Sexta-feira, Outubro 09, 2009

ANTÓNIO LOBO ANTUNES


Hoje no Público:


As biografias são um trabalho ingrato. Exigem tempo, paciência e distância crítica. Em Portugal há outro óbice: o puritanismo. Não admira pois que o jornalista João Céu e Silva chame «retratos biográficos» às quatro grandes entrevistas que fez com Álvaro Cunhal (2005), Miguel Torga (2007), José Saramago e António Lobo Antunes. As duas últimas foram publicadas em 2009, a primeira em Março, a segunda em Setembro. O título da série mantém-se: Uma longa viagem com.... A de António Lobo Antunes (n. 1942) chega quando se completam 30 anos de publicação de Memória de Elefante (1979). É nela que vamos centrar-nos.

Logo a abrir, João Céu e Silva dá conta de dificuldades de comunicação: «Se às vezes, bastantes, me telefonava a convocar, outras vezes, ordenava a alguém da editora para o fazer. Assim, recebi meia dúzia de recados da Dom Quixote a dizer que a sessão da próxima sexta-feira não se poderia realizar a troco de uma qualquer explicação descabida...» (o uso dos verbos convocar e ordenar parece-me sintomático). Somos igualmente advertidos das inevitáveis repetições: Lobo Antunes volta incessantemente aos mesmos temas. As entrevistas realizaram-se em Lisboa, Nova Iorque, Boston e Washington, entre 24 de Setembro de 2007 e 11 de Maio de 2009.

Como de regra em Portugal, não há contraditório. Lobo Antunes lava o fígado a solo. Sobre Saramago, o grande rival, começará por dizer que se conheceram em 1983, «estávamos os dois no início». Sucede que Saramago publicou, até 1982, catorze livros: romances, contos, poemas, crónicas, etc. Lobo Antunes tem uma peculiar concepção de começo. O biógrafo não contraditou.

Por vezes, é Lobo Antunes quem faz as perguntas. Tem curiosidade em saber se José Pacheco Pereira é «um homem decente». Sobre o que ele escreve tem opinião formada: «Escreve mal, mas tem ideias e não é nada parvo. Eu li o livro dele sobre o Álvaro Cunhal e é bom, é interessante.» Sobre os mais novos também faz perguntas. Fica espantado no dia em que sabe que Gonçalo M. Tavares e José Luís Peixoto vão ser colunistas da Visão. Comenta: «Eu nunca os vi. Conhece o que eles fazem?» Mais tarde saberemos que Tavares lhe ofereceu livros no Parque Eduardo VII e que Peixoto foi assistir a uma conferência sua em Nova Iorque. Pedro Mexia é tratado como «um senhor que eu não conheço». O visado já desmentiu. A 30 de Outubro de 2007, Miguel Sousa Tavares merece-lhe o seguinte comentário: «É meu cunhado e agora também quer ser escritor.» Quando João Céu e Silva faz notar que José Rodrigues dos Santos foi o autor que mais vendeu no Natal de 2008, Lobo Antunes interpela-o: «Mas está a falar de escritores ou de livros? Há pessoas que escrevem e há escritores. Não sei do que está a falar.» E assim sucessivamente. Ninguém como ele. Se duvida, pergunte a Steiner ou Harold Bloom. A recomendação é dele. Gregory Rabassa, o tradutor americano, fala de Proust e Joyce para classificar Que farei quando tudo arde? (2001). Não admira que, quando a Dom Quixote foi comprada pelo Grupo Leya, Lobo Antunes tenha exigido tratamento diferente dos outros autores da casa.

O que é que se salva? A polícia melhorou: «Sabem falar, sabem escrever — tinham lido livros meus —, enquanto antigamente eram uns selvagens.» Mário Cláudio parece-lhe «um escritor despretencioso», embora não conheça bem a obra dele. Poucos são poupados ao azedume: José Cardoso Pires, Ernesto Melo Antunes, Tereza Coelho, Christian Bourgois e o cubano Reinaldo Arenas: «O Arenas era um homem muito bonito, com uma cara de camponês. [...] Chegava a mamar cem gajos por dia em Cuba, era o regimento inteiro.» Arenas telefonou-lhe no dia em que se matou.

O melhor do livro é o intervalo dedicado à operação ao cancro, bem como algumas reflexões sobre a guerra colonial. O resto é quase só gossip literário: entre as pp. 294-296, Lobo Antunes faz um exaustivo tour d’horizon ao século XX português: Raul Brandão «não sabia estruturar um livro», Ricardo Reis é «pindérico», José Régio uma «pepineira», Fernando Namora uma «merda», etc. A questão das traduções de autores portugueses no estrangeiro é bem observada: editoras marginais, invisibilidade total. Mesmo assim, toda a gente (Cláudio e outros) lhe pede que leve livros lá para fora. Para quê? Para «depois poder pôr ali à entrada do livro que foi traduzido em não sei que língua...» Nanja ele. Ele faz parte dos «cinco ou seis caramelos» que estão sentados à mesa dos grandes grupos editoriais. Para que conste.

A fechar, Lobo Antunes revela que José Sócrates pensou fazer lobbying a seu favor junto da Academia Sueca. Mas ele faltou ao jantar em que tudo seria combinado.

Esta “longa viagem” é um monólogo de 494 páginas. O volume inclui dezenas de fotografias.


O esplendor de Si, in Ípsilon, 9-10-2009, p. 42. Duas estrelas.

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