A NOVA GUIMARÃES

No pasado 25 de Abril, publiquei aqui este texto, divulgado na véspera no Blogtailors, como artigo de opinião. Passam hoje dois meses. No ínterim, Paulo Teixeira Pinto, presidente da Guimarães Editores, convidou-me a visitar a casa, onde fui recebido, com toda a cordialidade, por ele e por Vasco Silva, o editor.
Dizia eu que, que, na sua fase actual, a Guimarães se limitara a reeditar um catálogo de clássicos de prestígio, tendo ficado, em matéria de originais, pelo Dicionário Imperfeito, uma colectânea de declarações avulsas de Agustina Bessa-Luís, organizado por Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira. E ironizava dizendo que o conselho editorial devia estar preso num engarrafamento de trânsito...
Estas coisas acontecem porquê? Porque cada vez mais a distribuição é um caos. Sucede que, já em 2009, a Guimarães editou meia centena de títulos. Mas, em livraria, eu vi três. A notável saga da Crónica da Vida Lisboeta, de Joaquim Paço d’Arcos — seis romances, publicados entre 1938 e 1956, agora reunidos em três volumes de capa dura —; o referido Dicionário Imperfeito e, por último, Pensadora entre as coisas pensadas (2008), lição do doutoramento honoris causa em Línguas e Literaturas Europeias e Americanas outorgada a Agustina pela Universidade Tor Vergata, de Roma, em edição bilingue traduzida por M. Freitas da Costa.
E afinal há um mundo por descobrir. Joaquim Paço d’Arcos (1908-1979) devia dispensar apresentações. Mas o labéu de escritor do Ancien Régime afastou-o dos leitores com menos de 70 anos. Afinal, ninguém como ele descreveu o quotidiano classista do Estado Novo — e vou citar palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, autor da introdução à trilogia — «com traços de monarquia absoluta rural e ultraconservadora mais do que de despotismo esclarecido e, certamente, de fascismo contemporâneo.» Também vamos ter Agustina ne varietur: cinquenta volumes, dos quais cinco estão já em livraria, incluindo O Chapéu das Fitas a Voar, com relatos autobiográficos inéditos. E o Sena integral, começando com Sinais de Fogo (1979). Paulo Teixeira Pinto concorda comigo: «É o grande romance do século XX português.» E Oliveira Martins, senão integral, pelo menos o essencial. Mais Ferreira de Castro, Conan Doyle, Hesse, etc. Excelentes notícias.
Tenho aqui comigo os cerca de 50 volumes feitos desde Janeiro. Em traços gerais, a Guimarães divide-se em cinco chancelas. A Guimarães ela-mesma, para filosofia e ensaio (foi reeditado o 1.º tomo da História da Filosofia Portuguesa, de Pinharanda Gomes); a Ática, para poesia; a Athena — que foi buscar o título ao Almada — para livros de arte tout court, da pintura e escultura da Renascença ao pós-punk e ao concretismo, do design à fotografia e ao cinema, etc.; a Centauro, para recuperar ensaios breves, à laia de folhetos; e, last but not least, a IZI Press para obras fora de contexto específico.
Uma colectânea de 23 contos, Kismet (2009), escritos por autores anónimos, assinando sob pseudónimo — futebolistas, decoradores, CEO’s, esoterologistas bíblicos, advogados, matemáticos, espiões, economistas, um violoncelista e um que outro jornalista —, traz um boletim de voto para os leitores escolherem o preferido. Alguns são muito bons. Há um regulamento a cumprir e manual de instruções. Quem acertar, ganha um prémio. Não sei qual. Kismet, que leva por subtítulo Contos de Fados, tem posfácio de Luiza Costa Gomes. Nenhum nome na capa, com fundo fotográfico ouro-negro de Inês Sena. Colecção-mãe: Guimarães.
Termino destacando Alvorada Desfeita (2009), de Diogo de Andrade — pseudónimo de um alto quadro do Estado, testemunha privilegiada dos meandos militares e políticos do antes e do depois do 25 de Abril —, ficção sobre o que seria Portugal se a revolução não tivesse triunfado. Tomás, Caetano, Spínola, Kaúlza, Costa Gomes, Barbieri Cardoso e outros que tais, são protagonistas centrais. História virtual, portanto. Como nota António Marques Bessa, o plot denota o conhecimento de quem exerceu o poder, fazendo-o numa «tecitura fina de intriga e conjuntura epocal». A este ritmo, vamos longe.
Batam o pé aos livreiros!
Dizia eu que, que, na sua fase actual, a Guimarães se limitara a reeditar um catálogo de clássicos de prestígio, tendo ficado, em matéria de originais, pelo Dicionário Imperfeito, uma colectânea de declarações avulsas de Agustina Bessa-Luís, organizado por Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira. E ironizava dizendo que o conselho editorial devia estar preso num engarrafamento de trânsito...
Estas coisas acontecem porquê? Porque cada vez mais a distribuição é um caos. Sucede que, já em 2009, a Guimarães editou meia centena de títulos. Mas, em livraria, eu vi três. A notável saga da Crónica da Vida Lisboeta, de Joaquim Paço d’Arcos — seis romances, publicados entre 1938 e 1956, agora reunidos em três volumes de capa dura —; o referido Dicionário Imperfeito e, por último, Pensadora entre as coisas pensadas (2008), lição do doutoramento honoris causa em Línguas e Literaturas Europeias e Americanas outorgada a Agustina pela Universidade Tor Vergata, de Roma, em edição bilingue traduzida por M. Freitas da Costa.
E afinal há um mundo por descobrir. Joaquim Paço d’Arcos (1908-1979) devia dispensar apresentações. Mas o labéu de escritor do Ancien Régime afastou-o dos leitores com menos de 70 anos. Afinal, ninguém como ele descreveu o quotidiano classista do Estado Novo — e vou citar palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, autor da introdução à trilogia — «com traços de monarquia absoluta rural e ultraconservadora mais do que de despotismo esclarecido e, certamente, de fascismo contemporâneo.» Também vamos ter Agustina ne varietur: cinquenta volumes, dos quais cinco estão já em livraria, incluindo O Chapéu das Fitas a Voar, com relatos autobiográficos inéditos. E o Sena integral, começando com Sinais de Fogo (1979). Paulo Teixeira Pinto concorda comigo: «É o grande romance do século XX português.» E Oliveira Martins, senão integral, pelo menos o essencial. Mais Ferreira de Castro, Conan Doyle, Hesse, etc. Excelentes notícias.
Tenho aqui comigo os cerca de 50 volumes feitos desde Janeiro. Em traços gerais, a Guimarães divide-se em cinco chancelas. A Guimarães ela-mesma, para filosofia e ensaio (foi reeditado o 1.º tomo da História da Filosofia Portuguesa, de Pinharanda Gomes); a Ática, para poesia; a Athena — que foi buscar o título ao Almada — para livros de arte tout court, da pintura e escultura da Renascença ao pós-punk e ao concretismo, do design à fotografia e ao cinema, etc.; a Centauro, para recuperar ensaios breves, à laia de folhetos; e, last but not least, a IZI Press para obras fora de contexto específico.
Uma colectânea de 23 contos, Kismet (2009), escritos por autores anónimos, assinando sob pseudónimo — futebolistas, decoradores, CEO’s, esoterologistas bíblicos, advogados, matemáticos, espiões, economistas, um violoncelista e um que outro jornalista —, traz um boletim de voto para os leitores escolherem o preferido. Alguns são muito bons. Há um regulamento a cumprir e manual de instruções. Quem acertar, ganha um prémio. Não sei qual. Kismet, que leva por subtítulo Contos de Fados, tem posfácio de Luiza Costa Gomes. Nenhum nome na capa, com fundo fotográfico ouro-negro de Inês Sena. Colecção-mãe: Guimarães.
Termino destacando Alvorada Desfeita (2009), de Diogo de Andrade — pseudónimo de um alto quadro do Estado, testemunha privilegiada dos meandos militares e políticos do antes e do depois do 25 de Abril —, ficção sobre o que seria Portugal se a revolução não tivesse triunfado. Tomás, Caetano, Spínola, Kaúlza, Costa Gomes, Barbieri Cardoso e outros que tais, são protagonistas centrais. História virtual, portanto. Como nota António Marques Bessa, o plot denota o conhecimento de quem exerceu o poder, fazendo-o numa «tecitura fina de intriga e conjuntura epocal». A este ritmo, vamos longe.
Batam o pé aos livreiros!
Etiquetas: Edição, Literatura

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