LER OS OUTROS

Um livro cada domingo. O livro de que vou falar foi publicado pela primeira vez em 1962. Nos últimos 46 anos terá tido cerca de quarenta reedições, o que diz bem da sua importância. Contos Exemplares, de Sophia de Mello Breyner Andresen [1919-2004], é de facto um dos grandes livros do século XX português. Seria pleonástico insistir no ponto. Tenho-o relido várias vezes desde que o descobri em 1966, e lembro-me bem como, nos meus 17 anos, me surpreenderam as quarenta e seis páginas do prefácio (dito Pórtico) do bispo do Porto, António Ferreira Gomes. Ontem à noite, depois de ler no Expresso uma entrevista de Cecília Supico Pinto, fui ler outra vez Retrato de Mónica, terceiro dos sete contos do volume. É um retrato implacável da mulher que, sendo casada com o presidente da Câmara Corporativa (e antigo ministro da Economia), fundou o Movimento Nacional Feminino, pilar de apoio à guerra colonial. Nos anos 1960-70, quando as pessoas discutiam os Contos Exemplares, um dos que vinha à baila era esse retrato. Muita gente sabia quem era a retratada. Mas nem toda a gente saberia que a Cilinha várias vezes intercedeu junto de Salazar — parece ter sido a interlocutora mais influente do ditador — a favor de Francisco de Sousa Tavares, advogado e marido de Sophia, que a ela recorria quando o marido era preso. Amigas, portanto. Ficam algumas passagens do conto escrito em 1961:
«Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da “Liga Internacional das Mulheres Inúteis”, ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria. [...] Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande. Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. [...] O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante. [...] Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima e toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto. Não é o desejo do amor que os une. O que os une é justamente uma vontade sem amor. E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio, o mais firme fundamento do seu poder.»
Henrique Fialho e o trabalho dos dias.
Luís Mourão e os incentivos financeiros. É capaz de ter razão quando diz: «Mas o problema é que esses cirurgiões, se fossem para a privada, obviamente não iriam fazer transplantes, iriam fazer cirurgia geral. Aquele tipo de cirurgia coberto parcialmente pelas seguradoras, e que alguma classe média paga para não ficar nas listas de espera e ser operada por alguém com pergaminhos.» Pois...
Rui Bebiano e a banalidade dos perdões.
Tomás Vasques e a convocação de manifs por SMS.
«Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da “Liga Internacional das Mulheres Inúteis”, ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria. [...] Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande. Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. [...] O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante. [...] Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima e toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto. Não é o desejo do amor que os une. O que os une é justamente uma vontade sem amor. E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio, o mais firme fundamento do seu poder.»
Henrique Fialho e o trabalho dos dias.
Luís Mourão e os incentivos financeiros. É capaz de ter razão quando diz: «Mas o problema é que esses cirurgiões, se fossem para a privada, obviamente não iriam fazer transplantes, iriam fazer cirurgia geral. Aquele tipo de cirurgia coberto parcialmente pelas seguradoras, e que alguma classe média paga para não ficar nas listas de espera e ser operada por alguém com pergaminhos.» Pois...
Rui Bebiano e a banalidade dos perdões.
Tomás Vasques e a convocação de manifs por SMS.
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