipis indecisos, Capitu, pessoas que odeiam blogues mas têm contas a prazo, «
a influência de Kierkgaard nos filmes de Woody Allen», Emily Brontë, mulheres do mundo vidradas em morcela, trambiques, crónica doméstica, Berardo (esse, o Joe), uma instigante luta corpo-a-corpo com as possibilidades bilingues da língua comum. Cabe tudo em 118 capítulos. Primeiríssima água.
Contra as pessoas normais, in
Ípsilon, 16-1-2009, p. 28. Quatro estrelas.