Terça-feira, Abril 29, 2008

OUTRO PAÍS


Cada novo 25 de Abril serve sempre de pretexto para comparar o antes e o depois de 1974. Uma destas noites, Maria Elisa juntou no seu programa seis convidados: Teolinda Gersão, Teresa Calçada, o actor Fernando Fernandes da série Morangos com Açúcar e ainda dois rapazes e uma rapariga que ficaram com o nome abafado pelas respectivas proezas académicas. (Ora aí está uma coisa muito característica do pós-Abril: a enfática precedência dos pergaminhos escolares ilide a identidade.) O ponto era discutir expectativas e mudanças operadas nos últimos 34 anos. Vi cerca de meia hora. O suficiente para confirmar que os convidados de Maria Elisa, tal como os entrevistados de um documentário inserido no programa, entre eles o coreógrafo Vasco Wellenkamp e a directora do Plano Nacional de Leitura, Isabel Alçada, falaram todos de um país diferente daquele em que vivi antes de 1974. A realidade das antigas colónias era outra, e em Moçambique (onde vivi até Novembro de 1975) essa diferença tornava-se assaz gritante. Não estou a dizer que fosse melhor, apenas sublinho a diferença. Um dos convidados em estúdio disse, sem se rir, que antes do 25 de Abril as pessoas não investiam no corpo, ao contrário do que agora sucede. Enfim, não sei de que pessoas é que estamos a falar. Na minha primeira visita a Portugal, em 1964 (estive por cá oito meses), as tias gastavam horrores em Helena Rubinstein. E, na segunda, em 1974, cinco semanas eufóricas que terminaram exactamente na véspera da revolução, qualquer marçano do Grandella investia um quinto do salário em beauté. Não sei como faziam as operárias do Barreiro ou os camponeses em geral. A avaliar pelo que foi dito, presumo que agora as trabalhadoras do Vale do Ave tenham como primeira preocupação a dosagem correcta de soin lifting repositionnant IP 15, idêntica à dos varões de Miragaia com o ginásio. Enfim. Estas generalizações parecem-me muito pouco científicas. O mesmo se diga das questões da sexualidade e do emprego. Por falar em emprego, se o índice anual de licenciados tem de ser multiplicado por seis ou mais vezes a partir de 1974, e o país continuou do mesmo tamanho, tendo a economia levado os safanões que levou, aumentado a imigração, diminuído a emigração, e mudado o paradigma do trabalho (novas tecnologias, etc.), como é que alguém se espanta com o afulinamento das saídas profissionais? A mim faz-me sempre muita espécie que a pedagogia do 25 de Abril menorize questões concretas da vida em sociedade, em detrimento de aspectos laterais que dependem sempre do ângulo de quem observa. Por exemplo, nunca vejo referido que, ainda em 1976, a distribuição de electricidade apenas cobria 40% do território nacional, e que em 1986, ano de entrada na UE, continuava a haver 17 concelhos por contemplar. Será talvez por haver mais luz que se nota tanto o investimento no corpo.

Etiquetas: