JOÃO PEREIRA COUTINHO

Hoje no Público:
Ponto prévio: não confundir crónica com colunismo de inscrição partidária. As quotas de representação ideológica têm razões que a crónica desconhece. Sobra pouco, mas nem tudo está perdido. Sem necessidade de recuar muito, é possível citar bons exemplos: Artur Portela Filho, Luís de Sttau Monteiro, Alexandre O’Neill, José Sesinando, Vasco Pulido Valente, Miguel Esteves Cardoso, Baptista-Bastos, António Lobo Antunes, Eduardo Prado Coelho, A. B. Kotter, Clara Ferreira Alves e António Sousa Homem. Nenhum abdicou de convicções políticas, mas nenhum confunde crónica com outra coisa qualquer. É nessa genealogia que João Pereira Coutinho (n. 1976) se inscreve.
O escândalo — e nunca um adjectivo foi tão exacto —, é que Coutinho se reclama da tradição brasileira e, dentro dela, das heranças sulfurosas de Nelson Rodrigues e Paulo Francis, autores com alto teor de acidez que fustigaram o politicamente correcto num tempo em que ele (como conceito) não existia. Ora como é que, num país do tamanho do nosso, sobrevive um cronista assim?
No princípio era O Independente, que tinha elasticidade bastante para aguentar a catilinária culta, não raro insolente, recentrando a opinião à direita, durante o tempo necessário para impor o tom. O resto é história, mas é um facto que sem o Indy dificilmente teria havido Coutinho.
Afinal, o que é que o distingue? Convicção, cultura, savoir-faire, irreverência e, naturalmente, uma escrita em tudo contrária ao modo funcionário de escrever. É fácil conferir na edição revista e aumentada de Avenida Paulista, volume que colige parte das crónicas publicadas entre 2005 e 2008 no jornal brasileiro Folha de S. Paulo.
De P. G. Wodehouse a Stephen Sondheim, sem esquecer Jane Austen ou Art Buchwald, é muito largo o espectro de temas: o interesse crescente das mulheres pelo futebol, consequência, talvez, da «crescente efeminação dos machos»; o colaboracionismo de Brecht com a Comissão de Actividades Anti-Americanas, antes de McCarthy chegar (mas a cronologia não chega para diluir a nódoa); a guerra que opôs Israel ao Hezbollah no Verão de 2006; o sarcasmo new yorker de Woody Allen; o medo que une os amantes da praia de Chesil (Ian McEwan, sim); o Macbeth de Rupert Goold; o conflito entre fé e razão segundo Ratzinger; a manteiga de Maria Schneider e a revolução portuguesa; Petr Ginz e o Museu do Holocausto; o estado da cultura francesa actual; a homossexualidade enquanto adjectivo; o encontro de Isaiah Berlin com Anna Akhmátova; o ensaísmo superlativo de Gore Vidal; leitura emocionada de Campo Santo, com Sebald à luz de Naipaul, na «busca contínua do lugar [...] que se teve, que se perdeu e que não existe mais», e ainda Carver, Beckett, Houellebecq, Steiner, Canetti, Stefan Zweig, Bryan Ward-Perkins, Christopher Hitchens, etc. Múltiplas leituras em contraponto. Sirva de exemplo a de Philip Roth a partir de Tolstói, ou, mais exactamente, Todo-o-Mundo a partir de A Morte de Ivan Ilyich.
A secção final, Encore, tem enfoque directo no quotidiano paulista: clima, gastronomia, gossip político, literatura. Registo diarístico: «Dizem que São Paulo é a mais feia cidade do mundo. Será? Não creio. Uma mistura de Tóquio e Istambul, mas com tesão para dar e vender.» Tudo é pretexto de afirmação empenhada, fazendo da prosa dúctil um exercício de puro prazer.
Aqui chegados, já o leitor percebeu que o João Pereira Coutinho da Folha não é imediatamente sobreponível ao do Expresso. É natural. A trapalhada indígena não colheria do outro lado do Atlântico.
Crónicas exemplares, in Ípsilon, 8-8-2008, pp. 32-33. Quatro estrelas.
Ponto prévio: não confundir crónica com colunismo de inscrição partidária. As quotas de representação ideológica têm razões que a crónica desconhece. Sobra pouco, mas nem tudo está perdido. Sem necessidade de recuar muito, é possível citar bons exemplos: Artur Portela Filho, Luís de Sttau Monteiro, Alexandre O’Neill, José Sesinando, Vasco Pulido Valente, Miguel Esteves Cardoso, Baptista-Bastos, António Lobo Antunes, Eduardo Prado Coelho, A. B. Kotter, Clara Ferreira Alves e António Sousa Homem. Nenhum abdicou de convicções políticas, mas nenhum confunde crónica com outra coisa qualquer. É nessa genealogia que João Pereira Coutinho (n. 1976) se inscreve.
O escândalo — e nunca um adjectivo foi tão exacto —, é que Coutinho se reclama da tradição brasileira e, dentro dela, das heranças sulfurosas de Nelson Rodrigues e Paulo Francis, autores com alto teor de acidez que fustigaram o politicamente correcto num tempo em que ele (como conceito) não existia. Ora como é que, num país do tamanho do nosso, sobrevive um cronista assim?
No princípio era O Independente, que tinha elasticidade bastante para aguentar a catilinária culta, não raro insolente, recentrando a opinião à direita, durante o tempo necessário para impor o tom. O resto é história, mas é um facto que sem o Indy dificilmente teria havido Coutinho.
Afinal, o que é que o distingue? Convicção, cultura, savoir-faire, irreverência e, naturalmente, uma escrita em tudo contrária ao modo funcionário de escrever. É fácil conferir na edição revista e aumentada de Avenida Paulista, volume que colige parte das crónicas publicadas entre 2005 e 2008 no jornal brasileiro Folha de S. Paulo.
De P. G. Wodehouse a Stephen Sondheim, sem esquecer Jane Austen ou Art Buchwald, é muito largo o espectro de temas: o interesse crescente das mulheres pelo futebol, consequência, talvez, da «crescente efeminação dos machos»; o colaboracionismo de Brecht com a Comissão de Actividades Anti-Americanas, antes de McCarthy chegar (mas a cronologia não chega para diluir a nódoa); a guerra que opôs Israel ao Hezbollah no Verão de 2006; o sarcasmo new yorker de Woody Allen; o medo que une os amantes da praia de Chesil (Ian McEwan, sim); o Macbeth de Rupert Goold; o conflito entre fé e razão segundo Ratzinger; a manteiga de Maria Schneider e a revolução portuguesa; Petr Ginz e o Museu do Holocausto; o estado da cultura francesa actual; a homossexualidade enquanto adjectivo; o encontro de Isaiah Berlin com Anna Akhmátova; o ensaísmo superlativo de Gore Vidal; leitura emocionada de Campo Santo, com Sebald à luz de Naipaul, na «busca contínua do lugar [...] que se teve, que se perdeu e que não existe mais», e ainda Carver, Beckett, Houellebecq, Steiner, Canetti, Stefan Zweig, Bryan Ward-Perkins, Christopher Hitchens, etc. Múltiplas leituras em contraponto. Sirva de exemplo a de Philip Roth a partir de Tolstói, ou, mais exactamente, Todo-o-Mundo a partir de A Morte de Ivan Ilyich.
A secção final, Encore, tem enfoque directo no quotidiano paulista: clima, gastronomia, gossip político, literatura. Registo diarístico: «Dizem que São Paulo é a mais feia cidade do mundo. Será? Não creio. Uma mistura de Tóquio e Istambul, mas com tesão para dar e vender.» Tudo é pretexto de afirmação empenhada, fazendo da prosa dúctil um exercício de puro prazer.
Aqui chegados, já o leitor percebeu que o João Pereira Coutinho da Folha não é imediatamente sobreponível ao do Expresso. É natural. A trapalhada indígena não colheria do outro lado do Atlântico.
Crónicas exemplares, in Ípsilon, 8-8-2008, pp. 32-33. Quatro estrelas.
Etiquetas: Crítica literária

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