Quinta-feira, Maio 28, 2009

O riso na penumbra


Não nos devemos deixar enganar: o contexto histórico da peça actualmente em cena no Teatro Carlos Alberto, no Porto, não faz dela uma obra que pretenda reflectir especificamente sobre um momento concreto da vida da Europa; a Viena de 1683 arrasada pelos turcos serviu a Howard Barker para equacionar a situação de uma cidade vitimada por um cerco (questão que, como sabemos, parece estar sistematicamente a regressar à história do nosso continente) e, em traços ainda mais largos, analisar os comportamentos humanos durante uma crise que abala profundamente todas as referências. Neste regresso à obra do criador do Teatro da Catástrofe, a companhia As Boas Raparigas contou de novo com uma encenação do seu director artístico, Rogério de Carvalho, extremamente adequada para um espectáculo marcado pela penumbra e pela presença exacta e rigorosa da voz. Os Europeus (The Europeans, 1990), em tradução de Francisco Frazão, é uma peça encomendada pela Royal Shakespeare Company, mas que foi considerada inadequada para o seu público. Em sentido inverso, deve assinalar­‑se aqui a inteligência dos responsáveis do Teatro Nacional São João, de que o Carlos Alberto depende, por apresentarem, num dos seus palcos, um espectáculo e uma companhia tão exigentes. As duas horas de duração de Os Europeus, em cena até 31 de Maio, decorrem com fluidez para quem se mantiver atento aos diálogos, o que não é difícil de conseguir, dada a excelente dicção dos actores, mas são igualmente capazes de inquietar o espectador nas suas convicções morais. A figura de uma mulher, Katrin (interpretada por Paula Garcia), que, violada e mutilada, se recusa a esconder do público a sua mácula é a resistência do indivíduo sobre todas as pressões da colectividade, não como a afirmação romântica de uma luta contra o mundo, antes como a denúncia da ideologia dos falsos consensos, dos apaziguamentos que não representam mais do que uma capitulação perante o poder dos mais fortes. Barker retoma a ideia de catástrofe do teatro grego, mas dissocia­‑a da catarse que, na antiguidade clássica, permitia ao espectador libertar as suas emoções; na sua obra, o dramaturgo britânico prefere que a inquietação permaneça, que o regresso da tranquilidade não seja viável, que, em suma, aquele que assiste à peça seja obrigado a confrontar­‑se com o que a sociedade, perante o seu absurdo, mais procura escamotear da praça pública: a morte. Por isso, o riso com que o Imperador (em interpretação notável de Miguel Eloy) abre Os Europeus traz já a marca do desespero ou, pelo menos, da recusa em encarar o desastre. É nas falas do Padre Orphuls (outra grande interpretação de Wagner Borges, depois do trabalho magnífico em Mãos Mortas, também de Barker), mas também nas intervenções do herói Starhemberg (encarnado por Nuno Geraldo), que se expõem algumas das provocações maiores que o dramaturgo disseminou pela obra. No final, ninguém sai ileso.