Sexta-feira, Julho 31, 2009

TOM PERROTTA


Hoje no Público:


André Chêdas, que já havia traduzido Pecados Íntimos, de Tom Perrotta (n. 1961), reincide com Abstinência. Perrotta é o tipo de autor que faz a ponte entre leitores exigentes e estúdios de cinema que põem o negócio à frente de tudo. Conhecemos personagens suas por intermédio de Kate Winslet, Matthew Broderick, Reese Witherspoon e outros.

Abstinência trata de um tema que está na ordem do dia: educação sexual no ensino básico. Aqui não há alunas com gravadores escondidos, como na Escola Sá Couto, mas o teinador de futebol Tim Mason, um antigo toxicodependente que trocou as drogas duras pela religião, transformando-se numa espécie de guerreiro de Deus, tem um comportamento simétrico ao das mães que deram origem ao escândalo de Espinho.

Como sempre, a escrita de Perrotta é seca, fluente, sem rodriguinhos de qualquer espécie, especialmente sedutora para leitores que, ao longo do livro, identificam com facilidade inúmeras referências culturais (e comportamentais) dos nossos dias. Dito de outro modo, Perrotta é um escritor realista sem complexos, o que não acontece com a maioria dos autores da sua geração. A seu respeito é frequente fazerem-se comparações com Raymond Carver. Eu acho que Balzac chega, porque se Balzac tivesse vivido em Stonewood Heights teria decerto escrito A Comédia Humana com a mesma garra, numa época (a nossa) em que a burguesia well-off ocupa o centro do palco, dispensando-o de explicar as razões da sua ascensão.

Como em Pecados Íntimos, este novo romance trata dos mais antigos recalcamentos: sexo e religião. Os subúrbios das grandes cidades americanas podem ser muito assépticos, mas a mentalidade-padrão (quase sempre um falso arremedo de espírito comunitário) dos membros do “meio” tende a potenciar conflitos de violência subliminar.

Se uma igreja cristã evangélica se opõe a determinadas práticas, como, por exemplo, ensinar educação sexual a menores, a luta é sem tréguas. Neste caso, o Tabernáculo Evangelho Puro, uma instituição cristã fundamentalista, opõe-se ao plano de ensino de Ruth Ramsey, professora da disciplina de Saúde e Vida Familiar do liceu de Stonewood Heights. As manchetes mais benignas dos pasquins locais identificam-na como «Dama do Sexo Oral». O pecado de Ruth é estar preocupada em alertar (e precaver) os alunos para doenças sexualmente transmissíveis. Mas nem todos pensam assim. A uma aluna que considera nojento o sexo oral, responde: «Se feitos nas devidas proporções, tanto o cunnilingus como os fellatio devem ser bem mais agradáveis e higiénicos do que beijar uma sanita. Espero que tenha respondido à tua pergunta.» Para o Tabernáculo Evangelho Puro isto é pura heresia. Sodoma à porta de casa.

O fantasma da pedofilia também preocupa a comunidade. A Associação de Futebol Juvenil de Stonewood Heights tem um manual com regras estritas sobre proximidade física «desapropriada ou intrusiva», como ajudar uma criança a mudar de roupa ou dar palmadas nas nádegas (uma velha tradição americana indissociável do beisebol) e, sobretudo, nunca dar azo a jogos ou brincadeiras «sexualmente aliciantes com uma criança». As festas de pré-adolescentes (aniversários, etc.) são rigorosamente vigiadas por seguranças de agências especializadas. E nos bailes de finalistas passou a ser vulgar a utilização de alcoolímetros. É este mundo “irreal” que Perrotta descreve com secura não isenta de subtileza crítica.

Stonewood Heights é o paraíso do imobiliário de sucesso, das pessoas “normais” que um dia descobrem a quantidade de esqueletos que têm no armário, mas fazem de conta, porque se não fizessem de conta não tiravam proveito das sessões de póquer ou dos serões de cinema em casa (tecnologia de ponta!), sempre mais interessantes que a rotina dos estudos bíblicos e da exigência de, em público, excluir das suas vidas o álcool, o fumo e o sexo não-procriador. Abstinência é o retrato melancólico (sem deixar de ser cruel) dos estigmas de certas classes-médias.


O guerreiro de Deus, in Ípsilon, 31-7-2009, pp. 34-35. Quatro estrelas e meia.

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