Literatura pós‑colonial

Então não se está mesmo a ver que o Agualusa é um tipo tendencioso, um reaccionário armado em crítico literário, e que Agostinho Neto é uma figura genial da poesia da modernidade? Têm dúvidas? Nada como ler este exemplo supremo da arte de versejar, concedido aos vindouros pela pena do ilustre bardo angolano. Chama‑se «Contratados» e consta do volume Sagrada Esperança, editado em 1974 pela Sá da Costa (onde estavam incluídos os poemas dos seus dois primeiros livros). Leiam‑no com atenção (e devoção, já agora) e curvem‑se definitivamente perante a grande literatura pós‑colonial:
«Longa fila de carregadores
domina a estrada
com os passos rápidos
Sobre o dorso
levam pesadas cargas
Vão
olhares longínquos
corações medrosos
braços fortes
sorrisos profundos como águas profundas
Largos meses os separam dos seus
e vão cheios de saudades
e de receio
mas cantam
Fatigados
esgotados de trabalhos
mas cantam
Cheios de injustiças
calados no imo das suas almas
e cantam
Com gritos de protesto
mergulhados nas lágrimas do coração
e cantam
Lá vão
perdem-se na distância
na distância se perdem os seus cantos tristes
Ah!
eles cantam...»
«Longa fila de carregadores
domina a estrada
com os passos rápidos
Sobre o dorso
levam pesadas cargas
Vão
olhares longínquos
corações medrosos
braços fortes
sorrisos profundos como águas profundas
Largos meses os separam dos seus
e vão cheios de saudades
e de receio
mas cantam
Fatigados
esgotados de trabalhos
mas cantam
Cheios de injustiças
calados no imo das suas almas
e cantam
Com gritos de protesto
mergulhados nas lágrimas do coração
e cantam
Lá vão
perdem-se na distância
na distância se perdem os seus cantos tristes
Ah!
eles cantam...»

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