Quinta-feira, Abril 10, 2008

Literatura pós­‑colonial


Então não se está mesmo a ver que o Agualusa é um tipo tendencioso, um reaccionário armado em crítico literário, e que Agostinho Neto é uma figura genial da poesia da modernidade? Têm dúvidas? Nada como ler este exemplo supremo da arte de versejar, concedido aos vindouros pela pena do ilustre bardo angolano. Chama­‑se «Contratados» e consta do volume Sagrada Esperança, editado em 1974 pela Sá da Costa (onde estavam incluídos os poemas dos seus dois primeiros livros). Leiam­‑no com atenção (e devoção, já agora) e curvem­‑se definitivamente perante a grande literatura pós­‑colonial:

«Longa fila de carregadores
domina a estrada
com os passos rápidos

Sobre o dorso
levam pesadas cargas

Vão
olhares longínquos
corações medrosos
braços fortes
sorrisos profundos como águas profundas

Largos meses os separam dos seus
e vão cheios de saudades
e de receio
mas cantam

Fatigados
esgotados de trabalhos
mas cantam

Cheios de injustiças
calados no imo das suas almas
e cantam

Com gritos de protesto
mergulhados nas lágrimas do coração
e cantam

Lá vão
perdem-se na distância
na distância se perdem os seus cantos tristes

Ah!
eles cantam...»

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