A PURGA

Para ser franco, o golpe de 27 de Maio de 1977, em Angola, o chamado Golpe dos Nitistas, nunca me interessou. Quando ocorreu, eu ainda estava de ressaca africana. Mais tarde, quando alguns artigos de jornal e dois ou três livros fizeram luz sobre o assunto, tinha mais em que pensar. Angola foi sempre um mistério para quem, como eu, nasceu e cresceu em Moçambique. As duas costas de África são antagónicas. Predominantemente francófona do lado do Atlântico, onde fica Angola. Anglo-saxónica do lado do Índico, onde fica Moçambique. Junte-se a isto o peso da mestiçagem na sociedade angolana (em Moçambique era exactamente ao contrário), mais o caldo de cultura das respectivas colonizações — quem e como foi para Angola, quem pôde ir e por que foi para Moçambique —, e temos o quadro nos seus contornos essenciais. Mas agora que Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus deram à estampa Purga em Angola, tentei compreender os acontecimentos de há trinta anos, com Agostinho Neto ainda vivo e Angola ocupada por cubanos. Contada às criancinhas, a história seria assim: o governo era o MPLA; o MPLA não admitia nuances ideológicas (as famosas fracções) no seu seio, dando rédea solta à polícia política (a DISA) para prender, torturar e matar os fraccionistas; o que distingua o MPLA puro da corrente fraccionista era que os primeiros eram pró-Cuba e os segundos pró-URSS; não obstante o centralismo democrático, Agostinho Neto, médico e poeta, fazia o que queria e sobrava-lhe tempo; no 27 de Maio, não fossem os tanques dos cubanos, a história teria com razoável probabilidade sido outra. Basicamente, é isto. Uma história igual a tantas, em toda a parte, em todos os tempos. Ainda não percebi o espanto. Por aquilo que o livro conta, Nito Alves não é uma figura que inspire simpatia (o outro lado também não, mas isso a gente já sabia). Tinha a cabeça muito mal arrumada, como demonstram as Treze Teses em Minha Defesa — um documento «constituído por 143 páginas dactilografas a um espaço, com data de 11 de Fevereiro de 1977», que Mateus & Mateus consideram «insuportavelmente dogmático», e se até eles acham isso... —, tudo indicando que a sua vitória teria antecipado a guerra civil. De Sita Valles, tão mitificada, ficamos a saber muito pouco. Sobre o banho de sangue que se seguiu ao 27 de Maio, confesso não me impressionar. Infelizmente, não foi (nem tem sido) diferente noutras paragens. Em contexto revolucionário, no auge da guerra fria, e em África, estavam à espera de quê? De um referendo de cantão suíço? Em Portugal, do lado da intelligentzia, só Natália Correia denunciou a purga. O silêncio foi de regra. Agora que o 27 de Maio surge sistematizado, os autores sublinham: «por estranho que possa parecer, as atrocidades cometidas no Chile de Pinochet assumem modestas proporções, se comparadas com o que se passou na Angola de 1977.» Não parece nada estranho. Angola é maior, e os chilenos tinham de contar com a opinião pública (mesmo amordaçada). E desde quando Pinochet constitui padrão? Comparada com os tempos do Iejovschina, ou seja, com o Grande Terror que Iejov (o patrão da NKVD) impôs à URSS entre Setembro de 1936 e Novembro de 1938, a brutal contra-reforma de Pinochet é um arrufo de caserna. Adiante. Além de documentos dos arquivos do MNE, que a obra transcreve, há depoimentos de testemunhas dos acontecimentos: entre outras, o historiador Carlos Pacheco, o jornalista Ferreira Fernandes, a magistrada Francisca Van Dunem e o coronel Costa Martins. Testemunha privilegiada foi Maria da Luz Veloso, largamente citada, embora me faça espécie a reiterada omissão do nome do ex-marido, referido sempre como «o seu marido», como se fosse um cidadão comum. Sucede que era Ângelo Veloso, um destacado dirigente do Partido Comunista Português, e foi a sua deslocação a Angola (para libertar a ex-mulher) que evitou o pior. Maria da Luz tinha nascido em Angola, mas viveu mais de vinte anos em Moçambique, onde estudou e teve filhos. Resistente antifascista, tinha estado presa pela Pide. Foi em Lourenço Marques, por ocasião da independência de Moçambique, que Agostinho Neto a convidou a ir para Angola, como sua assessora para as relações externas. Ela aceitou e regressou à terra natal. Foi presa na sequência do 27 de Maio, privada de comida e bebida, espancada (um dos agressores era o «filho dum médico comunista expulso de Moçambique»), torturada e, um dia, posta em liberdade e expulsa do país. Maria da Luz passou pela ominosa Comissão das Lágrimas, órgão que tinha Pepetela — sim, o escritor que em 1997 recebeu o Prémio Camões — como «inquiridor principal», indivíduo muito temido pelo seu «registo particularmente agressivo». A Comissão das Lágrimas era a antecâmara da purga. Além de Pepetela, outros dois escritores angolanos foram seus inquiridores: Luandino Vieira, Prémio Camões em 2006, “distinção” que recusou; e Manuel Rui, que ainda não recebeu o Prémio Camões, mas foi, entre outras coisas, ministro da Informação (dispenso-me de explicar o conteúdo do cargo). Nada disto é novidade, mas é bom que fique registado em letra de forma. Dizer ainda que o volume inclui um portfolio de fotografias, mapas e fac-símiles.
Adenda. Informa-me Álvaro Mateus, um dos autores da obra, que o marido de Maria da Luz Veloso à data dos acontecimentos era o arquitecto António Matos Veloso (irmão de Ângelo Veloso, primeiro marido de Maria da Luz e pai das suas duas filhas mais velhas), e não, como poderia depreender-se do meu texto, Ângelo Veloso, que aliás refiro sempre como ex-marido, e nessa qualidade tendo-se deslocado a Luanda. Fica feita a precisão.
Etiquetas: Nota de leitura, África

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