Terça-feira, Abril 07, 2009

ELITISMO BACOCO


A livraria Ler Devagar vai abrir outro espaço, desta vez na Lx Factory, e com vista para o rio. A partir do próximo dia 23, data da inauguração, os habitués da Fábrica de Braço de Prata, da Galeria Zé dos Bois, da Cinemateca e do Instituto Franco-Português, podem inscrever Alcântara na ronda do livro. Uma boa notícia. Entretanto, ouvido pelo Público, José Pinho, o gestor responsável, fala de programação cultural própria, horário alargado e livros. Pretende ter, diz ele «os catálogos inteiros das pequenas/médias editoras». OK. Quanto a best-sellers... talvez Saramago ou Lobo Antunes. (Qual deles? António? João? Nuno? É que best-sellers são os três.) Paulo Coelho «vai ser difícil». Fico sempre desconcertado com este tipo de afirmações. Uma livraria é uma livraria. Se querem fazer um clube de leitores, dêem o nome às coisas.

Na mesma onda, Zita Seabra, que abriu há dias a sua livraria no Bairro Alto, com a luzida apresentação de um livro de viagens de Maria Filomena Mónica, afirma: «Esta não é uma livraria de best-sellers. Os Paulos Coelho não estão cá.» Mas está a Paula Bobone! Isto é para levar a sério?

Eu nunca li o Paulo Coelho e uma data de gente que recebe prémios e comendas. Mas não gosto de livrarias que excluem autores por preconceito. E quando vou à maior parte delas tenho um azar do caraças. Giambattista Vico? Não há. E a falta que fazem os seus Princípios de Oratória. Michael Ignatieff? Não há. Será que The Lesser Evil: Political Ethics in an Age of Terror é uma obra descartável? E os contos que o poeta Robert Penn Warren juntou em The Circus in the Attic idem? E as muitas obras que o irlandês (naturalizado espanhol) Ian Gibson dedicou a Lorca e à repressão franquista, sendo a última em data Lorca y el mundo gay, são menos que os manuais de etiqueta das Bobones da vida? A lista não acaba nunca. O elitismo é sem razão.

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