Terça-feira, Março 10, 2009

A escrita sensual


Gosto do que poderia classificar como a inactualidade deste livro, gosto do modo como se constrói em aparente indiferença a tudo o que não seja uma motivação reiterada do seu autor. Pouco importa que saibamos ou não as datas dos textos; o que é necessário situar no tempo é feito através das referências aos vários autores cuja obra Julien Gracq comentou (com uma perspicácia do olhar que só não surpreende quem considera que os artistas são, em grande parte das vezes, os melhores críticos). Ao mesmo tempo, há notáveis considerações sobre o ofício da escrita, altivas na aparência, mas que são apenas a afirmação categórica de uma perspectiva sobre a arte literária que dispensa os consoladores acenos de concordância (como é sabido, Gracq tinha em pouca consideração os «escritores» que se dedicavam mais ao desenvolvimento das suas relações sociais do que ao árduo labor de organizar as palavras). Atente­‑se, nessa óptica, ao que afirmou o autor de En Lisant en Écrivant (1980) sobre a motivação da escrita: «On écrit d'abord parce que d'autres avant vous ont écrit, ensuite, parce qu'on a déjà commencé à écrire: c'est pour le premier qui s'avisa de cet exercice que la question réellement se poserait: ce qui revient à dire qu'elle n'a fondamentalement pas de sens. Dans cette affaire, le mimétisme spontané compte beaucoup: pas d'écrivains sans insertion dans une chaîne d'écrivains ininterrompue» (pp. 144-145).
A esta ideia de continuidade poderia associar­‑se a consciência da profunda relação entre o som e o sentido das palavras, que Gracq considerava estar presente em qualquer verdadeiro escritor, independentemente de a sua arte verbal se concretizar na poesia ou na prosa: «Même dans la prose, il faut que le son sache tenir tête au sens. On n'est pas écrivain sans avoir le sentiment que le son, dans le mot, vient lester le sens, et que le poids dont il est ainsi doté peut l'entraîner légitimement, à l'occasion, dans de singulières excursions centrifuges. L'écriture comme la lecture est mouvement, et le mot s'y comporte en conséquence comme un mobile dont la masse, à si peu qu'elle se réduise, ne peut jamais être tenu pour nulle, et peut sensiblement infléchir la direction» (p. 148).
Movimento e sensualidade seriam, assim, duas características fundamentais da arte verbal, a qual, como é dito no volume da José Corti, não se poderia dissociar do corpo que a produz (o que, no entanto, não se deve confundir com a falácia de que deveria ser interpretada a partir do conhecimento desse corpo): «Dans une écriture sensuelle, comme l'est en principe celle d'un artiste, il me semble qu'il devrait passer quelque chose des saisons et des humeurs du corps» (p. 159).