A farsa

A advertência elegante de que Mário de Carvalho se serviu para, na abertura de A Sala Magenta, induzir o leitor a não procurar «moldes da vida real para acontecimentos e personagens» (p. 7) quase se limita a produzir o efeito contrário, o que é manifestamente pena. A atenção do leitor fica logo desperta para a possibilidade de existirem coincidências, mais ou menos visíveis, entre o que é narrado naquela ficção e aquilo que conhece ou de que ouviu falar, em tempos recentes, na sociedade que ele e o autor partilham. É um equívoco de leitura irritante, o que valoriza esse tipo de continuidade entre o mundo real do autor e o universo ficcional que ele criou, em relação ao qual Mário de Carvalho terá as suas responsabilidades (até pelo facto de escrever uma advertência deste género), mas do qual terá pretendido esquivar‑se, visto que já não seria a primeira vez que tal deslocação de sentido se colocaria a propósito de uma obra sua. Apresentar a questão nestes termos equivale a confundir a crítica literária com a coscuvilhice (confusão deveras generalizada, como é fácil de constatar), por não se ser capaz de compreender que qualquer autor trabalha com experiências (no sentido em que Rilke dizia, no Malte Laurids Brigge, que os versos são experiências), mas que o relevante está apenas no que ele consegue fazer ou produzir a partir desse material. Se dois autores podem partir de uma base de trabalho relativamente coincidente (nunca será a mesma, como sabemos) e obter resultados bem distintos, torna‑se claro que não é pela análise desse magma de origem, ou, pior, pela especulação à sua volta, que se conseguirá ler melhor as obras realizadas.
No caso do romance que Mário de Carvalho editou este ano na Caminho, este desvio pode ser tão pernicioso que obnubile as qualidades de um livro em que a densidade da linguagem se adequa de um modo raro e exemplar ao propósito ficcional. Em A Sala Magenta, somos confrontados com um protagonista que, em virtude da estagnação física e vivencial em que se encontra, procura um confronto aberto com a memória. A utilização de um narrador heterodiegético permite que o discurso ficcional oscile entre uma aproximação mais declarada à perspectiva da personagem e um afastamento apaziguador, quando a visão do leitor é guiada para os cenários físicos, apresentados em estreita conexão com o que poderia designar como o estado de alma do protagonista. Se este é claramente um livro escrito por quem leu Eça (refira‑se, aliás, que o autor de Os Maias figura entre a profusão de epígrafes do romance), é também uma obra que, sem qualquer lógica subsidiária ou de dependência, o actualiza. A apresentação fragmentária da narrativa não lhe retira um certo princípio de continuidade, embora distinto do que estruturava a novelística oitocentista, agora associado à reconstituição temática do passado presidida pela memória. Assim, a aparente ausência de acção não é um defeito, mas um sinal da profunda coerência que organiza todos os elementos constitutivos do romance. Para lá da acção e mesmo da tensão dramática, a situação de «Gustavo Miguel Dias, realizador de cinema, com duas menções nos festivais de Spacinka e Modagnia, com um dossier de críticas, aliás perdido em casa duma mulher qualquer, conhecido no Jornal de Letras, convidado para colóquios e abaixo‑assinados, frequentador ocasional de bares, forcejando por mais uma oportunidade de filmejar, instruído e opinoso» (p. 139), situa‑se já no registo da farsa, como o de uma história que se repete fora do seu tempo.
No caso do romance que Mário de Carvalho editou este ano na Caminho, este desvio pode ser tão pernicioso que obnubile as qualidades de um livro em que a densidade da linguagem se adequa de um modo raro e exemplar ao propósito ficcional. Em A Sala Magenta, somos confrontados com um protagonista que, em virtude da estagnação física e vivencial em que se encontra, procura um confronto aberto com a memória. A utilização de um narrador heterodiegético permite que o discurso ficcional oscile entre uma aproximação mais declarada à perspectiva da personagem e um afastamento apaziguador, quando a visão do leitor é guiada para os cenários físicos, apresentados em estreita conexão com o que poderia designar como o estado de alma do protagonista. Se este é claramente um livro escrito por quem leu Eça (refira‑se, aliás, que o autor de Os Maias figura entre a profusão de epígrafes do romance), é também uma obra que, sem qualquer lógica subsidiária ou de dependência, o actualiza. A apresentação fragmentária da narrativa não lhe retira um certo princípio de continuidade, embora distinto do que estruturava a novelística oitocentista, agora associado à reconstituição temática do passado presidida pela memória. Assim, a aparente ausência de acção não é um defeito, mas um sinal da profunda coerência que organiza todos os elementos constitutivos do romance. Para lá da acção e mesmo da tensão dramática, a situação de «Gustavo Miguel Dias, realizador de cinema, com duas menções nos festivais de Spacinka e Modagnia, com um dossier de críticas, aliás perdido em casa duma mulher qualquer, conhecido no Jornal de Letras, convidado para colóquios e abaixo‑assinados, frequentador ocasional de bares, forcejando por mais uma oportunidade de filmejar, instruído e opinoso» (p. 139), situa‑se já no registo da farsa, como o de uma história que se repete fora do seu tempo.

<< Home