Domingo, Agosto 24, 2008

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Em 1968, tinha eu 19 anos, Os Três Seios de Novélia, de Manuel da Silva Ramos (n. 1947), deu um safanão no cânone. Contudo, malgré o Prémio de Novelística Almeida Garrett e os encómios de Óscar Lopes, o Panteão Namora permaneceu incólume. Tempos em que o poder do mandarinato era imune ao novo. Hoje, qualquer estado de alma pós-adolescente mobiliza media & Academia. Passaram 40 anos, o livro voltou aos escaparates, desta vez com uma capa desastrosa. Nesse lapso, Manuel da Silva Ramos construiu uma obra singular. Começou pela trilogia tuga, escrita em parceria com Alface — Os Lusíadas, 1977, As Noites do Papa Negro, 1982, Beijinhos, 1996 —; obras a que se seguiram, entre outras, Viagem com Branco no Bolso (2001), Jesus. The Last Adventure of Franz Kafka (2002), este Jesus é um hermafrodita por quem Kafka se apaixona numa taberna de Praga, Ambulância (2006) e A Ponte Submersa (2007). Lido outra vez ao fim de 40 anos, permanece um mistério o facto de a censura ter deixado passar Os Três Seios de Novélia na malha apertada do seu crivo. Algures entre Houellebecq e Dinis Machado, Silva Ramos está praticamente sozinho na cena literária portuguesa.


Rui Bebiano escreveu sobre um álbum de fotografias de Josef Koudelka, Invasion Prague 68, recentemente editado pela Thames & Hudson, a que chamou «o álbum de fotografia mais triste do mundo». O post deu azo a uma acesa polémica, porque um dos comentadores, assinando M. Gusmão, levou muita gente a supor que era Manuel Gusmão — poeta, ensaísta, crítico, catedrático de literatura da Universidade de Lisboa, antigo deputado e membro do Comité Central do PCP — quem comentava. Desfeito o equívoco, [Rui Bebiano: «que eu próprio, apesar de o não ter referido, também mantive desde o início»] A Terceira Noite fechou as caixas de comentários. E explica porquê. Nisto tudo, espanta-me que Rui Bebiano, um dos pioneitos da Internet em Portugal — quem não se lembra de NON, publicação online de ideias, no tempo em que ainda não havia blogues? —, historiador, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, veja a bloga à luz das boas maneiras de um gentlemen’s club. Infelizmente, a bloga não é esse clube. E não apenas por causa do pessoal que faz terapia de grupo nas caixas de comentários. De resto, elas estão cheias de docentes do superior que não podem assinar em nome próprio certo tipo de catilinária e ataques pessoais. Ambos sabemos que os mais afoitos até fazem blogues para o efeito. Isto dito, a parte boa é que mandei vir o álbum da Amazon.

Nota. Rui Bebiano classifica como “negativo” o comentário supra. Não vejo como. Limitei-me a destacar um assunto que considero relevante. Só não digo que fez bem em fechar a caixa de comentários porque está implícito que concordo em absoluto com a decisão. [16:30h]


Filipe Guerra: «Porque é que José Rodrigues dos Santos, em duas semanas, não deu um saltinho de Gori até Tskhinvali? [...] Em Tskhinvali, capital da Ossétia do Sul, está no entanto muita gente: a organização independente norte-americana Human Rights Watch, que gosta de dar conselhos e para a qual o antes e o depois não contam; jornais e televisões da Rússia e de todo o mundo ocidental. [...] Neste momento, faço aqui uma declaração de princípios: entre a ganância geoestratégica do Ocidente e a da Rússia, quero que ambos SF [...] Eis os factos, tirados daqui e dali na informação ocidental: a 7 de Agosto (data da abertura dos Jogos Olímpicos) a Geórgia invadiu com violência inaudita um território seu, independentista, protegido pela ONU (por forças de paz georgianas, ossetas e russas). Antes da chegada dos reforços das tropas russas, os georgianos tiveram tempo de bombardear Tskhinvali, visando principalmente alvos civis: a universidade, o hospital, um centro comercial, escolas; reduziram a cinzas dois grandes bairros – o judeu e o da gare; bombardearam indiscriminadamente prédios de habitação e casas: basta lá ir, ver e filmar, enquanto os russos não reconstroem o que os georgianos destruíram. Enquanto os russos não chegaram, os militares georgianos impediram a evacuação de feridos e de civis; inundaram muitas caves onde as mulheres, as crianças e os idosos que não podiam pegar em armas se haviam refugiado. Agora falam os media russos, reportando afirmações de populares: os soldados georgianos assumiam-se como de “sangue puro” e “seres superiores”, e afirmavam que iam “limpar a Ossétia” (vamos esquecer ou esperar pelas valas comuns como na Bósnia?). Na Ossétia vivem sobretudo ossetas (uma etnia persa), russos e minorias de georgianos, de judeus e outros. Enfim, além de a esmagadora maioria dos ossetas do Sul não abdicar da sua independência ou da sua integração na Ossétia do Norte, o “projecto americano” que é a actual Geórgia não vingará porque a população (ao contrário do que dizem os media ocidentais) já não está unida em volta do presidente Saakashvili, que aliás foi eleito fraudulentamente [...] Mas José Rodrigues dos Santos (sustentado pelos nossos impostos) mostrou até à saturação, durante muitos minutos, os vidros partidos e as esquinas esfaceladas das casas de Gori, e avançou corajosamente até ao ponto de controlo seguinte. [...]»

Miguel Abrantes: «Não tendo posto os pés na festa do Pontal, a elite “bem pensante” do PSD escolheu um motivo que não lhe é particularmente caro para a rentrée: a segurança. Advogados portuenses que bebem do fino, contabilistas idosas e estalinistas arrependidos, que habitualmente não se preocupam com este tema por o considerarem populista e próprio de desqualificados como Portas ou Menezes, aperceberam-se de que podiam cavalgar a onda mediática da insegurança. É claro que não se lhes conhece uma ideia ou uma proposta sobre o assunto. [...] O tiro de pólvora seca do PSD teve, porém, uma grande virtude. Mostrou-nos a todos que Manuela Ferreira Leite não se distingue, no essencial, dos que a precederam na liderança do PSD: não tem uma ideia para o país, mas ocupa o espírito, integral e obsessivamente, a congeminar estratégias para tomar o poder no partido e no país. Nos últimos dias, António Borges explicou para quê.»

Miguel Marujo: «Alguns bispos, os partidos de direita e a Associação de Famílias Numerosas rejubilam com o veto de Cavaco à lei do divórcio. [...] E mais uma vez esta ideia: a Igreja isto, a Igreja aquilo. Lamento: eu também sou Igreja e não me revejo nestas declarações avulsas e cegas de alguns bispos e de umas famílias numerosas. E não deixa de ser curioso que o ataque seja a uma lei redigida entre outros por... Rosário Carneiro.»

Pedro Mexia: «É justo que a lei trate o casamento apenas como um contrato e que não faça considerações morais. Mas se o casamento é um contrato como outros (embora com efeitos pessoais), então o divórcio não pode estar imune às noções jurídicas de incumprimento e culpa, que existem nos contratos em geral. Ignorar esse facto é fazer entrar a tal moralidade pela porta do cavalo.»

Tiago Barbosa Ribeiro: «O porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa considera que o novo regime do divórcio é ofensivo do valor da religião. Desculpem: da religião? O valor da religião — e qual religião? — serve para justificar o veto político de uma lei que regula algo situado no exterior da sua esfera? Em Portugal ou no Afeganistão?»

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