PRÉ-PUBLICAÇÃO

Chega às livrarias na próxima semana a primeira colectânea de contos de José Mário Silva. Aqui se reproduz Regresso a Casa, uma das histórias de Efeito Borboleta.
«Um homem avança, muito devagar, contra a última luz do dia. O corpo enorme, ligeiramente inclinado para a frente, chapéu de feltro na cabeça, gravata de seda, fato de um cinzento metálico, quase tão cinzento como o céu baço do Connecticut. Estamos no princípio do Inverno de 1934. O frio queima-lhe as mãos sem luvas.
Para trás ficou o escritório no primeiro piso do austero edifício da Hartford Accident and Indemnity, a companhia de seguros que o contratou, como advogado, há 18 anos. Para trás, também, tudo o resto: a solene escadaria de pedra; a fachada neoclássica com seis colunas jónicas; a reunião matinal do staff; o café demasiado quente bebido no corredor; as cartas ditadas à secretária pessoal sobre cláusulas omissas do contrato com uns agricultores teimosos de Danbury; a placa que diz Vice-Presidente, ainda a brilhar de tão nova; os acenos subtis dos outros senhores engravatados; a sua figura distinta de homem de negócios bem sucedido.
Wallace Stevens avança contra a última luz do dia e esconde as mãos dentro do casaco. West Hartford, com as suas casas banais habitadas por pessoas banais, pressente a escuridão que se aproxima como um arrepio. Ao longo da Asylum Avenue, alguns homens reconhecem-no e exclamam, com uma vénia: “Boa noite, Mr. Stevens.” O crepúsculo tomou conta de todas as coisas. Há folhas caídas no chão.
Do trabalho até casa, no número 118 de Westerly Terrace, são duas milhas. É o percurso diário: duas milhas para lá, duas milhas para cá, uma caminhada quase tão regular como os passeios de Kant pelas ruas de Königsberg. Quando passa em frente do Saint Francis Hospital, ou enquanto segue vagarosamente sob as árvores de Scarborough Street, Stevens já não é o executivo que elabora estratégias comerciais ou calcula margens de lucro. É só um homem enorme, ligeiramente inclinado para a frente e para dentro, a cabeça um tumulto de ideias sob o chapéu de feltro, o pensamento saturado de vocábulos, ritmos inescapáveis, versos nascidos da pura imaginação, redemoinhando como as chamas.
Stevens repete para si mesmo os poemas finamente cinzelados de Harmonium (primeiro e único livro até à data, publicado 11 anos antes). Em casa, tem Elsie à espera. E Holly, a filha pequena. Dois exemplos do impenetrável enigma feminino. Vindo do céu já escuro e a ameaçar neve, desce agora um melro que se põe a saltitar nos ramos de um cedro. A última luz do dia extinguiu-se. Ainda intacto, o antigo medo — agudo como o grito dos pavões. Palavras soltas. Dedos sem luvas, tão frios.»
«Um homem avança, muito devagar, contra a última luz do dia. O corpo enorme, ligeiramente inclinado para a frente, chapéu de feltro na cabeça, gravata de seda, fato de um cinzento metálico, quase tão cinzento como o céu baço do Connecticut. Estamos no princípio do Inverno de 1934. O frio queima-lhe as mãos sem luvas.
Para trás ficou o escritório no primeiro piso do austero edifício da Hartford Accident and Indemnity, a companhia de seguros que o contratou, como advogado, há 18 anos. Para trás, também, tudo o resto: a solene escadaria de pedra; a fachada neoclássica com seis colunas jónicas; a reunião matinal do staff; o café demasiado quente bebido no corredor; as cartas ditadas à secretária pessoal sobre cláusulas omissas do contrato com uns agricultores teimosos de Danbury; a placa que diz Vice-Presidente, ainda a brilhar de tão nova; os acenos subtis dos outros senhores engravatados; a sua figura distinta de homem de negócios bem sucedido.
Wallace Stevens avança contra a última luz do dia e esconde as mãos dentro do casaco. West Hartford, com as suas casas banais habitadas por pessoas banais, pressente a escuridão que se aproxima como um arrepio. Ao longo da Asylum Avenue, alguns homens reconhecem-no e exclamam, com uma vénia: “Boa noite, Mr. Stevens.” O crepúsculo tomou conta de todas as coisas. Há folhas caídas no chão.
Do trabalho até casa, no número 118 de Westerly Terrace, são duas milhas. É o percurso diário: duas milhas para lá, duas milhas para cá, uma caminhada quase tão regular como os passeios de Kant pelas ruas de Königsberg. Quando passa em frente do Saint Francis Hospital, ou enquanto segue vagarosamente sob as árvores de Scarborough Street, Stevens já não é o executivo que elabora estratégias comerciais ou calcula margens de lucro. É só um homem enorme, ligeiramente inclinado para a frente e para dentro, a cabeça um tumulto de ideias sob o chapéu de feltro, o pensamento saturado de vocábulos, ritmos inescapáveis, versos nascidos da pura imaginação, redemoinhando como as chamas.
Stevens repete para si mesmo os poemas finamente cinzelados de Harmonium (primeiro e único livro até à data, publicado 11 anos antes). Em casa, tem Elsie à espera. E Holly, a filha pequena. Dois exemplos do impenetrável enigma feminino. Vindo do céu já escuro e a ameaçar neve, desce agora um melro que se põe a saltitar nos ramos de um cedro. A última luz do dia extinguiu-se. Ainda intacto, o antigo medo — agudo como o grito dos pavões. Palavras soltas. Dedos sem luvas, tão frios.»
Etiquetas: Literatura

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