domingo, Junho 15, 2008

Reflexão livre sobre o devir humano


Entre os títulos que marcaram o regresso à actividade editorial da Angelus Novus, conta­‑se Regras para o Parque Humano (Regeln für den Menschenpark, 1999), de Peter Sloterdijk, com data de Setembro de 2007, embora só tendo chegado às livrarias depois de Março deste ano (a distribuição é, aliás, o problema que esta editora precisa de resolver rapidamente, pois não se compreende que um pedido, realizado e reiterado por um livreiro, demore mais de um mês a ser atendido, com a desculpa de «um problema informático»). Com uma introdução cuidada e rigorosa de Luís Quintais, o pequeno volume apresenta, finalmente, em língua portuguesa a célebre conferência que o filósofo alemão leu no castelo de Elmau, a 17 de Junho de 1999, e que, posteriormente publicada em Die Zeit, desencadeou uma vasta polémica, da qual, no seu devido tempo, Eduardo Prado Coelho deu notícia aos leitores portugueses, num dos seus textos semanais de então, no jornal Público. Quintais recorda, no prefácio, os termos da contenda para onde Sloterdijk foi levado (aflorada de passagem na conversa de Serralves, no ano passado), em que Habermas, defensor do modelo de humanismo posto em causa pelo seu conterrâneo, foi um dos intervenientes, embora, de início, tenha preferido manter­‑se na sombra.
De certo modo, pode dizer­‑se que há neste título algo de enganador, pois não se trata aqui de enunciar regras, mas sobretudo de acentuar a ideia da falência de um humanismo baseado na escrita, na literatura, no conceito de livros como missivas enviadas aos amigos, mesmo que desconhecidos, mesmo que – ou especialmente por isso – situados apenas num futuro possível. Se o humanismo burguês era, como afirma Sloterdijk, «a faculdade de impor aos jovens a leitura dos clássicos e de estabelecer a validez universal das leituras nacionais» (p. 27), o que a literatura sofreu foi sobretudo uma reconfiguração do seu alcance, que possui o mérito de a ter libertado de uma função que excedia aquilo que poderíamos designar como o seu valor artístico. A missão de aglutinadora nacional terá começado a diluir­‑se a partir de 1945, conforme o filósofo sugere, mas uma outra manteve­‑se em determinados países europeus (e talvez se mantenha hoje em alguns sítios), a saber, a de corporizar um acto de resistência política, induzindo os leitores a tomarem por válido literariamente o que não passava de um texto mais ou menos panfletário. Nesta óptica, que Sloterdijk não contempla, seria a partir de 1989 que a consideração de Jean Paul (segundo a qual os livros seriam as tais cartas dirigidas aos amigos) sofreria um novo e talvez mais acentuado abalo.
Em todo o caso, este é apenas o ponto de partida para que o autor de Kritik der zynischen Vernunft, percorrendo textos de Heidegger, Nietzsche e Platão, defenda a inexistência de uma humanidade a priori, considerando, pelo contrário, que será sinal de escasso uso da razão não admitir sequer – e, consequentemente, não reflectir sobre – a possibilidade de uma determinação futura das características do ser humano. Segundo Sloterdijk, «saber se o desenvolvimento a longo prazo levará também a uma reforma das propriedades da espécie, se uma futura antropotecnologia irá ao ponto de pôr em prática um planeamento explícito dos caracteres genéticos, ou se a humanidade como espécie conseguirá passar do fatalismo do nascimento a uma gestação facultativa e à selecção pré­‑natal – são perguntas, ainda vagas e inquietantes, com que o horizonte da evolução começa a confrontar­‑nos» (p. 65). A dificuldade em olhar de frente para estes questionamentos é, aliás, uma das causas para algumas reacções tão hostis a determinados filmes de David Cronemberg, como, por exemplo, o célebre Crash, que coloca, de modo frontal, uma interrogação sobre os limites da definição do humano.
A tradução de Manuel Resende oferece um texto claro em português, tendo mesmo o cuidado de indicar, em alguns casos, as palavras originais, para precisar os conceitos, mas há vírgulas irritantes, que uma revisão mais atenta deveria ter eliminado (um exemplo, retirado da página 70: «Esta arte da pastorícia preventiva, deverá por seu turno ser subdividida em tirânica­‑forçada e livre.»). Tal observação, porém, não retira brilho ao regresso feliz de uma das mais interessantes editoras portuguesas actuais.