BCP, AGAIN

A indigitação de Santos Ferreira, actual CEO da Caixa Geral de Depósitos, para futuro CEO do grupo Millennium BCP, tem gerado nos media todo o tipo de especulações. A partir de certa altura, na impossibilidade de atingir a honorabilidade e o perfil profissional do gestor escolhido pelos accionistas, um seu eventual convite a Armando Vara vem sendo apresentado como o óbice que “comprometeria” a solução. Na imprensa marrom estas coisas percebem-se. Nos jornais sérios é que não, porque os jornais sérios são lidos pelos protagonistas do caso, e melhor que ninguém eles sabem que não houve “protestos”, ficando a sorrir de viés enquanto passam à imprensa estrangeira. Seria legítimo que um jornal, uma televisão, uma rádio, um blogue, dissessem: fulano não serve, porque tem uma carreira pontuada de flops, ou está envolvido em negócios obscuros (acrescentando exemplos perceptíveis pela opinião pública). Isso, porém, ainda não aconteceu. Até ver, os argumentos aduzidos são patéticos. Santos Ferreira é acusado de ter sido o responsável pelas finanças do PS no tempo de Constâncio. E Vara tornou-se a bête noire da direita. Mas, em dois anos, sobre a actividade de Vara na CGD, ainda nenhum jornal conseguiu desenterrar um passo em falso, um despacho cabeludo, uma iniciativa mal sucedida, um investimento equívoco, enfim, algo que comprometesse a sua presença na administração da Caixa e, por extensão, a sua hipotética ida para um grupo privado que (esse sim) está sob escrutínio das autoridades financeiras nacionais e americanas, ao mesmo tempo que o Ministério Público investiga ilícitos criminais graves praticados a partir de 1999. Se Vara vai, ou não vai, com Santos Ferreira para o Millennium BCP, é indiferente. Santos Ferreira foi indigitado por unanimidade pelos accionistas do Millennium BCP para formar e apresentar uma lista que a assembleia-geral do banco votará a 15 de Janeiro. É a ele que compete fazer os convites. Os media não são tidos nem achados nessas escolhas. Isso era no tempo do PREC, quando as front-pages, ditadas pelo Conselho da Revolução, condicionavam as empresas públicas e o poder executivo. Hoje, com tanto mercado, e livre iniciativa, e sociedade civil na boca de toda a gente, são espantosos os actos falhados que traduzem a cobertura mediática do caso Millennium BCP. Já agora, dois brevíssimos apontamentos. Primeiro: o Francisco faz uma pergunta muitíssimo pertinente, a que julgo ter respondido por antecipação. Se, no passado dia 13, Berardo não tivesse ido ao Procurador-Geral da República entregar o dossier comprometedor, continuavam todos a assobiar para o lado. Segundo: António Mexia, gestor e ex-ministro de Santana Lopes, actual CEO da EDP, e primeiro defensor da escolha de Santos Ferreira, não foi colocado pelo Estado na eléctrica nacional. Foi escolhido pelos accionistas da empresa, e o Estado, apesar da golden share que detém, não votou. Desse modo, saiu João Talone, o PS que lá estava, e entrou António Mexia, o PSD que lá está agora.

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