Sexta-feira, Dezembro 21, 2007

JONATHAN LITTELL


Hoje no Público:


Em Novembro do ano passado, quando o Prémio Goncourt foi atribuído a Les Bienveillantes, de Jonathan Littell (n. 1967), quase ninguém sabia quem era o autor americano daquele romance escrito em francês que recebera já o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa. Afinal, um activista da ajuda humanitária internacional contra a fome (com quinze anos de experiência no Congo, Ruanda, Bósnia, Rússia, Tchechénia, Afeganistão, etc.) não é propriamente o modelo de escritor que o milieu adopta como seu. Contudo, foi no exercício dessas missões que conheceu vários indivíduos, em regra cultos e amáveis, perfeitamente capazes de cometer as barbaridades que endossa a Maximilien Aue, o protagonista do romance. Daí a famosa afirmação de que «a cultura não nos protege de nada». Nem toda a gente se conformou com o facto do galardão distinguir uma obra tão “escabrosa”, e assim se criou a lenda: o livro, escrito em quatro meses, à mão, seria a primeira obra do autor — não é: em 1989 Littell publicou Bad Voltage, uma novela cyberpunk —, e o equivalente moderno de Guerra e Paz (1869) de Tolstoi.

Agora, o livro chegou à edição portuguesa. Como o título original reporta à Oresteia de Ésquilo — as Euménides, isto é, as Bienveillantes, são um eufemismo das Fúrias —, uma opção possível teria sido As Fúrias. Miguel Serras Pereira, o tradutor, preferiu As Benevolentes.

Descendente de remotos antepassados judeus polacos, filho do escritor americano Robert Littell, natural de Nova Iorque, formado por Yale, Jonathan Littell pesquisou em arquivos de países do Leste antes dos alegados quatro meses de redacção. Mas nenhuma investigação desse tipo suporta a minúcia e o despudor das descrições contidas no livro. Bem vistas as coisas, o que sobretudo impressiona é a distanciação cínica, o amoralismo contumaz do narrador. A tal respeito, a primeira frase é eloquente: «Irmãos humanos, deixem-me contar-vos como foi que se passou.» E depois prossegue, martelando cada palavra sem transigência polissémica: «Não somos seus irmãos, replicarão os que me lêem, e não queremos saber. E é bem verdade que se trata de uma história sombria, mas também edificante, um verdadeiro conto moral, garanto-vos eu. Corre o risco de ser um tanto comprida, afinal de contas passaram-se muitas coisas [...] Nada de mal-entendidos: não é de culpabilidade, de remorsos que aqui se trata.» Está dado o tom. A partir daqui, a narrativa torna-se vertiginosa, com diálogos extremamente bem construídos. Certas descrições enredam-se numa retórica fátua, como na parte relativa às estatísticas dos mortos por ano, mês, semana, dia, hora, minuto e segundo (soviéticos, alemães e judeus). Eichmann, Hess, Heydrich, Himmler, Hitler e Speer, tal como Ernst Jünger, surgem como comparsas da intriga. Envios literários também não faltam: além de Ésquilo, encontramos Céline, Flaubert, Sade, Stendhal e outros.

O melhor do livro são as reflexões de natureza subjectiva em tudo quanto tenha que ver com o modo como o narrador observa os contemporâneos e “pensa” a Solução Final sem qualquer tipo de escrúpulo. Não há leis raciais na Ucrânia? Então utilizam-se critérios religiosos... Grande parte dos raciocínios é de natureza heterodoxa, e não me espanta que um marxista se sinta ofendido com as analogias entre o comunismo e a Volksgemeinschaft. A questão do grau de culpa do povo alemão tem contributos decisivos. Um passatempo dos soldados era fotografar as execuções e enviar esses retratos à família. Quanto ao cinismo da opinião pública: «É notável a que ponto as pessoas estão bem informadas dos pretensos segredos, como o programa de eutanásia, a destruição dos judeus [...] o gás, tudo.»

A narrativa está dividida em sete partes, a cada uma correspondendo um termo de música ou dança: Toccata, Alemandes I e II, Courante, Sarabanda, Minuete (em Rondós), Air e Giga, desta forma indicados no índice. Maximilien Aue, o narrador, é um antigo oficial nazi que se fez passar por francês quando a guerra acabou: «dado o caos da época, regressei com os deportados, não se faziam muitas perguntas.» Na França foi para o negócio das rendas, casou, cumpriu os deveres conjugais «sem repulsa excessiva» (continua a preferir rapazes, em particular os «jovens operários musculados»), e agora que o passado começa a vir à tona, «em vagas densas e negras», descreve friamente o horror. O único resquício de humanidade vai para Thomas Hauser, companheiro de estróina e ideologia até quase ao fim de novecentas páginas, altura em que lhe rebenta a nuca com uma barra de ferro. Quem tenha lido Hannah Arendt e saiba o que ela quis dizer quando referiu a banalidade do Mal, percebe como As Benevolentes fixam o conceito.

Maximilien Aue não é um homem vulgar. Profundo conhecedor de música, doutorado em direito, admirador de Alcibíades, cita Plutarco, Kant, Hegel e Platão com o à-vontade dos iniciados. O seu ingresso nos serviços de segurança das SS foi absolutamente fortuito. Apanhado pela polícia num parque de Berlim frequentado por homossexuais, escapa à prisão graças a Thomas: «E foi assim, com o cu ainda cheio de esperma, que me resolvi a ingressar no Sicherheitdienst.» Em nenhum momento Max esconde o ódio que nutre pela mãe, que saiu de casa levando consigo a filha, a sua querida irmã gémea, Una. A irmã foi a única mulher com quem sentiu prazer. Desde cedo mantiveram uma relação incestuosa: «Atei-lhe as mãos atrás das costas com o meu cinto, depois arregacei-lhe a saia. Não me dei sequer ao trabalho de lhe descer as cuecas, arrepanhei-lhes a orla para o lado e abri-lhe as nádegas com as duas mãos: na fenda, anichado no meio dos pêlos, o seu ânus contraía-se suavemente. Cuspi-lhe em cima [...] e penetrei-a.» A obsessão anal tem momentos deveras expressivos, um deles desfazado no tempo («homens de negócios que enfiam um vibrador no ânus para irem para o escritório»), porquanto, não estando em causa a existência de vibradores nos anos 1930-40, está por demonstrar a sua utilização nos termos que justificam o comentário.

Como Littell cita sempre em alemão o extenso jargão militar e administrativo do Reich, Les Bienveillantes inclui uma tabela de equivalências das patentes militares e policiais alemãs com as francesas. Mas não há equivalências nem tradução para português. Deste modo, o leitor português é informado (na p. 895) que SS-Obergruppenführer significa Général de division, que SS-Untersturmführer significa Sous-lieutenant, e assim sucessivamente. Um glossário de sete páginas também omite dezenas de vocábulos grafados em alemão ao longo do livro. Tal como a tabela, esse glossário vem da edição francesa. São necessárias notas de rodapé, a menos que se dê como adquirido que Ortskommandantur, Kommissarbrot (e não será antes Kommissbrot?), Sonderkommando, Kindersoldat, e muitos como estes, sejam termos familiares à generalidade dos portugueses. Será que toda a gente sabe quem eram os Askaris ou os Melnykistas, ou o que é um Ersatz, ou o significado de Aucun enquanto patente militar? Isto dito, seria injusto não acrescentar que a tradução tem uma assinalável fluência. Miguel Serras Pereira, que substituiu o tradutor inicialmente contratado (o escritor Alface, i. e., João Alfacinha da Silva, entretanto falecido), está à altura do desafio que Littell propõe.


Carta aos irmãos humanos, in Ípsilon, 21-12-2007, pp. 62-63. Cinco estrelas.

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