Pré‑publicação de José Cardoso Pires

No final deste mês, chegará às livrarias Lavagante – Encontro Desabitado, uma ficção inédita de José Cardoso Pires, pela mão das Edições Nelson de Matos, que assim se estreiam da melhor forma. A capa, de uma sobriedade exemplar, será facilmente reconhecível por entre a multidão colorida (e cansativa) que constantemente se renova nas montras. Por agora, é com uma enorme satisfação que aqui publico o primeiro capítulo de Lavagante, antecipando assim, por algumas semanas, o aparecimento do último livro do Prémio Pessoa de 1997:
«Bebemos mais um copo: o oitavo ou o décimo, não sei bem. A Lanterna é o melhor bar da praia – e o mais caro, diga-se de passagem –, aquele onde é possível saborear uma fatia de espadarte fumado como esta, na companhia do mais glorioso vinho do mundo, vinho de regiões arenosas, gelado e seco, e com um calor certo e comedido a prolongar‑se de taça para taça.
– Este ano – diz o dono do bar – estamos reduzidos a meia centena de turistas. O resto é o que se vê.
Aponta lá para fora, para isso que se vê: os banhistas que desfilam ao sol, no largo, as vivendas de cimento, o asfalto abrasado, os jovens conquistadores de praia estendidos nas esplanadas, assistindo ao correr dos dias, desinteressados.
– É a morte – concorda o jornalista que bebe comigo e com o barman. – São as pessoas a devorarem-se a elas mesmas. Voltadas para o umbigo. Isso tem um nome: autofagia.
O barman pisca-me o olho disfarçadamente:
– Este teu amigo fala como um reformado. Que idade tem você?
– Trinta e nove – responde o jornalista.
– Mas, pode dizê-lo, pertenço à geração reformada de 45. Verdade! Todos nós fomos reformados, sem nunca termos entrado na guerra.
Fresco e impecável, o barman, está do outro lado do balcão com um sorriso divertido. Bebe e fuma com modos repousados, e entretanto contempla do alto da sua serenidade o jornalista atormentado. Esse homem que ali tem sacode a cabeça diante duma taça de vinho, estrebucha e fala dos seus sonhos frustrados.
– Viciámo-nos. Agora temos a Censura a escrever por nós. E amanhã? Quem sabe escrever amanhã, quando a Censura acabar?
Cala-se. Depois espalma a mão diante dos olhos, mirando-a com raiva, quase com espanto:
– A minha mão medrosa – anuncia. Volta‑a e torna a voltá-la, como se a não reconhecesse, como se a denunciasse em público.
– Está viciada, amigos, escreve com medo… Não há dinheiro no mundo que pague uma desgraça destas. Dinheiro nenhum. Nenhum, nenhum, nenhum, nenhum, nenhum…
– Acredito – diz o dono do bar. E virando‑se para mim: – E tu? Não falas, não contas nada?»
«Bebemos mais um copo: o oitavo ou o décimo, não sei bem. A Lanterna é o melhor bar da praia – e o mais caro, diga-se de passagem –, aquele onde é possível saborear uma fatia de espadarte fumado como esta, na companhia do mais glorioso vinho do mundo, vinho de regiões arenosas, gelado e seco, e com um calor certo e comedido a prolongar‑se de taça para taça.
– Este ano – diz o dono do bar – estamos reduzidos a meia centena de turistas. O resto é o que se vê.
Aponta lá para fora, para isso que se vê: os banhistas que desfilam ao sol, no largo, as vivendas de cimento, o asfalto abrasado, os jovens conquistadores de praia estendidos nas esplanadas, assistindo ao correr dos dias, desinteressados.
– É a morte – concorda o jornalista que bebe comigo e com o barman. – São as pessoas a devorarem-se a elas mesmas. Voltadas para o umbigo. Isso tem um nome: autofagia.
O barman pisca-me o olho disfarçadamente:
– Este teu amigo fala como um reformado. Que idade tem você?
– Trinta e nove – responde o jornalista.
– Mas, pode dizê-lo, pertenço à geração reformada de 45. Verdade! Todos nós fomos reformados, sem nunca termos entrado na guerra.
Fresco e impecável, o barman, está do outro lado do balcão com um sorriso divertido. Bebe e fuma com modos repousados, e entretanto contempla do alto da sua serenidade o jornalista atormentado. Esse homem que ali tem sacode a cabeça diante duma taça de vinho, estrebucha e fala dos seus sonhos frustrados.
– Viciámo-nos. Agora temos a Censura a escrever por nós. E amanhã? Quem sabe escrever amanhã, quando a Censura acabar?
Cala-se. Depois espalma a mão diante dos olhos, mirando-a com raiva, quase com espanto:
– A minha mão medrosa – anuncia. Volta‑a e torna a voltá-la, como se a não reconhecesse, como se a denunciasse em público.
– Está viciada, amigos, escreve com medo… Não há dinheiro no mundo que pague uma desgraça destas. Dinheiro nenhum. Nenhum, nenhum, nenhum, nenhum, nenhum…
– Acredito – diz o dono do bar. E virando‑se para mim: – E tu? Não falas, não contas nada?»

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