Sexta-feira, Março 07, 2008

A manifestação


Não há qualquer justificação aceitável para que, num Estado de Direito democrático, a polícia se dirija às escolas e indague sobre o número de professores que se deverão deslocar a Lisboa para uma manifestação contra as políticas educativas do governo nacional. Não perceber isto é aceitar que a liberdade – esse valor que me habituei a pôr no topo da tabela ética – seja questionada e, em consequência, restringida.
Para lá desta questão, espero que a manifestação que os professores vão realizar amanhã em Lisboa ultrapasse as expectativas mais optimistas em termos de números e que daí resultem consequências políticas. Nunca fui adepto da rua, como se diz, nunca militei em nenhum extremo político e também nunca me deixei seduzir pelos amanhãs cantantes (ao contrário de alguns que agora atacam os sindicatos e as manifestações como se fossem a encarnação de todos os males); bem pelo contrário, desde que me conheço politicamente, sempre estive do lado do que se pode designar como o centro­‑esquerda ou a esquerda democrática. Não se pode confundir – e é profundamente demagógico fazê­‑lo, como já tive ocasião de ler – as manifestações que têm tido os professores como protagonistas com qualquer propósito de subversão de uma política que tenha sido sufragada em eleições. O que se passa é bem distinto, pois o actual estado da educação é um beco sem saída, em que as escolas são esmagadas por uma catadupa legislativa incoerente, que se auto­‑revoga e actualiza sem cessar, impeditiva de um trabalho sério. Alguém acredita verdadeiramente que os milhares de professores que amanhã estarão em Lisboa são manipulados por sindicatos ou são apenas um grupo corporativo que defende a todo o custo não sei que privilégios? Alguém pode defender com honestidade, e sem se rir de si mesmo, este argumento?
Lembram­‑se do que escrevi aqui? Eis que a ideia da teimosia e dos métodos extremos para se atingir resultados supostamente perfeitos é agora apontada por José Manuel Fernandes, no editorial de hoje do Público, como uma das razões que justificam a necessidade de substituir (e quanto mais depressa melhor, pois é toda a comunidade educativa, ou seja, todo o país, que está a perder) a equipa ministerial: «As ‘certezas’ da ministra e do seu cão­‑de­‑fila, o secretário de Estado Valter Lemos, são, para eles, tão indiscutíveis como era o chamado ‘socialismo científico’. Só indivíduos malévolos, preguiçosos, desestabilizadores ou membros de sindicatos podem estar contra elas – um tipo de raciocínio que os bolcheviques aplicavam a todos os que se lhes opunham, apodados de ‘contra­‑revolucionários’».

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