Sexta-feira, Março 27, 2009

ÁLVARO SANTOS PEREIRA



Hoje no Público:


Num país em que a literatura e as ciências sociais monopolizam a produção ensaística, e onde discutir o noticiário económico não dispensa o conhecimento de jargão próprio, é uma boa notícia encontrar nas livrarias um livro como O Medo do Insucesso Nacional, de Álvaro Santos Pereira (n. 1972), economista que lecciona na Simon Fraser University, de Vancouver. Não é a primeira vez que o autor escreve sobre “o estado da Nação”, que acompanha à distância — primeiro a partir do Reino Unido, actualmente a partir do Canadá — sem défice de objectividade. Ainda há dois anos publicou Os Mitos da Economia Portuguesa, obra que pôs ao alcance do público não especializado uma série de assuntos que a imprensa generalista trata quase sempre de raspão.

A vantagem deste tipo de obras é a sua acessibilidade ao leitor comum, interessado em informação rigorosa isenta de economês. Suponho que a formação anglo-saxónica de Álvaro Santos Pereira contribua para a extrema coloquialidade dos seus livros (mesmo de um romance polémico como Diário de um Deus Criacionista, 2007), mas, em nenhuma circunstância, o recorte informal da linguagem traduz menor atenção ao rigor hermenêutico.

Um dos capítulos mais interessantes esclarece as principais causas da estagnação da economia nacional. E como nenhum facto é alheio ao respectivo contexto histórico, outros capítulos reportam à evolução do crescimento económico português no século XX, seguindo a passo as consequências da política do Estado Novo e os custos da perda das colónias. Álvaro Santos Pereira não perde de vista aquilo a que (com propriedade e ironia) chama «a nossa falta de Educação»... ou os efeitos nefastos que a inoperância da Justiça impõe ao tecido económico e social. E ainda explica em que medida os equívocos gerados pelo fundamentalismo orçamental de Bruxelas afectam o nosso quotidiano, sem contudo fazerem avançar o país...

Num subcapítulo intitulado “Um regime de mal educados”, o autor demonstra a ineficácia das políticas educativas desde a monarquia liberal. Um gráfico sobre a taxa de escolarização em três momentos concretos (em 1870, 1900 e 1940) ilustra a extensão do nosso atraso, pondo a realidade portuguesa em confronto com a de outros dezasseis países europeus, e também com a dos Estados Unidos. Álvaro Santos Pereira lembra, muito a propósito, a frase célebre de Salazar no discurso de tomade de posse, em 1928, como ministro das Finanças: «Instrução aos mais capazes, lugar aos mais competentes, trabalho a todos, eis o essencial.» Nunca é demais recordar que a escolarização completa do ensino primário, em Portugal, «foi apenas alcançada no início da década de 1960», e que em vésperas do 25 de Abril de 1974... a do ensino secundário era de 28%! Extraordinário? Nem tanto.

A perda do Império ultramarino é analisada sob o ponto de vista económico, aspecto em regra negligenciado em detrimento do enfoque meramente político, ou seja, moral. Sem reserva, o autor sublinha: «Durante os seus 5 séculos de existência, o império foi várias vezes a principal fonte de receitas para o erário público e um destino essencial para as exportações nacionais.» Em consequência, não podemos dissociar a crise financeira e orçamental dos anos 1970-80 da descolonização. Afinal, as colónias foram quase sempre fonte garantida e substancial de divisas estrangeiras (foi assim desde 1892), mais do que suficientes para sustentar a máquina de guerra e o aparelho administrativo-colonial. Desmontando lugares-comuns que fizeram o seu caminho na opinião popular, Álvaro Santos Pereira deixa claro: «Será que os custos da colonização foram maiores do que os benefícios? Não. [...] Com efeito, até ao início das guerras coloniais, a contribuição das colónias para as despesas públicas portuguesas permaneceu bastante modesta, quase nunca ultrapassando 5% do total das despesas do Estado.» A situação inverteu-se com o eclodir da guerra, altura em que essa contribuição subiu para 26% das despesas do Estado.

Outros temas, como a macrocefalia de Lisboa, a dificuldade de viver com reformas de 200 euros, a mais-valia das empresas que apostam na inovação, as horas de trabalho dos portugueses, os prémios de excelência, os “campeões nacionais”, a derrapagem de prazos, a moda das viagens ao Brasil (num país pobre, e em crise, 20 mil portugueses passam todos os anos férias no Brasil), etc., fazem deste livro um interessante companion do Portugal hoje.

Parece-me pleonástico referir que as informações de natureza factual dispõem de adequada remissão bibliográfica.


Economia sem economês, in Ípsilon, 27-3-2009, p. 34. Quatro estrelas.

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