CONTO MORAL

Hoje no Público:
Logo a abrir Pós-Guerra. História da Europa desde 1945, o historiador britânico Tony Judt afirma: «Em consequência da Segunda Guerra Mundial, a perspectiva que a Europa oferecia era de miséria e desolação. As fotografias e os documentários da época mostram torrentes deploráveis de civis desamparados, viajando em carroças através de paisagens bombardeadas, por cidades devastadas e campos áridos. [...] De facto, nos países ocupados pela Alemanha nazi, desde a França à Ucrânia, da Noruega à Grécia, a Segunda Guerra Mundial foi, em primeiro lugar, uma experiência civil.» Nem mais: uma experiência civil. É importante recordar esta tão particular especificidade do conflito para percebermos melhor do que tratam As Benevolentes.
Nascido em 1967, Jonathan Littell não é uma testemunha desses anos (mesmo seu pai era uma criança de quatro anos quando a guerra começou). Porém, anos de activismo no âmbito da ajuda humanitária contra a fome, em países como o Ruanda e a Tchechénia, fizeram dele um interlocutor privilegiado da barbárie. Esse convívio com as zonas de sombra e as torpezas da condição humana foi o detonador da obra.
Se, enquanto obra literária, As Benevolentes têm uma tese, ela radica na convicção de Littell de que a Segunda Guerra Mundial teve epicentro a Leste, no embate entre alemães e soviéticos. Seria essa a essência da luta, e o autor não usa de parcimónia nas conjecturas, muitas delas ao arrepio do consenso universal, como as provocatórias comparações entre nazismo e comunismo. O resto é relegado para um patamar acessório. O romance trata da política cultural do Reich, das razões ideológicas dessa política, do quotidiano dos opressores e da conivência dos sobreviventes. Os mortos são números (seis milhões?, cinco?), mesmo quando a sua degola, o seu enforcamento ou o seu gaseamento em massa nos sejam apresentados com revoltante nitidez fotográfica. Não admira que os jurados do restaurante Drouant, de Paris — é lá que o prémio Goncourt é decidido todos os anos — se tenham dividido: em dez votos possíveis, Les Bienveillantes obteve sete, significando que três foram contra si, e um deles de forma acintosa, por ter ido para Elie Wiesel, o escritor que sobreviveu aos campos de concentração e escreveu dezenas de livros (notáveis) sobre o Holocausto, mas não estava sequer a concurso...
A ênfase na frente ucraniana não é por acaso. Littell pesquisou aturadamente em arquivos do Leste, e é de admitir que os pormenores da informação acumulada sobre a Ucrânia tenha sido o móbil da história. Afinal de contas, o “sucesso” da Solução Final num país sem leis raciais é uma evidência que dá que pensar.
Maximilien Aue, narrador e protagonista, homem culto, doutor em leis, sedento de sexo, preferentemente homossexual, ingressa nos serviços de segurança das SS por efeito de chantagem. Testemunha incómoda, num parque de Berlim (onde acabara de ter relações sexuais com um operário), de uma rixa envolvendo três polícias e um civil armado, é levado para uma esquadra onde quem decide a sua sorte é Thomas Hauser. Só ele pode evitar aborrecimentos: «Você vai sair comigo. Não haverá objecções. Vou comunicar ao Kriminalkommissar Halbey que você se encontrava naquele local no quadro do serviço, e as coisas ficarão por aqui. No devido momento, você deporá no mesmo sentido. Assim, tudo será perfeitamente civilizado.» Não podiam ser mais fortuitas as circunstâncias do seu recrutamento. Depois segue-se o longo intervalo da guerra. Quando ela acaba, Maximilien Aue (que entretanto rebentara a cabeça de Thomas) faz-se passar por deportado e vai para França. Praticamente não se fazem perguntas, e ele domina bem o idioma francês. Tem o caminho livre para entrar na indústria das rendas, arranjar mulher e adquirir “respeitabilidade”. A partir dessa terra de ninguém relata a «história sombria, mas também edificante», de como tudo se passou. Nenhum remorso o perturba, apenas lhe interessa esclarecer as coisas para si mesmo, «e não para os que me lêem». Tão simples como isto.
Quase novecentas páginas em letra miúda, trazendo Eichmann, Hess, Heydrich, Himmler, Hitler, Jünger, Speer e outros ao centro da intriga, nem sempre como mero pretexto de reflexão filosófica, pois surgem em diálogos, anedotário e episódios factuais, entremeados com os inquietantes flashbacks da infância e adolescência de Max Aue, períodos marcados pelo ódio à mãe e pelas relações incestuosas com Una, a irmã gémea. As descrições oscilam entre a monotonia dos detalhes burocráticos e a pulsão lúdica do Mal, com muito sexo à mistura. Tudo visto, é indiscutível o alto conseguimento da narrativa. Sendo certo que os últimos 60 anos foram pródigos em literatura sobre o Holocausto, também é verdade que As Benevolentes fazem parte do pequeno núcleo de obras-primas sobre o tema.
Um longo conto moral, in Ípsilon, 28-12-2007, p. 10. Integrado no dossier dedicado a Jonathan Littell. A recensão do romance está aqui.
Logo a abrir Pós-Guerra. História da Europa desde 1945, o historiador britânico Tony Judt afirma: «Em consequência da Segunda Guerra Mundial, a perspectiva que a Europa oferecia era de miséria e desolação. As fotografias e os documentários da época mostram torrentes deploráveis de civis desamparados, viajando em carroças através de paisagens bombardeadas, por cidades devastadas e campos áridos. [...] De facto, nos países ocupados pela Alemanha nazi, desde a França à Ucrânia, da Noruega à Grécia, a Segunda Guerra Mundial foi, em primeiro lugar, uma experiência civil.» Nem mais: uma experiência civil. É importante recordar esta tão particular especificidade do conflito para percebermos melhor do que tratam As Benevolentes.
Nascido em 1967, Jonathan Littell não é uma testemunha desses anos (mesmo seu pai era uma criança de quatro anos quando a guerra começou). Porém, anos de activismo no âmbito da ajuda humanitária contra a fome, em países como o Ruanda e a Tchechénia, fizeram dele um interlocutor privilegiado da barbárie. Esse convívio com as zonas de sombra e as torpezas da condição humana foi o detonador da obra.
Se, enquanto obra literária, As Benevolentes têm uma tese, ela radica na convicção de Littell de que a Segunda Guerra Mundial teve epicentro a Leste, no embate entre alemães e soviéticos. Seria essa a essência da luta, e o autor não usa de parcimónia nas conjecturas, muitas delas ao arrepio do consenso universal, como as provocatórias comparações entre nazismo e comunismo. O resto é relegado para um patamar acessório. O romance trata da política cultural do Reich, das razões ideológicas dessa política, do quotidiano dos opressores e da conivência dos sobreviventes. Os mortos são números (seis milhões?, cinco?), mesmo quando a sua degola, o seu enforcamento ou o seu gaseamento em massa nos sejam apresentados com revoltante nitidez fotográfica. Não admira que os jurados do restaurante Drouant, de Paris — é lá que o prémio Goncourt é decidido todos os anos — se tenham dividido: em dez votos possíveis, Les Bienveillantes obteve sete, significando que três foram contra si, e um deles de forma acintosa, por ter ido para Elie Wiesel, o escritor que sobreviveu aos campos de concentração e escreveu dezenas de livros (notáveis) sobre o Holocausto, mas não estava sequer a concurso...
A ênfase na frente ucraniana não é por acaso. Littell pesquisou aturadamente em arquivos do Leste, e é de admitir que os pormenores da informação acumulada sobre a Ucrânia tenha sido o móbil da história. Afinal de contas, o “sucesso” da Solução Final num país sem leis raciais é uma evidência que dá que pensar.
Maximilien Aue, narrador e protagonista, homem culto, doutor em leis, sedento de sexo, preferentemente homossexual, ingressa nos serviços de segurança das SS por efeito de chantagem. Testemunha incómoda, num parque de Berlim (onde acabara de ter relações sexuais com um operário), de uma rixa envolvendo três polícias e um civil armado, é levado para uma esquadra onde quem decide a sua sorte é Thomas Hauser. Só ele pode evitar aborrecimentos: «Você vai sair comigo. Não haverá objecções. Vou comunicar ao Kriminalkommissar Halbey que você se encontrava naquele local no quadro do serviço, e as coisas ficarão por aqui. No devido momento, você deporá no mesmo sentido. Assim, tudo será perfeitamente civilizado.» Não podiam ser mais fortuitas as circunstâncias do seu recrutamento. Depois segue-se o longo intervalo da guerra. Quando ela acaba, Maximilien Aue (que entretanto rebentara a cabeça de Thomas) faz-se passar por deportado e vai para França. Praticamente não se fazem perguntas, e ele domina bem o idioma francês. Tem o caminho livre para entrar na indústria das rendas, arranjar mulher e adquirir “respeitabilidade”. A partir dessa terra de ninguém relata a «história sombria, mas também edificante», de como tudo se passou. Nenhum remorso o perturba, apenas lhe interessa esclarecer as coisas para si mesmo, «e não para os que me lêem». Tão simples como isto.
Quase novecentas páginas em letra miúda, trazendo Eichmann, Hess, Heydrich, Himmler, Hitler, Jünger, Speer e outros ao centro da intriga, nem sempre como mero pretexto de reflexão filosófica, pois surgem em diálogos, anedotário e episódios factuais, entremeados com os inquietantes flashbacks da infância e adolescência de Max Aue, períodos marcados pelo ódio à mãe e pelas relações incestuosas com Una, a irmã gémea. As descrições oscilam entre a monotonia dos detalhes burocráticos e a pulsão lúdica do Mal, com muito sexo à mistura. Tudo visto, é indiscutível o alto conseguimento da narrativa. Sendo certo que os últimos 60 anos foram pródigos em literatura sobre o Holocausto, também é verdade que As Benevolentes fazem parte do pequeno núcleo de obras-primas sobre o tema.
Um longo conto moral, in Ípsilon, 28-12-2007, p. 10. Integrado no dossier dedicado a Jonathan Littell. A recensão do romance está aqui.
Etiquetas: Ensaio, Literatura

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