Democracia e infinito

Entre as várias obras que, no ano passado, surgiram em França a propósito dos quarenta anos de Maio de 68, conta‑se o breve ensaio que Jean‑Luc Nancy editou na Galilée, intitulado Vérité de la Démocratie. Na verdade, como o próprio título sugere, este livro não se limita a uma mera análise dos acontecimentos revolucionários da década de sessenta, antes toma como ponto de partida a tentativa (que teve no actual presidente da República francesa uma das vozes com maior eco mediático) de atribuir ao movimento iniciado pelos estudantes universitários a origem de um relativismo moral que teria atingido a virtude da política e os escrúpulos do capitalismo. Para lá de contrariar esta tese, vista como absurda e indefensável, Nancy procurou retomar a interrogação sobre a verdade da democracia que, na sua óptica, se terá esboçado nesse período. Ela passaria por uma afirmação do desejo e não por uma gestão de interesses, o que abre caminho à defesa da noção de democracia como espírito: «Il ne s'agit donc pas seulement de saisir un 'esprit de la démocratie', mais d'abord de penser que la 'démocratie' est esprit avant d'être forme, institution, régime politique et social» (p. 30).
Neste sentido, dir‑se‑ia que a democracia introduz uma exigência fundamental, concretizada como exigência de infinito, que não pode ser remetida para a esfera do irrealizável, mas que deve ser sempre tida em conta como uma aspiração legítima de cada pessoa. Por outras palavras, Nancy retoma a noção do incalculável, do que não tem valor (porque está fora de todo o valor mensurável), e identifica‑a como um domínio que excede a política; em todo o caso, será a esta que há‑de caber a criação de condições para que aquele se possa cumprir. Reside aqui um afastamento, em simultâneo, dos que defendem uma ampla intervenção estatal em todas as esferas da vida pública e dos que apregoam as virtudes de uma sociedade civil finalmente livre da pesada âncora governamental: «Ni tout, ni bien entendu rien, la politique doit se comprendre dans une distinction – et un rapport – avec ce qui ne peut ni ne doit être assumé par elle, non pas, assurément, parce que cela devrait être assumé par une autre instance (art ou religion, amour, subjectivité, pensée…), mais parce que cela doit être pris en charge par tous et par chacun selon des modalités dont il est essentiel qu'elles restent diverses, voire divergentes, multiples, voire hétérogènes» (pp. 40-41).
É a ideia de distinção que Nancy associa à política democrática e à exigência que ela não pode deixar de conter; essa distinção seria a capacidade de não confundir os valores, de não permitir falsas equivalências, caindo no logro politicamente correcto do niilismo. Pelo contrário, urgiria, segundo o filósofo francês, introduzir o conceito de inequivalência como possibilidade de afirmação de um valor único e incalculável, incomparável e insubstituível. Dito de outro modo, isso significaria um efectivo regresso à política, em vez do modelo de dominação económica que tem vigorado nas democracias ocidentais, estruturalmente baseado, como todos sabemos, no princípio da equivalência. Trata‑se de evidenciar que a política democrática consiste numa recusa de autofiguração e na abertura de espaço para a afirmação e a partilha de identidades múltiplas (que, conviria lembrar de novo, não se equivalem, segundo o princípio de que tudo é igual a tudo, mas são – cada uma delas – únicas e incomparáveis).
Para Jean‑Luc Nancy, o estado actual da arte funciona como confirmação da tese proposta. Entre outros exemplos, assinale‑se o que se refere ao plano literário e, mais concretamente, à situação do romance: «S'il y a 'crise', comme on dit, du roman, c'est parce que nous avons à inventer un nouveau récit de notre histoire désormais privée d'Histoire» (p. 51).
Perante a defesa de uma cidade que não deve assumir por completo a construção da sua própria forma, nem abster‑se de intervir nesse processo, fácil será de prever o tipo de contra‑argumentação que pode ser invocado contra o raciocínio de Nancy. O ensaísta antecipa duas ideias: por um lado, estas noções não parecem bastar para definir uma política; por outro, elas retirariam armas aos que não pretendem deixar as decisões sobre a cidade nas mãos exclusivas dos que já exercem o poder. O autor de L'Expérience de la Liberté (1988), porém, antes prefere não definir uma política do que permitir, pelas suas ideias, que a esfera do político domine tudo; ele afirma, no entanto, que a recusa da equivalência generalizada tem um potencial de transformação talvez maior do que uma contestação ou uma revolta. Em vez de lugar de valores absolutos, a democracia, para Nancy, só pode ser o espaço de cruzamento de múltiplas possibilidades e, naturalmente, de construção de sentidos. Nas suas exactas palavras: «La démocratie veut dire que ni la mort ni la vie ne valent par elles‑mêmes, mais que vaut seulement l'existence partagée en tant qu'elle s'expose à son absence de sens ultime comme à son vrai – et infini – sens d'être» (p. 56).
Neste sentido, dir‑se‑ia que a democracia introduz uma exigência fundamental, concretizada como exigência de infinito, que não pode ser remetida para a esfera do irrealizável, mas que deve ser sempre tida em conta como uma aspiração legítima de cada pessoa. Por outras palavras, Nancy retoma a noção do incalculável, do que não tem valor (porque está fora de todo o valor mensurável), e identifica‑a como um domínio que excede a política; em todo o caso, será a esta que há‑de caber a criação de condições para que aquele se possa cumprir. Reside aqui um afastamento, em simultâneo, dos que defendem uma ampla intervenção estatal em todas as esferas da vida pública e dos que apregoam as virtudes de uma sociedade civil finalmente livre da pesada âncora governamental: «Ni tout, ni bien entendu rien, la politique doit se comprendre dans une distinction – et un rapport – avec ce qui ne peut ni ne doit être assumé par elle, non pas, assurément, parce que cela devrait être assumé par une autre instance (art ou religion, amour, subjectivité, pensée…), mais parce que cela doit être pris en charge par tous et par chacun selon des modalités dont il est essentiel qu'elles restent diverses, voire divergentes, multiples, voire hétérogènes» (pp. 40-41).
É a ideia de distinção que Nancy associa à política democrática e à exigência que ela não pode deixar de conter; essa distinção seria a capacidade de não confundir os valores, de não permitir falsas equivalências, caindo no logro politicamente correcto do niilismo. Pelo contrário, urgiria, segundo o filósofo francês, introduzir o conceito de inequivalência como possibilidade de afirmação de um valor único e incalculável, incomparável e insubstituível. Dito de outro modo, isso significaria um efectivo regresso à política, em vez do modelo de dominação económica que tem vigorado nas democracias ocidentais, estruturalmente baseado, como todos sabemos, no princípio da equivalência. Trata‑se de evidenciar que a política democrática consiste numa recusa de autofiguração e na abertura de espaço para a afirmação e a partilha de identidades múltiplas (que, conviria lembrar de novo, não se equivalem, segundo o princípio de que tudo é igual a tudo, mas são – cada uma delas – únicas e incomparáveis).
Para Jean‑Luc Nancy, o estado actual da arte funciona como confirmação da tese proposta. Entre outros exemplos, assinale‑se o que se refere ao plano literário e, mais concretamente, à situação do romance: «S'il y a 'crise', comme on dit, du roman, c'est parce que nous avons à inventer un nouveau récit de notre histoire désormais privée d'Histoire» (p. 51).
Perante a defesa de uma cidade que não deve assumir por completo a construção da sua própria forma, nem abster‑se de intervir nesse processo, fácil será de prever o tipo de contra‑argumentação que pode ser invocado contra o raciocínio de Nancy. O ensaísta antecipa duas ideias: por um lado, estas noções não parecem bastar para definir uma política; por outro, elas retirariam armas aos que não pretendem deixar as decisões sobre a cidade nas mãos exclusivas dos que já exercem o poder. O autor de L'Expérience de la Liberté (1988), porém, antes prefere não definir uma política do que permitir, pelas suas ideias, que a esfera do político domine tudo; ele afirma, no entanto, que a recusa da equivalência generalizada tem um potencial de transformação talvez maior do que uma contestação ou uma revolta. Em vez de lugar de valores absolutos, a democracia, para Nancy, só pode ser o espaço de cruzamento de múltiplas possibilidades e, naturalmente, de construção de sentidos. Nas suas exactas palavras: «La démocratie veut dire que ni la mort ni la vie ne valent par elles‑mêmes, mais que vaut seulement l'existence partagée en tant qu'elle s'expose à son absence de sens ultime comme à son vrai – et infini – sens d'être» (p. 56).

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