Terça-feira, Fevereiro 24, 2009

Os três ironistas


A escrita oficial portuguesa está cada vez menos cinzenta. Depois dos ofícios marinettianos de Margarida Moreira, chegou a vez do humor surpreendente de um trio bracarense (infelizmente de nomes desconhecidos), que se serviu de um arrojado arsenal retórico para elaborar um auto de acusação. Graças ao sofisticado domínio da ironia, talvez apenas com paralelo na célebre proposta de Jonathan Swift, conseguiram declarar, sem vestígio de um sorriso a aflorar­‑lhes os rostos fardados, que apreendiam vários exemplares de um livro por causa das imagens pornográficas da capa. Por esta altura, os três humoristas devem estar ainda a festejar o sucesso da sua investida, tão convictamente representada que não foi possível a quase ninguém perceber que se tratava de uma paródia. Como escreveu algures Pessoa, a ironia mais bem conseguida é aquela que, não sendo desmentida pela realidade exterior, apenas se revela pela evidente impossibilidade de ser tomada a sério, ou seja, pelo facto de se constituir como demasiado absurda a concretização do que era proposto na referida ironia. Feliz a cidade, ou o país, que dispõe de escritores de tão alto recorte, como é o caso dos três excelsos artistas de Braga.