Sábado, Janeiro 31, 2009

ESPÍRITO SANTO DE ORELHA


De que falamos quando falamos de jornalismo?

Hoje, o Correio da Manhã conta uma história edificante. Uma funcionária da empresa Smith & Pedro, promotora do Freeport, declarou à Polícia Judiciária, em 2004, ter ouvido dizer que Manuel Pedro, seu patrão, havia pago «400 mil», não sabia se contos ou euros, ao responsável pelo licenciamento do outlet. Ouviu dizer, prontos. A PJ mandou-a dar uma volta. Hoje, passados que foram cinco anos, o CM recupera a trica. E a concorrência amplifica-a com honras de cacha. O pagode, que só lê títulos, julga que a senhora foi inquirida ontem no DCIAP.

É disto que falamos quando falamos de jornalismo?

[A imagem reporta à época do caso Dreyfus.]

Etiquetas: ,

CITAÇÃO, 148


Aníbal Cavaco Silva, directamente da Quinta da Marinha, em Cascais:

«Hoje estamos aqui num torneio de Golf, não se tratam de assuntos de Estado, podemos assim dizer.»

Etiquetas:

QUEM MANDA


Já toda a gente percebeu várias coisas sobre o Caso Freeport. A primeira das quais, que o assunto saiu da esfera da justiça. Não é sequer um caso de polícia. É um caso dos media. Bem pode o Ministério Público ameaçar com inquéritos, que o circo está para durar. Quem manda nos media portugueses come MP’s ao pequeno-almoço. As autoridades policiais inglesas em vão pediram segredo para a carta rogatória. Nestes termos:

«A política da Polícia da Cidade de Londres e da Serious Fraud Office relativamente aos meios da comunicação social é actualmente a de não efectuar comentários, ou de declarar que “não nos é possível comentar” no tocante a quaisquer pedidos de informação recebidos. / Agradecia que esclarecesse quais as medidas, se as houver, que estão a ser tomadas relativamente à divulgação não autorizada de informação. / Agradecia que esclarecesse qual a política actual dos departamentos do Ministério Público e da Polícia em Portugal em matéria dos meios de comunicação social relativamente a este caso.»

A gente viu como foi. Verdade que a divulgação da carta rogatória permite avaliar a extensão das atoardas. Mas é um claro sintoma de quem, de facto, controla o processo. Ontem eram as “luvas” do ministro do Ambiente de Guterres. Hoje é a casa da mãe de Sócrates, comprada cash, por acaso quatro anos antes da mudança da ZPE de Alcochete. Amanhã será o quê? O periquito alimentado a coca?

Aqui chegados, ninguém entende o silêncio do Presidente da República. O Freeport não fica em Marte. O MP tem de investigar. O governo tem de governar. Se o Presidente da República considera que o governo está diminuído, deve dizê-lo com clareza, dissolvendo a Assembleia da República e convocando eleições. (A seis meses do fim da legislatura, um governo de intervalo, mesmo do PS, seria impraticável.) Se o Presidente da República acha o contrário, também o deve dizer com ênfase. Não pode é fingir que nada se passa. Melhor do que ninguém, ele sabe a razão do silêncio dos partidos. Havendo quem faça o trabalho sujo, nenhum deles dará um passo em frente.

Etiquetas: ,

Sexta-feira, Janeiro 30, 2009

A CARTA


Li agora, na íntegra, a carta rogatória da Polícia da Cidade de Londres e da Serious Fraud Office sobre o Caso Freeport, disponível na edição em linha do Expresso. Tal como havia dito a procuradora Cândida Almeida, directora do DCIAP e responsável pela investigação do caso, as autoridades inglesas não pedem qualquer tipo de informação sobre as contas bancárias de José Sócrates. Não pedem, ponto. O único pedido de informação desse tipo refere-se ao cidadão britânico William McKinney. Deve ser por isso que alguns espíritos mais sofisticados referem não ser importante seguir o rasto do dinheiro. Mas a revista Sábado pôs na sua capa essa mentira (ampliada na p. 38 da “reportagem”) reproduzida ad nauseam pela concorrência. Eu sei que os jornais precisam de ganhar dinheiro. O que não sabia é que há tanta gente capaz de alinhar pelo mesmo diapasão. Estamos sempre a aprender.

É evidente que o caso não se esgota numa alegada devassa às contas bancárias do primeiro-ministro, as quais, por imperativo legal, são públicas. Isto apenas traduz o verdadeiro móbil da tramóia.

Etiquetas: ,

ÉRIC JOURDAN


Hoje no Público:


Em 1955, a França de René Coty interditou Les Mauvais Anges, de Éric Jourdan (n. 1938), sob a alegação de obscenidade e atentado ao pudor. As leis da Quarta República eram implacáveis em matéria de costumes, e o autor escapou à prisão por ter apenas 17 anos e um advogado como Paul Boncour, muito influente nos meios políticos. O patrocínio de Robert Margerit e de Max-Pol Fouchet, que escreveram textos justificando a obra, de nada serviu. A censura durou até 1984, ano em que a interdição foi levantada, mas o livro manteve-se “clandestino”. A segunda edição saiu só em 2001. Agora temos Os Anjos Maus em português.

Num breve prefácio, Jourdan — filho adoptivo do escritor americano Julien Green — relata o modo como esse texto escrito aos 15 anos chegou à edição. À época, Jourdan ainda não conhecia Green (que lhe terá aberto muitas portas), e tudo aconteceu a partir de uma conversa fortuita com a proprietária da Librairie Sainte-Beuve do boulevard Saint-Germain. A esta distância, o tumulto gerado pela sua estreia precoce lembra aos desatentos que o conceito de liberdade, igualdade e fraternidade é sempre relativo...

Ainda sob o efeito do escândalo, Jourdan publicou em 1958 o segundo romance, Les Penchants obscurs, mas seria preciso esperar mais 27 anos pelo terceiro, Charité (1985). A partir dos anos 1990, Jourdan publicou cerca de vinte títulos, entre contos, romances, peças de teatro e narrativas para a infância. Os Anjos Maus chega à edição portuguesa quase em simultâneo com Barba Azul, Papão E C.ia (Cavalo de Ferro), colectânea de contos infantis de 1986, prefaciada por Julien Green e ilustrada por Paula Rego, que concebeu o projecto com Jourdan. Contrariamente às histórias de fadas deste Perrault pós-moderno, Os Anjos Maus é sobretudo uma «história de amor sobre aquilo que nos dá uma protecção eterna contra a velhice: o sangue e a pele da juventude.» Pierre e Gérard são primos, estão dispostos a tudo, e vão pagar caro a paixão que os une. Como diz o narrador, «o homem harmonizava-se com a sua necessidade.»

Jourdan faz parte de uma plêiade de escritores franceses contemporâneos declaradamente homossexuais que a crítica ortodoxa (incluindo a dos estudos de género) tem seguido com mal disfarçado enfado: Renaud Camus, Yves Navarre, Tony Duvert, de certo modo também Hervé Guibert. (Sem a dramatização da Sida, Guibert, que filmou a fase terminal da doença, não teria vencido a barreira da língua francesa.) Como eles, Jourdan não atingiu o patamar de consagração reservado a Montherlant, Genet, Barthes, Tournier ou mesmo Dominique Fernandez.

Se nos abstrairmos da pouca idade de Jourdan em 1955, a polémica à volta do livro não faz sentido. Afinal de contas, estamos na pátria de Sade e Huysmans; a mesma onde, em 1944, Roger Peyrefitte publicou As Amizades Particulares, obtendo com esse primeiro livro o Prémio Renaudot. Mas Peyrefitte era diplomata e tinha então 37 anos. Não é vulgar que um rapaz de 15 anos escreva com desembaraço o lado negro da paixão: «O sangue sempre me fascinou. [...] Tinha a cabeça cheia de ruído, desse vão ruído do sangue refluindo nas fontes como se subisse uma escada gigantesca. Por eu ser sensual, o meu primo era para mim, em primeiro lugar, um ser de carne [...] boca, coxas, um cheiro de jovem macho.» À medida que a narrativa avança, o tom elegíaco dá lugar à secura dos factos: «Matei por amor. Recordo toda a noite. Pierre estava preso a uma trave baixa; eu tinha atado os seus punhos com uma corda. [...] O chicote era o meu braço [...] Eu deixara de ser um rapaz, era a violência com rosto de rapaz.» Gérard viola e mata Pierre por ciúmes. É uma cena brutal: «Vi que havia feito amor no sangue.» O suicídio é o corolário.

A história é contada a dois compassos: primeiro a narrativa de Pierre, nimbada de lirismo e melancolia; depois a de Gérard, sem poupar no grafismo, em particular nos episódios envolvendo terceiros. Com Philippe, por exemplo: «O seu perfil abriu-me as nádegas. [...] Agarrei-lhe a nuca por baixo e esmaguei-lhe mais a cara. A sua língua violou-me [...] eu sentia-me mais viril, pois a minha força inspirava essa homenagem e o homem que em mim havia gostava de se dar ao luxo de um prazer passivo.» Não admira que o puritanismo do pós-guerra se tenha sentido ameaçado. O silêncio dos intelectuais continua a ser um mistério.


Pierre & Gérard, in Ípsilon, 30-1-2009, p. 35. Quatro estrelas.

Etiquetas:

Quinta-feira, Janeiro 29, 2009

FICÇÃO & REALIDADE


Da longa entrevista que a procuradora Cândida Almeida, directora do DCIAP e responsável pela investigação do Caso Freeport, deu hoje a Judite de Sousa (RTP), retive duas passagens muito esclarecedoras:

1. Grande parte do que passa por fugas de informação são meras invenções. Exemplo: as autoridades inglesas em nenhuma circunstância solicitaram informação sobre as contas de José Sócrates.

2. Cândida Almeida não viu (e não quer ver) o famoso DVD, o qual, aliás, não consta do inquérito. Os outros magistrados que investigam o caso também não.

Gostava de ver os jornais de amanhã a sublinhar estes pontos, por muito que lhes custe dar o braço a torcer. Afinal, foi com base neles que o Caso Freeport virou questão de Estado.

Etiquetas: , ,

PRETO NO BRANCO


Extractos do comunicado da Procuradoria-Geral da República sobre o Caso Freeport, divulgado ao fim da manhã:


«A carta rogatória inglesa não contém nenhum facto juridicamente relevante que acresça aos factos conhecidos e investigados pelas autoridades portuguesas, nem contém nenhum elemento probatório considerado válido e que justifique uma alteração da posição tomada nos comunicados anteriores.»

«Os alegados factos que a polícia inglesa utiliza para colocar sob investigação cidadãos portugueses são aqueles que lhe foram transmitidos em 2005 com base numa denúncia anónima, numa fase embrionária da investigação, contendo hipóteses que até hoje não foi possível confirmar, pelo que não há suspeitas fundadas. Ninguém está acima da lei, mas nenhum cidadão português pode ser considerado arguido, nem sequer suspeito, unicamente porque a polícia de outro país o coloca sob investigação com base em hipóteses levantadas e não confirmadas e que servem somente para justificar um pedido de colaboração.»

«No âmbito da investigação deste caso, estão neste momento a ser efectuadas perícias pelo departamento competente da Polícia Judiciária sobre diversos fluxos bancários.»

Entretanto... os media britânicos continuam alheados do caso, e a polícia inglesa não faz comentários às notícias publicadas em Portugal, não assumindo sequer a realização de qualquer tipo de investigação sobre o caso.

Etiquetas: ,

MUITA PARRA, POUCA UVA


A Visão e Sábado publicam extensos dossiês sobre o Caso Freeport. É para isso que serve a imprensa. Quem ontem ouvisse as televisões a publicitar as duas revistas, ficava na expectativa de factos novos. Pois se ontem mesmo a procuradora Cândida Almeida, directora do DCIAP, falando em nome do Ministério Público, voltara a insistir na inexistência, em Portugal, de suspeitos ou arguidos no caso em apreço, e duas revistas, logo duas, prometiam foguetório, era porque algo se passara entre as declarações matutinas da magistrada e os telejornais das oito. Um e-mail explosivo ao entardecer? Teria a BBC interrompido a sua emissão para anunciar um escândalo à beira-Tejo? E, com tanta novidade, as televisões não abichavam nada, contentando-se em citar terceiros? Hoje mesmo, os jornais da manhã limitam-se à promoção da concorrência. Porquê? Ninguém lhes deu uma dica substantiva?

Afinal, que novidades dão a Visão e a Sábado hoje postas à venda? Nenhuma. Ambas sistematizam a informação conhecida, remoendo o já dito. Factos: a polícia inglesa, ou, para sermos exactos, o Serious Fraud Office (o bureau britânico encarregue dos crimes económicos), responde à carta rogatória da PJ. Essa resposta chegou à PJ no passado dia 19. Nessa resposta, o nome do primeiro-ministro consta de uma lista de 7 pessoas suspeitas de ter “solicitado, recebido ou facilitado” pagamentos no âmbito do licenciamento do Freeport. Ponto. Mas isto já se sabia há três semanas. E o MP sabia desde a reunião do Eurojust em Novembro do ano passado. Até prova em contrário, continuamos na estaca zero. Aguardar a prometida («nas próximas horas») comunicação do Procurador-Geral da República. Ver se Pinto Monteiro confirma ou infirma as declarações que Cândida Almeida fez ontem à noite (repetindo o que tinha dito de manhã), na Rádio Renascença, já depois do sururu dos telejornais das oito.

Etiquetas: , ,

Sem pompa nem circunstância


Anunciado com voz tonitruante, o relatório «da OCDE» sobre a política educativa do governo português para o 1.º ciclo do ensino básico era, afinal, um estudo encomendado pelo próprio executivo. Num ápice, lá se foi a maravilhosa sigla que tanto ajudaria a mascarar a incompetência e a arrogância de uma ministra cada vez mais abandonada, a quem já não parecem sobrar outros apoios que não os dos indefectíveis da governação socrática.
Quanto ao modo como o PS substituiu, na sua página virtual, a informação sobre a origem do referido relatório, é bem esclarecedor acerca do uso da propaganda em matéria de educação. Os detalhes estão todos aqui.

Quarta-feira, Janeiro 28, 2009

CITAÇÃO, 147


Filipe Nunes Vicente, Manias. Excerto:


«O que eu sou é um tipo simples: uma república não pode ser governada pelos tipos que fazem as fotocópias nos tribunais e nas polícias nem pelos jornalistas que conhecem e pagam a esses tipos. [...] não gosto de ser enrabado. É uma mania.»

Etiquetas:

PARA LAVAR E DURAR


A “novela” do BPP está para lavar e durar. Por suspeita de burla, gestão danosa, branqueamento de capitais, evasão fiscal, desvio de fundos para off-shores, desvio de dinheiro de clientes para contas de terceiros, enriquecimento indevido, falsificação de documentos, irregularidades contabilísticas, e sabe Deus que mais, foram ontem efectuadas buscas ao banco de João Rendeiro. Consta — a notícia esteve em linha, mas desapareceu; entretanto voltou — que as equipas de investigadores do Departamento de Investigação e Acção Penal (de Maria José Morgado), assessoradas por técnicos da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, encontraram algumas pastas sem documentos. Terão sido entregues ao Departamento Central de Investigação e Acção Penal (de Cândida Almeida), que tem parte do processo BPP nas mãos? Nunca se sabe.

A coisa está preta. Será desta que o Banco de Portugal manda fechar o BPP? Como vão reagir os grandes clientes? Ou seja, como vão reagir, entre outros, José Miguel Júdice, que também é presidente da assembleia-geral, Francisco Pinto Balsemão, que também é presidente do conselho consultivo, Stefano Saviotti, Joaquim Coimbra, Diogo Vaz Guedes e Rui Machete? Como vão reagir os membros dos órgãos sociais? Ou seja, como vão reagir, entre outros, João Cravinho (sim, o do PS; autor do prefácio ao livro de Rendeiro), Álvaro Barreto, Fernando Lima, João de Deus Pinheiro, Jorge Braga de Macedo, Paulo Guichard, Pinto Barbosa e Viana Baptista? Como a próxima assembleia-geral da Privado Holding — proprietária a 100% do BPP — se realiza dentro de poucos dias, logo se vê. Para já, a única certeza é a de que o BPP está falido.

Adenda. Um alto quadro do BPP foi hoje constituído arguido por suspeita de desvio de dinheiro de clientes para uma conta sua na Suíça. Fala-se em 40 milhões de euros. A identidade desse alto quadro não foi revelada. Gente fina é outra coisa.

Etiquetas: ,

VÁ-SE LÁ SABER PORQUÊ


Os jornais ingleses gostam de escândalos. Mais: grande parte dos jornais ingleses vive de escândalos. Mas, vá-se lá saber porquê, o Caso Freeport é-lhes indiferente. Nem o paradeiro incerto de Sean Collidge, fundador do grupo, acusado de desviar milhões da empresa, os comove. Nem o decantado DVD, que aparentemente só foi visto por duas jornalistas portuguesas (viram mesmo, ou foi espírito-santo de orelha?). Nada. Caramba! O potencial de uma crise política no país de Mourinho & Ronaldo merecia umas headlines à maneira! A nossa cotação no mercado dos tablóides anda assim tão em baixo? Ou tudo não passa de uma história de precedência de datas (despacho, publicação), tios tontos e primos afoitos?

De caminho, lembrar o que Nuno Morais Sarmento, presidente do Conselho de Jurisdição do PSD, disse anteontem na Rádio Renascença: «A Procuradoria-Geral da República tem de esclarecer o que é que andou a fazer nestes três anos. Porquê agora? Ou é uma manobra política, uma calendarização, que não podemos aceitar, ou é uma investigação a sério manchada por uma manobra política. [...] Não podem decorrer duas pré-campanhas com quatro anos de distância sem que ele [Sócrates] seja inocentado e os cidadãos informados. O primeiro-ministro é um cidadão a quem é pedido mais que aos outros, tem determinados direitos, entre os quais não pode estar quatro anos, com nova campanha eleitoral e estar ainda sob suspeita de investigação.»

Etiquetas: ,

Terça-feira, Janeiro 27, 2009

JOHN UPDIKE 1932-2009


Romancista, poeta e ensaísta, John Updike morreu hoje na sua casa do Massachussets. Faria 77 anos em Março. Autor de uma obra vastíssima (62 títulos publicados a partir de 1957, sendo 10 de ensaio e 9 de poesia), na qual se distinguem os cinco volumes da série Rabbit (1960-2001), ganhou todos os prémios que havia para ganhar, excepto o Nobel. Mas por duas vezes, em 1982 e 1991, venceu o Pulitzer. Procurai a Minha Face (2002), o antepenúltimo romance, foi traduzido no fim de 2007.

Etiquetas:

A PATRULHA


Nos blogues, pode-se lamber o rabo a Salazar, Hassan Nasrallah e Joseph Fritzl. Há sempre um coro de adictos a louvar-se na independência. Escrever e reflectir sobre o actual governo (e, em particular, sobre Sócrates), sem ser ao pontapé, é que é motivo de anátema. E se fossem dar uma volta ao jardim da Celeste?

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

CELERIDADE?


Um dos aspectos mais caricatos do Freeportgate radica na presunção de “celeridade” com que o processo ambiental terá sido despachado. Mas qual celeridade? O processo levou 21 meses e 3 dias a ser aprovado. Desde que deu entrada no ministério (a 11 de Junho de 2000) até obter luz verde (a 14 de Março de 2002), foi chumbado duas vezes: em Outubro de 2000; e em Dezembro de 2001. É verdade que a terceira versão do projecto foi aprovada em 55 dias, ao invés dos 167 dias de prazo médio das versões anteriores. Sucede que, para ser chumbado, o processo teve de ser analisado à lupa. A título ilustrativo, refira-se que entre a 1.ª e a 3.ª versão desapareceram duas importantes componentes do projecto: o hotel e o health-club. Aqui chegados, não é abusivo presumir — o contrário é que seria motivo de escândalo — que, entre Janeiro e Março de 2002, a preocupação do ministério do Ambiente tenha sido a verificação do saneamento das irregularidades. Vejamos: se uma entidade devolve um projecto porque X em Y itens estão em desconformidade com as leis ou os regulamentos, no momento da sua reapresentação há que verificar a parte alterada, confirmando a adequação ao todo. Ou não será? De resto, a versão definitiva esteve 7 dias úteis nas mãos do secretário de Estado, e sete dias úteis é muito tempo para um processo que estava há quase dois anos nas mãos dos técnicos encarregues da sua avaliação. Eu percebo o nervosismo dos detractores do governo. As sondagens têm dado os resultados que se sabe, a oposição de direita está em frangalhos, a oposição de esquerda não tranquiliza quatro quintos dos portugueses, o Presidente da República não lhes faz a vontade, e ainda faltam oito meses para as eleições. Haja paciência! Se o descontentamento é assim tão grande, o Outono trará os amanhãs que cantam. Até lá, escusam de espernear.

Etiquetas: , ,

Domingo, Janeiro 25, 2009

WATERGATE


Pode um filme resistir ao clamoroso erro de casting dos protagonistas? Pode. Frost/Nixon é disso exemplo. Michael Sheen e Frank Langella são improváveis nos respectivos papéis. Não obstante, o texto — de Peter Morgan, autor da peça original e do argumento — resiste bem. Porque Sam Rockwell, Oliver Platt, Matthew Macfadyen (os três na imagem) e Kevin Bacon ajudam a salvar o plot. Concedo o fraquinho geracional pelo tema, simétrico das reticências dos mais jovens. [A 8 de Agosto de 1974, Nixou anunciou que abandonava o cargo ao meio-dia do dia seguinte. O dia seguinte era o dia do meu 25.º aniversário. Ao meio-dia de Washington, eram 7 da tarde em Lourenço Marques. A casa estava cheia de gente e o facto monopolizou o gossip.] Frost/Nixon está nomeado para cinco óscares: melhor filme do ano (um notório disparate), melhor actor (Langella, idem), melhor direcção, melhor edição e melhor argumento adaptado. Aguardo com curiosidade o que Lauro António dirá do filme.

Etiquetas:

A memória do Rivoli


A minha memória da cidade do Porto da segunda metade da última década passa regularmente pelo Rivoli e pela admiração que o trabalho de Isabel Alves Costa, como directora artística desse projecto cultural com características únicas em Portugal, me foi merecendo. Ao longo de alguns anos (poucos, muito poucos, infelizmente), desenhou­‑se ali o que poderia ser um verdadeiro teatro municipal, ainda por cima num espaço belíssimo, com uma ideia de programação assente na diversidade e na qualidade, capaz de captar públicos muito diferentes (ao contrário, portanto, do argumento hipócrita que serviria, mais tarde, para aniquilar o projecto). Paradoxalmente, a ideia terá começado a ser sabotada a partir da concretização da cidade como capital europeia da cultura, em 2001, por responsáveis que têm nome; à sua cabeça, conta­‑se, como é sabido, o actual presidente do executivo camarário, Rui Rio, que não descansou enquanto não conseguiu destruir um conceito e uma prática efectivamente ecléticas no domínio da actividade cultural, substituindo a equipa que edificara o Rivoli tal como ele se notabilizara pela longa (e monótona, tão monótona) noite laferiana a que tem sido sujeita a cidade do Porto.
Pela mão da Afrontamento, surge agora nas livrarias Rivoli, 1989­‑2006, que Isabel Alves Costa escreveu, no intuito de contribuir para um esclarecimento desse verdadeiro atentado à diversidade e à inteligência que foi a administração do teatro municipal pela câmara ainda em funções. O livro, que já foi objecto de uma pré­‑publicação no número 9 da revista Obscena, de Fevereiro de 2008, será apresentado amanhã, segunda­‑feira, dia 26, às 18:30h, na livraria Índex, por João Fernandes, director do Museu de Serralves. Será um primeiro passo para a reposição da verdade acerca de um assunto que tem servido, em grande medida, para os exibicionismos demagógicos dos políticos que governaram a cidade do Porto nos últimos anos.

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Por qualquer razão fortuita, o historiador britânico Paul Johnson (n. 1928), antigo editor da revista New Statesman, e autor de uma obra muito vasta — meia centena de títulos, a maioria sobre História contemporânea; publicou ainda dois romances, ensaio sobre arte e religião, relatos de viagens, volumes de memórias, compilações jornalísticas, etc. —, tem apenas dois livros publicados em Portugal. Intellectuals (1988) foi agora traduzido por Rui Santana Brito. Trata «da credibilidade moral e crítica que determinados intelectuais bastante conhecidos podem ou não ter para dar conselhos à humanidade e indicar-lhe a forma de comportamento mais correcta.» Qual foi o ponto de partida de Johnson para o rastreio? As obras, cartas, diários, memórias e palavras de Rousseau, Shelley, Marx, Ibsen, Tolstoi, Hemingway, Brecht, Russell, Sartre, Wilson, Gollancz, Hellman, Mailer e outros. Tudo é passado à lupa: sexo, vida doméstica, dívidas, convicções privadas e públicas, nada escapa à rigorosa análise de Johnson. Talvez se possa dizer a seu respeito o que ele mesmo diz do crítico Edmund Wilson: «Para ele, a História, a tradição, a precedência e as formas já consolidadas constituíam a sabedoria herdada da civilização e eram as únicas referências de confiança para o comportamento humano.» Com cerca de 500 páginas, Intelectuais é um guia indispensável para perceber os homens que estão por trás das obras que consideramos património da humanidade. Além de notas, o volume inclui um utilíssimo índice remissivo.


Cristina Ferreira de Almeida: «Sempre que a PGR fica calada passamos a presumir que todas as notícias sobre investigações judiciais são verdadeiras?»

Filipe Nunes Vicente: «Por que motivo o processo esteve parado durante quatro anos? O Procurador já disse que a iniciativa de o reabrir foi independente da investigação inglesa. Estou-me nas tintas para o destino de Sócrates, tal como estive no caso da licenciatura. O que não quero é uma república de magistrados servida por jornalistas ocasionais. Nem por sombras.»

Miguel Abrantes: «Perante uma diligência da investigação (buscas), que deveria ser recatada e estar coberta pelo segredo de justiça, logo aparece numa prestimosa jornalista a dar conta daquilo que se passa. E, a partir de então, como alguém dizia hoje na rádio, têm acontecido sucessivos “directos” a partir da investigação — sem que ninguém no Ministério Público dê sinais de se incomodar.»

Tomás Vasques: «Pedro Arroja refere o índice de Desenvolvimento Humano, respeitante ao ano de 2006, apresentado em Dezembro de 2008, no qual Portugal figura em 33.º lugar, tendo descido 4 lugares comparado com 2005. E acrescenta que Portugal, em 1973, situava-se no 24.º lugar. Qualquer observador atento olhará para o topo da lista e verá que a Islândia é a primeira do ranking. Sim, a Islândia — o país que está na bancarrota. [...] / PS: O índice de desenvolvimento humano, com os critérios actuais, é usado desde 1993.»

Valupi: «Rui Gonçalves é à prova de dúvida. Os pulhas e os viciados em teorias da conspiração farão melhor em ignorar a sua existência.» [Rui Gonçalves foi o secretário de Estado do Ambiente responsável pelo licenciamento do Freeport.]

Vital Moreira: «Para haver um caso de corrupção, não basta que alguém tenha dito a um terceiro (para justificar dinheiro supostamente gasto) que teve de pagar “luvas” para obter um licenciamento. Partindo do princípio de que não foi ele próprio que se locupletou com o dito dinheiro, é necessário saber quem foram concretamente os directos beneficiários e como se processou o alegado pagamento. / Aditamento: Independentemente de saber se houve, ou não, pagamento de luvas a alguém (e a quem), este desmentido categórico de Sócrates varre a sua testada e inverte o “ónus da prova” (mesmo admitindo a lógica perversa de que, quando se acusa um político, é ele que tem de provar a sua inocência, e não os acusadores que têm de provar a acusação...).»

Etiquetas: ,

Sábado, Janeiro 24, 2009

O STATEMENT


O essencial do statement do primeiro-ministro José Sócrates:


«Se alguém pensa que me vence desta forma está muito enganado. Vou lutar para defender a minha honra e a minha honestidade.»

«Referi-me às notícias públicas das investigações e não às próprias investigações. Espero que todos os que têm responsabilidades na justiça me acompanhem [nesta] censura.»

«Não conheço nem conheci pessoalmente nenhum dos dirigentes do Freeport.»

«Tenho afecto e estima pelo meu tio. Mas tenho de dizer com clareza que não tenho nada a ver com as suas actividades empresariais, nem com as dos seus filhos. Cada um assume as suas responsabilidades. [...] Se existe, como dizem que existe – eu não conheço – um email de um filho do meu tio para o Freeport reclamando uma qualquer vantagem para si invocando o meu nome, considero isso um abuso de confiança. E considero que essa invocação é completamente ilegítima e inadmissível.»


Outros tópicos: A reunião [em 2002, quando era ministro do Ambiente] com os promotores da Freeport foi a única em que participou. / Essa reunião realizou-se por solicitação insistente da Câmara de Alcochete, uma vez que se tratava de um projecto importante para o concelho, tendo servido para apresentar as exigências ambientais que sustentavam os dois chumbos do projecto. / Nunca deu orientações aos seus funcionários para acelerar o processo de licenciamento, o qual não teve tratamento de excepção ou de favor. / A Zona de Protecção Especial de Alcochete foi modificada em data posterior ao licenciamento. / É preciso que as investigações sejam rápidas e conclusivas para que os esclarecimentos dêem a conhecer a verdade.

Etiquetas: ,

FREEPORTGATE


O primeiro-ministro faz um statement hoje ao meio-dia. OK. Antes de o ouvir, pensar alto — a partir do ruído dos media — sobre o Caso Freeport. A coisa remonta a 2002. Com trambique ou sem trambique, ninguém piou até à véspera das eleições legislativas de 2005. Nessa altura, uma manchete do Independente dava eco a um “documento” da Polícia Judiciária que incriminaria Sócrates. Ninguém ficou impressionado. O PS ganhou as eleições com maioria absoluta. Sócrates tornou-se primeiro-ministro. Provou-se que o “documento” divulgado pelo Independente era apócrifo (o que não impede que ainda hoje circule na net), e que a manobra envolvia gente do CDS e do PSD. O inspector da PJ que o fez chegar ao jornal foi levado a tribunal, condenado e expulso da polícia. O jornal foi processado. O Ministério Público deu o caso por encerrado. Passaram quatro anos. A coisa volta às primeiras páginas. Os actuais proprietários do Freeport querem saber por que razão o outlet saiu tão caro. Corrupção? Parece que sim. A polícia inglesa chegou a conclusões cabeludas a partir de um DVD na posse de um dos alegados corruptos. Nesse DVD, gravado com câmara oculta, um indivíduo diz a outro que tudo fora combinado “numa reunião com o ministro Sócrates”. Isto não prova nada. Não faz prova em Portugal, como os jornais sublinham (e bem), mas também não faz prova no Reino Unido, ou em qualquer Estado de direito, ao contrário do que os mesmos jornais querem dar a entender. (Como quem diz: «Não prova aqui, mas prova lá». Não prova.) Isto dito, o imbróglio é politicamente incómodo para Sócrates. Para piorar a coisa, um tio e um primo de Sócrates, aparentemente com rabos de palha, disseram aos jornais que, sim senhor, tinham intermediado um encontro de Sócrates com um representante da Freeport em Portugal. O famoso tio, meio-irmão da mãe de Sócrates, fala, com muitos pás pelo meio, em «quatro milhões de contos». Importância que, diz ele, foram pedidos por «um gabinete de advogados» ao representante da Freeport, para conseguir o licenciamento do outlet. Mas, ó deuses!, 4 milhões de contos são vinte milhões de euros!!! E 20 milhões de euros dava para fazer três ou quatro outlets como o da Freeport. [Erro. Ver adenda.] Isto é o lado anedótico. A parte séria é que o MP soube há sete meses do ponto em que estavam as diligências da polícia inglesa: a 1.ª reunião do Eurojust em que participaram procuradores portugueses do MP realizou-se em Haia em Junho do ano passado. E as primeiras buscas em Portugal realizaram-se anteontem. Aqui chegados, faltam menos de 10 minutos para ouvirmos o que o primeiro-ministro tem a dizer.

Adenda: Mão amiga fez-me chegar informação relativa ao outlet da Freeport, o qual terá orçado em 250 milhões de euros. Nessa medida, as supostas “luvas” pagas a um escritório de advogados corresponderiam a 8% do valor do investimento. Fica sem efeito a minha invocação aos deuses...

Etiquetas: , , ,

Sexta-feira, Janeiro 23, 2009

ELEIÇÕES NO PEN


Pela primeira vez, uma lista alternativa propõe-se concorrer à eleição, marcada para 3 de Março, dos corpos gerentes do PEN Clube Português. Actualmente, o PEN português é dirigido por Ana Hatherly, presidente da assembleia-geral, Casimiro de Brito, presidente da direcção, e Júlio Conrado, presidente do conselho fiscal.

Sobre o assunto, três apontamentos:

1 — Vejo com simpatia e admiração a presença nessa lista alternativa de três autores jovens: Rui Costa, que lidera o processo, Rui Lage e Rui Cóias.
2 — A expressão do meu apoio decorre dos (e extingue-se nos) exactos termos do número anterior.
3 — É preciso mudar. Tal como existe, o PEN português não serve para nada.


Longe vão os tempos em que Almeida Faria, Pedro Tamen, José Palla e Carmo, Vasco Graça Moura, E. M. de Mello e Castro, David Mourão-Ferreira e Manuel Alberto Valente conferiam ao PEN uma representatividade inquestionável.

Fica dito.


[A imagem mostra Rebecca West e Sir George Catlin na inauguração, em 1949, das novas instalações em Londres do PEN Club britânico.]

Etiquetas:

FREDERICO LOURENÇO


Hoje no Público:


Na linha de Richard Strauss, dir-se-ia que Frederico Lourenço (n. 1963) está a caminho de se tornar um germanischer Grieche, ou seja, um grego germânico. Ele o reconhece em nota de abertura aos Novos Ensaios Helénicos e Alemães, obra que de algum modo prolonga outra de há cinco anos, Grécia Revisitada. A novidade reside no núcleo alemão, consequência do facto de as suas leituras «se estarem a centrar cada vez mais na literatura de língua alemã». Com efeito, Goethe, Schiller, Rilke, Mann, Hofmannsthal e outros são objecto da leitura empenhada de Lourenço, embora o ponto de partida continue a ser a cultura helénica, que tem no autor um notável divulgador (no sentido nobre do termo, pois releva de óbvias qualidades pedagógicas). São inéditos dez dos dezasseis ensaios do volume. Os restantes tiveram publicação avulsa em revistas académicas de circulação restrita.

Começando pelos gregos, destacaria o que escreveu a partir de Ifigénia em Áulis, de Eurípides, bem como as Reflexões sobre a cultura de Bizâncio. Trata-se de dois longos ensaios, centrado o primeiro na importância do prólogo, pretexto aproveitado por Lourenço para uma digressão pela história da filologia clássica, num amplo tour d’horizon que vem até E. R. Dodds, Matthew Wright, Susanne Aretz, Cyril Mango, etc.; e o segundo tomando Bizâncio como móbil das várias formas de intolerância religiosa, duas em particular: a islâmica e a cristã. A frase célebre de Lucas Notaras, testemunha do cerco turco de Constantinopla em 1453, dá a medida da intolerância no seio do Cristianismo: «antes o turbante do muçulmano do que a mitra do cardeal romano». Sirva de exemplo de como o ensaísmo de Lourenço não dissocia uma sólida erudição das notações do quotidiano. Outro louvável exemplo do seu à-vontade verifica-se no modo como assume a relação do académico (e, por extensão, dos leitores em geral) com a Internet: «Basta digitar no Google as palavras Iphigenia in Aulis para se ver que os problemas literários, humanos e políticos levantados pela tragédia de Eurípides ainda fascinam leitores, espectadores de teatro e estudiosos [...] que situam a peça no contexto da guerra do Iraque». Não é o único que o faz, com certeza que não. Mas lá onde a maioria remete para notas de rodapé ou de fim de texto, Lourenço associa à narrativa o inventário em movimento da rede.

Aspecto importante da obra do autor tem sido o das questões identitárias, que tratou de forma ficcional e diarística, à margem de o ter feito, sem proselitismo ou enfoque determinista, no âmbito dos estudos helenísticos. Cabe aí um magnífico ensaio dedicado à poesia de Estratão de Sardes, o único (no saco sem fundo da Antologia Grega) a eleger «a homossexualidade masculina como tema exclusivo». O texto ora coligido foi a comunicação que Lourenço apresentou no colóquio de estudos GLQ que em Setembro de 2005 juntou vários especialistas no Instituto Franco-Português de Lisboa. Como não podia deixar de ser, é um texto explícito em que a close reading acompanha verso a verso todas as declinações semânticas da obra de Estratão. Uma fina ironia percorre essa leitura próxima, enquadrando historicamente as relações sexuais entre homens, num tempo em que o conceito de homossexualidade era omisso. Conhecedor profundo da língua e cultura grega, Lourenço ilustra a tese com a transcição de epigramas do amor socrático, conforme ao rígido código de conduta que então delimitava o binómio activo/passivo, representado pelo amante/amado, que o mesmo é dizer entre homens mais velhos e adolescentes imberbes.

Um dos aspectos mais interessantes (e produtivos) desta colecção de ensaios radica naquilo a que podemos chamar arqueologia homotextual. Com efeito, à vulgata pós-Stonewall, Lourenço opõe a recensão dos textos clássicos. Mas não fica por aí. As notas que alinha sobre o amor grego em Goethe e Schiller são eloquentes a tal respeito. Os textos de um e outro são apresentados de molde a sublinhar o carácter uranista que os distingue. Contudo, Lourenço nunca extrapola, antes permanecendo no domínio seguro da hermenêutica, sem com isso deixar de abrir o texto a todas as possibilidades de modelização (i.e., de ‘modelo do mundo’). E faz isso muito bem.

Num ensaio que tem como objecto as relações de contiguidade entre a novela de Thomas Mann, A Morte em Veneza, e o Homero da Odisseia, Lourenço questiona as opções de Visconti no filme de 1971, em especial as de natureza estética (entre outras, um Tadzio epiceno, por oposição ao rapaz viril que o livro descreve) e conceptual: «ao apresentar Aschenbach como compositor e não como escritor, Visconti faz desmoronar uma das bases fundamentais em que a arquitectura construída por Mann assenta.» Seria pleonástico insistir no rigor da análise da vasta informação atinente.

Muito mais haveria a dizer destes Novos Ensaios Helénicos e Alemães, obra deveras singular no contexto da produção ensaística de língua portuguesa.


O grego germânico, in Ípsilon, 23-1-2009, pp. 28-30. Quatro estrelas e meia.

Etiquetas:

Quinta-feira, Janeiro 22, 2009

TALVEZ UM HOTEL RADICAL


Em 2005, a Câmara de Lisboa anunciou a construção de uma biblioteca municipal no Vale de Santo António, perto da Avenida General Roçadas. O investimento foi então orçado em trinta milhões de euros. (Um notório disparate, mas isso é outra conversa.) Os arquitectos Manuel Aires Mateus e Alberto Souza Oliveira assinaram o projecto. Prometeu-se que a obra seria inaugurada no fim de 2008. Agora, a Câmara deu o dito por não dito: o vereador Marcos Perestrello diz que é muito dinheiro. Pois é. Mas, no entretanto, foram gastos três milhões de euros em escavações e contenção de terras. Manuel Salgado diz que será feito outro edifício no local. OK. Assim vai Lisboa.

Etiquetas:

O RATING


De repente, toda a gente trata a Standard & Poor's por tu. Gente que ouviu falar da Standard & Poor's pela primeira vez anteontem, acredita piamente na sua omnisciência. E execra as óbvias reticências dos comentadores económicos. Mas os comentadores económicos sabem (como toda a gente que lê a imprensa especializada) que a Standard & Poor's foi apanhada de surpresa com a derrocada do Lehman Brothers. Vai levar muito tempo a apagar essa nódoa. Portanto, é natural que os comentadores económicos usem de cautela. Até porque um comentador económico tem obrigação de não fazer terapia de grupo sob anonimato.

Etiquetas: , , ,

ATÉ NO IMPÉRIO


O Congresso americano prossegue hoje as audiências de confirmação dos membros da actual administração. (Hillary Clinton faz parte dos que já obtiveram luz verde para exercer o cargo.) Mas Timothy Geithner, indigitado para o Tesouro — será ele a dirigir o plano de recuperação económica —, teve de começar ontem a sua intervenção com um pedido de desculpas. É que o presidente da Reserva Federal de Nova Iorque (o seu cargo de origem), que vemos na imagem a conduzir a equipa económica de Obama, tinha-se “esquecido” de pagar impostos no valor de 34 mil dólares, [26 mil euros] relativos à Segurança Social e ao sistema de saúde Medicare, alegadamente por erro no preenchimento das respectivas declarações. Estas coisas acontecem. Olha se tem acontecido com um ministro de Sócrates...!!!

Etiquetas: ,

CITAÇÃO, 147


Francisco José Viegas, no momento em que A Origem das Espécies inicia um breve período de férias. Assino por baixo. Excertos:


«[...] Já gostei mais de blogs e já os li mais, logo de manhã. Por vários motivos, continuo a lê-los e encontro neles grandes virtudes, a par de coisas dispensáveis (a verdade é que, antigamente, muitos idiotas andavam anónimos pelas ruas e, hoje, grande parte deles se encontram na blogosfera). O género humano é assim. E há quem escreva maravilhosamente, quem escreva superiormente; e quem devia escrever mais. E quem leio sempre com prazer; há blogs que nunca leio pelo simples motivo de que não concordo com uma única palavra do que possa estar lá escrito (porque uma coisa é não concordar e discutir, e outra, inteiramente diferente, é evitar encarar o ressentimento e a ignorância); há blogs com que raramente concordo mas que leio todos os dias; e há blogs que fazem parte do meu roteiro de leituras diárias. [...] Nem sempre escrevo o que quero; nem sempre escrevo quando quero; e nem sempre quero escrever no blog. Debater sobre a blogosfera é capaz de ser uma coisa muito fragmentária se não se tem uma agenda, um plano & objectivos para o quinquénio. De modo que vou escrevendo; quando posso, quando tenho tempo, quando — mesmo não tendo tempo — invento tempo para não perder o blog. Já tive mais tempo disponível. Tenho menos. Tenho menos tempo e mais idade. [...] Estamos hoje muito vigiados; somos vigiados por leitores, vizinhos, colegas de trabalho, pessoas que nos amam ou nos detestam, gente irrelevante, gente a que damos importância, gente que não tem importância. A net é barata, acessível e livre. Dá para tudo, para o melhor e para o pior, para a maledicência e para a aldrabice, para as cartas de amor (ridículas, evidentemente) e para a banalização de tudo. É aí que estamos todos. Perdeu-se muita inocência na internet. Às vezes, ainda bem; de outras vezes, infelizmente. [...]»

[A imagem mostra Ryder's House de Edward Hopper.]

Etiquetas:

Quarta-feira, Janeiro 21, 2009

A VAIA QUE NINGUÉM OUVIU


Uma leitora chamou-me a atenção para o blogue de Anne Sinclair, jornalista e mulher de Dominique Strauss-Kahn, o presidente do Fundo Monetário Internacional (por não ter recebido convite, o casal assistiu à investidura no meio da multidão). Madame Strauss-Kahn comenta vários aspectos da inauguração de Obama, revelando, entre outras coisas, que Bush foi vaiado:

«Evidemment, l'apparition de Bush a été sifflée. Que dire de celle de Dick Cheney, qui est arrivé — ô symbole, là aussi — en chaise roulante. Fin sans grâce d'une présidence désastreuse.»

Como a vaia não foi audível por quem acompanhou os directos das várias televisões (nacionais e estrangeiras), temos de concluir que a transmissão foi editada na origem. Não me lembro de ouvir Luís Costa Ribas — que estava no local! — a comentar o facto, mas pode ter sido distracção minha.

Adenda. Como é evidente, ou deveria sê-lo, o «ninguém ouviu» [a vaia] reporta a quem acompanhou o programa-padrão difundido para todo o mundo: CNN, BBC, RTP, SIC, etc. Vários leitores ouviram noutros suportes, como por exemplo através de uma live stream da edição online do New York Times, ou na MSNBC, onde o assunto foi muito comentado.

Etiquetas: ,

O DIRECTO


Para que servem as transmissões em directo de acontecimentos com impacto planetário? Para dar em tempo real a maior e mais qualificada informação? Errado. Servem para proporcionar aos comentadores de serviço um exercício de auto-afirmação. É assim com a cerimónia de entrega dos óscares de Hollywood, foi assim ontem com a inauguração de Barack H. Obama. Num caso como noutro, as imagens são iguais em toda a parte: o pacote Made in USA, difundido em cadeia, garante um padrão de excelência. A partir daí, o público português fica por sua conta. Em estúdio, os comentadores tropeçam nos seus próprios brilharetes — sim, porque “nós que vivemos nos Estados Unidos”... —, enredando-se em perífrases fúteis e discussões extravagantes (como aquela de Martim Cabral querer à força dar conotação sibilina ao H. do presidente, sabendo, como toda a gente sabe, que no mundo anglo-americano o nome do meio é sempre citado por inicial, seja o Fitzgerald de Kennedy ou o Hussein de Obama), e distraindo-se muitas vezes do essencial. Por exemplo, Joe R. Biden ia a meio do juramento quando deram por isso. Grande parte dos intervenientes ficou por identificar. Quem quis ouvir o poema de Elizabeth Alexander teve de mudar para um canal estrangeiro, porque os comentadores da SIC estavam entretidos com elucubrações pessoais. A lesão sofrida por Cheney quando transportava caixas do gabinete para casa (isso explica o recurso à cadeira de rodas) foi dada praticamente em murmúrio. E assim sucessivamente. Não havia necessidade. Do directo, claro.

[A imagem mostra o casal Obama no baile inaugural; Michelle veste Jason Wu, um jovem estilista natural de Taipei. Clique para ver os detalhes.]

Etiquetas: ,

Terça-feira, Janeiro 20, 2009

E ELE COM ISSO?


De acordo com um relatório da Deloitte agora divulgado, a Privado Holding está falida, com prejuízos superiores a 247 milhões de euros. A Privado Holding é a proprietária (a 100%) do Banco Privado Português. Entre os accionistas individuais da PH estão João Rendeiro, fundador e anterior presidente do BPP (13,5%), Francisco Pinto Balsemão (6,45%), Stefano Saviotti (6,33%) e Joaquim Coimbra (2,5%). Entretanto, Adão da Fonseca, o gestor que o Banco de Portugal pôs no lugar de Rendeiro, apresentou ao BdP um plano de salvação do BPP. A todas estas, o que faz Rendeiro? Aceitou o convite do American Club para ser hoje o orador do tradicional almoço mensal, onde terá discutido — vamos partir do princípio de que não fez gazeta — a conjuntura financeira, a sua experiência de banqueiro e... «o impacto de Obama nos mercados internacionais». Comentários para quê?

Etiquetas: ,

A INAUGURAÇÃO


Regresso a Camelot?

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

AS TRÊS PONTAS


Quando foi ministra de Estado e das Finanças do XV Governo Constitucional, a drª Manuela Ferreira Leite subscreveu sem pestanejar a tese de Durão Barroso, então primeiro-ministro, de que a construção do TGV representaria um valor acrescentado bruto de 14,5 mil milhões de euros (sendo 90% da responsabilidade da indústria nacional), e a criação de 90 mil novos postos de trabalho directos e indirectos. Como estão lembrados, o governo de Barroso praticamente triplicou o número de linhas de alta velocidade (a construir) previstas no plano inicial de Guterres. Passaram cinco anos e a actual líder do PSD mudou de opinião. Não foi capaz de o explicar de forma razoável, mas vamos admitir que acredita no que diz. O busílis é que, no mesmo dia em que anunciou o propósito de “riscar” o TGV de um hipotético futuro programa de governo do PSD, nesse dia entre todos azarado — em que, de punhos cerrados, alertou o país para viagens de jornalistas da Lusa a Espanha, “pagos por todos nós”, quando, na realidade, nenhum jornalista da Lusa pôs um pé fora de Benfica... —, ninguém no PSD foi capaz de lhe dizer (a prelecção da senhora foi à noite) que, na manhã desse dia, dois influentes deputados do seu partido — Guilherme Silva, vice-presidente da Assembleia da República, e Miguel Frasquilho, presidente da comissão parlamentar de Obras Públicas — foram a Zamora participar no 1.º Forum Parlamentar Luso-Espanhol, de preparação da cimeira luso-espanhola da próxima semana. Foram lá fazer o quê? Assinar um documento relativo à necessidade de fazer avançar rapidamente a rede de alta velocidade entre Portugal e Espanha. Dito de outro modo, a drª Manuela puxa por uma ponta, o PSD por outra, e o grupo parlamentar por outra ainda. Depois admiram-se que o resultado seja este.

Etiquetas: ,

A caricatura como arte da sobrevivência


A citação que se segue tem como principal objectivo incitar o Alexandre Andrade a fazer o que aqui admitiu como possível. Foi retirada do volume Antigos Mestres: Comédia (Alte Meister: Komödie, 1985), de Thomas Bernhard, que a Assírio & Alvim editou em 2003, em tradução de José A. Palma Caetano: «Você tem de repente de transformar todo o mundo numa caricatura. Você tem força para transformar todo o mundo numa caricatura, disse ele, a força suprema do espírito, disse ele, que para isso é necessária, essa única força da sobrevivência, disse ele. Só aquilo que no fim achamos ridículo é que nós dominamos, só quando achamos ridículo o mundo e a vida que nele existe é que podemos prosseguir, não há nenhum outro, nenhum método melhor, disse ele. No estado de admiração não aguentamos muito tempo e acabamos por soçobrar se não lhe pusermos termo no momento oportuno, disse ele. Toda a vida estive sempre muito longe de ser um admirador, a admiração é uma coisa desconhecida para mim, como não há milagres para admirar, também nunca conheci a admiração e nada me repugna tanto como observar pessoas que admiram, que adoeceram de uma admiração qualquer. Vai­‑se a uma igreja e as pessoas admiram, vai­‑se a um museu e as pessoas admiram. Vai­‑se a um concerto e as pessoas admiram, tudo isso é repugnante. A verdadeira inteligência não conhece a admiração, toma conhecimento, respeita, considera e é tudo, disse ele» (p. 117).

JOÃO AGUARDELA 1969-2009


Morreu o João Aguardela, que ainda não tinha 40 anos. Foi ontem, embora a notícia só hoje tivesse chegado aos jornais. A minha relação com a pop é nenhuma, mas devo-lhe a música de um poema meu, Rapaz a arder, faixa 9 do álbum Canções Subterrâneas (2004), da Naifa, projecto que inventou com Luís Varatojo, Maria Antónia Mendes e Vasco Vaz. O ano começa muito mal.

Etiquetas:

CITAÇÃO, 146


Alice Vieira, entrevistada por Bárbara Wong, hoje no Público. Alice Vieira foi (e continua a ser) uma autora best-seller, muitos anos antes do fenómeno se ter vulgarizado. Há mais de 30 anos que percorre as escolas do país. Convenhamos: é preciso ter tomates para dizer o que Alice Vieira (uma mulher de esquerda) diz. Excertos, com “entradas” minhas:



Retrato da educação: «Assustador».

Síntese: «Professores com fraca formação, alunos que não compreendem o que aprendem.»

Eduquês: «Os professores têm um calão muito próprio e gostava que um professor e a ministra da Educação se sentassem e me explicassem o que é que é a avaliação. O que é que os professores têm que fazer? Para eu perceber!»

Opinião pública: «A maior parte não compreende e os professores queixam-se disso. Quando 140 mil professores vêm para a rua, é óbvio que devem ter razão, mas não têm toda. A ideia que tenho, desde o princípio, é que a ministra tem razão em querer que os professores sejam avaliados, mas não sabe transmitir o que quer.»

O que ouve nas escolas: «A primeira coisa que ouço dizer é: “Estou cansada”, “vou-me reformar”, “estou farta disto”, “não me pagam para isto”... É só o que eu ouço.»

Leis: «As leis são iguais para todos, mas há escolas onde dá gosto ver o trabalho que os professores fazem e a ministra é a mesma! Não é na totalidade das escolas, mas, sobretudo no interior, encontro gente motivada. [...] Mas se está bem para essas escolas, porque é que não está para as outras?!»

Escola pública: «Há um desinteresse, um cansaço e depois há o problema da formação. Não quero generalizar, mas esta gente mais nova... Qual é a preparação que tem? Converso com professores e é um susto, desde a língua portuguesa, tratada de uma maneira desgraçada, até ao desconhecimento dos autores. Sabem muito de eduquês, mas passar além disso é difícil. Muitos professores têm uma formação muito, muito, muito deficiente. Não só falam mal como se queixam diante dos miúdos. A responsabilização dos professores é fraca, eles não são muito seguros e os alunos sentem-no.»

Indisciplina: «As manifestações dos miúdos também me perturbam, porque não sabem o que andam ali a fazer. Eles devem é aprender a falar bem, para saber reclamar, reivindicar.»

Queixas: «Os professores queixam-se que têm de ser pai, mãe, assistente social, educadores... Pois têm! Porque a vida dos miúdos é na escola.»

Novas tecnologias: «Estamos a queimar etapas, a atirar computadores para o colo de miúdos quando não sabem ler nem escrever. Só devia chegar quando tivessem o domínio da língua e da escrita. Os mais velhos não sabem utilizar a Internet, não sabem pesquisar. Copiam e assinam por baixo. O professor tem que ensinar a pesquisar. Às vezes estou a falar e tenho a sensação nítida de que os alunos não estão a perceber nada do que estou a dizer.»

Facilitismo: «Há medo de cansar os meninos. Desde 1974 que os alunos têm sido muito cobaias do ministério. Aconteceu uma coisa terrível na Educação: tudo tem de ser divertido, tudo tem de ser lúdico, nada pode dar trabalho. Não pode ser.»

Inércia: «Quando vou às escolas, esforço-me por transmitir aos alunos que as coisas dão trabalho, mas os próprios professores passam a mensagem de não querer ter trabalho. Quando vou ao estrangeiro, vejo os professores e penso: “Se fosse em Portugal, não era assim”. Fazem [os profs estrangeiros] o que for preciso. Cá dizem que não é da sua competência. A educação é daquelas matérias em que, se calhar, são precisas medidas impopulares.»

Autoridade: «O professor não tem autoridade nenhuma. A solução passa por mais interesse e mais disciplina. O professor tem que sentir gosto pelo que faz e transmiti-lo. Não é uma profissão como as outras e não é seguramente a de preencher impressos.»

Manifs: «As manifestações, no momento a que se chegou, não levam a nada, já vimos que agitam, mas não levam a nada. Tem de haver uma solução, senão o ano lectivo perde-se e o culpado não será só um.»

Etiquetas: ,

Domingo, Janeiro 18, 2009

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Praticamente desconhecido em Portugal, o escritor francês Éric Jourdan (n. 1938), filho adoptivo do escritor americano Julien Green (1900-1998), entrou de rompante na edição portuguesa. Refractário a todo o tipo de mundanidade, avesso à cena literária, Jourdan escreveu sobretudo romances e peças de teatro. Algumas das suas obras mais conhecidas são Les Penchants obscurs (1958), Sang (1992), L’Amour Brut (1993), Sexuellement incorrect (1995) e Le Songe d’Alcibiade (2006). O mais aclamado texto dramatúrgico é Drapeau Noir (1987). Agora, com intervalo de poucas semanas, dois títulos chegaram às livrarias: Os Anjos Maus, 1955 (Bico de Pena) e Barba Azul, Papão E C.ia, 1986 (Cavalo de Ferro). O primeiro foi motivo de escândalo no ano da sua publicação. Joudan tinha então 17 anos, a justiça francesa mandou retirar o livro do mercado — a segunda edição saiu só em 2001 —, e apenas a pouca idade do escritor o salvou da prisão. Pedofilia, gritaram os fariseus. Tudo não passa, afinal, da história de amor entre Pierre e Gérard, dois adolescentes. Mas, nos anos 1950, o tema era subversivo. Vinha longe o reconhecimento da literatura gay. Falarei do livro noutra ocasião. O segundo, a colectânea de contos Barba Azul, Papão E C.ia, adapta o imaginário infantil das fadas e dos ogres, cerzindo prosa e poesia com magníficas ilustrações de Paula Rego, amiga pessoal de Jourdan (a obra é um projecto comum). Barba Azul, Papão E C.ia tem prefácio de Julien Green, que considera Jourdan um Perrault perverso: «O seu sucesso está em reencontrar, sob a capa da modernidade cara a Baudelaire, o tom impessoal dos contos do fundo comum da humanidade. Os mitos desarrumados e literalmente desencaminhados recuperam a sua verdade original.» A tudo isto, a Cavalo de Ferro soube acrescentar uma edição graficamente irrepreensível.


Filipe Nunes Vicente: «Esta história é uma desgraça. Quem a enviou a MFL ignora coisas básicas sobre o combate político pós-medieval. [...] Usar uma historieta de queixinhas e de senhas de viagem é confrangedoramente patético. Por falar em profissionalismo, a entourage de MFL também podia pedir à candidata para não repetir o que fez na entrevista à RTP1: nenhum líder político deve falar em público com os punhos cerrados. É uma mensagem (quase) universal de ameaça e de agressividade.»

Miguel Abrantes: «[...] Afinal, a Dr.ª Manuela não terá cometido uma gaffe quando sustentou que “não pode ser a comunicação social a seleccionar aquilo que transmite”. O PSD quer mesmo “seleccionar” o que a comunicação social transmite, ainda que haja razões óbvias para conhecer o que os partidos de Espanha pensam sobre o assunto: Há um acordo assinado entre Portugal e Espanha para a construção do TGV, sendo que a actual líder do PSD era o número dois do Governo português que celebrou o acordo; / Há um consenso em Espanha em torno do TGV que não foi rompido por meros interesses eleitoralistas por nenhum dos principais partidos; / No dia em que Ferreira Leite disse que “riscaria” o TGV, houve um encontro em Zamora entre parlamentares dos dois países, no qual foi aprovado “um documento conjunto em que instam os dois governos a acelerarem os projectos de ligações ferroviárias e rodoviárias entre Portugal e Espanha”, subscrito por Guilherme Silva (do PSD) e por Ana Pastor (do Partido Popular de Mariano Rajoy). / O Dr. Paulo Rangel não informou a Dr.ª Manuela do que ia a delegação parlamentar fazer a Zamora?» Ver adenda.

Pedro Vieira: «sarilhos com que nem Alá sonha».

Etiquetas: ,

Sábado, Janeiro 17, 2009

TEREZA COELHO 1959-2009


A poucas semanas de completar 50 anos, Tereza Coelho morreu hoje. Um perfil breve, mas justo, da sua pessoa, pode (e deve) ser lido no blogue da Isabel Coutinho. Não me lembro de uma presença tão forte como a dela no jornalismo literário português. Tereza Coelho nasceu em Moçambique, mas vivia em Portugal desde 1973. Foi, entre nós, a única pessoa que me levou a comprar livros depois de ler o que ela havia escrito sobre eles (e só os comprei por essa razão). É uma pobre homenagem, mas, como não voltou a acontecer, deixo-a registada. Também recomendo a leitura do obituário do jornal O Figueirense, transcrito no Blogtailors.

[O retrato de Luís Vasconcelos foi roubado ao Ciberescritas.]

Etiquetas:

CONTRADITÓRIO


A direita tem feito um grande alarido com a prestação de Miguel Cadilhe na comissão parlamentar de inquérito ao caso BPN. É natural. Porque Cadilhe tem um peso que grande parte do pessoal que hoje manda nos partidos da direita não tem. (Cadilhe é sobretudo um político, embora tenha sido, acessoriamente, banqueiro.) E porque zurziu em Constâncio. Mas Cadilhe não tem o monopólio da verdade. Ontem, ouvido na mesma comissão parlamentar, Abdool Karim Vakil, o banqueiro que geriu o BPN entre Fevereiro e Junho do ano passado — foi ele quem fez chegar ao Ministério Público as primeiras denúncias —, disse três coisas que não devem passar em claro: 1. Ao contrário de Cadilhe, que ainda hoje tem dúvidas sobre a titularidade do Banco Insular, Vakil afirmou, peremptório, que o banco de Cabo Verde integra o património da Sociedade Lusa de Negócios, proprietária do BPN. Isso mesmo comunicou aos accionistas em Março do ano passado, e ao Banco de Portugal em Maio. Cadilhe duvida de quê, afinal de contas?; 2. Quando assumiu a gestão do BPN, Vakil encontrou 157 pedidos de esclarecimento feitos pelo BdP, aos quais o BPN não tinha dado resposta (e no dia seguinte à posse tinha um vice-governador do BdP à perna); 3. Tendo criado o Banco Efisa em 1998, que vendeu ao BPN em 2001, tentou recomprar o banco há três meses, para o salvar da borrasca da SLN/BPN, mas Cadilhe nem sequer respondeu. Estamos a falar de coisas concretas. Pode não ser a verdade toda. Mas contradiz enfaticamente os pressupostos da missa de Cadilhe.

Etiquetas: ,

Sexta-feira, Janeiro 16, 2009

MÓNICA MARQUES


Hoje no Público:


O aviso é desarmante: «Se você gosta da Yoko Ono, não vai gostar deste livro. Se além da japonesa maluca, também não gostar da Björk, esqueça. Ouviu? Esqueça.» Quem o diz é Mónica Marques (n. 1970), uma portuguesa radicada no Brasil, que não faz parte do ‘Meio’ nem tem cátedra. Tem só um blogue que classifica como da diáspora blasée. [o Sushi Leblon] Condições bastantes para suscitar o desinteresse da imprensa cultural. Erro fatal, porque Mónica Marques escreve como poucos, e Transa Atlântica vê-se que foi escrito sem pedir licença. Resumindo muito, Mónica Marques é alguém que usa o vernáculo com propriedade: «Na xota não, eu quero casar virgem.» O livro é uma festa. Facto: eu deploro Yoko Ono e Björk.

Sem distinguir entre narrador e autor textual, Mónica escreveu Transa Atlântica como quem redige o diário de uma mulher entre os 30 e os 40, chamando as coisas pelos nomes: ela gosta de «garotos malhados», e explica porquê; mas também gosta de «algumas patricinhas, muito redondas, muito esguias, muito morenas, um nadinha brancas, um nadinha morenas», e não esconde. Na realidade, o diário é o romance de uma cidade, o Rio de Janeiro. À medida que a narrativa avança, vemos reflectida «a favela e o asfalto, o açúcar mais doce e aquela sombra de crueldade» da cidade que fez sua. Nos interstícios há espaço para os anos de Lisboa, entre o Café Império e a Fonte Luminosa, com derivas ao Guincho.

Mónica não é mulher de metáforas, seu forte é a metonímia: «lancei-me para as mesas pretas do fundo do bistrô chique e moderninho da livraria [onde] as mulheres de meia-idade combinavam seus brunchs com brownies light...» A metonímia ajuda a dar cor ao cinza chato das pessoas normais: «Cansei. Não há coisinha mais egoísta do que uma pessoa normal. Nem mais perigosa. Grau de acidez superior a 0,4%. Extra-virgem.» Mónica esqueceu o exacto momento em que deixou de ser uma “pessoa normal”. E escrever é uma forma de exorcizar a falha. De ordinário, o retrato é de tendência, como convém nos ajustes de contas, mas nem por isso menos nítido: «Pessoas normais sonham com a mulher de quatro à beira da cama, mas não pedem que ela se ponha de quatro, a bunda erguida como nos filmes.» Com ela é sempre assim: curto e grosso.

A tentação aforística tem quota de leão, mas seria abusivo pensar no Dictionnaire des idées reçues, de Flaubert, em formato carioca. A possível genealogia no mapear da cidade e de alguns dos seus ícones (Chico Buarque, Vinicius de Morais, Nelson Rodrigues, Arnaldo Jabor, Rubem Fonseca, Ferreira Gullar) vai em linha recta para Ruy Castro. Sucede que Mónica conhece os limites e nunca perde o pé. Faz tudo como quem não quer a coisa, seguindo o fio da história, fino como o da calcinha de fio dental, com ocasional desdobramento de personalidade: «Às vezes eu sou Marta». Mulher sofisticada, e liberada, não teme consultas de búzios com Mãe Valéria de Oxossi, «que não deve ser analisada mas com certeza lê Saramago». Do que ela gosta mesmo é dos inferninhos e do mar da Vieira Souto, esse «mar que é o azedume dos grã-finos», a dois passos do pórtico da eternidade: «Eu gosto de adolescentes de shorts descaídos com as suas bundas perfeitas».

Transa Atlântica é um romance dentro de um diário, ferramentas a céu aberto (o do Leblon), matéria textual, a luz perto do coração, a pulsão do pau, os morros, a doçura dos pipis indecisos, Capitu, pessoas que odeiam blogues mas têm contas a prazo, «a influência de Kierkgaard nos filmes de Woody Allen», Emily Brontë, mulheres do mundo vidradas em morcela, trambiques, crónica doméstica, Berardo (esse, o Joe), uma instigante luta corpo-a-corpo com as possibilidades bilingues da língua comum. Cabe tudo em 118 capítulos. Primeiríssima água.


Contra as pessoas normais, in Ípsilon, 16-1-2009, p. 28. Quatro estrelas.

Etiquetas:

Quinta-feira, Janeiro 15, 2009

ALGUÉM QUIS SABER?


Há vinte anos, a ilusão da Europa intoxicou os portugueses. E, há dez, a entrada na zona Euro potenciou o delírio. Na pequena-burguesia, não houve quem não fizesse férias em Cancum ou em Porto de Galinhas (no ano passado chegou a haver 30 vôos por semana de Lisboa para o Brasil, estão recordados?), comprasse casa a filhos desempregados, oferecesse popós ao menino e à menina pela entrada na universidade e se endividasse com os casamentos dos rebentos. Nas classes médias, sobretudo na alta, o padrão extrapolou. Tudo o que fosse menos que férias no Dubai ou na Patagónia representava uma confissão de derrota. E por aí fora. De repente, um país habituado à parcimónia brincava ao desafogo e ao cosmopolitismo. Uma a uma, as ilusões desfizeram-se. Dezenas de milhares de licenciados não encontram lugar no mercado de trabalho porque: a) o país é pequeno; b) a economia estagnou há mais de 30 anos; c) uma percentagem significativa desses licenciados nem para empregados de balcão estão preparados (os que sabem inglês, emigram; são cada vez mais). Um dia se fará a história do ensino universitário privado, e de quem o autorizou nestes termos, responsável pela geração dos desempregados que têm como primeira preocupação o cartão de visita: Dra. Maria do Entrevero Cascudo, Licenciada em Relações Internacionais. Não têm emprego, mas são doutores. OK. Do lado das gerações mais velhas (as dos pais) a realidade afunilou com brutalidade. Não vale a pena fazer o inventário: da magistratura à docência, passando pelo regime geral da função pública — fonte de tanta indignação bloguítica —, não há quem não tenha razões de queixa, porque o escrutínio apertou e o custo de vida disparou (isto vale para o privado). De certo modo, voltamos ao esplendor neo-realista da primeira metade dos anos 1980. Os mais velhos lembram-se. Os mais novos — entre eles os bloggers que então tinham 20 e poucos anos, e encontravam no Frágil um escape para o quotidiano medíocre — ou não se lembram, ou vivem, como é mesmo que se diz?, em estado de negação... Se as pessoas vivessem bem (a maioria não vive), marimbavam-se para a inoperância da justiça, os escândalos da banca, os salários dos gestores de topo, os investimentos em obras públicas, as muralhas de aço (Alcântara), a avaliação dos professores, as universidades a fechar, etc. Tal como se marimbaram, em devido tempo, com as fraudes do Fundo Social Europeu. Milhões e milhões e milhões delapidados entre 1986-96 em acções de formação profissional de que nunca ninguém viu resultados. (Sim, eu sei, os sindicalistas da UGT foram absolvidos em 2007, ao fim de 15 anos de querela jurídica.) Alguém quis saber? Agora é tarde.

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Janeiro 14, 2009

Um blogue sobre Clarice


Imagino que nunca me esquecerei da minha primeira leitura de uma obra de Clarice Lispector, não porque as circunstâncias que a rodearam tivessem algo de anormal (bem pelo contrário), mas apenas pelo efeito que me provocou a descoberta da escrita da autora de A Maçã no Escuro (1961). Essa revelação deu­‑se com Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres (1969), a que haveria de se seguir A Paixão segundo G. H. (1964). Foi, por isso, com uma grande satisfação que descobri um blogue como o Projecto Clarice, da autoria de Patrícia Lino, aluna da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que o criou no âmbito da disciplina de Métodos e Técnicas de Pesquisa. Se o objectivo maior do trabalho consiste em divulgar a obra de Clarice Lispector, o modo como o concretiza é, em simultâneo, invulgar e fascinante. Ao longo de várias etapas, Patrícia Lino propõe­‑se construir um suporte escrito, um conjunto fotográfico, um trabalho digital, representações pictóricas da escritora e uma curta­‑metragem, para além de realizar várias sessões de leitura em escolas do distrito do Porto. A concretização destas actividades pode começar a ser verificada no blogue, que já mereceu a atenção, entre outros, do Ciberescritas, do Bibliotecário de Babel ou da revista Ler. Se servir para que mais alguém descubra o universo literário desta autora tão fascinante, o Projecto Clarice terá, seguramente, cumprido o seu papel.

MONTES DE SARILHOS


A ideia que tinha do cardeal Patriarca de Lisboa era a de um homem do seu tempo, culto e tolerante. Mas estas declarações põem-me os cabelos em pé. O facto de ter ido falar a um casino parece-me pouco ortodoxo, mas os “montes de sarilhos” em que as mulheres portuguesas se metem quando apaixonadas por muçulmanos... são, para dizer o menos, bizarras. D. José Policarpo não é um patusco a lavar o fígado nas caixas de comentários dos blogues. Como se viu ontem, a linha de fronteira é muito ténue.

Etiquetas: ,

Terça-feira, Janeiro 13, 2009

AOS COSTUMES DISSE NADA


Não me recordo já de quem partiu a ideia peregrina (se do CDS-PP ou do Bloco) da comissão de inquérito parlamentar ao caso BPN. A procuradora Cândida Almeida escandalizou o país quando disse que o mais que iam conseguir eram fofocas, e estava cheia de razão. Constâncio passou por lá, mas Constâncio é governador do Banco de Portugal, foi e disse o que quis dizer. O mesmo com o Procurador-Geral da República, e o mais importante que os deputados ouviram de Pinto Monteiro foi que o Ministério Público não tem condições para combater, com eficácia, o crime económico. Hoje foi a vez de Oliveira e Costa, o patrão do BPN, em prisão preventiva desde Novembro. Oliveira e Costa foi e não abriu a boca. Será que algum deputado no seu perfeito juízo estava à espera de ouvir o antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais a fazer revelações sobre os procedimentos do banco? A justiça tem sede própria, e o deputados que gostam de thriller têm hoje muito por onde escolher nos canais por cabo.

Etiquetas: , ,

VARA, AGAIN


Armando Vara anda de novo nas bocas do mundo. Desta vez porque a Caixa Geral de Depósitos indexou o seu lugar de origem ao nível salarial mais alto, tendo-o feito cinco ou seis semanas depois de ter abandonado a instituição (uma medida com reflexos no momento da reforma, quando ela chegar; Vara tem hoje 54 anos). Ponto prévio: Vara saiu mesmo da CGD, ou seja, quebrou o vínculo laboral. Não foi para a administração do Millennium BCP à boleia de licença sem vencimento ou requisição. Já uma vez escrevi que todo este burburinho à volta de Vara radica em pressupostos de casta. Vara nasceu em Lagarelhos, não acabou o curso de filosofia e começou a vida como empregado de balcão da CGD. No país dos doutores, os media não perdoam: como é que um homem destes, depois de ter sido várias vezes eleito deputado, foi duas vezes secretário de Estado e outras duas ministro (uma delas como adjunto do primeiro-ministro), tendo chegado a administrador da CGD e do Millennium BCP, os dois colossos do sistema bancário? Sim, houve o episódio rocambolesco da Fundação para a Prevenção e Segurança, que ditou a sua saída do governo de Guterres, mas, na impossibilidade de provar hipotéticas irregularidades, o Ministério Público mandou arquivar o processo, reconhecendo que Vara «não violou a Lei». Pertencesse Vara ao círculo dos happy few do eixo Lisboa-Cascais, ou viesse das famílias com pedigree... e os media metiam a viola no saco, como metem sempre (o recente imbróglio do BPP é eloquente), assobiando na direcção do vento.

Mas há o outro lado da questão. E o outro lado da questão começa no PREC, quando, para obviar aos salários baixos, os sindicatos das corporações influentes conseguiram impor uma panóplia de benefits que fizeram o seu caminho nos últimos 30 anos. São as famosas conquistas. (Em 2005, Sócrates destapou a tampa, o que explica grande parte do rancor, mas há gamelas de fundo muito fundo e nem tudo veio à tona.) O artifício da indexação ao escalão salarial mais alto, no momento da transferência, exoneração ou reforma — isto é, quando ocorre quebra de vínculo —, não é novidade nenhuma. Pratica-se em inúmeras empresas públicas e privadas. Não faço a defesa do procedimento. Limito-me a constatar o facto. Até determinada altura (creio que até 1999), um funcionário público podia aposentar-se com a categoria obtida na véspera. Alguém, com idade e antiguidade nos termos da lei, pretendendo sair, fazia chegar essa pretensão ao topo quando abria concurso, concorria, ficava em 1.º lugar (os opositores não reclamavam por estarem a par do expediente), tomava posse, e, no dia seguinte, aposentava-se. Mas isso acabou. Desde 1999 ou 2000 a Caixa Geral de Aposentações exige dois anos de descontos para indexar a pensão de aposentação ao último vencimento. Bem vistas as coisas, isto não é muito diferente de passar o bancário do nível 17 para o nível 18 no momento do adeus. Ora, este tipo de lugar-comum devia levar a uma abordagem não-fulanizada. Se os media querem indignar-se, podiam começar por investigar a extensão dos benefits escondidos — como fez o Expresso esta semana, revelando que o Millennium BCP tem 28 quadros superiores a trabalhar noutras empresas, mantendo 70% do salário do lugar de origem; «está nos Estatutos», dizem eles —, porque Vara não tem seguramente o seu monopólio.

Adenda. Prova de que o pedigree é determinante no tratamento jornalístico, é o caso da obtenção fraudulenta de cartas de marinheiro, hoje divulgada nos media. O MP fez a acusação, a notícia vem nos jornais, estamos a falar de corrupção activa e passiva, mas só o Correio da Manhã refere o envolvimento do engenheiro Ferreira do Amaral, ex-ministro de Soares e de Cavaco e candidato do PSD à Presidência da República. Por que será?

Etiquetas: ,