Domingo, Maio 18, 2008

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. Você conhece a brasileira Guiomar de Grammont? Não conhece. É pena. Guiomar de Grammont (n. 1963) pertence à geração de Bernardo Carvalho, Fernando Bonassi, André Sant’Anna e outros, a geração dos nineties, infelizmente pouco conhecida deste lado do Atlântico. Também eu descobri Guiomar há pouco tempo. Seu Sudário são dezanove contos bem escarolados, a prosa enxuta, não raro desabrida, tratando o sexo com desenvoltura. Ficam os dois primeiros parágrafos de Glória:


«A primeira vez que andei de trem foi com minha avó. Eu, moleque, gritava, os braços debruçados lá fora. O cabelo, chicote no vento. Minha avó, pára de pôr a mão pra fora, menino! As paisagens, um filme a desenrolar-se nos caixilhos das janelas. O poema de Bandeira. Para que escrever mais, se o trem inteirinho no poema, com vagões, apito, fumaça e tudo mais?

Eu buscava um trem em mim e ele já se instalara em meu peito. Um impedimento, uma dor, uma angústia. Eu não podia fazer nada. Não combinava comigo a poesia da locomotiva. Tinha que ser um outro trem. O tempo corria, corria sobre os trilhos, mas parecia que o trem jamais passaria através do meu corpo para materializar-se no papel.
»


Rita Ferro tem um blogue: Pronome Possessivo. Sejas bem-vinda à tribo!

Francisco José Viegas: «O pior de tudo: a declaração de José Sócrates, aceitando a punição e dando um passo em frente. Ninguém lhe tinha pedido para deixar de fumar. Mas, depois de um “mau exemplo” (do ponto de vista da moral), o “bom exemplo”, porque vai “deixar de fumar”. Mais uma vez, a moral. Não há paciência.»

João Pinto e Castro: «Por isso espero que o pedido de desculpas não proteja o Primeiro-Ministro de sofrer a penalização correspondente à infracção que cometeu, de nada lhe valendo alegar que desconhecia ter agido erradamente. Dito isto, eu gostaria que os media portugueses revelassem um poucochinho mais de sentido de responsabilidade na avaliação dos actos próprios. [...] Há coisas que se admitem no Correio da Manhã ou nos gratuitos, mas não na imprensa que faz gala em ser chamada ‘de referência’.»

Lutz Brückelmann: «Quem me lembrou foi a Sara Monteiro. Ela contou-me que o QeP está bloqueado na Biblioteca Municipal de Faro, por ter conteúdos impróprios para uma biblioteca pública. Não fiquei para aí além surpreendido.»

Mauro Castro: «Lembro que um dia ele [Caio Fernando Abreu, 1948-1996] pegou meu táxi para uma de tantas corridas para o Hospital. Informei-o que havia visto um outdoor com o anúncio de seu último livro. Curioso, ele me pediu que o levasse até lá para dar uma olhada. Lembro que parei na Avenida Silva Só em frente ao enorme painel. Ele ficou observando por algum tempo sem sair do carro. Acho que não gostou do que viu. Depois, sem comentários, pediu que o levasse para o hospital. Foi a última vez que o vi. Dias mais tarde, soube pela imprensa que havia morrido.»

Tomás Vasques: «A agitação mediática, à boa moda das revistas cor-de-rosa, desviou a atenção para o “acto anti-constitucional” de fumar a bordo do avião e para o espantalho dos “custos políticos” em abraçar Hugo Chávez. Talvez esta agitação à volta do acessório signifique que esta deslocação foi bem sucedida.»

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