Sábado, Maio 03, 2008

ALGUMAS VEZES


O Público divulga hoje os resultados (obtidos a partir de 3643 entrevistas feitas a indivíduos de ambos os sexos, dos 16 aos 65 anos, residentes no continente) do inquérito Saúde e Sexualidade, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, o qual será apresentado publicamente na próxima terça-feira. Coordenado pelos sociólogos Manuel Villaverde Cabral e Pedro Moura Ferreira, a pedido da Coordenação Nacional para a Infecção do VIH, o estudo demonstra que o alto índice da homofobia declarada convive pacificamente com idêntico índice de bissexualidade assumida. Nada de novo. O que me deixa perplexo é o teor de certas perguntas. Por exemplo, saber se as relações entre pessoas do mesmo sexo são [a] totalmente erradas, [b] a maior parte das vezes erradas, [c] algumas vezes erradas ou [d] raramente erradas. Eu sei que as pessoas “civilizadas” tendem a admitir a homossexualidade nos outros, sobretudo se forem “artistas”, mas reagem muito mal quando o filho ou a filha saem do armário. Isso é um clássico, mesmo entre intelectuais. Mas, num estudo científico, não percebo como a questão possa ser matizada em fracções de grau. Ou se considera errado, ou não errado. O que significa “a maior parte das vezes”? Depende da hora? Quem fica de fora da maior parte? Ou “algumas vezes”? Algumas vezes? O que determina as excepções? O bodybuilding ou a classe social? Ou “raramente”? Idem. Este tipo de nuance pode facilitar as respostas, mas deita por terra o pretenso rigor de qualquer estudo.

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