Sexta-feira, Março 27, 2009

O andamento da prosa


Em coerência com a sua produção ficcional, os principais ensaios de Jean­‑Paul Goux, nomeadamente La Fabrique du Continu e La Voix sans Repos, defendem uma ideia da prosa romanesca baseada nas noções de voz e de ritmo. A sua exemplificação pode ser encontrada no breve ensaio «De l’Allure», aqui disponibilizado, em que o autor de Les Hautes Falaises se serve de excertos de obras publicadas em França entre 1945 e 1990 para tornar claro o que significa falar de ritmo da prosa. Contra o estafado princípio da fragmentaridade – ainda que tal não represente o regresso de qualquer noção de totalidade oitocentista –, Goux considera que a principal característica dos romances fundamentais da modernidade reside antes na continuidade que o movimento da sintaxe consegue emprestar a essas escritas. Em «De l’Allure», talvez para que ninguém o acusasse de influenciar os leitores através da utilização de nomes mais ou menos canonizados de escritores, Goux optou por nunca designar os responsáveis pelas frases de que serve para sustentar a sua estética; em todo o caso, os exemplos que aparecem na segunda parte do ensaio são facilmente identificáveis por quem estiver familiarizado com o romance do século XX: são extraídos, respectivamente, das obras Korrektur (recentemente vertida para português por José A. Palma Caetano e publicada pela Fim de Século, sob o título de Correcção), de Thomas Bernhard, Histoire, de Claude Simon, e Un Beau Ténébreux, de Julien Gracq. O que Goux detecta nas frases de abertura destes livros (a de Histoire não é a de abertura, mas está na segunda página de texto do romance) é o que designa por allure; será lícito traduzir esta palavra por andamento, no sentido musical do termo, assim reunindo as ideias de movimento e de ritmo, mas também encarando a frase como um corpo, ao qual é inerente um determinado dinamismo. A lógica de contraste, que Jean­‑Paul Goux aplica à frase de Bernhard, reescrita segundo o modelo de uma frase rejeitada na primeira parte do ensaio, torna este conceito muito nítido. Entre outros méritos, a reflexão crítica deste autor afasta­‑se das confusões geradas por esse conceito gelatinoso de «prosa poética», ao mesmo tempo que evidencia de novo – e com uma nitidez quase cegante – que o romance, quando não se quer confundir com produtos de pacotilha, não é uma história.