Domingo, Março 09, 2008

LER OS OUTROS


Um livro cada domingo. No momento em que se completam 200 anos da chegada da corte portuguesa ao Brasil, nada como recordar El-Rei Junot, de Raul Brandão (1867-1930), obra que chegou agora à colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, patrocinada pela direcção-geral do Livro e das Bibliotecas. Este n.º 74 é o sétimo título de Raul Brandão que a colecção acolhe. Maria de Fátima Marinho, responsável por esta edição, fez o cotejo das quatro edições anteriores — as de 1912, 1919, 1974 e 1982 —, optando por seguir a de 1919, na qual Raul Brandão introduziu inúmeras alterações, «que se destinam a melhorar o texto de variados pontos de vista: semântico, estilístico ou sintáctico». No prefácio, Maria de Fátima Marinho sublinha que Raul Brandão não pretendeu «exaltar a ideia de Pátria, face a momentos de verdadeira crise e de humilhação nacional, mas apresentar ambientes e razões, motivos psicológicos e económicos, que arrataram Portugal para o domínio francês e sua posterior expulsão.» Fica um breve trecho do capítulo dedicado à fuga da corte em Novembro de 1807:


«Na hora fatal ninguém se entende. Dão-se ordens e contra ordens, os diplomatas mentem, os emigrados intrigam, Luís de Vasconcelos e Sousa e António de Araújo são pela França; D. Rodrigo de Sousa Coutinho e seus irmãos pela Inglaterra. Apela-se para o cofre. Venha mais dinheiro, mais diamantes! [...] O Príncipe geme. Na véspera tinha-lhe dado, mais violento, um ataque de hemorroidal. [...] Dá ordens para que sejam recebidos a bordo todos os portugueses notáveis que queiram fugir, e a tropa, a segurança, as baionetas destemidas. Mas os notáveis são todos, era Lisboa em peso se houvesse lugar nos porões. [...] A 27 embarca-se. É um carvão feito a traços de desespero. Era preciso o lápis de Sequeira para fixar: 1.º a multidão obscura, a multidão anónima, submissa por séculos e séculos de ignorância, e no entanto — meu Deus! — colérica; 2.º as figuras que vão passando, já despidas de prestígio e pompa, reis, ministros, personagens vexados; 3.º grupos de fidalgos, de frades, de damas vaporosas com cólicas de medo; e por fim o redemoinho, os gritos, as seges, os caixões, a balbúrdia, a trágica mixórdia. Há um momento confuso, em que de escantilhão, aos encontrões, para chegar mais depressa, correm todos para bordo: corte, ministros e lacaios; há um momento em que o povo se atreve e cospe-lhes injúrias... [...] Segue o desfile: as duas princesas, a corte, e num último impulso, empurrando-se e gritando, os frades, os literatos, os lacaios, a gente sobraçando gaiolas e trouxas, bugigangas, as cadeirinhas, as berlindas que forcejam por avançar, os moços de estribeira, as negras, as açafatas, camareiras-mores, damas de honor, damas da câmara da Rainha Nossa Senhora, viadores, confessores, guarda-roupas, capelães da Casa Real, servidores da toalha, oficiais de cavalariça e monsenhores mitrados, monsenhores proto-notários, monsenhores acólitos, mestres de cerimónias, cantores, pregadores régios, conselheiros de Estado, brigadeiros e marechais de campo — crianças de mama e velhos de 89 anos como Forbes Shellater — a vida falsa e ridícula de ficções, dispersa diante da Realidade. A etiqueta esqueceu. Tudo o que era aparato desapareceu, e lá vão aos encontrões com medo de ficar, de perder o lugar, agarrados aos fardos mais preciosos, largando as mulheres e os filhos, separando-se dos seus por entre os insultos da multidão. São cerca de quinze mil os que embarcam. É o duque de Cadaval, a duquesa e os filhos, são os marqueses de Alegrete, de Belas, Angeja, Pombal, Lavradio, Torres Novas e Vagos; são os condes de Pombeiro, Caparica, Redondo e Belmonte; são os ministros, os nobres, os ricos; a gente que tem a perder... [...] É o momento em que todo o cenário de pompa se esfarela, e só se vêem ripas podres, farsa que à custa de exaspero chegasse a dor extreme. [...]»


Já imaginaram isto nas mãos de Ridley Scott ...?


A Terceira Noite fez dois anos. Parabéns ao Rui Bebiano.

António P.: «Os professores enquanto classe profissional decidirão (pelo menos os sindicalizados) também, em eleições sindicais, quando as houver, se os sindicatos defenderam convenientemente os seus interesses profissionais.»

Filipe Nunes Vicente: «Por último, a fraqueza política deste governo. Gente sem densidade, sem passado, sem miolos, sem livros, sem dinheiro [...] que assiste impotente a este desvario. Há excepções, claro, mas são mais raras do que o broche de pino.»

João Pinto e Castro: «A política da indignação não é política nenhuma, e é por isso que se pode afirmar sem demagogia que os manifestantes foram instrumentalizados por desígnios políticos cujo sentido último lhes escapa.»

JLS: «Por constituirem a classe que constituem, não deviam [...] cometer tamanhos equívocos.»

Luís Grave Rodrigues: «Para já a primeira conclusão a retirar é que os professores portugueses não sabem que, por muito que “a rua” seja um excelente local para o legítimo exercício da democracia e do direito de manifestação e até do “direito à indignação”, ainda assim, e como tantos e tantos exemplos nos pode dar a História, “a rua” nem sempre tem razão.»

Paulo Querido: «Ao contrário de outras manifestações de organização popular (i.e., com pouca ou nenhuma responsabilidade dos aparelhos profissionais da agitação social), como o buzinão da ponte, a revolta dos professores é muito circunscrita a uma classe. Assim, até que ponto pode servir de rastilho para incendiar a sociedade?»

Sofia Loureiro dos Santos: «A minha marcha é a favor das reformas, do estatuto da carreira docente, de maior autonomia e responsabilização das escolas, de mais e melhor trabalho, de avaliações de desempenho, de promoções por mérito. Espero que José Sócrates honre o mandato que tem e mantenha no cargo a Ministra da Educação.»

Vital Moreira: «[...] saber quem governa: se o Governo eleito ou a oposição, se os cidadãos eleitores ou uma classe profissional na rua.»

Etiquetas: ,

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home