Sábado, Outubro 17, 2009

Livros ornamentais


Ao entrar, há dias, numa conhecida loja de mobiliário e artigos de decoração situada num dos maiores centros comerciais do país, deparei­‑me com duas ou três estantes enormes, daquelas que ocupam uma parede de alto a baixo, cheias de livros. Falo de livros verdadeiros e não daquelas lombadas ocas, habitualmente carregadas de dourados, que eram apontadas como a expressão caricatural do burguês ignorante e endinheirado; bem pelo contrário, aqui até havia algumas obras interessantes, como tive ocasião de reparar, dado que me detive por instantes a descobrir os títulos que, de forma inesperada, me haviam acolhido. Tratar­‑se­‑á, portanto, de uma nova (velha) moda de decoração de interiores, que reduz o livro à dimensão de adorno indispensável. Não sei se será também um sinal de um certo anacronismo deste objecto que nos habituámos a associar à literatura, ainda que esta possa muito bem escapar­‑se dele e ir refugiar­‑se nos ecrãs dos computadores ou nos livros electrónicos, por exemplo. Seja como for, ocorreu­‑me que, muito provavelmente, teria sido possível a alguém roubar um daqueles livros e retirar­‑se da loja sem ser detectado por qualquer alarme, pois nenhum sistema de detecção de roubo deve ter sido instalado nos livros. Ainda que seja de admitir que eles estejam ali para venda, acompanhando a estante que decoram, creio que os funcionários da loja só detectariam a falta de um deles se o título em questão fosse tão volumoso que a sua ausência originasse um buraco indisfarçável numa fileira de lombadas.