Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009

AINDA COURBET


A apreensão de alguns exemplares de Pornocracia, de Catherine Breillat (Teorema), numa feira de livros em Braga, foi um disparate e um acto de prepotência, entretanto reparado. Ponto. Porém, segundo o juiz desembargador António Santos Carvalho, ouvido pelo Público, trata-se de «uma falha monumental no campo da cultura [uma vez que] para ascender ao lugar de comandante da polícia já é necessária uma licenciatura e conhecimentos culturais mais vastos». Eu dou um rebuçado ao senhor juiz se 1% dos licenciados portugueses — e não necessariamente dos que concorrem à polícia ou à magistratura — tiver alguma vez ouvido falar de Cindy Sherman ou Matthew Barney. Courbet? A que título? Por outro lado, e é aqui que eu quero chegar, se em vez de Courbet estivesse lá um desenho de Cocteau (o que vemos ao alto é quase infantil; a reprodução é má, mas se clicar na imagem vê melhor) ou um retrato de Mapplethorpe — talvez Lou, se vossas excelências tiverem estômago —, a indignação seria, como neste caso, a uma só voz? Um quadro de 1866, exposto no d’Orsay, equivale hoje a uma lata de Sopa Campbell de Andy Warhol. Mas o Cocteau erótico — o de Le Livre Blanc, de 1927, e dos ulteriores desenhos — continua, na pátria das Luzes, arredio das bibliografias oficiais. E Mapplethorpe, como muita gente sabe, foi censurado (nos anos 1990) no Whitney, que não é exactamente uma feira a dois passos do Bom Jesus. Portanto...

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