LUIZ PACHECO 1925-2008

Morreu Luiz Pacheco. Tinha 82 anos. Como autor, deixa um punhado de livros que (como tanta coisa entre nós) estão hoje esquecidos. Como editor da Contraponto, deu o pontapé decisivo para fixar um certo cânone: pense-se em Raul Leal, António Maria Lisboa, Mário Cesariny, Natália Correia e Herberto Helder. Ouvidos pela Lusa, Vítor Aguiar e Silva, da Universidade do Minho, e Manuel Gusmão, da Universidade de Lisboa, disseram: «Sempre admirei muito em Luiz Pacheco o seu espírito de irreverência, a liberdade crítica, a capacidade de destruir corrosivamente as convenções, quase sempre mortas já. [...] Era um espírito que, naquela atmosfera passiva, adormecida, dos anos 50, 60 e ainda 70, trouxe, por vezes com excessos de linguagem, uma lufada de ar novo. Era dos espíritos mais irreverentes deste país.» [V.A.S]; «Obra escassa, mas bastante interessante, com destaque para Comunidade e O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor [...] praticou uma fusão entre a literatura e a vida, o que significa uma espécie de projecto de linhagem romântica, mas de cariz surrealista.» [M.G.] Não me lembro, em vida de Luiz Pacheco, de ler uma linha a seu respeito assinada por qualquer destes professores. Mas pode ser distracção minha. A título de homenagem, deixo a imagem de um opúsculo impresso em Agosto de 1980, O Caso do Sonâmbulo Chupista. Trata, com cotejo de ambos os textos, daquilo que Luiz Pacheco considerava ser o plágio de Fernando Namora a Vergílio Ferreira: Domingo à Tarde (1961), Prémio Lins do Rego, seria decalcado de Aparição (1959), Prémio Camilo Castelo Branco dois anos antes. Óscar Lopes deve poder desempatar porque fez parte dos dois júris.
Fica também um brevíssimo extracto da sua obra mais famosa:
«Gostas de broche? — pergunto e encaro-o fito nos olhos, muito sério, muito natural. / An, nem por isso — responde sempre calmo. / — Pois é só o que eu te posso fazer — digo, como se me desculpasse de não ser o Calouste Gulbenkian. / — E quanto me dá? — pergunta desagradável feita em tom meramente comercial. / — Olha, não te posso dar nada [...] e pela primeira vez noto como me apetecia aquele corpo, ser dono ou servo daquele aparato movediço de carne, pele, ossos, pêlos, força. [...]»
Cf. O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor, escrito em Outubro de 1961, publicado pela primeira vez em 1970. Coligido em Textos Malditos, Edições Afrodite, 1977. [pp. 42-43]
Fica também um brevíssimo extracto da sua obra mais famosa:
«Gostas de broche? — pergunto e encaro-o fito nos olhos, muito sério, muito natural. / An, nem por isso — responde sempre calmo. / — Pois é só o que eu te posso fazer — digo, como se me desculpasse de não ser o Calouste Gulbenkian. / — E quanto me dá? — pergunta desagradável feita em tom meramente comercial. / — Olha, não te posso dar nada [...] e pela primeira vez noto como me apetecia aquele corpo, ser dono ou servo daquele aparato movediço de carne, pele, ossos, pêlos, força. [...]»
Cf. O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor, escrito em Outubro de 1961, publicado pela primeira vez em 1970. Coligido em Textos Malditos, Edições Afrodite, 1977. [pp. 42-43]
Etiquetas: In Memoriam

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