Domingo, Outubro 26, 2008

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Há mais de 50 anos que o norueguês Knut Hamsun (1859-1952) não era traduzido em Portugal. De uma obra vasta, publicada entre 1877 e 1949, estavam entre nós traduzidos dois títulos. Chegou agora a vez de Fome (Sult, 1890), traduzido do norueguês por Liliete Martins. (No Brasil, foi publicada em 1973 a tradução de Carlos Drummond de Andrade.) Knut Hamsun, Prémio Nobel da Literatura em 1920, rompeu com a lógica interna do romance, sendo por muitos considerado (um dos mais enfáticos foi Isaac Bashevis Singer) o pai da literatura moderna, predecessor óbvio de Kafka e Henry Miller. Acerca de Fome, diz Paul Auster no prefácio desta edição: «Não se trata, apesar de tudo, da história clássica do artista incompreendido.» Gide foi menos parcimonioso: «Hamsun apenas é comparável a Dostoiévski, mas talvez mais subtil.» Fique dito que a Cavalo de Ferro vai reincidir na edição de obras do autor.


Luis M. Jorge: «Jantei no restaurante Terraço do Hotel Tivoli. Já ouvira falar muito de Luis Baena, responsável pelo menú, e tinha uma elevada expectativa a respeito da sua criatividade e sentido de humor. Trata-se de uma cozinha muito irónica, que faz a recriação de pratos tradicionais até ao limite do reconhecimento e lança uma piscadela de olho ocasional à fast food — como ocorre com o McSilva, um pequeno hamburguer de bacalhau que vem à mesa em embalagem da McDonalds. O menu de degustação abunda em pirotecnias nem sempre felizes, mas é impossível esquecer o sorvete de manjericão preparado à mesa com azoto líquido, a salsicha de sapateira, o pequeno bitoque com ovo de codorniz e batata insuflada, o esparguete de chouriço, o gelado de maçã assada e muitas outras surpresas de uma refeição com nove pratos geralmente delirantes. Fiquei a respeitar o chef, embora a experiência tenha tido um lado Liberace, com piano branco e castiçal dourado — que lá por ser irónico não é menos esgotante.»
[Private joke: Espero que Rui Bebiano não fique com vontade de nos (ao Luis e a mim) mandar para o Campo Pequeno.]

Paulo Gorjão: «Sim, o nível de endividamento externo é preocupante. Porém, a posição de Manuela Ferreira Leite é incompreensível. Desde quando o recurso ao crédito é o critério determinante na escolha das obras públicas? Um critério cego, aliás. O que é que aconteceu às analises de custo/benefício? Caíram em desuso, entretanto? A lógica implícita às declarações de Ferreira Leite permite inferir que uma obra pública cujo benefício seja diminuto, mas que não exija recurso ao crédito, por absurdo que pareça, pode ter o aval do PSD. Exagero, claro, apenas para frisar que a posição de Ferreira Leite é um disparate.

Vital Moreira: «Manuela Ferreira Leite vai-se emaranhando irrecuperavelmente na sua obsessão contra as obras públicas. Primeiro, porque não havia dinheiro para nada. Depois, porque não havia os estudos. Agora, porque não devem fazer-se obras que necessitem de recurso ao crédito. Mas em nome de que (ir)racionalidade económica ou política é que um investimento, seja ele público ou privado, não deve ser feito por necessitar de recurso ao crédito? Então os investimentos públicos não devem ser medidos pela sua necessidade e pelo balanço entre os custos (incluindo os custos do crédito) e os benefícios? Parece cada vez mais evidente que MFL não está à altura da missão...»

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