Sábado, Janeiro 24, 2009

FREEPORTGATE


O primeiro-ministro faz um statement hoje ao meio-dia. OK. Antes de o ouvir, pensar alto — a partir do ruído dos media — sobre o Caso Freeport. A coisa remonta a 2002. Com trambique ou sem trambique, ninguém piou até à véspera das eleições legislativas de 2005. Nessa altura, uma manchete do Independente dava eco a um “documento” da Polícia Judiciária que incriminaria Sócrates. Ninguém ficou impressionado. O PS ganhou as eleições com maioria absoluta. Sócrates tornou-se primeiro-ministro. Provou-se que o “documento” divulgado pelo Independente era apócrifo (o que não impede que ainda hoje circule na net), e que a manobra envolvia gente do CDS e do PSD. O inspector da PJ que o fez chegar ao jornal foi levado a tribunal, condenado e expulso da polícia. O jornal foi processado. O Ministério Público deu o caso por encerrado. Passaram quatro anos. A coisa volta às primeiras páginas. Os actuais proprietários do Freeport querem saber por que razão o outlet saiu tão caro. Corrupção? Parece que sim. A polícia inglesa chegou a conclusões cabeludas a partir de um DVD na posse de um dos alegados corruptos. Nesse DVD, gravado com câmara oculta, um indivíduo diz a outro que tudo fora combinado “numa reunião com o ministro Sócrates”. Isto não prova nada. Não faz prova em Portugal, como os jornais sublinham (e bem), mas também não faz prova no Reino Unido, ou em qualquer Estado de direito, ao contrário do que os mesmos jornais querem dar a entender. (Como quem diz: «Não prova aqui, mas prova lá». Não prova.) Isto dito, o imbróglio é politicamente incómodo para Sócrates. Para piorar a coisa, um tio e um primo de Sócrates, aparentemente com rabos de palha, disseram aos jornais que, sim senhor, tinham intermediado um encontro de Sócrates com um representante da Freeport em Portugal. O famoso tio, meio-irmão da mãe de Sócrates, fala, com muitos pás pelo meio, em «quatro milhões de contos». Importância que, diz ele, foram pedidos por «um gabinete de advogados» ao representante da Freeport, para conseguir o licenciamento do outlet. Mas, ó deuses!, 4 milhões de contos são vinte milhões de euros!!! E 20 milhões de euros dava para fazer três ou quatro outlets como o da Freeport. [Erro. Ver adenda.] Isto é o lado anedótico. A parte séria é que o MP soube há sete meses do ponto em que estavam as diligências da polícia inglesa: a 1.ª reunião do Eurojust em que participaram procuradores portugueses do MP realizou-se em Haia em Junho do ano passado. E as primeiras buscas em Portugal realizaram-se anteontem. Aqui chegados, faltam menos de 10 minutos para ouvirmos o que o primeiro-ministro tem a dizer.

Adenda: Mão amiga fez-me chegar informação relativa ao outlet da Freeport, o qual terá orçado em 250 milhões de euros. Nessa medida, as supostas “luvas” pagas a um escritório de advogados corresponderiam a 8% do valor do investimento. Fica sem efeito a minha invocação aos deuses...

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