VLADIMIR NABOKOV

Hoje no Público:
Em russo, Sogliadatai quer dizer espião, ou vigilante. Foi com esse título que Vladimir Nabovov (1899-1977) publicou, em 1938, a novela que em 1965 passou a chamar-se The Eye. Escrita em 1930, recupera, por interposto Smurov, a memória dos desapossados da revolução bolchevique. O Olho vem agora juntar-se à já extensa bibliografia do autor em português.
Nabokov deixou a Rússia em 1919. Seu pai, um proeminente advogado de causas liberais, membro do Parlamento e fundador do Partido Democrata e Constitucional (Kadet), chegou a ministro da Justiça no governo de transição. A experiência durou pouco, e a família viu-se obrigada a fugir para Inglaterra, onde Nabokov frequentou o Trinity College. A família mudou-se para Berlim em 1920, mas ele continuou os estudos em Cambridge. Partiu em 1923, depois do assassinato do pai por lealistas monárquicos. Não admira que o tema dos emigrados russos de Berlim lhe seja caro. Afinal, foi na capital alemã que viveu até 1937, quando, para fugir aos nazis, se mudou para Paris e dali para os Estados Unidos.
A novela cabe toda em menos de 90 páginas. Mas seria um erro supor que essa brevidade prejudica o seu lugar na hierarquia da obra. O facto de dispensar o largo fôlego dos romances que fizeram de Nabokov um nome de referência do século XX, casos de Lolita (1955), Fogo Pálido (1962) e Ada ou Ardor (1969), não traduz menor eloquência de recursos discursivos. Pelo contrário. Se, como parece consensual, o virtuosismo do autor atinge a sua melhor forma nos contos (sirva de exemplo, entre todos, As Irmãs Vane, de 1959), não é de admirar que O Olho faça a síntese dessas qualidades.
O Olho põe em cena um conjunto de personagens arquetípicas: um homem de negócios expatriado (Kasmarine), um coronel que combateu no Exército Branco (Mukhine), um diarista bonacheirão (Bogdanovitch), um judeu excêntrico que tem uma livraria e sonha com a Índia (Weinstock), uma médica que conheceu os horrores da Guerra Civil russa (Mariana), etc. Tudo se passa em Berlim. No centro da intriga está Matilde, «senhora nutrida, desinibida, com um olhar manso», casada com Kasmarine e amante de Smurov. Smurov trabalha como preceptor de uma família russa «que ainda não tivera tempo de empobrecer». Ali conheceu Matilde, visita da casa. Matilde é o tipo de mulher que, ao surgir, dá a sensação «de que alguém [subiu] o aquecimento da sala»; a tal ponto que, quando a perdia de vista, Smurov «sentia frio, frio até à náusea.» Ao mesmo tempo que potencia o efeito alusivo, a economia narrativa não elide a minúcia descritiva. Como notou Harold Bloom, Nabokov é mais tchekoviano do que gostaria (ele preferia Gogol), e mesmo aqui isso se nota de forma indelével.
Por razões que o leitor a seu tempo descobrirá, Smurov suicida-se com um tiro bem sucedido. Porém, a partir do momento em que o corpo desemparado se afunda no soalho «como num poço sem fundo», a sua vida em «plano incorpóreo» ganha uma inesperada vivacidade. Começa por trabalhar como vendedor na livraria de Weinstock e, em pouco tempo, participa nas sessões de Mesa de Pé de Galo que convocam César, Maomé, Púchkin, Lenine e outros. É especialmente divertido o diálogo com Lenine, que protesta saudades de Baden-Baden, embora recuse falar da vida além-túmulo sem autorização do plenário...
O carácter simbólico da história não inibe as questões identitárias, Leitomotiv que atravessa as duas fases da obra de Nabokov: a russa (os dez livros que escreveu entre 1926 e 1939), e a americana (tudo o que escreveu a partir de 1941). Smurov é um dos alvos. A seu respeito, Bogdanovitch, classificando Smurov como «canhoto sexual», escreve: «É notável como estes indivíduos [...] ao mesmo tempo que anseiam fisicamente por um qualquer espécime belo da virilidade madura [...] escolhem para objecto da sua (perfeitamente platónica) admiração uma mulher...» Um juízo arriscado, como o desenvolvimento da intriga demonstra.
Sublinhar a irrepreensível tradução de Telma Costa, que também traduziu, entre outras obras, os Contos Completos de Nabokov.
O Vigilante de Si Mesmo, in Ípsilon, 29-05-2009, p. 32. Cinco estrelas.
Em russo, Sogliadatai quer dizer espião, ou vigilante. Foi com esse título que Vladimir Nabovov (1899-1977) publicou, em 1938, a novela que em 1965 passou a chamar-se The Eye. Escrita em 1930, recupera, por interposto Smurov, a memória dos desapossados da revolução bolchevique. O Olho vem agora juntar-se à já extensa bibliografia do autor em português.
Nabokov deixou a Rússia em 1919. Seu pai, um proeminente advogado de causas liberais, membro do Parlamento e fundador do Partido Democrata e Constitucional (Kadet), chegou a ministro da Justiça no governo de transição. A experiência durou pouco, e a família viu-se obrigada a fugir para Inglaterra, onde Nabokov frequentou o Trinity College. A família mudou-se para Berlim em 1920, mas ele continuou os estudos em Cambridge. Partiu em 1923, depois do assassinato do pai por lealistas monárquicos. Não admira que o tema dos emigrados russos de Berlim lhe seja caro. Afinal, foi na capital alemã que viveu até 1937, quando, para fugir aos nazis, se mudou para Paris e dali para os Estados Unidos.
A novela cabe toda em menos de 90 páginas. Mas seria um erro supor que essa brevidade prejudica o seu lugar na hierarquia da obra. O facto de dispensar o largo fôlego dos romances que fizeram de Nabokov um nome de referência do século XX, casos de Lolita (1955), Fogo Pálido (1962) e Ada ou Ardor (1969), não traduz menor eloquência de recursos discursivos. Pelo contrário. Se, como parece consensual, o virtuosismo do autor atinge a sua melhor forma nos contos (sirva de exemplo, entre todos, As Irmãs Vane, de 1959), não é de admirar que O Olho faça a síntese dessas qualidades.
O Olho põe em cena um conjunto de personagens arquetípicas: um homem de negócios expatriado (Kasmarine), um coronel que combateu no Exército Branco (Mukhine), um diarista bonacheirão (Bogdanovitch), um judeu excêntrico que tem uma livraria e sonha com a Índia (Weinstock), uma médica que conheceu os horrores da Guerra Civil russa (Mariana), etc. Tudo se passa em Berlim. No centro da intriga está Matilde, «senhora nutrida, desinibida, com um olhar manso», casada com Kasmarine e amante de Smurov. Smurov trabalha como preceptor de uma família russa «que ainda não tivera tempo de empobrecer». Ali conheceu Matilde, visita da casa. Matilde é o tipo de mulher que, ao surgir, dá a sensação «de que alguém [subiu] o aquecimento da sala»; a tal ponto que, quando a perdia de vista, Smurov «sentia frio, frio até à náusea.» Ao mesmo tempo que potencia o efeito alusivo, a economia narrativa não elide a minúcia descritiva. Como notou Harold Bloom, Nabokov é mais tchekoviano do que gostaria (ele preferia Gogol), e mesmo aqui isso se nota de forma indelével.
Por razões que o leitor a seu tempo descobrirá, Smurov suicida-se com um tiro bem sucedido. Porém, a partir do momento em que o corpo desemparado se afunda no soalho «como num poço sem fundo», a sua vida em «plano incorpóreo» ganha uma inesperada vivacidade. Começa por trabalhar como vendedor na livraria de Weinstock e, em pouco tempo, participa nas sessões de Mesa de Pé de Galo que convocam César, Maomé, Púchkin, Lenine e outros. É especialmente divertido o diálogo com Lenine, que protesta saudades de Baden-Baden, embora recuse falar da vida além-túmulo sem autorização do plenário...
O carácter simbólico da história não inibe as questões identitárias, Leitomotiv que atravessa as duas fases da obra de Nabokov: a russa (os dez livros que escreveu entre 1926 e 1939), e a americana (tudo o que escreveu a partir de 1941). Smurov é um dos alvos. A seu respeito, Bogdanovitch, classificando Smurov como «canhoto sexual», escreve: «É notável como estes indivíduos [...] ao mesmo tempo que anseiam fisicamente por um qualquer espécime belo da virilidade madura [...] escolhem para objecto da sua (perfeitamente platónica) admiração uma mulher...» Um juízo arriscado, como o desenvolvimento da intriga demonstra.
Sublinhar a irrepreensível tradução de Telma Costa, que também traduziu, entre outras obras, os Contos Completos de Nabokov.
O Vigilante de Si Mesmo, in Ípsilon, 29-05-2009, p. 32. Cinco estrelas.
Etiquetas: Crítica literária

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