O GERAL E O PARTICULAR

No colóquio infra, Margarida Paredes, docente da Universidade de Lisboa, perguntou a Paulo Bandeira Faria, que tinha acabado de explicar-se à luz dos seus (dele) livros, como é que um escritor podia escrever «sem emitir juízos de valor». E aproveitou para contar uma sua (dela) experiência: teria assistido, no Brasil, a uma missa que todos os anos reúne descendentes de escravos. Nesse dia, disse, “sentiu todo o peso da culpa da escravatura” (cito de cor). Com isto, insistia com o autor. Como, sem juízos de valor? Pedi a palavra para perguntar se, culpa por culpa, escravatura por escravatura, teríamos de sentir, hoje, culpa pelo facto de sermos contemporâneos das redes globais de exploração dos seres humanos que, todos os dias, aos milhares, são lançados na prostituição (forma particularmente aviltante de escravatura), dentro e fora dos seus países de origem. Fiquei sem resposta, porque, “neste tipo de encontros há sempre quem desvie o assunto do particular para o geral” (cito de cor). Portanto, fora de agenda não há nada para ninguém. Muito menos analogias heterodoxas.
Equívoco à parte, o colóquio foi interessante e correu bem. Gostei especialmente das intervenções de Paulo Bandeira Faria, Luís Cardoso e Ana Paula Tavares (cito-as pela ordem em que foram proferidas), da apresentação que Inocência Mata fez da mesa da tarde, bem como das questões que, da assistência, João Paulo Borges Coelho suscitou: inglês vs português, em Moçambique; nichos de mercado para o pós-colonial. Uma investigadora portuguesa radicada em Paris, cujo nome infelizmente não retive, levantou a questão da pós-colonialidade em sentido lato, ou seja, extravasando o binómio colonizador-colonizado. Mas esse tópico a “mesa” deixou cair. Também do lado da assistência, José Luís Tavares lembrou a apropriação política das identidades culturais: conforme as conveniências, os seus livros são percebidos como literatura portuguesa ou caboverdeana. Na mesa, José Eduardo Agualusa apresentou Miguel Gullander, o escandaluso (v.g. luso-escandinavo), que leu um texto sobre a Calunga, e Joaquim Arena falou da sua experiência de escritor natural de Cabo Verde radicado em Portugal há quarenta anos. Na meia centena de presentes, Luandino Vieira seria talvez a presença mais inesperada.
Equívoco à parte, o colóquio foi interessante e correu bem. Gostei especialmente das intervenções de Paulo Bandeira Faria, Luís Cardoso e Ana Paula Tavares (cito-as pela ordem em que foram proferidas), da apresentação que Inocência Mata fez da mesa da tarde, bem como das questões que, da assistência, João Paulo Borges Coelho suscitou: inglês vs português, em Moçambique; nichos de mercado para o pós-colonial. Uma investigadora portuguesa radicada em Paris, cujo nome infelizmente não retive, levantou a questão da pós-colonialidade em sentido lato, ou seja, extravasando o binómio colonizador-colonizado. Mas esse tópico a “mesa” deixou cair. Também do lado da assistência, José Luís Tavares lembrou a apropriação política das identidades culturais: conforme as conveniências, os seus livros são percebidos como literatura portuguesa ou caboverdeana. Na mesa, José Eduardo Agualusa apresentou Miguel Gullander, o escandaluso (v.g. luso-escandinavo), que leu um texto sobre a Calunga, e Joaquim Arena falou da sua experiência de escritor natural de Cabo Verde radicado em Portugal há quarenta anos. Na meia centena de presentes, Luandino Vieira seria talvez a presença mais inesperada.
Etiquetas: Pós-colonialidade

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