Nem sempre a verdade

No seu romance Todas as Almas (Todas las Almas, 1989), Javier Marías criou um narrador que, durante dois anos de residência em Oxford, profere conferências sobre literatura espanhola e dá vagas aulas de tradução. Numa delas (a única, se a memória não me atraiçoa, que é referida explicitamente no livro), as perguntas disparatadas dos alunos incomodam bastante o narrador, ao ponto de o induzirem a encontrar respostas tão absurdas como as questões que lhe são propostas. Interrogado sobre a origem da palavra papirotazo, o protagonista de Todas as Almas declara (de acordo com a minha edição de 1990, da Quetzal, com tradução de Salvato Telles de Menezes): «Com que então papirotazo. A este tipo de pancada dada com o dedo indicador chama‑se assim porque era desta maneira que se batia nos papiros encontrados no Egipto nos começos do século XIX para experimentar a sua resistência e começar a determinar a sua antiguidade» (p. 17).
A consciência do absurdo que encontrou como resposta levará o narrador à posterior consulta de um dicionário, para, por fim, descobrir a verdadeira etimologia dessa palavra. Em todo o caso, consciente de que aquele tipo de conhecimento, pelo seu carácter ornamental, teria durado poucos minutos na mente e na memória dos alunos, o imaginativo professor acaba por se sentir menos culpado. É então que, em jeito de súmula conceptual desse capítulo, compõe esta sábia defesa da ficção no seu confronto permanente com o que, por comodidade, persistimos em designar como verdade: «Às vezes o saber verdadeiro é indiferente e então pode inventar‑se» (p. 19).
A consciência do absurdo que encontrou como resposta levará o narrador à posterior consulta de um dicionário, para, por fim, descobrir a verdadeira etimologia dessa palavra. Em todo o caso, consciente de que aquele tipo de conhecimento, pelo seu carácter ornamental, teria durado poucos minutos na mente e na memória dos alunos, o imaginativo professor acaba por se sentir menos culpado. É então que, em jeito de súmula conceptual desse capítulo, compõe esta sábia defesa da ficção no seu confronto permanente com o que, por comodidade, persistimos em designar como verdade: «Às vezes o saber verdadeiro é indiferente e então pode inventar‑se» (p. 19).

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