TUDO NO MESMO SACO?

A propósito da cimeira UE-África que amanhã começa em Lisboa, vários escritores subscrevem uma carta aberta denunciando o facto dessa reunião magna não ter inscrito, e cito, «duas das piores tragédias humanitárias do mundo, a do Zimbabwe e a do Darfur», na sua ordem de trabalhos. Colocar o Zimbabwe — ainda por cima citando-o em primeiro lugar — ao mesmo nível do Darfur, é fazer do problema uma caricatura. A extensão da fome no Zimbabwe não é comparável (admitindo que haja medida para a desgraça) à do Darfur. O que se passa no Zimbabwe é que Mugabe perseguiu, humilhou, expropriou e destroçou a comunidade de fazendeiros brancos de origem britânica. Se fosse outra a sua origem, ninguém levantava um dedo. Por desnecessário, omito exemplos precedentes. Quanto à “cobardia política” invocada pelos subscritores da carta, todos sabemos que sim, mas não vejo que seja diferente do que continua a passar-se no relacionamento com Angola ou com a China. Sucede que o Zimbabwe e o Darfur não são parceiros económicos, circunstância que exonera a intelligentzia de uma prudente reserva diplomática. A carta é assinada por, entre outros, J. M. Coetzee, Wole Soyinka, Günter Grass, Nadine Gordimer, Dario Fo, Tom Stoppard, Colm Toibin, Jürgen Habermas e Vaclav Havel (vária gente nascida em África, cinco prémios Nobel). E também por dois autores de língua portuguesa: o escritor moçambicano Mia Couto e o filósofo português de origem moçambicana José Gil.
Etiquetas: Cena literária, Sociedade, África

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