EM ANTIOQUIA, 4

Os encontros de escritores, como os festivais de poesia e toda a sorte de reuniões corporativas (do cricket à medicina), são momentos privilegiados de exposição idiossincrática. Nenhum iluminado perde a oportunidade da pirueta. Isso também foi notório em Medellín, e de forma acentuada na sessão de encerramento, a chamada Clausura, que junta milhares de pessoas no Teatro Carlos Vieco, um auditório ao ar livre encravado no meio da densa vegetação da colina de Nutibara. Ao longo das seis horas (16-22h) em que durou, viu-se de tudo. Poetas circunspectos, histriónicos, militantes, tímidos, contagiantes, minimalistas, exóticos, etc. Competindo a cada poeta ler um poema, um só poema, porque são 74 e os poemas em língua estrangeira têm de ser lidos duas vezes (no original e em castelhano), há sempre quem faça uma particular interpretação da regra pré-determinada. Yolande Mukagasana (n. 1954), por exemplo. Yolande Mukagasana nasceu no Ruanda e sobreviveu ao genocídio de 1994, ocasião em que perdeu o marido, os três filhos e todos os irmãos e cunhados. Fundou uma associação para recordar o acontecido, tendo recebido prémios na Itália, Alemanha, França e Bélgica. Quando, passava das oito da noite, chegou a sua vez, a senhora fez um statement de vinte minutos, que teve de ser traduzido, e foi naturalmente muito aplaudido, lendo de seguida seis poemas que não eram propriamente haikus, e tiveram de ser traduzidos... Não foi caso único. O uruguaio Eduardo Espina (n. 1950) levou meia hora a ler, em ritmo frenético, o seu. Freedom Nyamubaya (n. 1958), do Zimbabwe, também leu vários, mas o prato-forte da sua performance foram os cinco minutos de gargalhadas com que antecedeu a leitura: ela chega, arranca o micro do suporte, saracoteia, e rompe num gargalhar estridente que a instalação sonora potencia. Puro circo, mas o auditório explode. O bielorruso Andrei Khadanovic (n. 1973) faz-se acompanhar à viola, dá pulos, fica a um passo da cambalhota, inverte a ordem de leitura: primeiro em castelhano (sem pulos), depois no original em overacting. O sul-africano Zolani Mkiva (n. 1974), representante da tradição oral ukubonga, Prémio Nelson Mandela, Príncipe da Poesia-Afro (sic), uma espécie de Poet Laureate zulu, militante do ANC, consegue estar um quarto de hora a dar estalidos com a língua... sem perder a respiração. Quem se portou muito bem foi Frank Chipasula (n. 1949), do Malawi, que fez um brevíssimo speech e leu de seguida um poema breve. Os poetas de expressão exótica a ouvidos castelhanos, como o coreano Kim Ki Dong (n. 1938), a israelita Rachel Tzvia Back (n. 1960; leu um poema em hebraico), a indiana Mamta Sagar (n. 1966), a vietnamita Nguyen Bao Chan (n. 1969), o estónio Jüri Talvet (n. 1945), o alemão Gerhard Falkner (n. 1951), o holandês Arjen Duinker (n. 1956), o esloveno Brane Mozetic (n. 1958), a norueguesa Tale Naess (n. 1969) ou o sueco Henrik Nilsson (n. 1971), suscitam sempre maior curiosidade que os de língua inglesa, ou seja, os da África anglófona, e também a americana Roberta Hill (n. 1947), o irlandês Joseph Woods (n. 1966) ou o canadiano Patrick Woodcock (n. 1968). O espanhol Marcos Ana (n. 1920), que vai ter as suas memórias adaptadas ao cinema por Almodóvar, e foi a “glória” do festival, bem como o francês Bernard Noël (n. 1930) ou o suíço Armin Senser (n. 1964), não tinham a seu favor o módico de estranheza de idiomas menos comuns. Os latino-americanos, com a assinalada excepção de Espina, respeitaram o figurino, e não merecem comentário especial, salvo para notar que o guatemalteco Alan Mills (n. 1979) arrebatou a assistência, primeiro com duas anedotas, depois com um poema de inegável qualidade. Fernando Rendón foi parcimonioso no discurso que fez (cerca de cinco minutos). Continua a intrigar-me como aqueles milhares de pessoas não arredaram pé ao longo das seis horas da sessão. Houve depois o jantar e recepção de despedida, muito barulhenta, e eu tinha de estar no lobby do hotel às 02:50h para seguir para o aeroporto... [Continua]

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